quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O consumismo

con·su·mis·mo
(consumo + -ismo)
substantivo masculino
Hábito ou ação de consumir muito, em geral sem necessidade.
Palavras relacionadas: ostentatório, infrene

Com o desenvolvimento dos produtos de curta duração, ou seja, que rapidamente precisam de ser substituídos, despertou-se na sociedade a necessidade de comprar sempre mais, para permutar o que se encontra velho e gasto por algo novo e brilhante. Este tipo de comportamento foi levado ao extremo quando as pessoas começaram a comprar desenfreadamente, sem pensar na utilidade dos produtos e na necessidade pessoal.
O aparecimento da publicidade foi também fomentando o consumo desinibido e compulsivo. O incentivo constante e o apelo à necessidade de certos artigos, com o bombardeamento diário de anúncios sobre o mais recente artigo de cozinha ou o shampoo milagroso que devolve cabelo, tudo isto leva a que as pessoas consumam mais sem pensar se realmente precisam.
Mas não me entendam mal. Não estou a dizer que o consumo não é bom para a economia e o seu desenvolvimento. Contudo, devemos ter em atenção a forma como consumimos e o nosso comportamento perante tal ato.
Se olharmos para o mais recente evento que apoia o consumo infrene, a Black Friday, constatamos que uma porção da sociedade é movida não pela necessidade real de certos bens ou serviços mas pela vontade insustentável de possuir artigos que não serão olhados uma segunda vez e que serão guardados com a justificação que um dia poderão fazer falta. Umas das principais razões que leva a um aumento do consumo neste dia são os vários descontos e promoções que ocorrem em variadas lojas, tanto de luxo como de baixos preços, que manipulam o comprador fazendo-os acreditar que efetivamente estão a obter um bom preço pelos seus artigos, porém não passam de meras utopias. De facto, as promoções não são diferentes dos habituais “saldos” ou “mid-season”, que acontecem ao longo do ano, com o acréscimo de andarmos colados a todas as pessoas dentro da loja como “sardinhas em lata”.
Este tipo de consumo não segue as normas de um consumo sustentável, racional e com o peso social do que a sua compra trará para as gerações futuras e, portanto, não é um modelo por onde nos devemos guiar.
Uma outra palavra associada a todo este cosmos é o consumerismo, que se baseia no ato oposto ao consumismo. Prende-se em valores sociais, vinculado num consumo racional, com atenção a certos pormenores, como, por exemplo, a informação sobre o produto ou uma seleção previamente definida do que irão comprar com vista a tornar o ato de consumir um ato sustentável.
Em suma, é evidente que vivemos numa sociedade em que se mede o sucesso e o valor de uma pessoa pela quantidade de sacos com que sai de um shopping ou pelas marcas que usa, dando mais enfâse ao que se tem do que ao que se é, criando, desta forma, um ambiente baseado na ostentação e na ânsia de ter mais e melhor. Porém, no meu ponto de vista, há certos valores que deveriam falar mais alto. Apelando, assim, à consciência de cada consumidor para que tenha perceção das consequências que cada panela ou par de calças traz, como, por exemplo, a nível ambiental ou a nível dos direitos dos trabalhadores que fabricam estes bens.

Mariana Carvalho

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Obesidade infantil em Portugal

