domingo, 16 de novembro de 2014

O lado pouco amigo do ambiente económico das renováveis

Estávamos em 2001 e José Sócrates, na altura ministro do Ambiente, foi um dos maiores responsáveis pelo programa E4 e os decretos-lei de 2001 que fixaram as regras e remuneração tarifária para a futura produção de electricidade através de energias renováveis. Passados 4 anos, em 2005, Sócrates já como Primeiro-ministro acelera o processo. Nesse ano a produção eólica atinge 4%.
Em 2007, na Cimeira da Primavera, realizada em Bruxelas, com intuito de aprovar medidas pioneiras de combate às alterações climáticas, confrontado com a ideia de alguns estados, liderados pela França, que defendiam que os renováveis eram insuficientes e pretendiam outras fontes, como a nuclear, José Sócrates reage da seguinte forma: “Em Portugal, nós não usamos o nuclear, nem pretendemos usá-lo. A nossa aposta é nas energias renováveis “; “os países que quiserem tomar a opção pelo nuclear, façam o favor. Em Portugal, não, o nosso caminho está definido”. O caminho estava então definido e seria caminhado a grande velocidade. Já em 2010, na 65ª sessão da assembleia geral das Nações Unidas, Sócrates realça o seguinte: “Portugal ocupa hoje o quinto lugar europeu e mundial na utilização de energias renováveis. 
O nosso país tem o maior parque eólico em operação na Europa e é o segundo país do mundo com maior peso da energia eólica no mix energético”. Ora, são então motivo de orgulho nacional a aposta em energias renováveis, principalmente na eólica. Mas a que custo?
Os custos dos parques eólicos começam, em primeiro lugar, pela destruição paisagística. Em segundo lugar, é agora preocupação de ambientalistas a morte de vários pássaros que colidem com as lâminas dos aerogeradores, sendo em alguns casos pássaros de espécies ameaçadas. Em terceiro lugar, está o caso da eficiência: os principais produtores de aerogeradores dizem nos últimos 10 anos terem aumentado a eficiência de 25% para 50%. Estes números em si já são alarmantes tendo em conta o período em que foram colocados a maioria dos aerogeradores em Portugal. No entanto, a realidade é ainda pior: estes números, segundo estudos recentes, não se verificam. Um exemplo é o estudo realizado em 2011 pelo JMT, um dos mais importantes organismos conservacionistas Escocês.
O estudo, baseado numa amostra de 395 dias, mostrou que na realidade a eficiência fica-se pelos 22%. Isto num dos países mais ventosos e com maior potencial para a eólica do que Portugal. Em quarto lugar, temos o custo: os portugueses têm um dos preços s/ IVA dos mais elevados de energia eléctrica da Europa e isto deve-se às energias renováveis. Em 2013, os portugueses pagaram 102€/ Mwh pela energia eólica e estrondosos 350€/ Mwh pela energia fotovoltaica. Para comparação, se em vez de produzir essa energia a tivéssemos comprado a Espanha, pagaríamos menos de 50€/ Mwh, e se a tivéssemos produzido com carvão pagaríamos ainda menos, por volta dos 40€/ Mwh, isto é, aproximadamente 8,5 vezes menos do que pagamos pela fotovoltaica.
Isto leva-nos ao quinto problema relacionada com os renováveis: a sua intermitência. Devido à sua dependência das condições atmosféricas, estas não garantem a segurança de abastecimento. Isto leva ao chamado “paradoxo das energias renováveis”. É que, devido à actual ainda baixa eficiência e à intermitência, a redução na produção de CO2 é muito menor do que seria de esperar pois, como a qualquer momento a energia disponibilizada pelas renováveis pode cair devido à alteração das condições atmosféricas, é necessário ter sempre centrais de produção tradicionais a trabalhar para entrar em cena no caso de falha das renováveis; e têm que estar sempre a trabalhar, pois uma central não se liga e desliga de um momento para o outro. Uma, de carvão lignito, por exemplo, tem de estar a queimar a aproximadamente 40% da sua capacidade.
