quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Banca e a crise em Portugal

Os maiores bancos a atuarem em Portugal apresentaram um comportamento misto relativamente aos resultados líquidos no primeiro semestre deste ano, com o BPI e o Santander Totta a obterem lucro e o BCP, o BES e a CGD a apresentarem resultados líquidos negativos.
O BPI apresentou o resultado líquido mais robusto, com um lucro de 58,9 milhões de euros, dividido entre mercado doméstico (20,4 milhões de euros) e operações internacionais (38,5 milhões de euros). No entanto, face ao período homólogo de 2012, tal representa uma queda de 30,7%.
O Santander Totta conseguiu atingir um lucro de 30,9 milhões de euros, graças ao forte crescimento no segundo trimestre deste ano, em que duplicou o resultado do trimestre anterior. Comparando com o período homólogo de 2012, é evidente uma queda para metade neste ano mas o banco justifica-se com o facto de no primeiro trimestre do ano passado se ter verificado um ganho não recorrente “com a operação de recompra de títulos emitidos no âmbito de operações de securitização de créditos.”
O BES, que no primeiro semestre de 2012 tinha apresentado um lucro de 25,5 milhões de euros, sofreu uma forte queda no período homólogo deste ano e obteve um prejuízo de 237,4 milhões de euros. As principais razões deste comportamento são a diminuição do produto bancário em 17,6% e o reforço das provisões em 75,3%.
O BCP, apesar de um prejuízo de 488 milhões de euros entre janeiro e junho de 2013, conseguiu ser a única instituição bancária das cinco apresentadas a melhorar a sua situação face ao período homólogo de 2012 (-544 milhões de euros).
Quanto à CGD, o único banco de capital público em Portugal, com um resultado líquido negativo de 181,6 milhões de euros no primeiro semestre de 2013, agravou a sua situação, que era de 12,7 milhões de euros no período homólogo de 2012. A Caixa explica estes resultados através do comportamento desfavorável da margem financeira, do aumento das imparidades e do aumento não recorrente dos custos com pessoal.
Como se pode ver pela informação anterior, a crise não tem sido fácil para os bancos e 2008 marcou um antes e um depois para o sector. A banca passou para um novo cenário em que a economia entrou em recessão, a taxa de desemprego disparou, a rendibilidade diminuiu, a deterioração da qualidade do crédito exigiu um reforço de provisões para imparidades, os mercados grossistas deixaram de emprestar, o prémio de risco aumentou até níveis insustentáveis, a carteira de títulos perdeu valor devido à crise económica e ao prémio de risco soberano e surgiu a necessidade de recorrer ao BCE como fonte de liquidez, para além de ser efetuada uma regulação mais exigente em termos de capital.
Perante tal situação, cabe aos bancos garantir os meios de pagamento da economia, as necessidades financeiras de investimento das famílias, o financiamento do tecido empresarial, a recolha de poupança de aforradores e a prestação de serviço de aconselhamento nas decisões de investimento. Para que tal acontecesse surgiu a necessidade de aproximação ao cliente, aliada à maior proatividade, melhor adequação dos produtos às necessidades do cliente (segmentação dos clientes), melhor gestão do risco e maior rendibilidade. Os bancos têm, ainda, de posicionar-se para a época de pós-crise e para a próxima fase de crescimento do sector, recuperando a confiança dos clientes, efetuando uma aproximação ao mercado com bons gestores de clientes, realizando importantes investimentos tecnológicos, e sempre com qualidade de serviço para um produto que se parece cada vez mais a uma “commodity”.
A rendibilidade passou a ser a palavra de ordem para as instituições bancárias e para isso era preciso gerir melhor os recursos (o que conduziu ao encerramento de várias agências bancárias pouco rentáveis), fazer crescer o negócio de empresas, aumentar o cross-selling e a vinculação de clientes, alargar a margem financeira e complementar, e reduzir o incumprimento e as imparidades.
Face ao descalabro do negócio do crédito à habitação, os clientes particulares deixaram de ser o foco na banca e o negócio de empresas tornou-se na grande aposta dos bancos por ser um segmento de elevada rendibilidade e um pilar fundamental na dinâmica da economia portuguesa. Cada empresa é uma organização de pessoas, cada uma dessas pessoas é um potencial cliente e a cada empresa estão ligados meios de captar novos clientes. No entanto, face à concorrência do sector, já não é viável para o negócio da banca esperar que as empresas venham ter com as instituições, mas antes os bancos, são compelidos a tomarem uma posição de pró-actividade e sobrevivência, procurando novos clientes e empresas. A “caça às empresas” é hoje uma constante pois, apesar dos números e relatórios contabilísticos serem importantes, não são uma verdade absoluta e tornou-se fundamental o conhecimento da realidade de cada cliente, o chamado “ver com os pés”.
Com a economia nacional em recessão, a salvação de várias empresas passa pela internacionalização que está adjacente a vários riscos, como a falta de capacidade ou vontade do importador em efetuar o pagamento, acontecimentos de carácter político que impeçam o importador de fazer face às suas obrigações, a falta de capacidade/vontade dos Governos em permitir pagamentos na moeda acordada (controlos cambiais) ou, ainda, a depreciação da moeda do contrato. A missão dos bancos passa, portanto, por vender às empresas não só instrumentos de cobertura dos riscos anteriores, como o recebimento antecipado e o pagamento postecipado, mas também fornecer apoio à tesouraria, apoio ao investimento no estrangeiro, trade finance e apoio ao negócio internacional.

