segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A (des)poupança das famílias portuguesas

A poupança é um dos indicadores que sustenta o desenvolvimento económico, por isso a evolução da taxa de poupança das famílias tem atraído um interesse crescente sobre as perspetivas da economia portuguesa pois Portugal tem vários desequilíbrios económicos, como, por exemplo, a necessidade de financiamento externo. As famílias portuguesas, tal como o Estado e as empresas, estão com elevados níveis de endividamento, apesar da diminuição nos últimos anos.
Num contexto de elevado endividamento, baixo crescimento económico e de incerteza, o aumento da taxa de poupança nacional é uma condição necessária para garantir condições de financiamento do investimento e crescimento económico sustentável. A poupança das famílias é explicada pelo desejo de um padrão de consumo estável ao longo da sua vida, para fazer face a quebras de rendimento inesperadas e, por exemplo, para aquisição de bens duradouros.
Os dados estimados do Eurostat para 2017, em Portugal, são de uma taxa de poupança de 5,29%, sendo uma diminuição face aos 5,88% (dado provisório) de 2016. Este valor é bastante menor do que os 9,85% da União Europeia em 2017 e ainda menor se comparado com os 11,96% da Zona Euro. Na Zona Euro, as estatísticas mostram que a taxa de poupança se manteve acima de 12,00% pelo menos nos últimos dez anos, com exceção de 2017, mas, mesmo assim, muito próximo desse valor. Mesmo durante a crise, a poupança não foi afetada de forma muito significativa. Aliás, os dados indicam que foi nos últimos dois anos que a poupança mais desceu. Como podemos observar no gráfico abaixo, retirado do Eurostat, nos últimos dez anos, a taxa de poupança dos portugueses só esteve próxima dos níveis europeus em 2009 e 2010, o que mostra que Portugal continua a não convergir com a Zona Euro.


Alguns fatores que podem explicar a baixa taxa de poupança atual são a facilidade na obtenção de crédito e as baixas taxas de juro praticadas nos créditos, nomeadamente para a compra de habitação, e as baixas taxas de juro das aplicações a prazo, que desincentivam as famílias de economizar. Em agosto de 2017, a taxa de juro média oferecida pelos bancos a novas aplicações em depósitos a prazo foi de 0,24%, ou seja, em termos reais, colocar dinheiro nestas aplicações significa um retorno negativo. Outro aspeto que pode influenciar negativamente a poupança é a expectativa das famílias que tem vindo a melhorar, o que vai causar um aumento no consumo. Segundo o INE, tanto as despesas de consumo como o rendimento disponível aumentaram 0,90% no segundo trimestre de 2017, ou seja, as famílias consomem mais mas dentro das suas possibilidades, sem recorrer ao endividamento. Em geral, desde 1995, a capacidade líquida de financiamento das famílias portuguesas é positiva, isto é, a poupança, apesar de baixa, tem sido superior ao investimento.
Do meu ponto de vista, seria essencial criar medidas para aumentar a poupança, não só das famílias mas também das empresas e do Estado. Uma medida a tomar para aumentar a poupança das famílias poderia ser a nível fiscal, por exemplo, tributar bens considerados “de luxo” para desincentivar o seu consumo e, por outro lado, diminuir os impostos de bens “essenciais”. Obviamente que este não é o método mais eficiente pois os indivíduos podem adiar a compra do bem “de luxo” desde que a remuneração da poupança seja suficiente para compensar a espera ou, então, podem comprar a versão mais barata do bem “de luxo”, reduzindo o consumo de outros bens normais.
Outras medidas para aumentar a poupança poderiam passar por benefícios fiscais atribuídos a produtos associados à poupança, os salários dos trabalhadores incluírem uma percentagem que seja alocada a uma conta poupança (com a autorização do trabalhador e acordo na respetiva percentagem) ou o arredondamento do valor de um pagamento com o cartão de débito, sendo este valor transferido para uma conta poupança. Também seria interessante, após a conta poupança criada, o depositante aceitar receber um pouco menos de juro em troca da entrada num sorteio que lhe permitiria ganhar um elevado valor e, assim, o incentivo de poupar não era baseado na taxa de juro mas sim na probabilidade de ganhar um prémio de montante elevado. De referir que muitas das medidas referidas acima são praticadas em alguns países.

