quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Verde, como o dinheiro, e… como a Economia?

Foram inúmeros os anos em que, de modo a potenciar o crescimento económico, a utilização dos recursos naturais foi feita de forma irrefletida, quase irresponsável, como se eles fossem ilimitados, o que levou a uma crise dos mesmos e, consequentemente, à ameaça iminente de escassez e subida de preços. Assim, é premente atuar de forma sustentável, de forma a melhorar o futuro, e é necessário fazê-lo já. Na verdade, recentemente, António Guterres alertou que temos apenas dois anos para lutar contra as alterações climáticas.
Surgiu, então, o conceito de Economia Verde, a partir da Rio-92, que é definida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) como “uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo que reduz os riscos ambientais e escassez ecológica”, e que é caraterizada por baixa emissão de carbono, eficiência no uso de recursos e busca de inclusão social.
São muitos os aspetos que podemos melhorar para atingir esta Economia Verde. A meu ver, o conceito de sustentabilidade já está presente em vários lugares, como por exemplo no mundo empresarial: para exemplificar, depois de apresentadas as medidas da União Europeia para combater o excesso de plástico, alguns líderes de fast food como o McDonald’s e o Burger King já estão, em alguns países como o Reino Unido, a adotar medidas alternativas às palhinhas de plástico, como a utilização de papel ou vidro. Também os privados, em Portugal, como a EDP e a Efacec, querem ter a sua quota parte na implementação de uma economia mais verde, estando a trabalhar em projetos de mobilidade que ambicionam usar soluções livres de emissões de CO2. Mas mesmo nas pessoas singulares já se vê uma maior preocupação em encontrar medidas mais verdes nos diversos aspetos do dia-a-dia.
Observando o panorama nacional referente a esta temática, ainda este mês, durante a Lisbon Mobi Summit, o ministro do Ambiente, José Matos Fernandes, corroborou que Portugal está na linha da frente no combate às alterações climáticas, afirmação essa que assegura que o país está, de facto, a esforçar-se para ter papel preponderante na luta para travar os efeitos do aquecimento global. Matos Fernandes recordou que Portugal foi um dos primeiros países a ratificar o Acordo de Paris. Em 2016, foi traçada uma das metas mais ambiciosas de sempre para travar os efeitos do aquecimento global: neutralizar, a partir de 2050, as emissões de dióxido de carbono (CO2) emitidas para a atmosfera, “Uma verdadeira transformação socioeconómica”, nas palavras do ministro, porque as emissões de Portugal têm de baixar das 67,8 megatoneladas de CO2 para cerca de 10 megatoneladas de CO2, que terão de ser absorvidas pela floresta.
Relativamente às políticas do Governo, os transportes são o principal alvo, pois são eles que são responsáveis por mais de um quarto das emissões. 720 milhões de euros é a quantia direcionada para, nos próximos cinco anos, tornar os transportes públicos, os automóveis particulares e frotas mais eletrificados. Esse plano de investimento do Governo inclui, por exemplo: a compra de 516 autocarros com muito baixas emissões; o financiamento, em 110 milhões de euros para o metro de Lisboa adquirir 14 novas unidades triplas elétricas; o apoio, em mais de 55 milhões de euros, para a CP encomendar 22 novos comboios regionais; a ajuda para a renovação do parque automóvel dos taxistas; e ainda os incentivos, de 2,25 milhões de euros por ano, para particulares e empresas comprarem automóveis elétricos.
A título pessoal, tenho observado em Braga essa tentativa de combater as emissões nefastas dos transportes para o ambiente: houve, este ano, uma requalificação e expansão dos 5 km da ciclovia da variante da encosta, provavelmente numa tentativa de atrair mais cidadãos à utilização das bicicletas em substituição de meios mais poluidores; bem como a aquisição de uma frota de 6 autocarros elétricos de emissão zero.
Em suma, como se pode ver através da própria definição, a Economia Verde vai muito além das questões ambientais, centra-se, sim, na pessoa e na sociedade. Isto porque no futuro continuarão a existir pessoas e é nelas que temos que pensar, no que lhes vamos deixar como herança, no futuro que nós queremos. A questão prende-se com o quanto estamos dispostos a ser altruístas e preocupar-nos com a nossa pegada ambiental, a longo-prazo. Mas eu acredito na humanidade.

