terça-feira, 25 de setembro de 2018

Aumentar ou não o salário mínimo? Eis a questão…

O salário mínimo em Portugal situa-se, atualmente, na 12º posição, relativamente a um ranking constituído a partir dos 22 países da Europa cujo ordenado mínimo é estatutário. Desta forma, encontra-se no patamar intermédio desta classificação, que é liderada pelo Luxemburgo, com uma remuneração mínima mensal de cerca de 1999€.  Relativamente a Portugal, a Eurofound concluiu que, em 2017, 23% dos trabalhadores a tempo inteiro receberam o salário mínimo e, segundo o relatório “Statutory minimum wages 2018”, este cenário continua a ser alarmante. Apesar destes dados requererem cautela porque são utilizadas diferentes fontes nacionais, ficamos com uma noção da realidade portuguesa e, agora, só nos resta perguntar: mas será sustentável continuar a aumentar o salário mínimo? Esta é uma questão controversa e sem uma resposta óbvia, pelo que requer a nossa atenção e debate.
Desde que António Costa assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2015, o salário mínimo tem subido ano após ano. Depois de ter sido alcançado, este ano, um valor de 580€ mensais, o primeiro-ministro português já deixou clara a sua intenção de, em 2019, chegarmos aos 600€. No entanto, o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, fez questão de pressionar o governo e lançar uma meta de 650€. Mas uma coisa é certa, ao que parece, tudo indica uma forte possibilidade de que o salário mínimo suba mesmo, e tudo isto já causa uma grande divisão de opiniões.
O aumento da remuneração mínima é sinónimo de mais rendimento, o que acaba por permitir a redução de desigualdades e do número de trabalhadores pobres, porém surge também uma tendência para se analisar o lado mais sombrio da situação. Desta forma, há quem considere que os portugueses têm de escolher entre uma função pública com mais qualificações e produtividade ou um maior volume de funcionários. No fundo, coloca-se a hipótese de um aumento no salário mínimo ser totalmente incompatível com uma redução da taxa de desemprego.
 No entanto, segundo o Jornal de Negócios, no início do ano corrente, apesar do ordenado mínimo ter subido, o número de funcionários públicos continuou a crescer. Avança também que havia 674,4 mil postos de trabalho nas administrações públicas a 31 de março, correspondendo isto a um aumento de 0,8% face ao mesmo período do ano anterior. Há, ainda, informação de que foram criados 5 mil postos novos, essencialmente na área da saúde, justiça e ensino superior, e na Administração Regional e Local o número de empregados aumentou 1,3%. Assim, houve um aumento do poder de compra, um crescimento da economia e o desemprego continuou em queda, ou seja, isto parece contradizer a ideia de que deveras existe a tal incompatibilidade referida acima e nada garante que uma nova subida deste salário tenha repercussões extremamente negativas.
Porém, observando o outro lado da moeda, podemos recuar até 2009, quando José Sócrates subiu o salário mínimo para 450€, numa altura de eleições. Associada à crise internacional, a taxa de desemprego subiu dos 7,6% em 2008 para 15,5% em 2012. Como consequência deste efeito veloz, a troika e o governo decidiram congelar o Salário Mínimo Nacional nos 450€ em 2011.
A nossa história diz-nos que depois de um continuado aumento do salário mínimo, este acaba sempre por estagnar ou cair em valores reais durante um extenso período de tempo. Será possível que os próximos anos sejam uma exceção à regra? A verdade é que, segundo o Banco de Portugal, a economia portuguesa deverá abrandar nos próximos dois anos, crescendo 1,9% já em 2019, menos 4 pontos percentuais que no ano atual, e, 1,7% em 2020. Estes dados poderão ser um indicador de que qualquer flutuação na economia terá de ser feita com o maior cuidado, pelo que o aumento do salário mínimo poderá, sim, a meu ver, ocorrer, mas dentro de um valor prudente e alcançável.