Anthony Macedo 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Reformas na educação? Sim, por favor

Quando nos apercebemos que a taxa de desemprego jovem em Portugal é das mais altas da união europeia e sabendo que somos um país com uma população muito envelhecida, começamos a preocupar-nos com o futuro, e com o que será das próximas gerações deste país. É fácil perceber que algo está mal. Resta saber o quê…
A maioria das pessoas tem na ideia que em Portugal de nada serve tirar um curso superior, que o mercado de trabalho está lotado, e que o mais importante é fazer-se à vida o mais depressa possível, arranjando trabalho e descurando todas as competências que um jovem pode obter durante o percurso académico que interrompe para ganhar “uns trocos”. Pois, para que se saiba Portugal, é dos países da Europa que tem menos pessoas com o ensino superior ou secundário concluído, sendo que em 2007 apenas 30% da população Portuguesa entre os 25 e os 64 anos tinha algum destes graus académicos completo! Mas então algo se passa: o estereótipo do licenciado atrás de uma caixa de supermercado, ou de bandeja na mão a servir cafés é cada vez mais frequente, e isto porquê? Por causa da falta de investimento na educação ou, pelo menos, de bom investimento… Desde cursos lotados até outros em que nem se preenche 10% das vagas existentes, os erros são demasiados.
O País tem que se adaptar às situações existentes: há certas instituições no país que a percentagem de emprego dos recém-licenciados é, ano após ano, a mesma… 0! Deve-se melhorar o plano do curso, melhorar as competências com que os alunos acabam a licenciatura, criar protocolos para estes mostrarem que afinal certo curso na universidade “X” desenvolve profissionais competentes! Este problema não é só do governo, mas também dos alunos que são muito levianos a tomar uma das decisões mais importantes das suas vidas, não pensando muitas vezes nos prós e nos contras de entrar em determinado curso, em determinada instituição, querendo apenas ter um diploma que muito provavelmente não usará…
Esta décalage é como uma bola de neve, começa aqui um problema que Portugal não tem conseguido combater: a competitividade…
Se a maioria dos jovens que estudaram 3/5 anos (alguns mais) para determinado mercado de trabalho vêem-se obrigados pelas condições existentes a ir para outro completamente diferente, é natural que a sua produtividade seja baixa, já para não falar da frustração inerente a esta situação, que provoca uma redução na sua autoconfiança e consequentemente a sua produção. Do outro lado estão aqueles cursos para onde ninguém quer ir, ou porque só existe em universidades longe de casa, ou porque o passo entre o final do curso e o 1º emprego é gigante (e aqui a culpa é de quem manda), mas de que Portugal precisa realmente para se desenvolver e para poder competir com o resto dos países da União Europeia. Neste caso, e por não haver profissionais com competências, procura-se um jovem com menos qualificações, e que até sai mais barato. Dá-se um curso do género das novas oportunidades e em 3 meses fica a fazer um trabalho de um licenciado. Será que a nível de produtividade há diferenças? Salvo raras exceções, onde realmente tirar um curso e não tirar é quase igual (mais uma vez a culpa é de quem manda), a diferença na produção e consequentemente na competitividade do país é enorme!
Já ficou provado que a competitividade não aumenta cortando nos salários de quem trabalha. Talvez seja hora de olharem um bocadinho para o nosso país, para todo o potencial que ele tem e adaptarem-se às necessidades, criando mais Instituições, e mais espalhadas pelo país, algumas mais especializadas, consoante as necessidades da região, e talvez assim se consiga produzir mais e melhor! Talvez assim não seja preciso emigrar, e mandar pessoas competentes para outros países apenas porque o curso que tiraram estava na “moda” e concorreram para um emprego onde a vaga já estava reservada para o filho de alguém importante.
Chega de hipocrisia e de interesses. Neste momento delicado é necessário apostar em gente com valor, com competências, que podem reerguer o nosso país e que apenas precisam de melhorias na formação e de uma ligação mais estreita entre as universidades e o emprego desejado! Não é assim tão difícil, pois não?

