sexta-feira, 3 de novembro de 2017

IMPACTOS ECONÔMICOS DE UM ACORDO DE LIVRE COMÉRCIO ENTRE A UNIÃO EUROPEIA E MERCOSUL

 A negociação de um acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul estende-se por mais de duas décadas. O acordo passou a ser discutido em dezembro de 1995, com a assinatura do Acordo Quadro de Cooperação Inter-regional, em Madrid, baseado em três pilares: (i) expressivo diálogo político; (ii) relações econômicas e financeiras baseadas na liberalização do comércio e fluxos de capital; (iii) cooperação em setores considerados relevantes, tais como educacional, social e cultural e do desenvolvimento científico e tecnológico. Em 1999, determinou-se o início efetivo das negociações, marcado pela realização da primeira reunião do Comitê de Negociações Birregionais (CNB). Na primeira fase de negociações, entre 2000 e 2004, foram realizadas trocas de ofertas em bens, consideradas insatisfatórias por ambas as Partes.
Contudo, as negociações do acordo ficaram paralisadas entre 2004 e 2010 devido a diversos entraves, como a crise econômica de 2008 e a estagnação da economia Europeia. Contudo, em 2010, as negociações foram retomadas por ocasião da Cúpula Mercosul-UE, em Madrid, quando os dois blocos alcançaram novo consenso sobre parâmetros para o relançamento das negociações. Em 2016, ocorreu a retomada plena das negociações durante a XXVI Reunião do Comitê de Negociações Birregionais (CNB), em Bruxelas, onde a UE e o Mercosul trocaram ofertas de acesso a seus respectivos mercados de bens, serviços, investimentos e compras governamentais.
A partir de então, as negociações continuam a ser realizadas. Neste ano, foram realizadas duas reuniões do CNB, além de encontros intersecionais, e está prevista, ainda, a XXX reunião do CNB, entre os dias 6 e 10 de novembro de 2017, para dar continuidade às negociações, segundo o sítio oficial do MERCOSUL - Brasil. Porém, após todos esses anos, observa-se que as dificuldades nas negociações entre os dois blocos foram igualmente marcadas pelos desenvolvimentos do comércio internacional, como, por exemplo, o crescimento da China e sua crescente representatividade no comércio internacional, as variações cambiais, o alargamento da própria UE, a demanda por inclusão de novos temas na agenda EU-Mercosul, como a questão dos investimentos e da internacionalização das empresas brasileiras, entre outras dinâmicas que, ao longo de uma década, não deixaram de evoluir à espera do fechamento do Acordo de Associação entre os dois blocos (TOMAZINI, 2010).
Assim, vê-se que liberalização das trocas entre a UE e o Mercosul não é um objetivo fácil de ser concretizado e, caso venha a se estabelecer tal acordo, diversos impactos econômicos serão acarretados entre os países de cada um dos blocos, dado que a dinâmica dos mercados ocorre em ritmo mais acelerado do que a dinâmica das negociações políticas.
Desta forma, conclui-se que tais impactos econômicos se configurariam da forma seguinte: primeiramente, analisando o aspecto comercial, haveria um aumento natural do comércio entre as partes, o que faria da União Europeia o principal destino das exportações do Mercosul como bloco econômico, acarretando em significativos benefícios no caso de um acesso mais livre ao mercado Europeu. Tomando como base a teoria de David Ricardo (1982) das vantagens comparativas, o Mercosul produziria e exportaria mais produtos de baixo valor agregado enquanto a União Europeia produziria e exportaria mais produtos de alto valor agregado para o Mercosul (configuração já existente no mercado). Neste contexto, devido às facilidades advindas das tarifas de importação serem nulas, tal acordo levaria a maiores benéficos econômicos, resultando em um maior fluxo de produtos entre os blocos.
Tal troca seria benéfica para ambas, pois a especialização de um país ou região na produção ou na comercialização de um determinado segmento de produto não significa abandonar a produção dos demais, pois, se o acordo entre as partes para a criação de uma zona de livre-comércio for concluído, haverá uma maior abertura comercial entre os blocos, o que significa que um maior fluxo de produtos industrializados chegará ao mercado do Mercosul via União Europeia, bem como haverá um maior fluxo de produtos agrícolas provenientes do Mercosul no mercado europeu (FREITAS, D. 2009).
Além disso, o segundo ponto de impacto econômico seria em relação ao acordo de cooperação entre as partes, ou seja, à transferência de tecnologia por parte dos países europeus, bem como a importação de máquinas de ponta que proporcionasse uma maior produtividade da indústria nacional dos países do Mercosul, que exportam produtos industrializados, principalmente Brasil e Argentina, para países de igual ou menor desenvolvimento, mas não com a mesma tecnologia empregada pelos europeus. Assim, o comércio entre os dois blocos deve ser especializado na produção de produtos em que tenham vantagem comparativa, mas não no comércio em geral, pois estes blocos possuem outros parceiros comerciais.
Portanto, os resultados deste acordo entre os blocos têm uma tendência positiva de crescimento econômico do conjunto dos países membros, fato que pode ser visto tanto pelo aumento do comércio em valor bruto quanto pelo desenvolvimento da cooperação entre as partes.