Raquel Maria Bernardo Lourenço

Bibliografia: Eurofound
Pordata
Jornal de Negócios

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O MONSTRO DA DÍVIDA

Segundo a nota mensal sobre a Dívida Pública de Agosto de 2018 emitida pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República, a dívida pública estaria em termos relativos num valor de 131,7% do PIB em 30 de Junho de 2017, tendo verificado uma descida de perto de 6 p.p., fixando-se em 125,8% do PIB em 30 de Junho de 2018. O que parecem serem ótimas notícias, deixam de o ser se esmiuçarmos um pouco mais os números da dívida pública. Com efeito se, em termos relativos, a dívida está em ciclo descendente, em termos absolutos a mesma não deixa de crescer e atinge hoje um número perto de 250.000 milhões de Euros.
No que diz respeito ao serviço da dívida (custos com juros e encargos de intermediação), em 2017, segundo o mesmo documento, o estado teve uma despesa de 7.127 milhões de euros. E aí reside o nosso grande problema, pois se atendermos aos outros gastos do Estado, como por exemplo a educação e a saúde, cujas despesas ascenderam a 7.289,2 milhões de euros e 8.757,7 milhões de euros, respetivamente, no mesmo ano, constatamos que a despesa associada à dívida pública foi praticamente equivalente à despesa com a educação e ligeiramente inferior à da saúde, duas rúbricas de despesa fundamentais para o estado de direito conquistado em 1974.
O problema torna-se ainda mais preocupante se atendermos ao facto de estamos a beneficiar das taxas de juros médias mais baixas dos últimos anos (tal como podemos ver no gráfico abaixo, retirado do site PORDATA). Note-se que a dívida pública se encontra maioritariamente titulada em instrumentos de médio-longo prazo. Daí a importância dada às obrigações do Tesouro a 10 anos.


Se, por um lado, o facto das taxas atingirem um nível tão baixo se deve ao bom comportamento face à execução orçamental e ao crescimento da economia, bem como à avaliação das empresas de notação, como a Fitch, que no ano passado elevou o rating da dívida soberana de longo prazo de dois níveis, passando diretamente para o penúltimo grau do chamado investimento de qualidade, parece-me inegável que o maior efeito é resultado da política de “quantitative easing” levada a cabo pelo BCE. Este tem efetuado compras avultadas de dívida pública no mercado secundário e nos leilões de dívida (note-se que até ao início desse programa, o BCE estava limitado por si próprio a compras de dívida dessa ordem de grandeza). No entanto, esse cenário está prestes a acabar, pois é público que o BCE vai deixar de ser um grande comprador de dívida pública no final do corrente ano, e aí, poderá estar o grande problema.
Como é que o mercado irá funcionar sem esse grande player? Uma subida significativa das taxas de juros seria de consequências desastrosas para as nossas novas emissões de dívida. Estamos como já constatamos sem espaço para mais encargos com a dívida. Estamos literalmente sentados em cima de um barril de pólvora. Resta-nos confiar na continuação de um bom desempenho económico do país, e desejar ainda mais, pois mesmo verificando crescimentos económicos como os obtidos nos últimos tempos, não é difícil de perceber que ainda são insuficientes. Do ponto de vista político é difícil gerir uma situação em que um país se vê na obrigação de gastar tanto em juros da dívida como em educação.
Que soluções nos restam?
Desenvolver com mais vigor a nossa economia através da atração de capital estrangeiro, e isso passa por várias reformas políticas, nomeadamente em questões fiscais (atrair o investimento estrangeiro passa inequivocamente por um regime fiscal estável e não de constante alteração), questões de justiça (os prazos para resolução de litígios são de conhecimento público o que mais uma vez afasta o capital estrangeiro). Note-se, também, que a captação de investimento estrangeiro depende do próprio problema da dívida pública, pois um investidor estrangeiro sabe que a dívida terá que ser paga um dia, e o mais provável é que seja através de mais impostos que incidirão também sobre o futuro lucro do mesmo.
Como derradeira solução, a que deve ser evitada a todo o custo, é uma renegociação da dívida contraída. O problema desta opção seria a perda de credibilidade nos mercados financeiras, o que levaria automaticamente a uma fuga dos investidores à dívida Portuguesa e uma consequente subida da taxa de juro.
Como é fácil de perceber está muito do nosso futuro em jogo nos próximos tempos, bem como das gerações vindouras, sendo que essas terão o problema acrescido da Segurança Social, tema esse que será desenvolvido numa próxima reflexão.