Gustavo Alexandre Gomes Lima

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Exportações/Importações em Portugal

          Na economia de um país uma componente essencial consiste no saldo da balança comercial, ou seja, a diferença entre as exportações e as importações. O objectivo de qualquer economia parte por tentar assegurar um saldo positivo e para tal é necessário que as exportações superem as importações de modo a evitar apresentar um saldo comercial deficitário. No entanto, para tal acontecer é necessário criar incentivos de modo a atrair o interesse de clientes externos.
            Com o aparecimento da crise este assunto foi e ainda continua a ser amplamente discutido. É fulcral investir no aumento das exportações como forma de aumentar as receitas e diminuir os défices que apresentamos. Portugal foi um país que, salvo certas excepções, tais como a cortiça ou o Vinho do Porto, apresentava sistematicamente um valor de importações superior às exportações em bastantes produtos.
Torna-se evidente o esforço contínuo e a aposta que se tem feito nas exportações desde a “explosão” da crise que afectou gravemente inúmeros países. Segundo dados do Eurostat, vemos que nos primeiros seis meses de 2013, Portugal apresentou um valor de exportações que ascendeu a cerca de 23,8 mil milhões de euros, o que consiste num aumento de 3% face ao mesmo período do ano passado. Segundo o relatório do Eurostat, não só Portugal está a conseguir excelentes resultados no que toca a melhorar o seu comércio internacional mas também outros países tais como Chipre, Espanha e Grécia, que também apresentaram valores de crescimento positivos para as suas exportações. Estes dados mostram a importância que os Governos em funções estão a dar a esta componente como forma de impulsionar a economia.
Um dado que é importante destacar, também, consiste no facto de as importações de bens terem diminuído 2%, para 27,8 mil milhões de euros. Apesar de ainda ser um valor demasiado alto, permitiu que, conjugado com o aumento das exportações, o défice da balança comercial tenha diminuído para 4,1 mil milhões de euros. No mesmo período de 2012, este valor era de 5,4 mil milhões de euros, o que se reflecte numa diminuição bastante positiva mas que ainda permite muita margem de melhoramento.
            Uma das razões pelas quais as exportações estão a ter resultados positivos prende-se com o facto de determinados países apresentarem taxas de crescimento económico muito elevadas, tais como China, Índia e Brasil, entre outros.
            Em relação ao alto valor das importações que ainda apresentámos, uma parte está directamente relacionada com uma mentalidade que na minha opinião tem prejudicado gravemente a performance económica do país. Existem determinados produtos que importámos que facilmente verificamos que não fazem sentido tendo em conta as características geográficas que apresentamos, e estou a falar, por exemplo, de produtos agrícolas e frutíferos. Portugal apresenta uma vasta quantidade e variedade destes produtos e com uma óptima qualidade, que deviam ser alvo de investimento, aumentando a produção e servindo deste modo para consumo interno e exportação, no entanto isto não é a realidade que vivemos. Infelizmente, a situação é exactamente o oposto, isto é, uma quantidade enorme de terrenos que estão simplesmente abandonados e produtos de pior qualidade a serem importados e comercializados em vez dos produtos nacionais. Encontramos exemplos de que esta realidade está a ser alterada no norte do país, onde terrenos abandonados estão a ser entregues a quem está disposto a cultivá-los, e esta é uma atitude que está a ter resultados positivos mas, de modo a ter um impacto mais significativo em termos de exportações e importações, precisa de ganhar uma dimensão maior.
Esta situação para um país que apresenta um potencial enorme nesta área, com terrenos que podem ser usados para cultivo e excelentes condições atmosféricas, simplesmente não faz sentido e deve ser alvo de uma atenção redobrada, como meio de fomentar ainda mais a diminuição das importações e o aumento das exportações. Como cidadão português, sou a favor de que se somos capazes de produzir produtos de excelente qualidade e esta é, claramente, uma área que merece investimento.