Segundo Ana Cristina Monteiro, endocrinologista pediátrica do Hospital CUF Descobertas, a obesidade é definida como: “uma doença crónica e complexa, com uma prevalência crescente em todo o mundo e considerada pela Organização Mundial de Saúde como a epidemia global do século XXI”.
Através dos dados da 5ª fase do COSI Portugal (Sistema de Vigilância Nutricional Infantil do Ministério da Saúde), foi possível registar uma diminuição do excesso de peso nas crianças de 37,9% para 29,6% de 2008 a 2019.
Por um lado, é de conhecimento geral que a obesidade é formada pela acumulação excessiva de gordura, ou seja, a quantidade de calorias que são ingeridas correspondem a um nível muito mais elevado daquelas que são desgastadas. Por outro, a causa para este excesso de gordura é explicada muitas vezes pela composição de uma pessoa, isto é, devido a aspetos metabólicos e genéticos, no entanto a cultura do país e o próprio ambiente social têm um impacto elevado neste assunto.
A verdade é que, infelizmente, com toda a informação existente, continua a haver um elevado número de crianças portuguesas com excesso de peso. Fatores como o sedentarismo, aliado a uma dieta hipercalórica, a ausência de um horário de refeições e a publicidade fast food não ajudam a combater a obesidade, pois estas condições, combinadas ou até mesmo isoladas, contribuem para o aumento da mesma.
Na minha opinião, é importante a prática de atividades físicas. O simples brincar à bola no parque ou jogos tradicionais, como jogar à mata, macaquinho de chinês, entre outros, que exigem um esforço físico e que são de grande deleite, já não são habituais. Hoje em dia, as crianças estão habituadas a fazer desporto na escola, e por isso veem essa atividade como obrigatória e não de prazer.
         Outra questão que é em grande parte responsável pelo excesso de peso é a alimentação. O consumo de alimentos fast food é algo que é combatido há muitos anos. Os programas escolares tentam ensinar às crianças como são os hábitos saudáveis que devemos ter e os seus benefícios, e as consequências, caso escolham ter um consumo de produtos alternativos. Porém, estes são os que ganham, pois devido aos corantes e todas as modificações a que são sujeitos tornam-se mais saborosos e apelativos para os mais novos. Vários especialistas são a favor de que se deve adotar uma alimentação mais saudável e não reduzir drasticamente, pois como estão em fase de crescimento, o objetivo é manter o peso para depois ser adequado à altura que a criança irá ter.
A quantidade de publicidade de alimentos hipercalóricos que passa na televisão é elevadíssima, e é compreensível, para mim, que, enquanto criança, esses sejam os alimentos mais apetecidos. Os legumes e outros alimentos mais nutritivos não parecem tão saborosos, e a imagem que é transmitida pelos anúncios é que os chocolates, os hamburgers e as bolachas são muito mais divertidos para se comer.
 Em suma, eu acredito que a nova geração não tem a alimentação mais adequada, porém estas são apenas vítimas do meio social envolvente e dos hábitos alimentares que lhes são ensinados. Além disso, estes não têm culpa por ter nascido num século tão modernizado. Apenas escolhem fazer o que lhes dá mais satisfação, normalmente, ficar em casa ao invés de ir brincar para o parque. Para mais, a prática de exercício físico extracurricular é um serviço que a maior parte das vezes é pago, e muitas famílias não têm possibilidades financeiras ou não têm flexibilidade no horário para levar e ir buscá-los, por isso acabam por não fazer nada.
Para combater a falha da publicidade, esta devia sofrer uma redução ou então devia ser passada em horários menos visíveis por crianças. Como é óbvio, a publicidade é uma ajuda ao negócio e é usada com o propósito de influenciar a mente dos mais pequenos, mas não é o mais correto, pois estes não têm capacidade para perceber que aquele género de comida só traz problemas de saúde futuros.

Ana Catarina Dias

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Deixaremos de lavar a roupa?