Filipe Monteiro Rodrigues Pereira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A Competitividade e o Retalho Alimentar em Portugal

Nos dias de hoje, a competitividade está bastante enraizada e presente nas sociedades, tanto a nível individual, empresarial e, principalmente, entre países. Sendo um indicador de extrema importância para avaliar o desempenho das economias, todos os anos é elaborado um indicador chamado Global Competitiveness Index, que avalia o grau de competitividade das economias, baseado num conjunto específico de 12 determinantes.
Ao longo destes anos, Portugal tem vivido várias oscilações no que diz respeito ao nível de competitividade. Atualmente, segundo a edição de 2017/2018 do Ranking Mundial de Competitividade, Portugal posiciona-se na 42ª posição entre 137 economias, subindo quatro posições, relativamente ao ano anterior. A meu ver, tal resultado é devido, principalmente, ao crescente nível de educação do país, proporcionando mão-de-obra mais qualificada, perspetivas e ideias mais eficientes e inovadoras, uma melhoria ao nível das infraestruturas, entre outros.
Nas últimas décadas, assistimos a um rápido crescimento de vários setores e mercados, atingindo-se altos níveis de competitividade. Ora, em Portugal é evidente tal competitividade no Retalho Alimentar, uma vez que se torna um dos setores mais atrativos para investimento, pois, segundo o INE, 60,3% da despesa anual média das famílias recaem na habitação, alimentação e transportes. A verdade é que várias são as empresas instaladas neste setor, competindo todos os dias para atingirem o máximo de vendas possível. Há, portanto, a necessidade de fortes jogos estratégicos de concorrência e constantes adaptações para atender às necessidades da população.
Apesar de, na minha perspetiva, o setor do Retalho Alimentar estar completamente saturado, ainda há quem não o ache. Neste momento, Portugal aguarda por uma promissora entrada de um grande retalhista com origem em Espanha e que opta pelo nosso país para se aventurar no mundo da internacionalização, a cadeia de supermercados Mercadona. Mas, afinal, o que faz este retalhista escolher Portugal, perante a elevada diversidade e competitividade já existente neste setor? Na minha perspetiva, esta entrada irá apenas comprometer este setor extremamente competitivo se for introduzido algo inovador aos olhos da população e só irão resistir se forem mais competitivos, e, portanto, capazes de captar quota de mercado a empresas concorrentes. Assim, a chave para o sucesso será a diferenciação, a inovação e a captação da confiança dos clientes como forma de se destacarem. Isto faz com que haja a promoção de um desenvolvimento mais eficaz de soluções alimentares inovadoras, reforçando a competitividade.
De salientar que, o relatório do “World Economic Forum” chama-nos a atenção para os fatores mais problemáticos para a atividade empresarial em cada país. Segundo este relatório, o fator que se destaca em Portugal é a burocracia governamental ineficiente, seguindo-se as taxas de imposto, a regulamentação de trabalho restritiva, a instabilidade política, o acesso ao financiamento, entre outros.
Independentemente de em Portugal se verificar um nível de competitividade já bastante elevado em alguns dos mercados, ainda estamos muito longe de alcançar o topo do ranking. Torna-se, assim, necessário o aumento da competitividade entre as empresas, devendo estas apostar na inovação, qualidade, marketing e mão-de-obra qualificada, tendo em vista a internacionalização. Para que tal seja possível, é necessária a implementação de incentivos ao conhecimento, desenvolvimento e investigação. Assim, neste momento, existe um acordo de parceria adotado entre Portugal e a Comissão Europeia, o Portugal 2020, “no qual se definem os princípios de programação que consagram a política de desenvolvimento económico, social e territorial para promover, em Portugal, entre 2014 e 2020”, sendo a competitividade e internacionalização uma das temáticas abordadas.