João Pedro Ferreira de Carvalho

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Multinacionais: legais mas imorais

              As multinacionais, além de grandes, são também empresas fortemente rentáveis e produtivas. Geram concorrência nos mercados externos em que se inserem, produzem bens e serviços dos melhores níveis de qualidade, criam um vasto número de postos de trabalho, o que atrai fortemente os governos dos países onde se instalam e todos os consumidores que estão dispostos a pagar apenas pelos melhores produtos.
            Recentemente, foi tornado público que algumas multinacionais pagavam baixos impostos ou até nenhuns, nomeadamente, a Starbucks, rede mundial de cafés, foi manchete nos sites e jornais do Reino Unido por, nos últimos anos, ter pago zero ao fisco. À lista de multinacionais que fogem aos impostos, podemos acrescentar ainda a Google, Apple, Amazon, entre outras.
            Segundo a OCDE, cerca de 400 multinacionais pagam apenas 4% a 5% de impostos sobre os lucros. Valores bastante irrisórios e cerca de 32-57% abaixo da média dos impostos das empresas nacionais.
            A pergunta que se coloca agora é: como é que estas grandes empresas evitam o pagamento ao fisco? Uma das principais formas de fuga é a atribuição dos lucros a subsidiárias que se encontram localizadas nos chamados “paraísos fiscais”, como é o caso das Ilhas Caimão e das Bermudas, onde a lei facilita a aplicação de capitais estrangeiros, oferecendo uma espécie de dumping fiscal com alíquotas de tributação muito baixas ou nulas. Outra das estratégias utilizadas é a manipulação dos preços de transferência e rácios de dívida.
            Com a divulgação deste problema, a OCDE em parceria com o G-20, grupo formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia, irão atuar de forma a eliminar as lacunas nos tratados fiscais que as multinacionais aproveitam para não pagar impostos. Isto irá implicar um aumento da pressão sobre países como a Irlanda, Suíça, Luxemburgo e Holanda, onde as empresas internacionais estabelecem sede e têm facilidade em fugir ao fisco.
            A verdade é que este comportamento por parte das multinacionais é legal, mas imoral, ou seja, a lei permite, no entanto os princípios éticos estão a ser violados. A mesma empresa acaba por ter duas imagens contraditórias, no mercado é lucrativa e no fisco é eficitária. 
             Não desfazendo todas as contribuições que as multinacionais têm na economia, a meu ver, empresas como a Starbucks, a Apple, a Google, que estão em todo o lado do mundo, fazem diariamente parte do nosso dia, têm um vasto público fiel à sua marca e aos seus produtos, deveriam ser as primeiras a demonstrar os conceitos de transparência, lealdade e igualdade. Como é óbvio, este comportamento revolta todos aqueles que fazem sacrifícios, levando-os também a procurar planos de fuga aos impostos. E, como todos nós sabemos, nenhuma economia sobrevive quando a evasão aos impostos se torna “o pão nosso de cada dia”.