Adriana Catarina Rebelo Serra

Bibliografia:
ALEXANDRE, Fernando, AGUIAR-CONRARIA, Luís, BAÇÃO, Pedro e PORTELA, Miguel (2017), Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa.

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O “problema” que é a especulação imobiliária

A especulação imobiliária é uma espécie de jogo, em que quem tem dinheiro aposta na compra de imóveis com o objetivo de obter lucro, pois é dinheiro fácil e imediato.  
Atualmente, em Portugal, há pouca oferta e muita procura, e enquanto subsistir este desequilíbrio os preços não descem. Criou-se uma espécie de “bolha imobiliária”, que pode rebentar quando os preços descerem. Esta descida vai ter impacto na estabilidade macroeconómica e financeira devido aos ajustes ocorridos, afetando negativamente os bancos e a taxa de desemprego.
A especulação “apenas” se manifesta nas duas áreas metropolitanas (apesar de já se alastrar ao resto do país), e surgiu através da aglutinação de fatores políticos, sociais e económicos. Do meu ponto de vista, o principal problema foi que a subida dos preços foi muito mais rápida do que o rendimento das pessoas. Para ficarmos com uma noção, em termos mundiais, Portugal foi o 5º país onde o preço da habitação mais subiu em 2017, mas o rendimento dos portugueses não acompanhou esta subida. Contudo, há outras razões que permitiram esta “ganância imobiliária”, entre elas:
- O “boom” do alojamento local e o turismo, que provocaram um aumento na pressão sobre os inquilinos.
- O investimento e financiamento de casas, que permitiram às pessoas optar por investir as suas poupanças no mercado imobiliário pois este não tem limite, ao invés de depositar nos bancos sem obter qualquer retorno.
- O Estado e a Câmara de Lisboa que também contribuíram, através da legislação e políticas adotadas, como os vistos gold e os benefícios fiscais a residentes não habituais.
- Desde 2010 que não eram concedidos tantos empréstimos para a compra de casa em Portugal, e, se continuarmos ao mesmo ritmo, 2018 poderá bater o valor registado no período pré-troika. As habitações, as aquisições imobiliárias e as atividades de construção são financiadas pelo crédito, e estes ativos são usados como garantia aquando da concessão de empréstimos, daí que o setor bancário esteja extremamente “exposto” ao mercado imobiliário. A juntar a tudo isto, recentemente, as taxas de juros em Portugal atingiram valores bastante baixos, o que criou a expetativa de um aumento do montante dos empréstimos, aumentando ainda mais a subida dos preços.
- E, finalmente, a alteração da lei das Rendas em 2012, cujo objetivo era aumentar o número de habitações para arrendamento através da liberalização do mercado de arrendamento (legislação muito pressionada pela troika).
Quem sofre são as famílias portuguesas, que estão a viver um cenário aterrorizante e angustiante. Algumas vivem com o medo de receber uma carta do senhorio a informar da não-renovação do contrato, outras estão a ser despejadas de forma cruel e atroz. Se, por um lado, as famílias estão a perder as moradias onde viveram grande parte da sua vida, por outro lado, estamos perante uma geração de jovens para quem o conceito de ter uma casa é fictício. Neste situação também se enquadram os estudantes universitários, que vivem um pesadelo, isto é, os preços dos quartos continuam a disparar e muitos não encontram outra alternativa senão aceitar os preços exorbitantes que lhes são solicitados pelos proprietários gananciosos, que se aproveitam desta situação imobiliária pois têm a consciência que vão conseguir arrendar “num instante”.
Contudo, é errado pensar que os preços das casas que se verificam atualmente são os mais altos de sempre e que as habitações estão mais caras que nunca. Houve períodos da economia portuguesa em que os preços foram maiores, no entanto, o que diminuiu foi o poder de compra. Em contrapartida, os preços das rendas têm aumentado de forma constante desde 1995. Os portugueses optaram por arrendar em vez de comprar devido aos desenvolvimentos no funcionamento do mercado de rendas e à crescente acessibilidade a estes, o que provocou uma subida nos preços.
Não há dúvida que tem de se pôr um travão à especulação imobiliária, contudo, não nos podemos esquecer que foi graças aos “especuladores” que houve uma reabilitação dos imóveis mais antigos e degradados, e que permitiu um aumento na quantidade de casas habitáveis disponíveis para a população.
Os preços estão a subir porque a procura é maior do que a oferta, logo, a meu ver, a aplicação de taxas na venda de casas não é uma solução viável, pois estaríamos a correr o risco de reduzir as casas que vêm para o mercado, aumentando ainda mais os preços das habitações. Assim, o maior problema é que qualquer coisa que se faça neste momento vai fazer com que os investidores não apostem tanto na oferta, e como já se percebeu o problema é a falta de oferta e não a procura frenética. Uma “possível” solução seria a adoção de um modelo similar ao de Barcelona, em que 30% da construção residencial é reservada para a população.