Márcia Alexandra Matos Fonseca Lima 

Bibliografia:
·         Instituto Nacional de Estatistica
·         World Economic Forum

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A corrida às casas

A 14 de setembro, o jornal Público avançava com a notícia de que 85% das casas à venda em Portugal estariam a ser vendidas em menos de seis meses. Segundo dados da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários, os imóveis estão a ser vendidos mais rapidamente. Prova disso é que, em 2015, o tempo médio de venda de uma casa era de dois anos e, atualmente, a maioria sai de venda em menos de meio ano.
Está visto que, em Portugal, a procura por habitação tem sido crescente, sendo que, na minha opinião, isto não seja algo que me surpreenda. São vários os fatores que ajudam a explicar este acontecimento atual. Poderemos apontar o contínuo aumento do preço das rendas das casas como um dos grandes motivos que levam a esta “corrida” à compra de casa.
Entre 2011 e 2013, registaram-se aumentos consecutivos das rendas, atingindo mesmo um valor recorde (3,36% em 2013). Após o abrandamento até 2015, desde aí que o mercado de arrendamento tem encarecido, com a previsão de, neste ano, o aumento do preço das rendas se estimar em 1,12%, e em 1,19% em 2019, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.
Muito se tem discutido acerca dos elevados valores das rendas em Portugal, justificado com a pouca oferta e grande procura por arrendamento. Tal situação veio dificultar o acesso à habitação de uma parte significativa da população, que se confronta com preços de habitação cada vez mais próximos dos praticados nas principais capitais europeias, embora os seus rendimentos não estejam em conformidade.
A elevada procura por arrendamento de longo prazo (por parte das famílias nacionais e estrangeiras, uma tendência em crescimento) e de curto prazo (associado ao turismo) fez com que a aquisição de casa para fins arrendatários se apresente, nos dias de hoje, como um investimento viável, de elevado retorno.
Assistimos, então, ao aumento do número de casas para arrendar, ainda que o preço dos imóveis tenha vindo a aumentar, mas não tanto como o valor das rendas, as quais facilmente encontram inquilinos dispostos a suportar tais valores. E porquê que isto acontece? A resposta é muito simples: as famílias estão agora mais confiantes para com a conjuntura económica e há uma maior abertura dos bancos à concessão de crédito.
O crescimento da economia, assim como a reposição de rendimentos e o fim da sobretaxa de IRS vieram trazer maior poder de compra, com o Fundo Monetário Internacional a apontar para o maior aumento deste século ocorrido em 2017 (2,9%).
O crédito à habitação possui agora melhores condições comparativamente com os anos da crise, onde os bancos restringiram fortemente a concessão de crédito. Apesar de existir, por exemplo, um maior controlo sobre a taxa de esforço, a verdade é que o número tem vindo a aumentar. Se em 2013 haviam sido concedidos 2.048 créditos à habitação, no ano passado esse valor praticamente que quadruplicou.
Ao que parece, os bancos pouco ou nada aprenderam com a crise financeira recente, uma vez que estão dispostos a conceder créditos com condições de financiamento mais favoráveis, valores de spread mais baixos e financiamento a 100%, aliados a taxas de juro baixas. A aquisição de habitação própria apresenta-se como um “plano de fuga” do arrendamento, pois, na maior parte dos casos, o valor atual de uma prestação mensal chega a ser bem mais baixa que a de uma renda.
No meu ponto de vista, são estes os três grandes motivos pelos quais temos vindo a registar um crescimento do número de construções e do menor tempo de venda dos imóveis disponíveis no mercado.
Nos dias de hoje, todos procuram casa em Portugal e a tendência é a de um contínuo aumento. Tudo isto terá um impacto positivo na economia, até porque o imobiliário é dos setores que mais potencia outros, nomeadamente, a construção, indústrias e serviços. Isto tem sido discutido como sendo algo terrível para a economia, o que, na verdade, até é bastante benéfico. É simplesmente a lei da oferta e da procura a funcionar em pleno e um acontecimento que tem potencial para alavancar ainda mais o crescimento económico.