Sara Gabriela Barbosa Viana 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O mercado livre não existe!

Grande parte da classe política foi criando ao longo dos tempos o estereótipo de que os mercados devem ser livres. Nesse seguimento, afirmavam (e ainda afirmam) que quando o Estado interfere para ditar o que os participantes no mercado podem ou não fazer, os recursos não são aplicados de forma mais eficiente. Assim sendo, se o Estado impõe um tecto nas rendas de casa, os senhorios perdem o incentivo para fazer a manutenção dos seus imóveis ou construir novas infra-estruturas. Por outro lado, se o Estado restringir a variedade dos produtos financeiros que podem ser comercializados, haverá sempre duas ou mais partes que poderiam ter beneficiado de transacções inovadoras adequadas para satisfazer as suas necessidades específicas e que não aproveitam os possíveis ganhos da contratação.
Todavia, o mercado livre não existe! Todo e qualquer mercado opera segundo determinadas regras e limitações, que restringem a liberdade de escolha. Um mercado apenas pode parecer livre, uma vez que aceitamos de forma incondicional as restrições que lhe subjazem, o que nos impede de as ver. O grau de liberdade de um mercado não deve ser definido objectivamente, dado que se trata de uma definição política. 
A pretensão habitual de alguns economistas, que dizem que estão a tentar defender o mercado das interferências por parte de um governo politicamente motivado, é falsa. Mas, na verdade, o comércio livre é justo? Julgo que qualquer cidadão informado acredita que a China e a Índia realizam comércio internacional que pode ser livre, mas que não é justo. Pagar aos trabalhadores salários inaceitavelmente reduzidos e ao fazê-los trabalhar em condições precárias ou inumanas, estes gigantes asiáticos competem de forma injusta. Estes também podem ripostar dizendo ser inaceitável que os países ricos, ao mesmo tempo que defendem o mercado livre, tentam impor barreiras às suas exportações, tendo em conta que exploram o único recurso de que dispõe em abundância – trabalho barato. Embora estes países asiáticos não se possam dar ao luxo de pagar salários ocidentais ou proporcionar as condições de trabalho, podem certamente melhorar os salários e as condições de trabalho. Assim perspectivado, o debate acerca do comércio justo baseia-se essencialmente nos valores morais e decisões políticas, e não economia no sentido habitual.
Em suma, quebrar a ilusão da objectividade do mercado é o primeiro passo na compreensão do capitalismo.

André Torres Oliveira da Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A degradação de Portugal e da Europa Social

A austeridade e a pobreza estão altamente correlacionadas. Numa altura em que já passámos por cerca de 3 anos de medidas fortemente restritivas na economia, podemos depreender que as pessoas são deixadas para segundo plano, em prol do cumprimento do(s) memorando(s) assinados com os credores. Será esta a via para sair da crise? Ou será que apoiar os cidadãos na pobreza, que cada vez mais aumenta, poderia (eventualmente, em algum discurso) atrasar a recuperação económica?
Segundo um recente relatório da União de Organizações Não Governamentais, Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief) intitulado “Um conto moral: o verdadeiro custo da austeridade e da desigualdade na Europa”, prevê-se que haja 25 milhões de europeus na pobreza em 2025. Em particular, aponta que Portugal possa ser dos países mais desiguais do mundo. De certa forma, a maioria dos portugueses já extravasa essa possibilidade pelas suas vivências do dia-a-dia, apesar de saberem que há países que passam por maiores dificuldades, não só actualmente mas desde há muito tempo.
Os portugueses sentem-se injustiçados. Actuam de forma submissa (como é habitual), só que desta feita não há benefícios fiscais ou aumento de salários ou mais dias de férias, como na contínua campanha eleitoral que vinha a ser protagonizada há décadas pelos sucessivos Governos. O caso da austeridade na Europa é particularmente doloroso porque os cidadãos vêem os seus direitos eliminados, sucessivamente, (ou, em caso de aperto orçamental, saqueados!), com parcas explicações e sem solução à vista. Nunca são suficientes os cortes que são feitos ou os impostos que são aumentados. Talvez quando tivermos uma camada de pobres, com a dimensão de um ghetto brasileiro, deixemos de ser olhados como uma União Europeia, e mais como o filho adoptivo e mal comportado do FMI.
Estamos a viver uma crise prolongada, comparativamente ao que se verificou na história económica recente. O problema é que não aprendemos muito com as anteriores. Se há algo a retirar da história das crises económicas é de que há que ter sempre várias soluções exequíveis e utilizá-las logo quando há sinais claros de que o caminho seguido é um caminho falhado. Infelizmente, já passámos essa etapa há muito tempo e ainda estamos “amarrados” à austeridade e à destruição do Estado Social para a financiar.
Em suma, a União Europeia tem de estar realmente unida porque quando estamos tão interligados pela via do comércio internacional, sistema bancário e financeiro, entre outros, quando um país “cai” este tem impacto nos restantes. A questão é de que não se trata de pagar pelos erros que certos países cometeram, mas sim de uma união para estabelecer limites que possam deixar as economias recuperar e consolidar-se, e, no fundo, apoiar os cidadãos em vez de os desintegrar da sociedade, do país e da Europa.