Rita Inês Cunha Meira Carvalho
[Bibliografia]
·        Dinheiro Vivo
·        Mobi Lisbon Summit
·        Jornal económico
·        Economia Verde 2020 – Desafios e Oportunidades para as Empresas

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Há cada vez mais gente em Lisboa e cada vez menos lisboetas

    Lisboa e os bairros populares estão cada vez mais a ganhar terreno como destino turístico de preferência. Em simultâneo, o seu mercado imobiliário adquire formatos de ativo financeiro e atrai a procura e o investimento estrangeiro. Mas quais são as implicações destas mudanças na vida de Lisboa e dos lisboetas?
    Os programas governamentais e a alteração na política urbana captaram o interesse de uma elite estrangeira e favoreceram o investimento no imobiliário e na reestruturação urbana de Lisboa. Assiste-se assim a uma gentrificação turística da capital portuguesa, isto é, há uma alteração na dinâmica do centro histórico da cidade e dos seus bairros populares, que se transformaram em locais focados no consumo e no turismo, preocupando-se com a criação de mais espaços recreativos e de lazer. Aumentou também o interesse em criar mais alojamentos turísticos ou de arrendamento de curta duração que, gradualmente, começam a substituir as habitações de uso permanente ou de arrendamento de longa duração. Consequentemente, agravam-se tendências de desalojamento e segregação residencial, sendo que a reabilitação dos prédios desocupados nestas áreas levou ao aumento exponencial de rendas, implicando a expulsão de moradores mais vulneráveis e o encerramento de comércio histórico, ou seja, levou a um desalojamento residencial e comercial. Os bairristas, que fazem parte da essência da cidade e uma das razões do interesse internacional, estão a sair e a população de baixo estatuto socioeconómico não consegue aceder à habitação nestas áreas. Isto coloca em risco a sustentabilidade social da cidade, que ao perder estes aspetos sociais e económicos perde também parte da sua identidade, memória e autenticidade.
   Por outro lado, o boom no turismo levou à criação de novos negócios em Lisboa, nomeadamente ao nível do arrendamento de quartos, um mercado para o qual muitos jovens portugueses se lançaram, dando assim os primeiros passos no mercado trabalho, mesmo que não seja através de empregos diretos ou com rendimentos acima da média. O turismo levou ainda à regeneração e preservação do património, com a reabilitação de edifícios degradados, e a criação de emprego, numa altura em que a taxa de desemprego portuguesa assumia valores preocupantes. Contudo, a ausência aparente de planeamento e de processos de regulação pode ter consequências nefastas.
   Um dos impulsionadores da expansão do turismo em Lisboa foi a popularização de plataformas online, como a Airbnb ou Booking.com, que não só fornecem um leque de escolhas diverso como também mostram os preços acessíveis. Deste modo, estabelecimentos como o Alojamento Local em bairros como a Mouraria ou Alfama tornaram-se mais populares, com turistas a procurarem experiências urbanas autênticas e uma alternativa à oferta hoteleira convencional. Estes estabelecimentos surgem no mercado como apartamentos individuais ou ocupando edifícios inteiros, com este último a representar 75% do mercado lisboeta, e geridos por profissionais ou pelos seus proprietários, auxiliados por plataformas, como a já referida Airbnb. Porém, este micromercado está a criar tensões no mercado imobiliário, com as rendas a aumentarem entre 13% e 36%, entre 2012 e 2017, e os preços de aquisição subiram até 46%, variando de acordo com a zona da cidade. Estima-se que tal exija que entre 40% e 60% do rendimento familiar seja dedicado à habitação, levando a que muitas famílias sejam obrigadas a abandonar estas áreas. Desde 2013, a freguesia de Santa Maria Maior, de que fazem parte Alfama, Chiado, Castelo, Mouraria e Baixa, perdeu quase 2000 habitantes, com várias associações a defenderem que existem centenas de desalojados, o que é significativo, tratando-se de populações vulneráveis e em risco social.    
   Em suma, nos últimos anos, o mundo começou a olhar para este paraíso à beira mar como um destino atrativo e muito desejado, não só para férias, mas para habitação. No entanto, se por um lado motivou a economia e criou o estímulo que era necessário para iniciar o processo de recuperação depois da crise, tornou a aquisição de uma habitação nos bairros que conferem autenticidade a Lisboa um sonho inatingível para muitos lisboetas, uma vez que os preços, tanto de aquisição como de arrendamento, aumentaram exponencialmente. Há cada vez mais ingleses, franceses e italianos e cada vez menos lisboetas em Lisboa, sendo necessário criar políticas de regulamentação e fiscalização para contrariar estas tendências de substituição, pois caso tal se mantenha Lisboa perderá a sua essência e muito do que a torna tão atrativa.