Andreia Filipa Teixeira Barbosa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A dor de cabeça salarial

Durante a terceira semana do mês de outubro de 2018, os meios de comunicação foram inundados com informação relativa à evolução dos “custos com salários e remunerações por hora trabalhadadurante o segundo trimestre de 2018, revelada pelo Eurostat. Este estudo veio divulgar não só que os salários aumentaram em 1,2% em termos nominais e homólogos, como também conclui que Portugal, no panorama europeu, foi o quarto que menos evoluiu, à frente das economias luxemburguesa, espanhola e holandesa.
A razão do estudo ter atingido de forma tão vigorosa os media prende-se com outros ancontecimentos públicos, tais como a previsão do JP Morgan, onde se prevê a subida de 2,5% dos salários para as economias avançadas (o dobro do que se verificou em Portugal) ou de que, em 2016, o salário médio em Portugal, de trabalhadores por conta de outrem, era de 924,9€, enquanto que na União Europeia essa mesma rubrica apresentava um valor médio de 1995€.
Quais serão então as razões da discrepância nas evoluções, sendo que, perante a disposição económica atual, a economia portuguesa deveria apresentar maior potencial de crescimento, aos olhos de quem ouve as notícias, pelo menos? Apresentemos então algumas razões justificativas para este fenómeno e que esclarecem a situação de perda de ritmo português face às “economias avançadas” no pós-crise financeira.
Por um lado, o que aconteceu na economia portuguesa durante a crise de 2008 foi que, em muito por razões sindicais e de incapacidade de se darem descidas brutas nos ordenados por parte das empresas, os trabalhadores do privado que mantiveram os seus empregos não sentiram quedas salariais muito significantes, e como tal as posteriores recuperações apresentar-se-ão mais lentas. Por outro lado, a globalização e a desvalorização do trabalho vêm representar um papel muito importante neste crescimento contido. Isto porque, numa sociedade globalizada como a dos dias de hoje, a concorrência é muito maior, o que evidentemente pressiona a descida real das remunerações, tal como acontece com o procedimento de automação dos processos produtivos. Todos estes fatores levam à desvalorização do fator trabalho. O que a torna evidente essa desvalorização é, por exemplo, o que se deu em Portugal com a descida do salário médio dos engenheiros, numa economia que necessita de mais engenheiros, quando o efeito sobre o salário médio devia ser o contrário.
É ainda de referir o atraso no processo de recuperação a que a nossa economia se sujeitou em comparação com outras economias, tais como a americana, a crescer desde 2008, e a europeia, que, de modo geral, apesentou crescimentos a partir de 2009. Pois bem, sobre este entrave cíclico apenas ganhei verdadeiramente conhecimento do mesmo numa rotineira viagem de comboio recente onde, entre palavras perdidas, ouvi um indivíduo comentar que havia mudado de casa há coisa de 4/5 anos, “na altura da crise”, disse ele. Ora vejamos, se excluirmos o período de 2010, onde a tentativa de estimulo à economia se revelou crítica para o afundamento da mesma, posteriormente, após o choque de 2008, Portugal apenas começou a apresentar sinais de recuperação em finais de 2013/2014, há precisamente 4/5 anos, representando assim um atraso de igual período para as economias acima referidas. É compreensível que toda a recuperação se apresente atrasada igualmente, na qual se inclui o aumento de salários.
Por fim, e passando para uma vertente mais de opinião pessoal, a situação salarial portuguesa é um tema a ver e rever com bastante cuidado. Isto porque vivemos numa altura em que o PIB da Zona Euro já foi revisto para baixo por duas vezes no que se refere a este ano, e onde se prevê um abrandamento no crescimento do PIB português para os próximos 4 anos (espera-se que este seja de “apenas” 1,6% em 2022, menos 0,8 pontos percentuais que em 2018), em época em que já se começam a cozinhar teorias sobre a próxima crise, quer em termos internacionais, quer também em termos nacionais, como já referiu recentemente Richard Thaler para a possibilidade de uma futura catástrofe no mercado imobiliário português.
Perante estes fatores e o futuro sempre incerto, uma das prevenções óbvias é o reforço da solidez económica das famílias, que não irá acontecer, na minha opinião, sem uma intervenção breve do Estado. Intervenção essa que poderia passar pelo aumento de apoios às empresas privadas para incremento de produção quer para o mercado externo quer para o interno, incentivos e facilidade ao consumo através da redução de impostos indiretos, por exemplo, ou até mesmo com medidas diretas sobre os salários, tais como aumentos na função pública ou aumento do salário mínimo nacional. Esta medida já se encontra na agenda do governo para o ano de 2019.