Então a quantidade de energia produzida pelas renováveis tem um limite técnico, que já foi ultrapassado em Portugal. Este limite estaria por volta dos 2000 Mw, mas já produzimos acima dos 4700 Mw, mais do dobro!
Este paradoxo, para além do custo ambiental, tem custos financeiros. Estes custos foram calculados pelo IST. Os sobrepostos imputados às eólicas, devido às perdas na bombagem (7€/ Mwh), os custos fixos das centrais de bombagem dos períodos em que armazenam à noite e a turbinagem de dia (21€/ Mwh), e os custos fixos das centrais térmicas de back up durante o dia às eólicas (34€/ Mwh) têm então que ser somados à tarifa das eólicas, fazendo com que o custo em 2013 não tenha sido 102€/ Mwh mas sim 164/ Mwh! Aqui não estão incluídas nem as ineficiências no uso das térmicas, nem os custos de ligação dos parques eólicos e centrais de bombagem à rede de transporte, tendo a ERSE proposto um investimento de mais de 450 milhões de euros para isto. 
Para concluir, deixo os argumentos contra a forma como já foi dirigida a política para as energias renováveis. Vejamos as conclusões da comissão da especialização em energia da ordem dos engenheiros: 
“ 1. As Renováveis são mais caras que as convencionais?
Resposta: As energias renováveis para a geração eléctrica são ainda substancialmente mais caras que as convencionais, quer directamente, quer pelos efeitos induzidos pela sua intermitência e não controlabilidade.
2. Se há sobrecusto os benefícios directos e indirectos podem compensá-lo? Serão esses benefícios indirectos quantificáveis?
Resposta: Os benefícios directos e indirectos não compensam esses custos, no estado actual da tecnologia e para o já elevado nível de injecção renovável na rede, com excepção da hídrica, em certas circunstancias, os benefícios indirectos são plenamente quantificáveis, quer na redução das importações de matérias-primas para a geração substituída, quer pela redução de GEE´s, que têm no ETS o sistema de internalizar esses benefícios.
3. A política portuguesa de renováveis está actualmente ajustada? Se não quais as propostas de alternativa?
Resposta: a política portuguesa de renováveis está totalmente desajustada e é insustentável, como o parecer do conceito tarifário da ERSE o confirma. A proposta alternativa é de urgentemente se proceder à avaliação, séria e sem preconceitos, da problemática situação nacional e dos seus efeitos directos e indirectos sobre a actividade económica e as contas nacionais, com incidência na reformatação do funcionamento do mercado eléctrico.”
Assim não é de estranhar que ainda este ano Carlos Tavares, presidente da PSA Peugeot Citroën, tenha dito que o preço da electricidade em Portugal é 40% mais caro do que em França, sendo isto um factor de não competitividade. Isto num país em plena crise económica no qual o governo usa como argumento para a não subida de salários a perda de competitividade. Esperaríamos então um corte com esta política desajustada, mas não, enquanto a UE tem como objectivo até 2020 20% da electricidade ser produzida por renováveis, o objectivo de Portugal 31%. 
É de referir também que a Alemanha, um dos líderes das renováveis, planeia construir 26 novas centrais de carvão linito, uma das formas mais poluentes de carvão, sendo a razão o seu baixo custo. Isto apesar da sua economia estar em muito melhor estado que a portuguesa.
Cada um tirará as suas ilações mas, perante tal panorama, não será descabido questionarmos para quem trabalham os sucessivos governos: para o povo que os elege ou para os grandes interesses económico, neste caso as grandes empresas eléctricas, que em 2013 receberam 112€/ Mwh, enquanto os seus homólogos espanhóis apenas receberam 88€/ Mwh pela energia eólica produzida?