          O primeiro impacto perante esta possibilidade pode ser estranho, mas o futuro não pára de nos surpreender e, portanto, as máquinas de lavar roupa, detergentes e ferros de engomar poderão ter os dias contados. De facto, a sociedade não se encontra formatada para pensar na possibilidade de utilizar a mesma camisola três semanas consecutivas sempre com o cheiro a lavado.
É com este propósito que Mac Bishop, fundador da start-up que desenvolveu a marca Wool&Prince, lança o conceito de roupa sem necessidade de lavagens constantes, mantendo-se limpa e perfumada e sem se amarrotar. O segredo está no tipo de matéria-prima empregue, a lã merino, já utilizada, em parte, na confeção de roupa desportiva. Esta lã mostra-se resistente a odores e bactérias e capaz de regular a temperatura corporal.
Apesar do longo caminho que tem pela frente, este tipo de vestuário consegue ser destacável do demais, no sentido em que há uma relação intrínseca com responsabilidade e sustentabilidade do meio ambiente, que tem sido uma constante. Deste forma, é possível uma dupla redução envolvendo custos financeiros e custos ambientais, uma vez que cerca de 17% do consumo de água que é gasto em casa tem como finalidade a máquina de lavar roupa. Para além disto, é importante salientar que todo o processo da lavagem da roupa, desde a separação de cores à arrumação, é cansativo e por alguns considerado chato. É neste sentido que se destaca a sua conveniência para uma geração desapegada de bens, que sugere dar mais valor à experiência em detrimento dos objetos físicos, e que passa parte do tempo a viajar.
Contudo, o maior entrave à produção de vestuário incorporando a lã merino prende-se com a necessidade de aplicação de fibras sintéticas que não são recicláveis. Em contrapartida, a Pangaia consegue resultados 100% recicláveis. Esta empresa, que surgiu no final do ano passado, comercializa indumentária à base de fibras de algas, corantes naturais fabricados através de plantas e frutos e óleo de hortelã-pimenta para garantir o ar fresco acabado de lavar.
Portugal não passa despercebido a este conceito, uma vez que a roupa da Pangaia é produzida em fábricas a nível nacional. Esta empresa apurou que, face ao modelo tradicional de roupa em algodão, uma t-shirt produzida segundo estes procedimentos poupa até 3000 litros de água no seu ciclo de vida. Efetivamente, não estamos preparados para pensar qual seria a poupança total, em litros de água, de uma diminuição da comercialização de peças em algodão.
Em adição, a dificuldade desta tendência relativamente à massificação da produção e à redução de custos constitui, igualmente, um obstáculo. Se, por um lado, temos a dificuldade da produção em quantidades suficientes para a eventualidade de, um dia, a procura se tornar elevada, por outro, encontramos os preços ainda relativamente elevados, o que coloca estes produtos fora do alcance de todos. Nestas circunstâncias, fica aquém a possibilidade de mudança por parte de toda a população pela incessibilidade daqueles que apresentam menos possibilidades.
Concluindo, e realçando a minha opinião, o maior obstáculo está no convencimento do consumidor para a ideia de não precisar de lavar roupa com tanta frequência para esta se manter realmente limpa. Finalmente, acho que será um conceito difícil de se estender a todo o tipo de vestuário e, por isso, as máquinas de lavar roupa não irão desaparecer na sua totalidade. No entanto, se surgir oportunidade de provar tal lançamento, encontro-me bastante curiosa.  Afinal, está à vista de todos que o processo de mudança para a sustentabilidade do meio ambiente está cada vez mais individualizado e depende de pequenas mudanças.

Margarida Pimenta

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Será a ´Black Friday` real?

A Black Friday surgiu nos Estados Unidos como uma oportunidade para o comércio tradicional aumentar a sua faturação através da concessão de descontos, na sua maioria das vezes, consideráveis. No seguimento desta ação pioneira, muitos países implementaram também este ritual, ao qual Portugal não podia também escapar.

Como seria de esperar, a adesão inicial à Black Friday em Portugal foi massiva. Porém, os portugueses têm o hábito de deturpar os conceitos de forma a que sejam tidos em conta maioritariamente os seus próprios interesses. Especificando, ao longo dos anos, vimos casos em que os comerciantes usam a Black Friday para seu exclusivo proveito, não tendo em atenção o lado do consumidor.

Os consumidores, uma vez que não têm a informação completa, na tentativa de comprarem os produtos que necessitam com desconto significativo, acabam por utilizar o dia em questão para adquirir grande parte dos produtos que necessitam. Nesse sentido, são muitas vezes iludidos pelas falsas alegações do conceito generalizado e internacional deste dia.

No entanto, alguns consumidores já começam a ter a noção clara de que, em algumas situações, a Black Friday não passa de uma artimanha. Entre eles há a crença de que nas semanas anteriores à Black Friday os preços são inflacionados de forma a que no dia do veredicto, os descontos sejam maiores e mais atrativos com o intuito de influenciar a compra. A questão que se coloca é: não existirá uma potencial situação de fraude contra o consumidor ?

Na minha opinião, a resposta tanto pode ser um sim como um não. O ponto fulcral de qualquer compra realizada na Black Friday é o consumidor se manter informado de forma a conseguir perceber se o desconto e preço apresentados são válidos ou se está a ser vítima de fraude. Neste sentido, a Deco já apresentou um site que permite fazer a comparação de preços de alguns produtos em diversos sites nos 30 dias anteriores à Black Friday. Isto é mais uma ótima iniciativa a favor dos consumidores e do processo de decisão de compra informado e justo.

É agora necessário alertar cada vez mais os consumidores para a possível ilusão da Black Friday e, aliado a isto, para a existência de possíveis mecanismos de combate à fraude e seu respectivo uso.