Mariana Monteiro da Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Rendimento Básico Incondicional

  Uma ideia antiga que tem vindo a ganhar espaço de debate nos últimos anos, o RBI (rendimento básico incondicional), consiste numa prestação atribuída a cada cidadão, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, não discriminado crianças, trabalhadores ou reformados. Este tem como objetivo garantir autonomia às pessoas, principalmente em situação mais vulnerável, dando o mínimo necessário para uma vida digna, sem burocracias nem estigmas associados.
   Muitos são os defensores deste tipo de rendimento da esquerda à direita do espectro político, por ser um mecanismo justo onde as pessoas têm o suficiente para garantir condições de vida decentes de acordo com os padrões sociais do seu país, e liberdade para gerir o dinheiro da forma mais conveniente face às suas necessidades. É um instrumento de combate às desigualdades que dá primazia à liberdade individual, pois abre portas para as pessoas se dedicarem a atividades de seu desejo ou menos bem remuneradas, mas também elas necessárias, sem necessitarem de estar presas a um trabalho. E é uma alternativa aos salários num futuro onde o trabalho será escasso, fruto da automação, e onde o rendimento pode não estar associado a um emprego.
   Desta forma, o RBI pode parecer um instrumento onde todos saem a beneficiar, preparando-nos ao mesmo tempo para o futuro. Porém, ao analisar as formas de financiamento deste surgem diversos entraves para que seja benéfico para a sociedade no seu todo pois financiá-lo passa, maioritariamente, por aumentos em certos impostos, alterações de taxas nominais e escalões do IRS, IRC e IVA, criação de novos impostos, assim como poupança em gastos atuais na Segurança Social substituídos pelo RBI, o que significaria o fim de certas prestações socias e subsídios ligados à saúde e educação, direcionados a cidadãos específicos e vulneráveis, podendo levar ao desmantelamento do Estado Social. Para além disto, teme-se que os esforços financeiros necessários para suportar o RBI estejam acima do razoável, uma das razões pela qual em 2016 a Suíça rejeitou em referendo a implementação do rendimento que garantiria a todos os cidadãos adultos €2264 mensais e cerca de €500 para as crianças, evitando um custo de €22 mil/ano, que levaria a uma considerável queda do PIB suíço compensada por aumentos de impostos, que deixariam os cidadãos no limiar da pobreza.
   Em Portugal, apesar do RBI nunca ter sido aplicado, os seus custos foram avaliados num estudo do investigador da Universidade do Minho. Pedro Alexandre Teixeira concluiu que mesmo uma modesta quantia de 200 euros mensais para todos os portugueses custaria 25,3 mil milhões por ano, mais do que o que custa pagar a toda a função pública e quase o mesmo que todas as funções sociais do Estado, ou €16,2 mil milhões, se considerarmos a poupança derivada da substituição de certos subsídios pelo RBI. No entanto, este é um valor muito inferior ao necessário para garantir uma vida digna em Portugal e quanto maior a mensalidade mais evidente o problema de financiamento se torna. Isto faz com que um RBI aplicado em Portugal envolva um esforço coletivo por parte dos cidadãos através de aumentos de impostos, sem garantias de sucesso.  
   Numa perspetiva mais conservadora, surge o receio que um RBI desincentive a procura de trabalho e arrase a produtividade do país, apesar de alguns exemplos de rendimentos incondicionais, como o do Alasca, onde todas as pessoas recebem cerca de $160 por mês, mostrarem que este pode não ser o caso, havendo pouco impacto na propensão a trabalhar e havendo apenas um aumento dos trabalhos em part-time. No entanto, quem sabe se uma mensalidade mais elevada não levaria a uma ampliação destes efeitos tal, como a um aumento geral dos preços, gerando inflação na economia e complicando a situação dos cidadãos mais fragilizados.
   Com todas estas contrapartidas, será o RBI um bom mecanismo de integração social ou o potencial causador de mais discrepâncias e pobreza? Será uma garantia de liberdade financeira para as pessoas ou será o fim do Estado Social? Será a única alternativa para um futuro onde poderá não haver trabalho para todos ou uma dissociação precoce do rendimento em relação ao trabalho sem certeza dos impactos que a tecnologia trará?
Não é fácil responder a estas questões, não só pela impossibilidade de saber o futuro, como por não haver nenhum país com um RBI ativo em todas as suas dimensões que sirva de exemplo. O que se sabe é que um rendimento desta natureza trará grandes mudanças a nível económico e social, por isso é aconselhável agir com prudência, começando por mensalidades mais baixas e ir aumentado à medida que os seus impactos são estudados, a fim de evitar choques na economia e garantir um melhor aproveitamento do sistema para todos.