Diogo Rocha

Referências:
Yale environment 360, “On the road to Green Energy, Germany Detours on Dirty Coal”, 2014
ERSE, Tarifas e preços para a energia eléctrica e outros serviços em 2014
UNric, Cento Regional de informação das Nações Unidas, “Discurso do Primeiro-Ministro, José Sócrates, à 65ª Sessão da Assembleia geral das Nações Unidas, em Nova Iorque”, 2010
www.telegraph.co.uk, “Wind turbines ´less efficient than claimed´”, 2011
IMF, Informação Electricidade, 2014
Ordem dos Engenheiros, Ciclo de encontros debate sobre o preço da energia, “O preço das renováveis”, 2011

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Ébola – a maior epidemia da história

Ébola é neste momento a maior epidemia da história. Está a ser combatida desde Março de 2014 e apesar de terem sido registados por todo o Mundo aproximadamente cinco mil mortos, esta epidemia está longe de estar controlada. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão a actuar no terreno no combate a esta doença ainda desde antes do surto ter sido oficialmente declarado. Foram criados centros de tratamento do Ébola em alguns países asiáticos onde foram detectados cerca de 3200 doentes, entre os quais apenas aproximadamente 1100 sobreviveram.
Em termos económicos, o vírus do ébola ameaça a existência da economia dos países aonde o mesmo se faz sentir. Se virmos bem, grande parte da população infectada pelo ébola está na África Ocidental, onde a sua população sustenta a economia destes países essencialmente na agricultura. Nestes países, um dos principais hábitos alimentares é o consumo de carne de caça, sendo incluídos animais que sejam potencialmente portadores do vírus. 
A doença começa a atingir a economia. Na Serra Leoa, o Produto Interno Bruto (PIB) de 2014 aponta para uma redução até 4% em relação ao último ano. A epidemia está a fazer grandes estragos na economia destes países: não só está a fazer com que projectos económicos sejam cancelados, como também está a provocar a fuga de empresários do país. Algumas companhias aéreas interromperam o tráfego aéreo, tendo um efeito directo no turismo e no comércio. Países com quem os países infectados faziam trocas recusam-se agora a fazê-las, não deixando também pessoas que tenham estado nos países infectados entrem no seu país.
Com o alastramento da doença por todo o Mundo, Portugal teve de se prevenir, ainda que a doença não tenha atingido o nosso país. Teve a necessidade de investir em equipamentos médicos, medicamentos, material específico. Com esta necessidade repentina de investimento extra, foi dada “luz verde” ao ministro da saúde, Paulo Macedo, para um eventual reforço adicional do orçamento da saúde, podendo solicitar mais recursos às Finanças, conforme as necessidades enfrentadas, apesar dos gastos necessários até agora não serem muito dispendiosos. 
Só o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), entidade responsável pelo transporte de suspeitos ou doentes com o vírus, investiu 200 mil euros na aquisição de material de protecção contra a doença. Também os hospitais têm procedido à aquisição de material, nomeadamente material de protecção individual. 
Paulo Macedo aprovou um documento de comunicação de resposta ao ébola. Numa primeira fase, serão distribuídos folhetos e cartazes sobre a doença, sintomas e formas de transmissão para serem distribuídos em locais públicos, como hospitais, farmácias, escolas, transportes públicos. A previsão de custos para os folhetos é da ordem dos 100 mil euros. Numa fase seguinte, serão criados spots publicitários para televisão, rádio e internet, e será ainda avaliada a hipótese de se criar uma aplicação para smartphones com informação sobre a doença. 
Até agora, foram identificados cinco casos suspeitos de ébola em Portugal, tendo todos acusado como negativos nas análises feitas da hipótese de infecção pelo vírus ébola. Portugal vai enviar uma equipa para as áreas mais afectadas pelo vírus, que irá criar um hospital de campanha nesta fase de prevenção do Ébola. Portugal está a ajudar a combater o risco da doença se alastrar para outros países. A TAP não tem estado a fazer ligações directas de Portugal para Bissau. Desta forma, dificulta ainda mais o contacto com a doença. 
O impacto financeiro do Ébola está a trazer para o mundo grandes consequências. Segundo um relatório do Banco Mundial, estima-se que os custos da epidemia podem chegar aos 32,6 mil milhões dólares. Segundo o Presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, se a epidemia não for rapidamente contida, o impacto financeiro regional pode atingir os 32,6 mil milhões de dólares em 2015, sendo devastador na zona da África Ocidental.