Rita Isabel Afonso Leite

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sábado, 30 de novembro de 2019

Las monedas sociales en Portugal

Las monedas sociales son una herramienta creada y utilizada por comunidades cuyo objetivo es facilitar los intercambios de productos, servicios, o incluso de conocimientos. Una de sus principales funciones es recuperar la función para la que nació el dinero: ser un instrumento de intercambio útil para la comunidad y la economía real. Para conseguirlo, la moneda social pretende equiparar la moneda con el resto de bienes físicos, es decir, que el dinero caduque en manos de aquella persona que lo retenga más de lo necesario.
Las monedas sociales crean un sistema monetario basado en la confianza, la reciprocidad y la solidaridad. Sirven como un complemento a la moneda oficial, pero pueden perder valor con el tiempo a través de un fenómeno llamado oxidación o interés negativo con el objetivo de evitar su acumulación. Se caracterizan también por tener bajos o nulos tipos de interés asociados a la moneda local y por su ausencia de inflación debido a la adecuación de la economía monetaria con la economía real.
Entre los objetivos de este tipo de cambio se destaca la intención de combatir las crisis financieras y monetarias a la vez que suavizar las políticas deflacionarias de los bancos centrales, por la puesta en valor y la cuantificación de los recursos económicos locales que no están valorados por el sistema monetario oficial. Además, genera acceso a la moneda y al crédito a las comunidades desmonetizadas y así intenta reducir la exclusión social y financiera de estos colectivos.
Existen dos formas de crear este tipo de monedas: El primero de ellos es desde las redes de trueque (productos) y los bancos de tiempo (servicios). Los bancos de tiempo usan la divisa tiempo y las redes de trueque una moneda social propia y característica. En ambos casos se denominan monedas de “crédito mutuo”. El segundo consiste en las monedas soportadas por euros que se compran con moneda de curso legal y cuyo objetivo principal es el apoyo del comercio local de proximidad. Esta ultima forma es la más conocida.  
Gracias a las estrechas relaciones entre Portugal y Brasil, en el país ibérico se aceptó en modelo de monedas sociales para ferias de corta duración en el centro del país: Coímbra, Santarém, Covilhã. También existe un nivel de interés muy alto por el modelo Banco Palma que ha sido muy exitoso en Fortaleza, Brasil.
Una iniciativa muy interesante es la de la Cooperativa Terra Chã, en Chãos. Es una cooperativa agraria que produce diferentes productos agrícolas (principalmente queso de cabra y miel) que sirven de respaldo para emitir su moneda social. Por ejemplo, si un kilo de queso de cabra vale 15€ y esta cooperativa produce una tonelada de queso de cabra, puede emitir hasta el equivalente de 15.000€, siempre y cuando la gente esté dispuesta a consumir este producto. Como el producto final que quiere la gente es queso, a la gente le da igual el pago en euro o en moneda social emitida por la cooperativa.
También en Montemor-o-Novo se está preparando otra iniciativa llamada Mor. La asociación Rede de Cidadania de Montemor-o-Novo ha estado dialogando con políticos y  comercios locales para fomentar un consenso para crear una moneda respaldada con euro, similar a Chiemgauer o Bristol Pound.
En mi opinión, las monedas sociales tienen la gran ventaja de que a través de que sea la comunidad quien gobierna y toma las decisiones sobre su dinero de forma democrática, se recupera la soberanía monetaria. Esto, a su vez, hace que se abra la posibilidad de crear nuestro propio medio de intercambio basado en nuestra propia producción y así la circulación de dinero convencional se transforma en una circulación suficiente y abundante.
La economía que crean las monedas sociales es más sostenible y solidaria y fomenta el comercio justo y ético ente las diferentes partes de los intercambios. También creo que la moneda social se queda en la localidad circulando entre los miembros del colectivo que las utiliza y crea riqueza allí mismo.