Leticia dos Santos


Referências Bibliográficas:

DE NEGRI, J.; ARBACHE, J. S.  O impacto de um acordo entre o Mercosul e a união europeia sobre O potencial exportador brasileiro para o mercado europeu. Brasília, Ipea, 2003.

TOMAZINI, R. C. As relações formais entre a união Europeia e o Mercosul e a tentativa de se estabelecer um acordo de associação. P. 57-76, 2010.

DE FREITAS, D. M. Perspectivas de vantagens e desvantagens na implantação do acordo de livre-comércio entre Mercosul e a União Europeia. Florianópolis, 2009


http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/2952/1/TD_990.pdf

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Portugal além-fronteiras (versão revista)

           No final do mês de setembro, Portugal foi eleito, pela primeira vez, o melhor destino Europeu dos World Travel Awards, os “Óscares” do Turismo.
         Os World Travel Awards, criados em 1993, consistem numa gala onde são atribuídos os mais prestigiados prémios de turismo. Portugal competiu com países como a Áustria, Reino Unido, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Turquia, sagrando-se vitorioso não apenas na categoria de melhor destino Europeu, pois foi o país que recebeu o maior número de prémios, 30% do total. Comparativamente ao ano anterior, Portugal conquistou mais 13 “Óscares”, o que revela que o turismo nacional continua em ascensão.
         São inúmeros os motivos que fazem de Portugal um país tão distinto. A gastronomia, o clima e o povo português, a meu ver, continuam a ser os ingredientes que mais entusiasmam os turistas. Para Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, o sucesso que hoje se verifica no setor deve-se a todos aqueles que diariamente se esforçam para garantir e fazer persistir a competitividade a nível nacional/internacional. Acrescenta, ainda, que “Este é, sem dúvida, também um reconhecimento da nossa estratégia turística e dos bons resultados que, ano após ano, o setor tem vindo a alcançar”.
         Desde 2014 que os resultados provenientes da atividade turística começaram a ganhar outras proporções, em resultado da inovação das estratégias aplicadas na promoção do mesmo. O dinamismo vivido faz com que o número de empresas a vigorar no mercado de trabalho aumente e, consequentemente, faça expandir o emprego criado. Segundo a Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, o emprego no turismo conta, em 2017, com um crescimento de cerca 16%. Traduzindo esta percentagem em valores, nos últimos 18 meses foram gerados 60 mil postos de trabalho.
         O turismo é a grande aposta da economia portuguesa. Os benefícios económicos que acarreta são evidentes: para além de criar novos postos e trabalho, ajudou Portugal a sair da recente crise e, ainda, favoreceu a divulgação do país no estrangeiro. O setor do turismo português apresenta um programa de estratégias dinamizadoras que tem revelado frutos e que posicionam Portugal numa das primeiras opções por parte dos turistas.
         Apesar da efemeridade do turismo, colocam-se agora questões que podem dificultar a prosperidade do mesmo. Será que o turismo é perdurável? Será que Portugal é um destino singular o suficiente para que não possa, no futuro, ser substituído? Será que o excesso de turismo não se poderá tornar num pesadelo para a população portuguesa?
Na minha opinião, o turismo é uma oportunidade de desenvolvimento. No entanto, apresenta alguns aspetos negativos: a vida em certas regiões do país, devido à elevada procura pelos turistas, está-se a tornar intolerável; as rendas dispararam, e muitos não conseguem suportá-las; o número de restaurantes portugueses está a diminuir, dando lugar aos franchisings; as lojas tradicionais estão a ser substituídas por espaços com caraterísticas internacionais; existem cada vez mais hotéis, e menos habitantes. Ou seja, a massificação do turismo está a fazer com que, lentamente, Portugal perca o seu encanto próprio.
Em suma, desde há 3 anos consecutivos que o turismo português tem estado a crescer intensamente, e a tendência é continuar. Este traduz-se numa importante atividade económica, pois garante emprego e exportações. No entanto, é fundamental uma boa gestão política, que defenda os interesses dos residentes, assim como instrumentos que acautelem as consequências do excesso de turismo.