Inês Sofia Fernandes da Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Reestruturação ou Renegociação?

João Cravinho, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Ferro Rodrigues e Vítor Martins foram alguns dos subscritores do manifesto pela reestruturação da divida pública que referia, entre outras coisas, o seguinte: «Os mecanismos de reestruturação devem instituir processos necessários à recuperação das economias afectadas pela austeridade e recessão, tendo em atenção a sua capacidade de pagamento em harmonia com o favorecimento do crescimento económico e do emprego num contexto de coesão nacional». Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas graves que vocês lhes deixaram? 
É importante sublinhar que 70 das mais importantes personalidades do país vieram propor que se diga aos credores internacionais o seguinte:
“– Desculpem lá mas nós não conseguimos pagar tudo o que vos devemos, não conseguimos sequer cumprir as condições que nós próprios assinámos”.
O Manifesto dos 74, apresentado em Março, foi o pontapé de saída para um debate que se acentuou nas últimas semanas e que já levou o PS, sem se comprometer com nenhuma posição, a também querer discutir o assunto. A reestruturação de uma dívida implica, à partida, um incumprimento nos termos previamente acordados e, muito provavelmente, uma redução da dívida. Essa solução está fora de questão uma vez que voltaria todos os mercados contra Portugal.
Na hipótese, remota, espero, de o Governo pedir uma reestruturação da nossa dívida, os juros no mercado secundário iriam aumentar imediatamente e deitar a perder mais de três anos de austeridade necessária e incontornável para recuperar a confiança dos investidores, obrigando, assim, a um novo programa de resgate e ainda a mais austeridade.
Os credores externos, nomeadamente os alemães, iriam imediatamente responder: porque é que não começam por vocês próprios?
Os nossos bancos têm mais de 25 por cento da nossa dívida pública nos seus balanços, mais de 40 mil milhões de euros, e o nosso Fundo de Capitalização da Segurança Social tem mais de 8 mil milhões de euros de obrigações do Tesouro. 
Iriam dizer: peçam-lhes um perdão parcial de capital e de juros.
Um facto que tem sido recentemente explicado é o de que uma reestruturação de dívida pública não se pede nem se anuncia publicamente. Portugal já fez e continua a fazer uma reestruturação discreta da nossa dívida pública.
Vitor Gaspar, como ministro das Finanças, e Maria Luis Albuquerque, como Secretária de Estado do Tesouro, negociaram com o BCE e a Comissão Europeia uma baixa das taxas de juro do dinheiro da assistência, de cerca de 5 por cento para 3,5 por cento, negociaram a redistribuição das maturidades de 52 mil milhões de euros dos respetivos créditos para o período entre 2022 e 2035, quando os pagamentos estavam previstos para os anos entre 2015 e 2022, esse sim um calendário que era insustentável. Ao mesmo tempo, juntamente com o IGCP dirigido por João Moreira Rato, negociaram com os credores privados Ofertas Públicas de Troca que consistem basicamente em convencê-los a receber o dinheiro mais tarde.
Este “fenómeno” chama-se um “light restructuring”, ou seja, uma reestruturação suave e discreta da nossa dívida, que continua a ser feita mas nunca pode ser anunciada ao mundo como uma declaração de incapacidade de pagarmos as nossas responsabilidades.
A única solução realista e que não atirará o país para uma situação de emergência é continuar a satisfazer pontualmente as obrigações contratualizadas, esperando que os credores sugiram uma extensão do prazo de pagamento. Este é um assunto que, dada a sensibilidade dos mercados, tem de ser conduzido com muito tacto e grande bom senso, porque a mais pequena dúvida ou desconfiança pode significar o descalabro das taxas de juro da dívida pública, que depois se estenderá às empresas e aos bancos, com consequências desastrosas para o conjunto da economia.
Caros subscritores do Manifesto para a reestruturação da dívida pública, desculpem a franqueza: a vossa geração está errada. Não agravem ainda mais os problemas que deixaram para a geração seguinte. Façam um favor ao país: não criem mais problemas. Deixem os mais novos trabalhar.