Alicia Muñoz Fernández

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A reforma da educação

O fim dos chumbos no ensino básico é uma possível medida do programa do Governo, de espetro social e com (apenas e só) objetivo político e económico. Muito se tem discutido e muito se tem escrito acerca deste tema: o governo diz que prevê “criar um plano de não retenção no ensino básico”, mas levará isto a passagens administrativas? Os professores protestaram esta medida e mostraram-se indignados, já a Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) apoia a medida se esta não levar às passagens administrativas, o que no fundo iguala a opinião de professores e pais, estando a tónica, por parte dos docentes, no receio de que a pressão para que os alunos transitem aumente.
Em 1970, um em cada quatro portugueses não sabia ler. Desenvolveram-se medidas que levaram a uma diminuição drástica da taxa de analfabetismo, contudo, em Portugal, continua a existir quase meio milhão de pessoas analfabetas, o que nos dá um lugar no pódio a nível europeu. Se as passagens administrativas se tornarem realidade, então, estaremos a traçar um caminho contrário ao que se tinha vindo a traçar, sobretudo desde 1974. Onde nos levará este caminho? A meu ver, ao abismo. Passo a explicar.
Tem sido justificada a medida pelos custos que acarreta a retenção de um aluno (cerca de 5 mil euros) que, com o fim dos chumbos, levaria o Estado a amealhar 250 milhões de euros. Contudo, não passa de mera ilusão. As passagens administrativas obrigarão a um maior investimento no ensino e maiores gastos no desenvolvimento (ou tentativa de desenvolvimento) nacional. Mais recursos no ensino justificar-se-ão pelo facto dos alunos não poderem passar sem saber. Então, terá de existir uma série de apoios para um acompanhamento mais atento das suas dificuldades e que permita criar, em termos cognitivos, turmas mais ou menos homogéneas. E tal significará mais gastos no desenvolvimento, pois terá de ser feito um esforço acrescido para que Portugal acompanhe o ritmo de desenvolvimento do contexto externo. Assim, não vejo onde esta medida trará benefícios a nível económico, podendo somente facilitar o trabalho da classe política.
Esta situação faz-me retroceder aos tempos em que em vez de cidadãos cultos e esclarecidos se pretendiam criar súbditos que estivessem na espuma dos assuntos. Tudo isto me faz pensar que os tão aclamados jovens de futuro são apenas tidos para estatísticas e ideais de poupança, mas cabe-me dizer que já não estamos no tempo pré-revolução, em que os cofres cheios e a taxa de analfabetismo altíssima coexistiam. A contexto externa mudou, a sociedade mudou e estamos todos cientes de que as pessoas e, sobretudo, a educação valem mais do que qualquer cofre cheio. A educação é o investimento da vida.
A taxa de retenção no nosso país tem vindo a diminuir, significativamente, no entanto, no 12º ano, essa taxa continua a ser muito elevada, o que nos mantém distantes da média europeia. Posto isto, numa ótica de progresso, não me parece haver razão alguma para fazer transitar de ano quem menos sabe ou quem tem mais dificuldades. Cada qual tem o seu ritmo de aprendizagem, as suas motivações e os seus estímulos e, como tal, não devemos apressar o seu ritmo, forjar motivações nem estandardizar estímulos. O foco não devia ser passar de ano para bem parecer a nível europeu, mas sim perceber o que melhorar nos métodos de aprendizagem dos alunos e, em vez dos tratar como uma massa igual, perceber as suas nuances e potencializá-las, dando-lhes oportunidades reais, condizentes com a sua individualidade. Se a classe política, que tem nas suas mãos o poder de tomar decisões, não se aperceber disto, estará a colocar Portugal numa posição sensível, em que, para além de ter alunos com conhecimentos coxos e pouco sedimentados, terá de fazer um esforço extra na corrida para ser um país competitivo, uma vez que o seu capital humano será menos qualificado ou pior preparado para corresponder às exigências do mercado.
Tem que perceber-se que o percurso escolar de um jovem não é um sprint de 100 metros, em que se impõe apenas a velocidade como fator determinante, mas uma maratona com obstáculos, em que o salto, a velocidade e a resistência têm de se conjugar.
Portugal precisa que se continue a investir na formação dos portugueses, principalmente dos mais jovens, porque mais do que serem o amanhã, eles são o hoje. E não é sobre alicerces ocos que se constrói o futuro.

Rui Pedro Lopes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Nobel!