Hugo Vaquero

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

“Um país grisalho”

          É já sabido que Portugal é cada vez mais conhecido como sendo um país de velhos. Apesar de todas questões económicas e de sustentabilidade que o envelhecimento levanta, viver mais é uma conquista da sociedade moderna. As pessoas vivem mais anos graças ao aumento do conhecimento técnico e científico, que proporciona uma melhoria na qualidade de vida. Também o acesso generalizado aos cuidados de saúde e uma consciencialização para a adoção de hábitos mais saudáveis contribui para o aumento da esperança média de vida. Assim, concluímos que o processo de envelhecimento demográfico resultou da evolução da sociedade, e esta deve ser capaz de aceitar este fenómeno de forma natural, desenvolvendo estruturas de suporte e apoio eficientes de modo a suprimir as necessidades da população.
      Aliado ao envelhecimento da população surge também a preocupação relativamente à diminuição do número de jovens. Em 1961, a taxa de fecundidade rondava os 95,7%, enquanto que em 2017 este valor era aproximadamente 30%. Um estudo realizado pelo PORDATA mostra que em 2016 uma pessoa com 65 anos poderia viver em média mais 19,5 anos, enquanto que em 1970 uma pessoa com a mesma idade poderia viver apenas mais 13,5 anos. Dada esta tendência, o envelhecimento da população traz novos desafios aos países, nomeadamente no sector da saúde e segurança social. A agência de rating Moody’s revelou que a maioria dos países da UE vão estar “super envelhecidos” em 2030, com mais de 20% da população a ter 65 anos ou mais. Portugal é dos países da União Europeia que mais sentirá a pressão causada pelo envelhecimento da população e pela redução do número de jovens.
 A questão, que remete para uma adaptação da segurança social, já foi discutida e analisada anteriormente e as alterações implementadas têm garantido um bom desempenho, pelo menos no curto prazo. O sistema de segurança social atualmente em vigor é um sistema de repartição, onde se realizam transferências de indivíduos em idade ativa para os aposentados, cujo intermediário principal é o Estado. O sistema é centrado sobretudo num contrato de solidariedade intergeracional, verificando-se um desequilíbrio enorme entre os contribuintes e os beneficiários. Assim, destaca-se a forte dependência do sistema dos fatores demográficos. A diminuição da população ativa leva a uma redução das contribuições para a segurança social. O índice de sustentabilidade potencial (IPS) mostra quantas pessoas entre os 15 e 64 anos (em idade ativa) existem por cada idoso. Em 1961, existiam cerca de 8 pessoas em idade ativa para cada idoso. Em 2017, existiam apenas 3 pessoas. Para além disso, o aumento na esperança média de vida faz com que seja necessário garantir durante mais tempo o pagamento da reforma.
A melhoria registada na taxa de desemprego é um fator que alivia a pressão exercida sobre o sistema. O desemprego penaliza a segurança social de várias formas, uma vez que existem menos pessoas a trabalhar e a contribuir e aumenta os encargos com subsídios de desemprego e outras prestações sociais. Em muitos casos, estes apoios sociais podem desincentivar a procura de um novo trabalho.
Em Portugal, o sistema de repartição funcionou bem enquanto se verificou um crescimento estável entre as gerações. Atualmente, dados os problemas registados a nível demográfico, levanta-se a possibilidade de se passar para um sistema de capitalização.
O Chile é considerado como o caso de maior sucesso num processo de transição de um sistema de repartição para um sistema de capitalização. O regime de capitalização contrasta com o de repartição principalmente por estabelecer uma relação individual entre as contribuições e os benefícios. As contribuições realizadas por um indivíduo durante a sua vida ativa são incluídas numa conta individual que é capitalizada ao longo do tempo, transformando-se numa pensão no momento de reforma. O risco associado a este sistema corresponde ao risco dos investimentos no mercado financeiro.
Outro exemplo de sucesso é o sistema misto adotado pela Suécia. Os modelos mistos combinam caraterísticas do modelo de repartição e do modelo da capitalização. Neste caso, o sistema de repartição tem como principal objetivo estabelecer um valor para uma pensão mínima, que luta contra os casos de pobreza.
Os custos de transação são um fator que dificultam a passagem de um sistema para o outro. Numa situação de transição seria necessário a existência de recursos suficientes para garantir o pagamento das reformas às pessoas que se encontram aposentadas e para além disso era importante ter em conta todos os descontos já realizados pelos trabalhadores, tendo necessariamente de ser compensados mais tarde. 
Atualmente, esta temática já não é tão debatida pois as medidas que foram instauradas conseguiram resolver alguns problemas que mais atormentavam a sustentabilidade da segurança social. Apesar do envelhecimento levantar preocupações económicas importantes, todos queremos viver mais e com qualidade e, por isso, encarar o envelhecimento como sendo o monstro das sociedades modernas é uma atitude um pouco sarcástica. Hermann Melville disse: “Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver”. Assim, conclui-se que é importante garantir um Estado social que consiga satisfazer as necessidades da população, e garantir que toda a sabedoria que acompanha a velhice é preservada e transmitida. 