Diogo Eduardo Machado Ferreira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 23 de setembro de 2018

Será o “boom” das Universidades Privadas?

Setembro é o mês mais aguardado pelos estudantes que terminam o ensino secundário pois todo o seu percurso académcio é verdadeiramente definido. É, de facto, uma mudança na vida de todos aqueles que ingressam no ensino superior, não só a nível académico/profissional como também a nível pessoal. Assim sendo, este fenómeno é anualmente falado no que toca, por exemplo, ao número de inscritos no ensino superior, às médias de ingresso ou até mesmo às rendas pedidas aos estudantes na hora de alugar uma casa para viverem no período letivo.
No decorrente ano, foram 43 992 os alunos colocados na 1ª fase de candidaturas ao ensino superior público face aos 49 362 candidatos, o que perfaz uma redução de 2% de colocados em relação a 2017. Pelo contrário, no que toca ao ensino superior privado, deu-se o crescimento entre os 4% e os 20%, destacando-se que no anterior ano letivo ocorreu algo similar, rondando um crescimento entre 10 e 36%, segundo o Jornal de Notícias.
Analisando de forma cronológica, o ensino público sempre foi o favorito no que toca ao ingresso no ensino superior. No entanto, olha-se cada vez mais para as universidades privadas como uma opção viável e, por isso, justifica-se o movimento a que se tem assistido a partir do ano letivo de 2015/2016. Perante tais resultados, é inevitável a seguinte questão: por que razão há tanta aderência às universidades privadas nos últimos anos?
Primeiramente, a conjuntura económica tem-se verificado cada vez mais sorridente após a última crise sentida em Portugal e este torna-se um fator muito relevante, ou até mesmo o mais relevante, na hora da escolha por parte das famílias. A partir de dados económicos de 2017, e prevendo que siga uma tendência semelhante no presente ano, o rendimento disponível das famílias registou um aumento, exibindo uma taxa de variação de 1,7%. Tal foi possível devido ao aumento das remunerações e prestações sociais, segundo o Instituto Nacional de Estatítica, permitindo às famílias alocar uma maior parte do seu rendimento à educação.
É ainda de destacar que, no ano transato, o poder de compra registou o seu nível máximo desde 2000 (var. 2,9%), segundo o FMI, salientando o papel da diminuição da taxa de desemprego para tal.
Posto isto, os pais têm uma maior facilidade de proporcionar o percurso académico numa universidade privada aos seus filhos de modo a, entre outras razões, ficarem mais perto da família.

Além deste fator, podemos também identificar a implementação de uma medida pelo Estado português que acabou por não refletir o objetivo primordial da mesma, fazendo com que existisse um incentivo à procura das universidades privadas. Esta medida consistia na diminuição das vagas no ensino superior público no Porto bem como em Lisboa. Apesar da mesma ter como principal finalidade a deslocação dos jovens para o interior do país de forma a dinamizar e combater o envelhecimento, os jovens não responderam a tal de forma positiva, preferindo recorrer a uma universidade mais próxima, apesar do valor das propinas poder ser 5 vezes maior, por exemplo.

Por fim, podemos ainda destacar a entrada, cada vez mais significativa, de estudantes internacionais no nosso país, bem como o facto da escolaridade obrigatória, atualmente em vigor, se situar  no 12ºano. Esta última medida referida potencia os estudantes a seguir o ensino superior, mesmo aqueles que não têm os resultados mais satisfatórios, uma vez que têm sempre a opção onde as médias do secundário não são consideradas da mesma forma que no ensino público.
         Perante todos estes fatores, será de esperar no curto prazo um crescimento da procura do ensino superior privado. Por um lado, este aumento da procura das mesmas é propício ao desincentivo e, talvez, a uma desacreditação do ensino público, o que leva à velha história de que só as pessoas com mais rendimentos têm o acesso a educação superior. No entanto, este também pode tornar-se um desafio ou até mesmo um incentivo à modernização/inovação do ensino público.