Ao longo das últimas 3 décadas registou-se uma melhoria soberba das condições de vida no grupo dos “ultra-pobres”. Este upgrade pode ser explicado essencialmente por dois fatores: um maior crescimento por parte das economias menos desenvolvidas, destacando-se o caso da China e da India; a implementação de políticas de auxílio aos pobres nos problemas que encaram no quotidiano. Esta melhoria nos países não particularmente desenvolvidos pode ser refletida tanto na queda da mortalidade infantil para metade desde a década de 90 como na taxa de mortalidade maternal ainda para mais do que isso.
 Esther Duflo é uma das pessoas que tem procurado não ficar desigual num mundo em que as desigualdades entre indivíduos e nações continuam a existir. O seu contributo mais recente na luta contra a pobreza global foi alvo de atenção por parte Academia de Ciências Royal da Suíça, que lhe atribuiu o prémio tão desejado por qualquer economista.
Mas afinal quem é Esther Duflo? Poucos são os europeus que conhecem esta grande mulher que está agora a revolucionar a história da economia. A francesa de 47 anos é agora a segunda mulher a ser premiada pelo prémio Nobel da Economia e a pessoa mais jovem a receber um prémio nesta categoria. Juntamente com o economista indiano e também seu marido, Abhijit Banerjee, e o economista Norte-americano Michael Kremer, foi recompensada este ano pelo seu contributo em prol da economia do desenvolvimento com o Prémio das Ciências Económicas (como é formalmente conhecido o prémio Nobel instituído em 1969 pelo Banco Central da Suécia).


Apesar de ter dupla nacionalidade, Esther Duflo nasceu e concluiu a sua formação académica em História e Economia em França. Após concluir o seu doutoramento em 1999, foi nomeada professora assistente no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e, com 29 anos, tornou-se o membro mais novo do corpo docente do MIT (!).
Investigadora no National Bureau of Economic Research (NBER), membro do conselho do Bureau for Research and Economic Analysis of Development (BREAD) e diretora do programa de economia de desenvolvimento do Center for Economic and Policy Research são três dos presentes cargos que esta conquistadora europeia ocupa.
A sua pesquisa concentra-se essencialmente em questões microeconômicas no âmbito de países em desenvolvimento, incluindo o comportamento familiar, a educação, o acesso às finanças, a saúde e a avaliação de políticas económicas. Na sua dissertação de doutoramento, através de uma destas abordagens experimentais, procurou explorar os efeitos que um programa de investimento escolar implementado na década de 1970 na economia da Indonésia. As conclusões a que chegou provaram que o aumento na educação pode, de facto, ter um efeito positivo sobre os salários dos habitantes em países em desenvolvimento.
Na atualidade e juntamente com Banerjee, Dean Karlan, Kremer, John A. List e Sendhil Mullainathan, tem sido uma força motriz no avanço de metodologias baseadas em experiências de campo como uma parte importante para descobrir e aprofundar as relações causais entre variáveis económicas sociais.
 Num contexto relativamente recente, numa “abordagem experimental” feita com o auxílio de Abhijit Banerjee e Michael Kremer no âmbito do estudo relacionado com formas de mitigação da pobreza, Esther Duflo observou que, em alunos dos países estudados, a aprendizagem marginal de um dia adicional de escola é quase nula e que as despesas com livros didáticos não parecem estimular a aprendizagem. Além disso, no contexto indiano, as crianças parecem aprender pouco: nos resultados dos testes de campo na cidade de Vadodara, menos de um em cada cinco alunos da terceira classe conseguiu responder corretamente a questões de matemática do primeiro ano. Em resposta a essas descobertas, a equipa argumentou que os esforços para aumentar a fração de habitantes escolarizados deveriam ser complementados por reformas para melhorar a qualidade das instituições educativas. Este estudo foi o motivo pela qual o Nobel deste ano lhes foi atribuído, isto é, por terem dado um contributo importante para fazer com que a economia do desenvolvimento seja uma área de investigação em grande expansão.
O que a maioria dos estudos faz é uma abordagem dos efeitos de políticas implementadas no passado, de modo a extrapolar as conclusões para o futuro. Porém, devido às mudanças extremamente complexas que ocorrem diariamente pelo mundo, os números fornecidos por estas estatísticas mostram-se cada vez mais incapazes de descrever quais as melhores políticas a implementar na realidade presente. Estes três investigadores mostraram que os problemas que são formulados no âmbito governamental apenas são passíveis de ser respondidos com a recolha de dados obtido pela observação direta dos efeitos das políticas aquando da sua execução, e não através de estatísticas observadas em anos anteriores.
Na minha opinião, este prémio foi concedido no contexto mais oportuno às pessoas mais adequadas devido à persistência e devoção que estas três personagens mostraram ter ao longo de todo o seu trabalho de campo. Não acha, também?

Cristiana Gomes Gião

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]