segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A crise não é para todos…

Apesar de, aparentemente, a crise em Portugal afetar todos e cada um, a verdade é que não há regra sem exceção e, nesse sentido, a expressão “pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos” pode ser aplicada ao caso português. 
A crise parece ter vindo para ficar. Aumenta o desemprego e há cada vez mais portugueses a emigrarem, sendo que a economia nacional sofreu em 2012 a mais profunda recessão desde 1975. Mas há no país, paralelamente, mais multimilionários, que também viram as fortunas engordar. O número de multimilionários em Portugal com fortunas superiores a 25 milhões de euros aumentou 10,8% para 870 pessoas no último ano, apesar da crise que se vive no país, aumento este que foi superior à média europeia (8,7%) e o sexto maior entre os países da União. Estes dados constam de um relatório apresentado pelo banco suíço UBS, que se designa “Relatório de Ultra Riqueza no Mundo 2013”. Mais do que o aumento do número de bilionários, verificou-se também o aumento do valor global das suas fortunas, de 90 para 100 mil milhões de dólares, ou seja, um aumento de 11,1% durante um ano, face a um crescimento da média europeia de 10,4%. 
Não deixa de ser curioso o facto de, por um lado, o nosso país ser um dos mais flagelados pela crise económica e, por outro, este aumento ser superior à média europeia. A explicação está na componente financeira da riqueza: ações, obrigações e outros títulos. Constata-se que a remuneração do capital é cada vez mais significativa do que a remuneração do trabalho, o que faz com que quem tem poder para investir em ativos financeiros veja a sua riqueza crescer muito mais rapidamente do que quem tem como único rendimento o salário, já que o fator trabalho oferece uma remuneração cada vez menos significativa. As perdas de uns, como é fácil de entender, são os ganhos de muitos. Enriquecer não é um mau princípio - muito menos um mau fim. Desde que seja legal e legítimo, é uma ambição que todos deveriam seguir e, mais do que isso, todos deveriam conseguir concretizar. Sem exceção. 
O problema nestes números é que o enriquecimento de um grupo de afortunados está a ocorrer em paralelo com o empobrecimento de um número significativamente maior de portugueses. Aquando deste aumento de multimilionários, aumenta também em Portugal o número de trabalhadores pobres, pessoas que trabalham mas cujos recursos não são suficientes para assegurar uma vida com um mínimo de dignidade e qualidade. 
Uma das justificações para a precarização do trabalho e para o aumento do número de pobres será o facto de progresso tecnológico ter tido impacto salarial maior nos trabalhadores com mais competências e escolaridade; que as reformas laborais, introduzindo maior flexibilidade, criaram mais empregos, mas substituíram empregos mais bem pagos por empregos mais mal pagos; que o aumento de trabalho part-time e de contratos precários contribuiu também para esse empobrecimento; que as novas famílias tendem a ser constituídas por pessoas com o mesmo nível de rendimentos, em vez de demonstrarem diversidade salarial, criando menor mobilidade social e de rendimento; que os rendimentos oriundos de fora dos salários, nomeadamente os obtidos nos mercados de capitais, aumentaram ainda mais desigualmente do que os com origem em salários, concentrando-se ainda mais em menos pessoas; e que, por último, a redistribuição de rendimento via atuação dos Estados tem sido diminuída pelos cortes de benefícios sociais, pelo apertar das regras de acesso e pelas falhas na capacidade da administração de efetuar transferências para quem mais delas necessita. 
Todas estas causas favorecem o empobrecimento da maioria da população, mas deixam também mais dinheiro “disponível” para os milionários continuarem a enriquecer… Porque "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" ou muda de mãos, como é o caso…

Teresa Filipa Pereira de Sousa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]   