Maria Alexandra Pereira Lima

Fontes:
http://www.imf.org/external/country/PRT/ndex.htm

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Invasão Chinesa

A China representa um caso de sucesso mundial uma vez que apresenta a maior taxa de crescimento nos últimos 25 anos, aproximadamente 10% por ano. Este acontecimento fez com que se tornasse a segunda potência económica, sendo uma ameaça para os Estados Unidos que, por enquanto, se encontram na liderança. Grande parte do sucesso deste país reside na ética de trabalho das sociedades confucionistas, assim como na capacidade de adaptação dos seus habitantes. Características que são manifestadas nas comunidades espalhadas pelo mundo.
Apesar da população estrangeira em Portugal ter apresentado um decréscimo de 3,8 porcento em 2013, segundo o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asílio (RIFA), as únicas comunidades que registaram um aumento foram a chinesa e a guineense. Nesse mesmo ano, a comunidade chinesa residente em Portugal apresentou um aumento de 6,8 porcento em relação a 2012. A partir dos estudos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (FSE), foi possível verificar que existem mais de 20 000 chineses a viver no nosso país. Imigrantes que não pensam em regressar ao seu país de origem e vêem a nossa nação como uma grande oportunidade de investimento.
Inicialmente os restaurantes, depois as “lojas dos 300”. Com o programa “vistos dourados”, o investimento feito pelos chineses seguiu direcções diferentes. Lançado em Outubro de 2012, concede autorização de residência em Portugal e direito de circulação no espaço Shenghen aos cidadãos não-europeus. Porém, para ter acesso a esses privilégios, é necessário que: comprem uma casa no valor de, pelo menos, meio milhão de euros; depositem um milhão de euros num banco português; ou invistam num projecto que crie no mínimo 10 postos de trabalho. 
Portugal concedeu 470 visto “gold” apenas em 2013, totalizando um volume de negócios que alcança os 300 milhões de euros. Cerca de 90% deste valor foi para o sector imobiliário, sendo também onde o investimento da comunidade chinesa foi maior. “Até agora, a China foi, de longe, o país que mais investiu neste programa”, referiu Jorge Torres-Pereira, embaixador de Portugal na China. Para além de estarem a aproveitar esta oportunidade, os investidores chineses estão a tirar vantagem da crescente valorização do Yuan em relação ao Euro. “A maioria não tenciona radicar-se em Portugal, mas quer usar o visto para fazer negócios com outros países europeus e viajar livremente dentro do espaço Shengen, que inclui 26 países”, revela o Global Times.
O investimento feito em Portugal tem sido de tal forma crescente que a China foi responsável por 40% das fusões e aquisições tendo empregas portuguesas como alvo. Nos últimos 3 anos, o total rondou os 14,28 mil milhões de euros não apenas em compras do total de capital de empresas como também a compra direta de grandes participações em entidades portuguesas. A compra do Espírito Santo Saúde por parte dos chineses da Fosun fortaleceu a influência das entidades. O investimento total da República Popular da China (RPC) na compra de empresas portuguesas sobe para 5,65 milhões de euros nos últimos 3 anos com os cerca de 478,5 milhões de euros que a Fidelidade (na qual 80 porcento da empresa é liderada por um chinês) se propõe pagar para ficar com 100 porcento da entidade que detém o Hospital da Luz. 
Apesar dos sectores de eleições permanecerem a energia e os seguros, o radar dos chineses está também atento à área da saúde e das águas. Na energia, o investimento chinês alcança os 3,43 mil milhões de euros nas compras das participações na EDP e REN, e também na aquisição de ativos da EDP Renováveis.
Contrariamente a este grande investimento por parte dos chineses, encontram-se os investimentos dos portugueses. As entidades portuguesas foram responsáveis por apenas 15% das compras. Os compradores portugueses surgem apenas no quarto lugar, atrás dos chineses, franceses e brasileiros. As compras não vão além dos 2,2 mil milhões de euros e nos maiores negócios em que se podem considerar os compradores como portugueses estão envolvidos investidores estrangeiros. 
A República Popular da China está, gradualmente, a controlar o mundo da economia, e Portugal não é excepção. Apesar de ter aspectos positivos, é uma tendência que é necessário conter pois Portugal precisa de crescer e recuperar da crise, através da qual os chineses têm aproveitado para aumentar o seu poder económico. É essencial proteger as nossas empresas dos diversos acordos feitos com a China que, de certa forma, poderão prejudicar-nos. Portugal tem que investir no seu próprio país, de forma a acelerar a saída da crise que nos tem arrastado por já muito tempo.