Diana Esteves Antunes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A falta de crédito às empresas (versão revista)

O crédito bancário consiste na modalidade de empréstimo de capital, neste caso em relação às empresas, assente na confiança.
Relativamente a Portugal, o valor dos empréstimos concedidos ao setor empresarial assume, atualmente, o mínimo histórico. Durante os primeiros 7 meses do ano corrente, os bancos atribuíram 16.478 milhões de euros às empresas, segundo os dados do Banco de Portugal. Este montante descreve o pior arranque de ano desde que há registo. Menos 8% face ao período homólogo de 2016.
A falta de financiamento por parte da banca nacional justifica-se por numerosos e variados motivos, sendo que o desajustamento entre a oferta e a procura de crédito, de acordo com Filipe Garcia, é o predominante. Conforme o economista da IMF, “Os bancos querem emprestar a empresas com melhor saúde financeira, que têm estado a desalavancar ou que não encontram projetos interessantes para investir. Pelo contrário, as empresas que precisam de crédito não têm encontrado vontade dos bancos em aumentar o envolvimento. Ou seja, as empresas a quem os bancos querem emprestar não precisam de crédito e às empresas que precisam de crédito os bancos não querem emprestar”.
As grandes empresas têm sido as maiores lesadas no que toca ao acesso ao crédito. Estas coletaram 6.570 milhões de euros durante os primeiros 7 meses de 2017. Comparativamente ao mesmo período do pretérito ano, ocorreu um decréscimo de 13,1%. As pequenas e médias empresas, por sua vez, conquistaram 9.908 milhões de euros entre janeiro e junho do presente ano, um montante que significa uma queda de 4,5% face a 2016. Se as empresas, principalmente as pequenas e médias, revelam dificuldades em aceder ao crédito, problemas futuros surgirão. Estas necessitam de capital para investir e, desta forma, potenciar o seu produto.
Não obstante as operações se situarem em mínimos, Filipe Garcia acredita que esta é uma preferência por parte dos bancos, já que se encontram mais criteriosos nas suas decisões. A abertura para a concessão de créditos existe, embora com maior facilidade em relação às famílias. No que concerne às empresas, os bancos optam por

selecionar ponderadamente quem querem, ou não, financiar de modo a não correrem riscos exorbitantes.
         Embora exista a consciencialização de que os bloqueios existentes ao financiamento do setor empresarial são um problema, previsões de 6 dos maiores bancos a operar em Portugal mostram que o crédito às empresas irá continuar em declínio até 2019. É preciso, portanto, encontrar um conjunto de alternativas que promovam o financiamento, já que este continua a ser uma prioridade, principalmente para as pequenas e médias empresas.
          A linha Capitalizar, lançada em janeiro deste ano, consiste num plano estratégico estimulado pelo Governo, que tem a finalidade de apoiar a capitalização das empresas, a retoma do investimento e o relançamento da economia. O Ministério da Economia espera que esta linha de crédito venha a suportar 20 mil empresas. Para além desta possibilidade, também outras medidas devem ser tidas em conta: criar condições para que o setor empresarial possa reduzir a sua dependência face à banca; abrir o mercado de capitais às médias empresas; entre outras. Sem estes passos, as empresas continuarão em recessão, o que constitui um sério travão ao investimento em Portugal.
No meu ponto de vista, é fundamental que os bancos, mesmo com todas as suas reticências, se mostrem predispostos a emprestar quando possível, pois só desta forma as empresas poderão recuperar a sua atividade e gerar números que sejam positivos para a economia nacional. Em consequência do bom funcionamento da atividade empresarial, surgirão novos postos de trabalho, o que fomentará, por exemplo, o consumo interno. Posto isto, as condições necessárias para a economia florescer passam pela restauração do crédito, embora existam alternativas a que as empresas podem recorrer.