Patrícia Daniela Ribeiro Fertuzinhos

 [artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O velho Portugal

Tal como sabemos, a população portuguesa apresenta uma estrutura etária muito envelhecida, tendo sido considerada, em 2017, a segunda mais envelhecida da União Europeia. Estes dados causam uma série de problemas que estão direta e indiretamente ligados, visto que não existe uma solução clara que não afete outras variantes da sociedade e da economia.
Primeiramente, podemos afirmar que, segundo dados de 2017, a população portuguesa viu o seu grupo etário mais jovem (crianças até aos 14 anos) decrescer de forma mais acelerada a partir de 1985. Dados do Pordata mostram que a população infantil portuguesa diminuiu 14,6 pontos percentuais desde 1971. Por outro lado, a população com mais de 65 anos aumentou em 11,6 pontos percentuais, tendo tido a população em idade ativa um pequeno aumento, mas nada significativo, e aqui surge o problema.
O sistema de segurança social português tem como base o desconto que trabalhadores fazem para quando, futuramente, forem reformados terem um rendimento mensal assegurado, conforme o trabalho que exerceram durante a sua vida ativa. O que se começa a verificar é então que daqui a uns anos a população empregada atual não terá o devido recebimento e será prejudicada, isto porque, tal como se começa a verificar-se nos dias de hoje, a população em idade ativa tem de suportar todas as pensões e subsídios de desemprego da segurança social, tendo ainda de investir na educação das suas crianças. Por outras palavras e simplificando, nem toda a população em idade ativa trabalha, a taxa de emprego portuguesa é de 53,6%, o que significa por cada 100 pessoas em idade ativa, apenas cerca de 54 trabalham. Esta parte da população ativa é que cria recursos para o funcionamento da segurança social. Porém, este é um número muito baixo.
Das remunerações destes indivíduos, para além de saírem descontos que asseguram subsídios de desemprego e pensões, uma boa parte é investida na educação dos filhos que estudam cada vez mais por mais tempo, e, assim, este grupo de trabalhadores é que sustenta todo o resto da população, ficando com pouco para poupanças que consigam garantir uma qualidade de vida melhor na idade de reforma, dado o facto de que o valor médio das pensões nos dias de hoje tender a diminuir e as poupanças ao longo da vida representarem um apoio bastante importante para a manutenção do nível de bem-estar na idade mais avançada.
Visto que a parte mais baixa da pirâmide etária portuguesa está a diminuir consideravelmente, este problema que agora temos vai-se agravar. O colapso da segurança social não é algo que surpreenda a população. Contudo, este problema é atualmente agravado pelo que JP chamou em 2016 de “Fuga de cérebro”. Este fenómeno descreve o facto da população portuguesa, após atingir altos níveis de ensino, sair do pais para arranjar emprego e melhores condições de trabalho. Por um lado, é compreensível que a idade de reforma aumente para que se consigam evitar grandes números de pensões, por outro lado, tal causa incentivo à população mais jovem emigrar, nomeadamente os que têm qualificações mais altas.   
Em suma, o tema abordado é muito sensível e alterações nas suas políticas podem trazer muitas consequências para toda a economia e bem-estar da população. Porém, na minha opinião, devia ser algo realmente discutido com o objetivo de ser realmente solucionado, mas lentamente, porque pode ter consequências muito negativas no futuro e tornar-se num problema de ainda maior seriedade. Contudo, e consoante o tempo passa, o problema agrava-se, afetando cada vez mais portugueses. Futuramente, a segurança social pode tender a falir se não forem tomadas medidas corretas, medidas estas que, a meu ver, passam pela criação de turnos e diminuição de horas de trabalho e, talvez, até a criação de um setor intermédio para pessoas de mais idade, de maneira que estas conseguissem passar o seu cargo a jovens adultos que pretendam entrar pela primeira vez no mercado de trabalho.