Rita Margarida Silva Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Parcerias Público Privadas no Sector Rodoviário

A crise que nos finais de 2008 assolou o mundo inteiro culminou, na Europa, na chamada crise das dívidas soberanas, tendo feito transparecer a urgência do reequilíbrio das contas públicas e da suavização da dívida pública em vários países, incluindo Portugal.
Assim sendo, e dada a gravidade da situação, estabeleceram-se programas de ajuda internacional coordenados pela União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu.
No entanto, esta necessidade de assistência internacional não é o resultado de uma maleita repentina, mas sim de uma sucessão de más decisões económicas e políticas que se foram acumulando ao longo de décadas e que se transformaram em desequilíbrios económicos estruturais. É neste contexto de austeridade e tendo em mente os crescentes sacrifícios pedidos à sociedade portuguesa que se torna importante focar nalgumas destas más decisões, nomeadamente na questão das parcerias público privadas rodoviárias.
Considerou-se que era de suma importância garantir a construção destas infraestruturas quer para o aumento da mobilidade quer para o desenvolvimento económico e para a redução da sinistralidade rodoviária. Optou-se pelo modelo de parceria público privada já que a divida pública era crescente, permitindo que as obras se realizassem sem que isso afetasse diretamente o défice. Deste modo, o Estado pagava uma renda aos privados, sendo estes responsáveis pela construção e exploração das infraestruturas, garantindo que a população fosse servida por estas vias de comunicação.
Porém, este modelo de financiamento que parecia ser uma “win-win situation” revelou-se um fracasso segundo uma recente auditoria feita pelo Tribunal de Contas. De entre os diversos critérios avaliados, apontam-se o pagamento de rendas excessivas aos privados, o facto de estar contratualmente estipulado que os riscos inerentes ao investimento nestes empreendimentos seria totalmente coberto pelo Estado, e tornou-se ainda evidente que os estudos que serviram de base aos cálculos de tráfego nas fases de projeto não eram realistas.
Como tal, os contribuintes portugueses são hoje obrigados a suportar uma fatura de muitos milhares de milhões de euros por uma rede de estradas cujo volume de tráfego existente não justifica. Mas a este sacrifício dos contribuintes adicionam-se ainda os cortes em subsídios, salários e pensões e o aumento progressivo da carga tributária, através de medidas como o reescalonamento das tabelas de IRS e aumento do IMI, por exemplo.
A renegociação destes contratos entre o Estado e as entidades privadas seria um passo importante para reequilibrar os encargos enfrentados pelo Estado, processo que tem vindo a conhecer alguns progressos, sendo o mais recente o da renegociação de cinco contratos com a Ascendi, em Setembro deste ano.