Comércio Internacional – um “novo mundo” e um ponto de viragem…

O fenómeno da globalização transformou completamente o espaço de atuação das economias nacionais e trouxe à baila todo outro fenómeno conhecido por Comércio Internacional (CI) – toda a troca de bens e serviços com países terceiros. Todo este “novo mercado” concedeu novas oportunidades de interdependência e complementaridade, levando os países a criar estratégias direcionadas para o exterior. 
No caso do nosso país, Portugal, o CI é uma tendência já confirmada, uma vez que os dados mostram que após a entrada para a União Europeia, o conjunto das trocas com o exterior, isto é, as exportações e importações, cresceram a uma média de 8% ao ano, entre os anos de 1986 e 2010. Contudo continuamos deficitários nas trocas com o exterior, ou seja, ainda importamos mais do que exportamos, em muito causado pela estagnação do nosso modelo de crescimento económico. Entre as causas dessa estagnação encontraram-se, entre outros fatores, a incapacidade de correspondermos à procura interna sem recorrer à importação, desde 1986 a economia portuguesa nunca consegui corresponder a mais de 70% da procura interna, e a nossa incapacidade de exportarmos mais de 35% do nosso PIB. O máximo da cobertura das exortações pelas importações aconteceu em 1986 com 89% e nunca mais esse valor foi atingido.
Se comparamos Portugal com o resto da União Europeia, verificamos que o nosso país foi o sexto país em relação às exportações per capita, o sétimo país em que as exportações têm menos peso no PIB e o segundo pior na taxa de cobertura. 
Numa comparação sectorial entre as exportações e importações, é possível verificar que as importações portuguesas são maioritariamente em bens, com cerca de 84%, enquanto os serviços representam 16% das importações. Já nas exportações e tendo em conta a cada vez maior internacionalização dos serviços portugueses, o peso dos bens nas exportações desceu de 75% para 67%, sendo no ano de 2012, o peso dos serviços de 33%. 
  Entre 1986 e 2010 o comércio intracomunitário perdeu peso tanto nas exportações como nas importações, tendo perdido mais nas primeiras. Concretamente, a descida nas exportações foi de 79% para 73%, enquanto nas importações foi de 77% para 75%. Em relação aos países com que Portugal mais transaciona deparamos que Espanha, França, Reino Unido e Alemanha são os principais parceiros portugueses representando mais de metade das trocas comerciais portuguesas a nível internacional, sendo a Espanha o número um deste “ranking”. Entre este período a nossa dependência para “nuestros hermanos” aumentou significativamente, tanto a nível das exportações que aumentaram 8 pontos percentuais, de 15% para 23%, como nas importações, que evoluiu de 23% para 30%. 
Contudo o nosso país tem apostado também, cada vez mais, em comércio com países extracomunitários, diversificando os seus mercados, principalmente no que a exportações diz respeito. Exemplo disse mesmo é o caso de Angola, dado que as nossas exportações para a nossa ex-colónia africana aumentaram em média 15% ao ano nos últimos 16 anos, representando atualmente cerca de 5% das exportações portuguesas. 
Porém, e olhando para o grau de especialização tecnológica das exportações portuguesas, é fácil verificar que as atividades de nível mais sofisticado são duas vezes mais orientadas para o exterior do que as atividades com menos valor acrescentado. Contudo o domínio das exportações portuguesas continua na baixa tecnologia e é na média-baixa tecnologia que Portugal apresenta maior dinamismo nas exportações. 
Tendo em conta todos estes dados já apresentados, é importante, na minha perspetiva que o nosso país aposte mais mercados de bens com um nível tecnológico mais elevado, mas para isso é essencial que apostemos em I&D, não só por parte do Estado como das próprias empresas. Mas, para mim, é ainda mais essencial que consigamos abranger um número maior de países, ou seja, que consigamos comercializar os produtos em que realmente somos bons e temos prestígio, como o exemplo da indústria do calçado e da cortiça, para países com quem ainda não tenhamos traços comerciais fortes e que tenham boas situações económicas, como o caso da Finlândia e Suíça. Assim sendo, o alargamento dos “negócios” portugueses poderia permitir um ponto de viragem da economia portuguesa e uma alavanca para a recuperação económica.  