Jéssica Marina Fernandes Eiriz

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 30 de setembro de 2018

Os compadres de Pedrogão

“Pedrogão” foi uma palavra muito ouvida nas televisões portuguesas desde o verão do ano passado, infelizmente pelos piores motivos.
No verão de 2017, um grande incêndio tirou a vida a mais de 60 pessoas e feriu outras tantas, deixando também sem teto dezenas de habitantes neste concelho do centro do país. Sendo este um assunto que tocou o lado sensível da população portuguesa e, principalmente, daqueles que viviam em Pedrogão Grande, rapidamente surgiram donativos para tentar atenuar a dor de quem viu as suas casas, carros e animais transformarem-se em nada. À primeira vista, o pós-tragédia parecia estar associado a palavras como solidariedade e altruísmo, no entanto, se esmiuçarmos melhor este tema, logo conseguimos perceber que alguma coisa não estava a funcionar de forma correta.
Segundo os residentes deste concelho, nem a cronologia de construção de habitações parecia estar a ser adequada, nem as pessoas envolvidas seriam as certas. Segundo foi apurado, pessoas como o irmão do Presidente da Junta de Vila Facaia, funcionários da Câmara Municipal de Pedrogão Grande e a sogra do Presidente da Junta da Graça dirigiram-se às finanças, a conselho de “alguém superior”, para alterarem a morada fiscal após a tragédia ter acontecido. Ou seja, casas em ruínas e desabitadas e palheiros foram transformados em casas de 1ª habitação, para desta forma conseguirem candidatar-se aos fundos dirigidos às casas destruídas pelos fogos.
A acrescentar a isto, pessoas que viviam há mais de 40 anos em casas que foram arruinadas pelas chamas continuam a viver em casas alugadas pela segurança social e pagas por todos os contribuintes, e casas que nem sequer tinham ardido já estão prontas a habitar e vender. Além disso, pessoas que realmente precisavam de ajuda foi lhes disponibilizado um orçamento que rondava os 4.000€ e a estes “senhores” foi lhes concedido perto de 100.000€.
Estamos a falar de 500.000€ desviados para apoio indevido! Casas em ruinas, sem água e luz, desabitadas há mais de 30 anos, convertidas em moradias novas. Vergonhoso! Desperta-me uma revolta enorme ver pessoas que tudo o que lhes restou foi a roupa que traziam vestidas continuarem a viver em condições deploráveis e os donos da corrupção e da mentira estarem descansados, nas suas casas novas.
O pior disto tudo é que notícias como estas diminuem o incentivo a fazerem-se donativos e aumentam a desconfiança junto das pessoas, pela incerteza do paradeiro dos mesmos.
A meu ver, crimes como estes têm de ser punidos de forma severa, para de alguma forma se desincentivarem este tipo de ações e tem de se parar de fechar os olhos e favorecer o “amigo”, porque no final de tudo são sempre os mais fracos que acabam prejudicados.  