Ana Isabel Araújo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Quanto é que as famílias portuguesas poupam?

O crescimento económico, a oferta de trabalho, o consumo e a política governamental são uma combinação de várias áreas da economia que definem a poupança.
A taxa de poupança das famílias portuguesas é um indicador muito importante para explicar variados desequilíbrios macroeconómicos no nosso país. Desde 1970 até à data de hoje existiram três resgastes e, através de dados estatísticos, pode-se observar que estes aconteceram após uma queda da poupança. Para além disso, logo depois dos resgastes, a poupança aumenta significativamente. Após a adesão do euro, essa situação passou a estar menos acentuada, notando-se uma estabilização, tirando o período entre 2005 e 2009.
Desde 2000 até 2015, a balança corrente em países deficitários tem sofrido várias oscilações, no entanto, países como a Irlanda, Portugal, Espanha e a Grécia obtiveram o seu ponto mínimo por volta de 2008, o que coincide com a crise financeira.
A poupança é distribuída de uma forma muito desigual nas famílias portuguesas e apenas uma pequena percentagem de famílias poupam. Pode-se afirmar que esta distribuição desigual se baseia nos rendimentos das famílias, isto porque famílias com níveis superiores de rendimento e riqueza apresentam um maior nível de poupança. Há ainda famílias que apresentam um nível de poupança negativo. Para além disso, ele apresenta uma relação com o nível de educação e o agregado familiar. Quanto maior o nível de educação, maior a poupança. Por outro lado, quanto mais elevado o número de membros do agregado familiar, menor é a taxa em questão. 
Sobre a taxa de poupança dos países euro deficitários, Espanha e a Grécia tiveram o seu mínimo por volta do ano de 2011 e a Irlanda no ano de 2009. Já Portugal foi entre o ano de 2009 e 2010. No seguimento dos dados anteriores, pode-se afirmar que a taxa de investimento dos países do euro deficitários decresceu após o ano de 2007 (tirando a Irlanda, em que fora no ano de 2006), chegando a atingirem o seu mínimo por volta do ano de 2013, sendo a Grécia o país que apresenta o valor mais baixo.
Relativamente à distribuição da poupança por escalões etários, podemos concluir que a taxa de poupança vai aumentando até atingir o seu pico entre os 45 e os 64 anos. Após esta idade, começa a decrescer, isto porque os indivíduos deixam de trabalhar e passam a ter que gastar também as poupanças anteriormente coletadas. Pode ainda constatar-se que fatores como a cultura, demografia e outros explicam os diferentes níveis de poupança dentro do país e comparando países entre si.
A taxa de poupança encontra-se relacionada negativamente com o saldo orçamental e positivamente com a taxa de juro nominal e o crescimento do PIB, no longo prazo. A taxa de juro de longo prazo na Alemanha foi diminuindo, no geral, desde 1986 até 2015. Em relação a Portugal, contando com várias oscilações, esta foi diminuindo até 2005, aumentando posteriormente, no entanto, após 2012 – onde atinge o seu máximo desde 2005 – volta a decrescer.
A tendência da queda da taxa de poupança é explicada pela facilidade na obtenção de crédito, sendo que a procura de crédito por parte das famílias foi “sustentada pelas expectativas de crescimento e pela confiança na capacidade do Estado em cumprir os compromissos assumidos”. O crédito à habitação é aquele que mais endividamento traz (80,77%), seguindo-se do crédito ao consumo (7,32%), depois o cartão de crédito (6,20%), o crédito automóvel (3,36%) e, por fim, outros créditos (2,35%). Como era de esperar, e relativamente ao crédito de habitação, a faixa etária onde mais está presente é entre os 30 e os 45 anos.
Para finalizar, é de frisar que, ao comparar os quadros da União Europeia, Portugal encontra-se numa situação desfavorável, apenas sendo mais baixa na Grécia, e em Chipre.