Flávio André Gouveia Peixoto

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]   

O papel fulcral de uma negociação em caso de endividamento das famílias

O Diário de Notícias publicou que o nível de endividamento dos portugueses é dos maiores da Europa e com o aumento das taxas de juro, durante os últimos dois anos, as pesadas prestações mensais estão a provocar incumprimentos das famílias perante a banca.
O endividamento consiste no consumo presente de rendimento futuro. O crédito ao consumo, bom ou mau, surge muitas vezes como a única e última alternativa das famílias para manterem o seu “nível de vida” por mais algum tempo. Os consumidores, por desconhecimento da lei, não sabem que o não pagamento dos “pequenos” créditos pode levar a perderem a casa, quer por via da ação executiva, quer pela insolvência. Desta forma, torna-se claro que não é mantendo o crédito habitação em dia que asseguram a manutenção da casa no seu património. Esta é assegurada no âmbito de uma política geral, responsável e comum.
Um estudo da DECO revelou que em alturas de crise económica, como esta que estamos a atravessar, as prestações do carro, da mobília ou do cartão de crédito são as primeiras a deixar de ser pagas e a dar lugar a processos de execução  e penhora de bens.
A maior parte do crédito bancário destina-se à compra de habitação. Os portugueses continuam a contrair a bom ritmo créditos ao consumo, que em situações mal ponderadas assume um esforço de pagamento muito superior à prestação da casa, asfixiando  devido às taxas de juro e prazos de cumprimento. Fruto destas circunstâncias, os cidadãos recorrem cada vez mais a entidades de mediação para tentarem resolver os seus problemas de endividamento. Muitas das vezes, fazem-no antes de entrar em incumprimento para evitar execuções.
O ideal de negociação de dívidas com os credores, na minha opinião, é pagar de acordo com aquilo que cada um pode, dentro de critérios de bem-estar social, sem colocar em risco a vida condigna do devedor e do seu agregado familiar, o que nem sempre é conseguido.
A capacidade de negociação e os intervenientes na mesma vão depender do estado e fase em que se encontra o processo. Ou seja, o processo pode ser encetado junto do credor, no departamento de cobranças ou já em fase de contencioso. Negociação em que os credores, em regra e para ser concretizada, exigem que se assuma e pague os atrasos existentes, os juros e as penalizações por incumprimento. 
É importante evitar a entrega dos bens objeto dos contratos de crédito sem ter a certeza do valor que estes bens vão assumir na amortização da dívida. É comum as empresas de leasing pressionarem os clientes para entregarem as viaturas, as quais, uma vez entregues, são vendidas a preços muito reduzidos, ficando o cliente com a totalidade da dívida. É sempre preferível vender o bem que entregar o mesmo.
Se as soluções extrajudiciais falharem, as pessoas singulares, tal como as empresas, podem encontrar no processo de insolvência um caminho que lhes permita a recuperação, sem que tenham que lidar com a agressividade de instituições de crédito ao consumo, empresas de cobranças, processos executivos, penhoras, ameaças e outros mecanismos menos legais. E podem fazê-lo de duas formas: através de um “Plano de Pagamentos”; e da “Exoneração do Passivo Restante” (ou perdão da dívida – visa resolver as situações de sobre-endividamento, desobrigando os devedores pessoas singulares do pagamento de créditos que não forem integralmente pagos no processo de insolvência ou nos cinco anos posteriores ao seu encerramento).

Sofia Lopes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

Os impostos são a solução?