Bárbara Coelho

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Impacto do Brexit na Economia Portuguesa

A saída do Reino Unido da União Europeia levará a um “buraco financeiro” na ordem dos 10 mil milhões por ano para a UE, o que desafiará a uma coesão financeira entre os seus 27 membros. Sendo Portugal um dos maiores beneficiários de fundos comunitários, a saída da Grã Bretanha (um dos maiores contribuintes líquidos para o orçamento da UE) poderá ter impacto nas suas transferências futuras. Além disso, diversos estudos apontam que o Brexit poderá ocasionar um efeito dispendioso para muitos dos parceiros de importação e exportação da Grã-Bretanha, incluindo Portugal.
Um estudo publicado no início do ano de 2018 por dois investigadores do Instituto Jacques Delors, afirma que, num primeiro cenário, a compensação dos 10 mil milhões poderá ser feita através do aumento das contribuições nacionais. Este panorama incentivará o descontentamento dos contribuintes líquidos dada a possibilidade de aumentarem cerca de 15%. Em Portugal, verificar-se-ia o aumento de 7% das contribuições, isto é, o incremento de 100 milhões aos 1,5 mil milhões que contribui anualmente. Só assim permanecia a receber os 2,6 mil milhões de transferência da UE.
Outra perspetiva preza-se pelo ajustamento através da despesa, ou seja, o orçamento da EU seria comprimido em 10 mil milhões de euros, sendo os mais sacrificados os beneficiários líquidos, por exemplo Portugal.
Ainda uma terceira hipótese consiste numa solução mista: corte de 5 mil milhões de euros na despesa e aumento das contribuições nacionais, o que penaliza, maioritariamente, os contribuintes líquidos. Desta forma, Portugal pagaria mais 38 milhões de euros. No entanto, para este e para as suas empresas, o impacto total não é claro, uma vez que depende do desenvolvimento da saída do Reino Unido da UE.
A nível do comércio internacional, é um dos principais destinos de exportação de Portugal - “segundo o INE, em 2015, cerca de 6,7% dos bens e serviços portugueses foram exportados para o Reino Unido, sendo este o quarto maior mercado de destino das exportações portuguesas”. Assim sendo, após o Brexit são esperadas alterações no comércio internacional, tais como a inclusão de tarifas, maior controlo de fronteiras bem como maior volume de impostos.
Por conseguinte, com o possível Brexit, as exportações para o Reino Unido irão diminuir o bastante para provocar uma grande adversidade para as empresas portuguesas exportadoras e um possível défice na balança comercial de Portugal. Nos últimos cinco anos, a balança comercial de bens e serviços entre estes dois países foi conveniente ao nosso, salientando-se o crescimento médio anual das exportações nesse período de cerca de 9,2%. Pelo contrário, as importações contraíram aproximadamente 2,8%, refere uma análise da AICEP àquele mercado.
Um estudo efetuado pela empresa de seguros de crédito Euler Hermes sobre o efeito do Brexit nas relações comerciais entre os Estados-membros da União Europeia simulou o impacto em dois cenários: Brexit, mas com acordo de livre comércio, ou Brexit sem qualquer acordo para a troca de bens e serviços entre Reino Unido e UE. Na possibilidade de se estabelecer acordo comercial, é estimado um impacto negativo no PIB português de 0,2% no acumulado entre 2017 e 2019. Caso contrário, o impacto será ainda maior, estimando-se que o crescimento do PIB fique 0,3% abaixo do que seria esperado por efeito do Brexit.
É de salientar o facto de os Britânicos serem um dos maiores investidores em Portugal, sendo que, em 2016, foram o segundo país que mais investiu em Portugal, rondando os 582 milhões de euros. Além disso, são os principais visitantes estrangeiros em Portugal e este é um dos domínios onde mais se receiam os efeitos do Brexit. “Em 2014 e 2015, mais de 20% dos turistas que dormiram em Portugal tinham nacionalidade britânica, uma percentagem que sobe para 30% na região do Algarve”.
Pessoalmente, acredito que o Brexit danificará as relações comerciais entre a Europa e o Reino Unido, pela consequente reformulação do comércio com este país. A mudança de preços tornaria os bens e mercadorias portugueses menos atrativos aos consumidores Britânicos, levando a um grande impacto negativo nas exportações portuguesas.
Pressuponho que o Governo Português está e deve preparar-se para a ocorrência do Brexit,  pois poderá ter enorme impacto na economia portuguesa. Além de que, recentemente, Portugal superou uma recessão profunda, no entanto, o PIB continua abaixo do potencial, logo encontra-se numa posição muito frágil para absorver um choque macroeconómico.
Para concluir, é importante clarificar que o Brexit poderá, também, ser uma mais-valia, podendo ocorrer o êxodo de entidades financeiras e de empresas sediadas no Reino Unido e, desta forma implantarem-se em Portugal.