Diana Esteves Antunes 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Quando é que os incêndios vão parar?

Entende-se como incêndio florestal toda a destruição, total ou parcial, da fauna e da vegetação em áreas florestais, provocada pela ocorrência de fogo não controlado. A exposição a um incêndio pode levar à morte, maioritariamente pela inalação dos gases ou pelas queimaduras graves.
         Em Portugal, os incêndios correspondem a uma das catástrofes naturais mais graves, quer pela elevada frequência com que acontecem e dimensão que alcançam, como pelos efeitos destruidores que originam. São vários os prejuízos causados, nomeadamente económicos e ambientais. Segundo a base de dados nacional, entre 1 de janeiro e 30 de setembro do corrente ano, há registo de um total de 14.097 ocorrências (2.951 incêndios florestais e 11.146 fogachos), o que levou a uma área ardida de 215.988 hectares de espaços florestais. Até ao dia 30 de setembro, o ano de 2017 apresentava-se como o 5º valor mais baixo em número de ocorrências e o valor mais alto em termos de área ardida.
         Em 17 de junho, a palavra “incêndio” ganhou especial popularidade devido à tragédia sucedida em Pedrógão Grande. De acordo com a contabilização oficial, são conhecidas 64 mortes e mais de 250 feridos. Em termos de perdas materiais, a estimativa provisória do montante total de prejuízos ascende a 500 milhões de euros. Apesar de existir um conjunto de razões que são apontadas como a origem do incêndio, o Estado tem igualmente responsabilidade nesta matéria. A ausência de intervenção pública no ordenamento e na gestão da floresta e a desadequação da proteção civil em termos de competências são alguns exemplos de aspetos em que o Estado deixa muito a desejar no que toca ao combate e à prevenção dos incêndios florestais.
         Mais recentemente, a 15 de outubro, as chamas reacenderam e provocaram um número de mortos de 42 pessoas e cerca de 70 feridos. Este ficou conhecido como o pior dia de fogos do ano. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) informou, com 72 horas de antecedência, que o dia 15 seria o mais perigoso. No entanto, apesar dos avisos meteorológicos, o Estado foi incapaz de mobilizar os meios de prevenção necessários e de impedir o alastramento das chamas. Isto é, a meu ver, um Estado fracassado. O país ardeu, de norte a sul. Muitas localidades foram evacuadas, as populações realojadas, auto-estradas cortadas e apenas a chuva conseguiu acalmar os ânimos. A carência de sucesso na gestão do território fez com que Portugal, sendo um país com uma dimensão tão reduzida, tenha quase metade da área ardida na Europa.
         Em resposta às destruições provocadas pelos fogos, o governo promete agora mobilizar uma quantia avultada para o combate aos incêndios e reflorestação. Esperamos que o dinheiro seja bem aplicado pois existem medidas urgentes que têm de ser tratadas, nomeadamente, o realojamento das pessoas que perderam as suas casas, a recuperação da atividade das empresas que tiveram as suas instalações destruídas, entre outras. A população precisa de voltar ao ativo, de recuperar os seus postos de trabalho e de recuperar a qualidade de vida, o que passa pela questão ambiental. Para isto acontecer, não basta que o Estado se disponibilize a contribuir financeiramente. É indispensável a resolução de questões estruturais.
         O objetivo primordial do Estado deveria consistir em proteger os seus cidadãos, algo que não foi respeitado, de todo, nestes últimos tempos. O governo teima em não aprender com as lições do passado (recente), e as consequências cada vez mais se fazem sentir. Mesmo depois do aterrorizador aviso de Pedrógão, nada mudou. A irresponsabilidade política que presenciamos leva que a muitos morram ao abandono, e outros percam tudo o que construíram ao longo de uma vida.
          É preciso respeitar a terra em que vivemos. É preciso proteger a população e tudo o que a envolve. É precisa determinação e capacidade de liderança para que se faça sentir confiança. É preciso reorganizar e remodelar. Não basta ocupar o poder, é preciso exercê-lo. Chega de desculpas, é precisa responsabilidade!

Diana Esteves Antunes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]