Com o chumbo do Tribunal Constitucional na medida de convergência das pensões da CGA, a meta do défice para 2014 ficou, agora, mais difícil de atingir, pelo que, naturalmente, o governo terá que apresentar medidas alternativas que permitam ao estado recuperar os 710 milhões de euros que previa poupar com esta medida.
O Diário Económico noticiou esta sexta-feira que a solução passaria pela subida de impostos, entre os quais de destaca o IVA ou, possivelmente, do lado da despesa, a solução seria generalizar a contribuição extraordinária de solidariedade. Serão estes esforços suficientes e necessários?
A generalização da CES permite uma recuperação de 340 milhões, pelo que ainda ficam 370 milhões por recuperar, que seriam recuperados via alterações ao IVA, como, por exemplo, a eliminação da taxa intermédia, aumento das taxas ou, ainda, alterações aos cabases abrangidos por cada taxa.
Todos sabemos quais são as consequências destas medidas, pois no período de governação do atual executivo o caminho da austeridade adotado só agravou a nossa recessão e atrasou a correção orçamental. Estas medidas não vão ser, certamente, a solução, pois o seu primeiro efeito vai ser a redução do rendimento disponível, que levará à dedução do consumo, que levará ao atraso do PIB, que levará, entre outros, à perda de receita fiscal.
O que, honestamente, me parece, no meio de toda esta situação, é que não há ajustamento possível, nem austeridade que leve a resultados, nem dinheiro para investir que pudesse alavancar a nossa economia. 
Na minha opinião, o nosso problema não é falta de dinheiro, nem de capacidade, mas sim a falta de moral. Esta falta de moral não se aplica apenas a governantes mas sim a todo o povo.
A principal falta de moral dos governantes é facilmente percetível quando hoje em dia vemos ex-governantes, sejam eles de direita ou esquerda, falarem mal deste executivo, como se a culpa da nossa situação fosse apenas destes. Os nossos problemas não surgiram com este executivo, convém lembrá-los disso, apenas se agravam devido ao caminho que escolheu. Todos esses ex-governantes que falam mal deste executivo, sem exceção, devem fazer mea culpa nesta situação, exceto António Guterres, que foi o único homem com capacidade intelectual para o fazer, todos os outros foram covardes.
Contudo, esta falta de moral não se aplica apenas, como já referi, aos governantes, mas sim a todo o povo, pois tudo isto se resume a uma questão de educação, na qual acredito, pois Portugal é um país bastante pequeno e todos se conhecem e surgem as nossas vergonhosas cunhas que, como sabemos, são um dos grandes cancros da nossa sociedade. E sabemos bem da sua evidência entre os governantes e os seus interesses. A meu ver, a situação é tão grave que mesmo que surgisse um político com boas intenções para o país estaria rodeado de oportunistas e corruptos de tal maneira que, caso não aceitasse ser corrupto também, não seria governante por mais de um dia.
A solução para o nosso problema, passa, sem dúvida, para uma educação séria, onde se ensinem os verdadeiros valores da vida e não os valores do capital. Só assim teremos um povo educado capaz de governar a nação e respeitar os seus interesses, e não apenas a si próprio.

Nuno Araújo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

Desenvolvimento da Economia Portuguesa

O atraso de Portugal relativamente aos outros países sempre existiu ou começou numa dada altura? Para responder a esta pergunta vamos recuar até ao início do século XIX (1830). 
No início do século XIX, acontece na Inglaterra um movimento “poderoso” que definiu divergências económicas patentes ainda nos dias de hoje - a Revolução Industrial.
Antes da revolução industrial as economias eram maioritariamente agrícolas e com fraco crescimento do PIB (taxas de crescimento do PIBpc próximas de 0). Todos os países que foram arrastados por este movimento viram as suas economias crescerem devido à industrialização e modernização do país e ao surgimento de infra - estruturas sólidas.
A economia portuguesa não conseguiu acompanhar o processo de industrialização por diversas razões. Ausência de recursos naturais - os países que se industrializaram possuíam carvão e ferro, ao contrário dos países do sul da Europa. Portugal também não possuía recursos naturais para se adaptar às inovações agrícolas, levando assim a um problema de deficiente especialização agrícola. A elevada taxa de analfabetismo levava à ausência de recursos humanos adequados. O que tornou ainda mais difícil o processo de industrialização, foi a criação de um tratado que facilitava a penetração do produto manufaturado Inglês em Portugal. Todos estes motivos levaram a que Portugal não conseguisse acompanhar o progresso dos restantes países, levando a diferenças notórias no PIB, que permanecem até aos dias de hoje.
Só perto de 1900, várias décadas depois, Portugal começa a investir em infra–estruturas, com recurso a empréstimos (exemplos: Ponte D. Luís, desenvolveu-se o telegrafo, fizeram-se importantes investimentos no sector das estradas). Também a agricultura se desenvolveu, as exportações dos bens agrícolas aumentaram, introdução de máquinas e resíduos químicos na agricultura. Também no sector industrial se detetam avanços. Começam a ser introduzidas em Portugal as inovações da revolução industrial, a indústria portuguesa começa a diversificar-se (surgem novos sectores, como, por exemplo, o sector ligado à transformação de cortiça e sectores ligados às conservas de peixe). Contudo, este período terminou com uma crise económica e financeira grave. O estado português devido ao forte endividamento deixou de ter dinheiro, declarando mesmo bancarrota parcial. A crise financeira levou à corrida aos bancos. Muitos bancos fecharam e a moeda portuguesa deixou de ser convertível. 
Podemos observar que Portugal industrializou-se tardiamente e quando o fez, no intuito de acompanhar as outras economias, sobre-endividou-se. Quando os dirigentes portugueses se aperceberam do atraso de Portugal face ao resto da Europa procuraram igualar o nível de desenvolvimento, saltando as etapas fundamentais para um crescimento sustentável, isto é, apostaram “todas as moedas” no sector secundário e terciário, esquecendo-se do sector primário. Note-se que não quero com isto dizer que não se deveria apostar nestes sectores, mas sim que deveria ter sido feita igual aposta no desenvolvimento do sector primário e não ter deixado que este chegasse a um ponto de estagnação ou até mesmo de retrocesso. 
Dos acontecimentos agora descritos podemos observar que as lacunas da economia portuguesa não são recentes. Uma análise mais profunda da história económica portuguesa permite-nos mesmo concluir que elas se vêm repetindo ciclicamente ao longo dos tempos. Embora se tenham notado algumas melhorias no que diz respeito ao crescimento da economia portuguesa em 2013, é certo é que os tempos são difíceis.