Alexandre Barbosa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Portugal sobre rodas

No mês de julho de 2018 verificou-se uma alteração na tendência das contas nacionais: o crescimento das exportações foi superior ao crescimento das importações, tendo estas apresentado uma taxa de variação homóloga de 13% contra os 11% registados pelas importações. Este acontecimento conduziu a uma redução do défice da balança comercial portuguesa.
O contributo do setor do Material de Transporte (inclui automóveis) para o aumento das exportações foi significativo, uma vez que este cresceu 37% relativamente ao ano anterior. Para tal, enfatiza-se a elevada produção da Volkswagen AutoEuropa, reforçada para possibilitar a produção em maior quantidade do novo modelo, T-ROC.
Segundo um estudo da Mobinov e da Deloite, o cluster da indústria automóvel em Portugal conta com cerca de 900 empresas, apresenta um volume de negócios significativo, com uma crescente geração de riqueza (16% do VAB da indústria transformadora), com caráter fortemente exportador (cerca de 20% das exportações de bens transacionáveis e 98% do volume de negócios é exportado) e garante empregabilidade (27% dos empregos gerados na indústria transformadora nos últimos 5 anos). No total, a riqueza anual criada equivale a 2,6% do PIB nacional (VAB em 2016).
Deste modo, prevê-se que os valores de produção anual em Portugal continuem a crescer, e que o número de automóveis produzidos se aproxime das 300 mil unidades. Esta perspetiva de aceleração da produção está relacionada com a produção do modelo T-ROC na Volkswagen Autoeuropa, do K9 na PSA Mangualde, do primeiro camião 100% elétrico Mitsubishi Fuso Trucks e do aumento de veículos “verdes” na Caetano Bus (garantindo um crescimento sustentado).
         Após esta análise, concluo que cada vez mais a indústria automóvel se revelará de extrema importância para a economia portuguesa, em diferentes níveis. A meu ver, com os aumentos esperados da produção, serão gerados novos postos de trabalho, contribuindo desta forma para a redução da taxa de desemprego portuguesa, proporcionando uma maior qualidade de vida à população. Contudo, temos que contabilizar o facto desta indústria ser fortemente automatizada, o que pode levar a que o aumento dos postos de trabalho não seja tão grande quanto podíamos esperar. Por outro lado, com o crescimento esperado das exportações, talvez a balança de mercadorias se torne finalmente positiva. Esta indústria poderá projetar internacionalmente o país que, por sua vez, poderá aumentar os investimentos futuros na economia portuguesa.
         Sinto-me otimista perante este crescimento, contudo a forte dependência desta indústria também pode ser algo negativo, uma vez que se algo correr mal mais difícil será o conserto da economia, e sendo a Alemanha que apresenta um maior investimento externo nesta indústria, estamos sempre condicionados a este país. Outro ponto menos positivo neste ramo centra-se na questão desta indústria ser fortemente exportadora, mas também importadora, tendo em conta que os componentes dos automóveis provêm de várias partes do mundo.
Será o contínuo crescimento da indústria automóvel a alavanca necessária para o crescimento sustentado da economia portuguesa? Ou ficaremos em ponto morto?