Camila Helena Olund Matos

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

sábado, 15 de novembro de 2014

Indústria Têxtil

A indústria têxtil e do vestuário é característica pela sua diversidade e heterogeneidade, que abrange um vasto número de empresas desde a transformação de fibras em fios e tecidos até à produção de uma ampla variedade de produtos. Este sector, que nos últimos anos tem sofrido sérias mudanças, representa um papel crucial na economia e no bem-estar social de inúmeros países da União Europeia. 
Segundo um relatório preparado para a Comissão Europeia – Empresas e Indústria, os principais fatores que levaram a estas alterações no sector têxtil, entre 2000 e 2010, foram os mercados industriais e de consumo, a globalização, o conhecimento e a mudança, a política e a regulação e a crise financeira. Em 2010, o volume de negócios era de 172 biliões de euros, tendo sido empregues cerca de 1,9 milhões de pessoas em mais de 127000 empresas. No entanto, de 2000 a 2010, o volume de negócios diminuiu 25%, o emprego sofreu uma queda de 50% e o número de empresas caiu 27%. 
A crise que se despoletou em 2008 só veio acelerar o declínio. Prevê-se que em 2020 a indústria será ainda menor que a de 2010, devido ao crescimento limitado ou estagnação do mercado europeu e ao aumento das importações. A compra de tecidos a países fora da Europa, nomeadamente à China, que produz a um baixo custo, tem um impacto negativo neste sector a nível europeu. Contudo, existirá também um grande potencial em termos de inovação e expansão das exportações, o que implicará que algumas regiões da Europa tenham condições positivas para aumentar o número de empresas e o volume de negócios. 
Em Portugal, a indústria têxtil e vestuário representa 9% das exportações totais, 20% do emprego da indústria transformadora e 8% do volume de negócios e da produção da indústria transformadora. Braga e Porto são os dois distritos que acolhem cerca de 81% do número total de empresas.  
Segundo os últimos dados da ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal), 2012 registou os valores mais baixos desde 1999. A produção diminuiu de 8.316 milhões de euros em 1999 para 4.905 milhões de euros em 2012. Entre 2008 e 2009 a produção sofreu uma queda mais significativa, de cerca de 1 milhão de euros. O volume de negócios baixou de 8.521 milhões de euros para 5.774 milhões e o número de pessoas empregue no sector desceu de 260277 para 138000. Estes valores são a prova que o sector têxtil tem passado uma fase delicada. 
As principais fraquezas apontadas à indústria têxtil portuguesa são a produtividade deficitária, o nível educacional insuficiente, as muitas empresas com reduzida dimensão, baixa capitalização e baixa terciarização. Por outro lado, tem como principais vantagens a sua tradição, o equipamento e progresso tecnológico, e o facto de ser um sector completo, estruturado e dinâmico. 
Os principais desafios para esta indústria são resistir ao embate da liberalização do comércio internacional, à crise económico-financeira global, desenvolver novas competências que possam reforçar a área produtiva, continuar a apostar fortemente na inovação, investigação e desenvolvimento, incentivar a internacionalização das empresas, a qualificação dos recursos humanos e estimular o aumento da dimensão das empresas.

 Luís Carlos Faria 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Reflexão sobre as Pequenas e Médias Empresas em Portugal