 Ana Luísa Araújo Rodrigues

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Sustentabilidade da Segurança Social nos dias de hoje

         Há algum tempo que nos deparamos com uma realidade preocupante, no nosso país: a sustentabilidade da Segurança Social. Esta é, cada vez mais, uma situação preocupante nos nossos dias.
Vivemos numa sociedade que, quer no passado quer no presente, teve e tem membros económicos ativos (trabalhadores) e membros económicos não ativos (crianças, idosos, inválidos, doentes,…) No atual modelo de Segurança Social, os ativos sustentaram e sustentam os inativos, através de transferências, isto é, de prestações pecuniárias, normalmente sem qualquer contrapartida económica.
É necessário referir que, uma das principais causas deste problema de sustentabilidade da segurança social advém da evolução demográfica. Não é errado dizer que vivemos num país envelhecido. Portugal apresenta hoje níveis de natalidade muito baixos, ao contrário da esperança média de vida, que tem aumentado constantemente. Temos poucas pessoas ativas, como contribuintes, em contraponto com as muitas pessoas a usufruir do sistema nacional de pensões.
No passado mês de Junho, Portugal já tinha mais de 2 milhões de pessoas a receberem pensões de velhice, entre os quais cerca de 711 mil com pensões de sobrevivência e 270 mil reformadas por invalidez. Para além destes beneficiários, o sistema suporta ainda outros subsídios e apoios sociais. Em Junho, a Segurança Social pagou perto de 400 mil prestações de desemprego. São cada vez menos pessoas a contribuírem, mas mais a receberem.
Como poderá então ser solucionado este problema?
Por um lado, podem ser aumentadas as contribuições dos ativos e diminuídos os valores das prestações pecuniárias aquando da reforma e ainda as prestações sociais. Podem também ser aumentadas as transferências do orçamento de estado, para reequilibrar o sistema. Mas esta solução só poderá ser implementada se este tiver disponibilidade para isso e terá que ser avaliado e aprovado todos os anos, levando seguramente a um aumento dos impostos.
Aumentando o período de vida ativa e a idade da reforma, também ajuda a repor esse equilíbrio.
Apesar de termos políticos, como o Doutor Bagão Félix, ex-ministro da Segurança Social e das Finanças, que, na altura em que era governante, disse: “As grandes reformas do nosso sistema de Segurança Social estão feitas e o nosso sistema está no bom caminho, sendo até um sistema superavitário. Não há défice da Segurança Social. Este é mesmo um sistema que contribui para atenuar o défice do Estado”.
No entanto a verdade é que apesar de todas as reformas, e segundo os dados que são divulgados, o sistema parece continuar a degradar-se, não havendo plenas garantias da manutenção do atual modelo de Estado Social.

Joana Pogeira da Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]