Tânia Gabriela Carvalho da Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sábado, 29 de setembro de 2018

PORTUGAL: O “PARAÍSO” DE MADONNA?

Recentemente, Madonna, que há sensivelmente um ano escolheu Portugal para viver, publicou nas redes sociais mais um vídeo, nas praias da Comporta, com a descrição: “This is Portugal… This is heaven”.  Sendo que vivemos na era da comunicação e do mundo digital, este gesto da cantora poderá provocar algum impacto, resultando na atração de mais visitantes ao nosso país, tendo em conta os seus milhões de seguidores.
Madonna, assim como outras figuras mediáticas, têm sido boas aliadas do Turismo de Portugal, contribuindo para promoção do nosso país e expansão deste sector. Mas, claramente que o nosso sucesso turístico não se deve só a estas ações isoladas.
Na minha opinião, Portugal teve sempre os ingredientes necessários para ser um destino turístico de excelência. As nossas paisagens, o nosso sol, a gastronomia, cultura, património e a simpatia dos portugueses tornam o nosso país apelativo para os estrangeiros. No entanto, sendo este setor muito concorrencial, Portugal foi ocupando lugares secundários nas tabelas dos melhores destinos. Porém, esta situação tem vindo a alterar-se. Considero que o sucesso da nossa seleção de futebol, a vitória na eurovisão, a organização da web summit, os bons resultados económicos dos últimos 3 anos, a segurança do nosso país, assim como a avaliação positiva de diferentes revistas e sites de viagem, valorizaram ainda mais a nossa imagem no exterior.
Deste modo, não é de admirar que o fluxo de turistas tenha aumentado muito nos últimos anos. Se compararmos alguns indicadores, fornecidos pelo INE, comprovamos este crescimento. Por exemplo, os meios de alojamento turísticos, em 2010, registaram 45 milhões de dormidas, enquanto que, no ano passado, registaram-se mais de 65 milhões. Quanto às receitas do Turismo, em 2010, o valor foi de 7 611 milhões de euros, enquanto que, em 2017, este valor subiu para 15,2 mil milhões de euros.
         Este crescimento no turismo tem favorecido a diminuição na taxa de desemprego, devido à criação de vários postos de trabalho. Segundo os mesmos dados estatísticos, os setores de alojamento e restauração registavam 279,2 mil postos de trabalho em 2016, número esse que cresceu para 323,2 mil em 2017. Ou seja, em apenas 1 ano foram criados cerca de 44 mil novos postos de trabalho graças ao crescimento deste sector. 2017 foi um ano extraordinário em termos de turismo porque, pela primeira vez, o número de estrangeiros que visitaram o nosso país superou o número da população portuguesa. No total de 20,6 milhões de hóspedes, 12,7 milhões eram estrangeiros.
No entanto, o turismo traz algumas consequências, as quais devemos identificar e tentar corrigir. Eu considero que a sua maior desvantagem relaciona-se com o aumento da procura de alojamento por parte dos que nos visitam. Neste sentido, temos assistido a uma crescente especulação no setor imobiliário no que se refere ao preço de venda e ao custo do arrendamento. Assim, torna-se cada vez mais difícil encontrar casas, relativamente acessíveis, em cidades como Lisboa e Porto, e os residentes voltaram a preferir as periferias. Será fundamental controlar este problema para que não cheguemos a situações extremas, como acontece no estado da Califórnia, nos EUA, onde milhares de pessoas, muitas delas com empregos, vivem nas ruas, pelo simples facto das rendas serem insuportáveis.
Neste sentido, o governo tem criado alguns instrumentos de apoio à revitalização dos centros históricos e recuperação de edifícios, com o intuito de aumentar a oferta, obrigando os preços das habitações a baixar. Foram também implementadas medidas para proteger os inquilinos, residentes nessas zonas, particularmente idosos e pessoas com deficiência, para que as suas rendas não sejam aumentadas de forma exagerada, nem haja a possibilidade de serem despejados.
Contudo, apesar destes aspetos negativos, é inegável o contributo do turismo na economia nacional. Este sector é a nossa maior atividade económica exportadora (50,1% das exportações dos serviços e 18% das exportações totais), pelo que devemos continuar a promover e a melhorar a imagem do nosso país, para que continue a ser a escolha dos turistas.