Marisa Oliveira Couto

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

sábado, 28 de dezembro de 2013

Quem tem medo da inflacção?

A inflação tem crescido um pouco por todo o mundo. Com muitos a culparem o Banco Central e as Reservas Federais pelas alegadas políticas monetárias expansionistas, existem alguns motivos para temer o aumento da taxa de inflação: pressões salariais, preço dos bens e a crise financeira. Como tal, o Banco Central desempenha um papel fundamental dada a potencialidade que este tem para influenciar a relação (delicada) entre a inflação actual e a expectável.
Quanto às pressões salarias, quando a inflacção actual aumenta é crucial que não seja desencadeada a procura por salários nominais mais altos, pois isso iria empurrar os custos marginais das empresas para um nível ainda mais alto, causando ainda mais inflação: surge então este ciclo vicioso onde uma inflação actual elevada tende a ser auto-sustentável no futuro. Exemplificando: se considerarmos as últimas reuniões do sindicato de trabalhadores de uma empresa têxtil do norte a negociar os salários para a sua empresa, para os próximos 2 anos, obviamente que a sua decisão será baseada no que eles esperam que a inflacção seja nesse período de tempo. Supondo que a inflacção actual se situa perto dos 3% (como era o caso de Portugal em 2012), acima, por isso, dos quase 2% permitidos pelo BCE, e se o sindicato estiver confiante que o Banco Central em conjunto com o Governo fará todos os possíveis para baixar a inflação para os 2% num espaço de tempo razoável, vai fazer com que as suas exigências actuais salarias não sejam tão elevadas. Ou seja, se o Banco central for suficientemente credível ao definir a inflação nos 2% e for transparente o suficiente nas acções que vão ser desencadeadas para atingir essa meta, quer sindicatos, quer trabalhadores, à priori, vão perceber que  os 3% actuais de inflação são apenas temporários, fazendo assim com que as expectativas face à inflação sejam lidadas da maneira mais eficiente – a chave é moderar todas as manifestações súbitas de inflacção actuais, tendo presente as lições aprendidas com a história.
Já o aumento nos preços dos bens, quer sejam bens comuns alimentares ou matérias primas, é um dos factores que mais contribui para o aumento da inflação – este fenómeno pode ser explicado por dois factores: por o excesso de procura por materiais a ser usados na indústria (ferro, zinco, cobre, etc) serem originários de economias emergentes, como a China, a índia e o Brasil; e porque um aumento nas expectativas da inflação diminui as taxas de juro reais.  
Na infinidade de teorias sobre os efeitos do choque financeiro actual, parece haver alguma confusão sobre as suas possíveis consequências inflacionárias. Uma das criticas mais comuns ouvidas contra o BCE questiona porque é que se preocupa tanto com a inflação. Se estamos perante uma crise económica, esta provoca desaceleração na economia, consequentemente, as pressões inflacionárias estarão controladas. Como tal, é preferível fazer o possível para manter um crescimento fraco na Europa do que centrar as preocupações apenas na diminuição da inflacção. 
De uma perspectiva, algo original, há quem defenda que o choque financeiro que a Europa está a atravessar é, intrinsecamente, deflacionário. Porém, este raciocínio acenta numa lógica algo falaciosa, pois não refere que este desacelaramento, no futuro, poderá induzir mudanças radicais na direcção das políticas monetárias, com potenciais consequências dolorosas para a economia; e porque ainda não se sabe ao certo se este choque financeiro que estamos a atravessar irá afectar o grau de eficiência dos mercados financeiros. Mas, se for esse o caso, o mesmo pode induzir um choque positivo ou negativo sob o hiato de produto. 