“Portugal é um país maioritariamente composto por PME’s, empresas que comprovadamente têm uma maior flexibilidade, uma maior capacidade de adaptação à mudança, e que sendo compostas por capitais nacionais não são regidas pelas duras directrizes internacionais. Não será por isso correcto afirmar que as PME são, por isso, e actualmente, o motor da nossa economia?!?”, refere Mafalda Vasquez no seu artigo de opinião “Uma Fábula dos Tempos Modernos”
Sim, Mafalda, é correcta essa afirmação. As pequenas e médias empresas representam 99.9% do tecido empresarial português, sendo responsáveis por mais de metade (58.8%) do volume de negócios do nosso setor empresarial. Existem então cerca de 1.120.000 PME’s em Portugal com um volume de negócios combinado de 220 mil milhões de euros. Estes valores correspondem, em termos percentuais, a 61.1% da produção nacional (valor que tem vindo a diminuir desde há alguns anos por razões que explicarei mais à frente). Quanto ao emprego, em média, cada PME emprega 3.39 pessoas, enquanto uma grande empresa emprega 756.11. Porém, são as PME´’s que empregam a maior parte dos trabalhadores ao serviço das empresas, com uma percentagem de 77.6% de empregados contra 22.4% nas grandes empresas.
Apesar da expressividade comprovada por estes dados, a fragilização das PME’s tem vindo a agravar-se desde 2008, ano que marca o surgimento da crise financeira e no qual se regista o primeiro de sucessivos decréscimos no número de pequenas e médias empresas e trabalhadores ao serviço destas no nosso país. 
A principal causa deste decréscimo foi, como referi no parágrafo anterior, a crise financeira, mas também a condução pouco feliz desta que foi feita pelo actual governo. Como maior exemplo temos o aumento desmensurado dos impostos que levou a uma grande diminuição da procura interna, a grande base destas empresas.
Outra grande causa foi a consolidação do mercado asiático em Portugal, que fez com que muitas das empresas nacionais perdessem uma grande quota de mercado para um mercado que produz a custos extremamente baixos e com o qual não podemos competir neste parâmetro. Podemos sim competir através da qualidade, mas com a crise e consequente diminuição do poder de compra dos portugueses, torna-se insustentável para grande parte dos consumidores preferir qualidade a baixos preços. 
Mais uma consequência desta crise foi a dificuldade na obtenção de crédito e financiamento que se seguiram, que por sua vez levaram a que o número de insolvências e falências das PME’s crescesse 444,4% desde 2007, no nosso país. 
Estas dificuldades na obtenção de fundos são muito diferentes nas PME’s em relação às grandes empresas. Em primeiro lugar, as PME’s em conjunto com as famílias, são as últimas a beneficiar das melhorias nas condições de financiamento e, dada a sua menor dimensão, é maior a sua dependência do crédito bancário. O financiamento é um fator de grande importância nestas empresas pois apenas este permite que as empresas subam um degrau no nível da qualidade / quantidade do seu produto e recursos humanos, inovação, etc. É então absolutamente necessário desenvolver outro tipo de alternativas de financiamento para estas empresas.  
Existem várias soluções em estudo que permitiriam melhorar a situação das PME’s em Portugal, como, por exemplo, a dinamização da bolsa de valores para estas empresas, o acesso a fundos comunitários e incentivos para o aumento de capital e retenção de lucros. O estado pode também intervir de forma a proporcionar as mesmas condições existentes noutros mercados internacionais através do regime tributário simplificado para as PME’s. Com este regime, segundo Paulo Nuncio, secretário de estado dos assuntos fiscais, “a carga fiscal que incide actualmente sobre as PME’s será reduzida com estas a ficarem dispensadas do pagamento especial por conta e das tributações autónomas relacionadas com a sua actividade”. Segundo o mesmo, é também aprovado “um novo regime de incentivos fiscais para lucros retidos e reinvestidos para as PME’s, por forma a promover a capitalização das empresas e aumentar o nível de investimento produtivo”.
Sem este tipo de incentivos a situação vai continuar a piorar. Segundo o estudo “PME: Riscos e Oportunidades”, 32% das PME apontam como prioridade a redução de custos e despesas. A prioridade nos últimos anos passou da inovação e crescimento para a diminuição de custos. Facilmente, percebemos que este caminho impulsionado até aqui pelo actual Governo leva a tudo menos ao crescimento económico. 
Apesar de todos os obstáculos citados, as PME’s portuguesas conseguem competir internacionalmente através da inovação e diferenciação dos seus produtos. Porém, é necessário tomar medidas que lhes permitam competir numa situação de igualdade com as restantes empresas, nacionais e internacionais. Assegurar condições que garantam a sustentabilidade das PME’s é assegurar que a base da economia portuguesa tenha sucesso, e isto reveste-se de grande importância para o nosso crescimento económico. 

Luís Carlos Monteiro Silva

Fontes:
http://www.amcham.com.br/inovacao/noticias/desafio-de-inovar-e-maior-nas-medias-e-pequenas-empresas-8395.html

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]