Ana Isabel Rodrigues Ferreira

Referências:
https://ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_main&xpid=INE

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

“Boom” Imobiliário em Portugal…Lição aprendida com o Lehman Brothers?

Passada uma década desde a “maior  falência  de  todos  os  tempos”,  a  pergunta que  me  ocorre  é  a  descrita  no  título.  Seremos capazes de  antecipar  os  sinais  que  levaram  à  falência  do  quarto  maior  banco  de  investimento  norte-americano  e prevenir  um  cenário  de  crise  económica  profunda?  Será  que  a  euforia  ligada  ao  setor  imobiliário (em  Portugal,  particularmente)  nos  pode  levar  a  uma  espécie  de    crise  subprime?
Observando  o  nosso  país,  penso  que  a  nossa posição  a  nível  económico,  embora  evolua  favoravelmente  (há  que  reconhecer  o  grande  mérito  do  nosso  ministro  das  finanças e do atual governo),  ainda  é  frágil.  Temo  que  um  abalo  de  origem  externa  possa  fazer  tremer  os alicerces  que  estamos  a  reconstruir. 
Nos  EUA,   10  anos ,  o  clima  que  se  vivia  era  de  euforia.  Era  uma  altura  onde  todos  achavam  que  podiam  ter  uma  grande  casa, uma  mansão,  ou  mesmo  uma  casa  na  cidade  e  uma  na  praia,  e  para  tal   “apenas”   precisavam  de  pedir  um  empréstimo.
O  grande   problema  é  que  o  “apenas”  escrito  no parágrafo  anterior  era  um  “apenas”  sem  as  aspas,  ou  seja,  bastava  mesmo  ir  ao  banco  e  pedir  um  empréstimo  (absurdamente,  houve  até  quem  colocasse  a  hipoteca  em  nome  do  cão).  Os  grandes  cúmplices  destas  famílias  americanas  e  os  principais  culpados  eram,  obviamente,  os  bancos.  O  slogan  na  altura  era:  “se  você  tem  pulsação,  nós  damos-lhe  crédito”.  Não  é  difícil  perceber  o  porquê  do  colapso.
Voltando  a  falar  do  nosso  país,  aproveito  agora  para  fazer  uma  pequena  comparação  entre  a  euforia  vivida  naquela  altura  e  a  euforia  que  se  faz  sentir hoje  em  dia  no  setor  imobiliário. 
Pelo  décimo  nono  trimestre  consecutivo,  o  índice  de  preços  da  habitação  do  INE aumentou,  o  que  é  sinónimo  de  um  aumento  da  procura  que  não  está  a  ser  acompanhado  pela  oferta. “Entre  abril  e  junho  de  2018  foram  transacionadas  45  619  habitações.  O  valor  das  vendas  foi  aproximadamente  de  6,2  mil  milhões  de  euros,  mais  34,9%  do  que  no  segundo  trimestre  de  2017.”
Estes  dados  revelam  um  “boom”  no  setor  imobiliário,  um  acontecimento  fantástico  para  o  nosso  país,  impulsionado  principalmente  pelo  crescente interesse estrangeiro  em  Portugal  motivado pelo turismo.  Embora  seja  algo  muito  positivo,  não  podemos  cair  no  erro  de  achar  que  estamos  num  conto  de  fadas.  Este  “boom”  pode  ter  tanto  de  bom  como  de  mau.