Célia Catarina Barbosa Santos
[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Um “pequeno” destino à beira mar plantado

Ao longo dos últimos tempos, Portugal tem-se revelado uma pequena pérola no que se refere ao turismo, contribuindo, ano após ano, para as receitas do nosso país e consequente melhoria na economia. O país está na moda e tem vindo a acumular prémios sucessivos no âmbito turístico, sendo motivo de grande orgulho. Assim, justifica-se uma breve análise às componentes do turismo, nacional e internacional, baseada nos dados disponibilizados pelo INE, de modo a traduzir todo este sucesso num objeto de estudo mais conciso.
Em relação ao turismo mundial, os dados demonstram uma tendência crescente das chegadas de turistas internacionais representada pelo aumento de 84 milhões em 2017 (comparativamente a 2016). Este crescimento resulta num total de 1323 milhões de turistas (acréscimo de 6,8%). A Europa continua a ser o destino de eleição dos internacionais, concentrando a maioria das chegadas (50,7%), o que representa um aumento de 8,4% relativamente a 2016. Já no caso Português, em 2017, o total de dormidas em alojamento turístico ascendeu aos 65,8 milhões, 47,1 dos quais correspondem a não residentes. Relativamente ao proveito do alojamento turístico, é a zona de Lisboa que mais se destaca com cerca de 1100 milhões de euros, e no âmbito dos mercados nas dormidas é o Reino Unido que lidera com 9,9 milhões, seguindo-se a Alemanha com 6,5 milhões. Mas como nem só de estrangeiros se constitui o turismo, justifica-se analisar também a vertente dos residentes. Neste caso, as viagens realizadas são apresentadas em 4 categorias: profissionais ou negócios; lazer, recreio ou férias; visita a familiares ou amigos; e outros motivos. Aqui, destacam-se as viagens em âmbito de lazer, recreio ou férias, com 45,2%, e as visitas a familiares ou amigos, com 44%. 
Estes são alguns dos números que podem explicar os prémios arrecadados ultimamente, dos quais se pode salientar os seis óscares mundiais conquistados em Dezembro de 2017 (mais quatro que no ano anterior, no Dubai), que levaram à eleição de Portugal como o melhor destino turístico do mundo, tornando-se ainda o primeiro país europeu a conquistar este prémio nos World Travel Awards, realizados no Vietname. Mais recentemente, em Agosto de 2018, o país foi distinguido como “o destino a visitar” (Hottest Destination), prémio atribuído pelos Virtuoso Awards (a maior rede global de viagens de luxo) no âmbito da Virtuoso Travel Week, que decorreu em Las Vegas, nos Estados Unidos. 
No entanto, nem tudo é perfeito e todo este sucesso vê-se agora ensombrado por notícias que relatam que o turismo em massa pode ser “destrutivo” e como os residentes, dos destinos mais populares, já sentem estes efeitos. Em Portugal, Porto e Lisboa aparecem como cidades “ameaçadas” pelo excesso de turismo, que dificulta cada vez mais a vida dos residentes. Os moradores queixam-se do aumento de lixo na cidade, atribuindo-o ao crescimento do turismo, à escassez de meios das autarquias e à falta de civismo. Este fenómeno já está a ser também noticiado, nomeadamente na imprensa alemã, que relatou o caso Portuense. 
Cada vez mais as companhias aéreas promovem viagens low cost e, hoje em dia, já não se pode considerar o ato de viajar um luxo, como em tempos se constatava. A meu ver, esta é uma das vertentes que mais contribui para o elevado número de turistas que se concentram em excesso em algumas cidades, sendo que a componente cívica acaba por ser sempre um ponto a ter igualmente em consideração.
Na minha opinião, deve-se continuar a apostar no turismo, promovendo o que de melhor Portugal tem para oferecer tanto a nível cultural, gastronómico como paisagístico, e que se observa um pouco por todo o país, incluindo as regiões autónomas. Além disso, e como referiu Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, o investimento turístico deve ter como objetivos não só promover o país como destino de visita, mas também como possível oportunidade de investimento ou compra de habitação.

Marta Esteves Oliveiros

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]