Rita Andrade

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O percurso das taxas de câmbio reais, do crescimento e do protecionismo comercial desde a crise financeira – o porquê de manter a economia aberta

A crise económica global, acentuada a partir de 2008, e a consequente fragilidade da economia desde então, tem alimentado rumores de que os governos podem recorrer ao protecionismo comercial com vista a sustentar as respectivas economias e a proteger as mesmas da concorrência estrangeira. 
Este receio de um aumento do protecionismo tem os seus fundamentos, dada a esmagadora evidencia empírica do período pré-crise, que segundo alguns teóricos da área, demonstra que os governos tinham mais propensão a erguer barreiras comerciais, sempre que a economia experimentasse recessões/perdas de competitividade.
Apesar desta relação contra-cíclica (historicamente documentada) entre o crescimento, a competitividade, o protecionismo comercial e o abrandamento da economia global (incluindo a recente desaceleração do comércio mundial) os dados existentes sugerem que os governos do G20, até agora e maioritariamente, resistiram à tentação de avançar para políticas comerciais mais protecionistas. Isto levanta a questão se a relação contra-cíclica pré-crise se mantem depois do surgimento desta.
Por um lado, há a possibilidade de esta relação ter sido interrompida (não só) como um resultado da fragmentação progressiva entre as cadeias de abastecimento de todos os países que vão, a pouco e pouco, reduzindo os seus incentivos para fechar os mercados domésticos aos produtores estrangeiros. Se assim for, os receios de um aumento do proteccionismo nasceram sem fundamentos e todos os esforços para conter as politicas comerciais restritivas devem ser direccionadas para outras questões políticas.
Por outro lado, se esta relação se mantiver, a resposta protecionista tem sido reduzida por factores  desconhecidos e de cariz pontual, e o proteccionismo pode aparecer a qualquer momento. Se assim for, a coordenação internacional no âmbito do G20 ou da Organização Mundial do Comércio deve entrar em acção para impedir o uso de politicas protecionistas.
Relacionando o número de políticas protecionistas implementadas pelos países do G20 para o crescimento do PIB real é possível identificar, genericamente que: na queda de um ponto percentual no PIB resultou do aumento do número de medidas comerciais de cariz restritivo; a apreciação real da moeda nacional em 1%, é, tipicamente, seguida de um aumento das mesmas medidas; e um fraco crescimento de um parceiro comercial não induziu, em nada, economias do G20 para adicionar mais barreiras ao comércio.
Estes resultados sugerem que a relação entre crecimento, competitividade e proteccionismo antes da crise se mantém, mesmo após esta e que não acarreta grande importância na determinação das políticas comerciais recentes. 
Assim, é claro que, quanto mais tempo demorar para que a economia global se recupere,  mais difícil será acreditar que as politicas comerciais permanecerão (relativamente) não discriminantes. Os governos do G20 terão de suportar a procura pelo proteccionismo comercial, e com o passar do tempo esta tentação terá tendência a agravar-se se as respectivas economias não ganharem qualquer impulso de crescimento. Como tal, todos os esforços para evitar a “peer pressure” no âmbito do G20 devem ser monitorizadas bem de perto pela Organização Mundial do Comércio, por exemplo.

Rita Andrade 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]