Com  o  valor  das  casas  a  subir  de  trimestre  em  trimestre,  começa  a  surgir   especulação,  o  lado  mau  do  “boom”.  O  Banco  de  Portugal   veio  alertar  para  a possível  existência  de  “alguns  sinais”  de  sobrevalorização  dos  preços  do  imobiliário,  embora  limitados,  e   impôs  regras,  como  por  exemplo  a  recomendação  da  atribuição  de  novos  créditos  apenas  a  clientes  que  gastem  no  máximo  metade  (50%)  do  seu  rendimento  líquido  com  as  prestações  mensais  de  todos  os  empréstimos  detidos. No  seguimento  destes  avisos,  verifiquei  também  que,  segundo  o  DN,  desde  2010  que  não  eram  concedidos  tantos  empréstimos  para  compra  de  habitação.
Como  todos  sabemos,  o  crédito  malparado  é  algo  que  assombra  os  nossos   bancos.  Em  2018,  houve  uma  redução  significativa  de  1,7  mil  milhões  de  euros  (1º trimestre),  o  que  comprova  as  melhorias  significativas  que  temos  sentido,  mas  o  crédito  malparado  dos  bancos  portugueses  ainda  é  de  35,2  mil  milhões  de  euros  (+/-  18%  do  PIB).
Um  possível  cenário  de  incumprimento  por  parte  das  famílias  (e  empresas)  pode  levar  este  número  para  valores  megalómanos,  podendo  arruinar  os  bancos  por  completo.  Vimos  o  efeito  da  falência  do  Lehman  Brothers  na  economia  norte-americana  (e  mundial!).  Se  algo  assim  acontecer  aos  nossos  bancos,  Portugal  cairá  numa  situação  de  onde  jamais  se  levantará.
Atestando  a  minha  confiança  nos  nossos  decisores  políticos  e  nas  instituições reguladoras  (BdP),  espero  que  continuem  a  realizar  um  trabalho  sólido  de  consolidação  e  crescimento  sustentado.
Gostaria  de  terminar  deixando  um  reparo,  lembrando  que,  por  vezes,  é  necessário retirar  o   do  acelerador  (da  euforia).  Obviamente,  precisamos  de  crescer,  mas não  devemos  trocar  um  crescimento  sustentado  e  estável,  com  perspetivas  de  longo-prazo,  por  um  crescimento  rápido  e  efémero,  colocando  em  risco  a economia  e  o  longo-prazo.  Devemos  tentar  manter  os  níveis  de  confiança  dos últimos  trimestres  e  limitar  esta  euforia  para  que  esta  se  possa  prolongar  no tempo.  Acredito  que  é  possível  e  pelo  que  vejo    esforços  nesse  sentido.
Penso  que  estivemos  atentos  e  afinal…  a  lição  foi  aprendida!

MIGUEL ÂNGELO MARQUES FERNANDES  

Webgrafia:    
·        TVI24
·        PORDATA
·        Jornal de Negócios
·        INE
·        Dinheiro Vivo
·        Diário de Notícias
·        https://www.pordata.pt/Europa/Produto+Interno+Bruto+(Euro)-1786
·        http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/detalhe/como-e-que-estao-a-evoluir-os-precos-das-casas

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]