Francisca Nogueira da Cunha

Referências Bibliográficas:
Pordata
Banco de Portugal
Instituto Nacional de Estatística
“Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa” de Fernando Alexandre e Luís Aguiar-Conraria
AMECO


[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Rendas de “luxo”

O valor atual das rendas das casas é um tema de que se fala muito nos dias que correm e que gera muita controvérsia, dadas as quantias exorbitantes. Segundo estimativas feitas pelo INE, as rendas deverão subir 1,15% no próximo ano, de acordo com a estimativa dos dados da inflação, que servem de referência ao coeficiente de atualização anual das rendas, refletindo o maior aumento desde 2013. Continuamos a observar uma tendência ascendente no preço das rendas, o que provoca preocupação dados os preços incomportáveis. Num país em que o salário mínimo é de 580€ e o salário médio é de 846€, a renda média ronda os 400€. Se olharmos para regiões como Lisboa, a renda média ronda os 830€ atualmente, representando valores completamente insuportáveis para uma família típica portuguesa.
Segundo dados da OCDE, o preço das rendas tem aumentado constantemente desde 1995. Desenvolvimentos no funcionamento do mercado de arrendamento e a crescente facilidade de acesso a este mercado, em simultâneo com uma mudança das preferências, são provavelmente as razões que justificam a preferência da população pelas casas arrendadas em vez da compra de casa, pressionando o aumento dos preços. O que tenho verificado atualmente é que compensa mais comprar uma casa do que arrendar uma casa, uma vez que a prestação paga pelo empréstimo da casa é inferior ao valor da renda. No entanto, quem não tem possibilidade de comprar casa ou simplesmente não ambiciona fazê-lo, depara-se com esta realidade. A verdade é que os números vêm comprovar que tanto os preços de venda como as rendas estão a atingir valores difíceis de comportar para o trabalhador médio.
Ainda assim, esta crise imobiliária em Portugal está a ser sentida em particular pelos estudantes universitários, que se deparam nos grandes centros universitários com pouca oferta, a preços elevados, até mesmo por um quarto! Lisboa é quase um mundo à parte, onde arrendar um quarto custa, em média, 450€, mais do dobro do que custa em Braga, onde os valores rondam os 200€. No Porto, o preço situa-se em média nos 275€ mensais, no entanto é muito comum arrendar quartos a 550€ e 600€ nas duas principais cidades. Muitas vezes, o valor da renda não tem sequer despesas incluídas, nomeadamente eletricidade, gás, água e tv por cabo.
Com estes valores, a renda representa a maior fatia do orçamento de um estudante universitário, se tivermos em conta todos os gastos, nomeadamente propinas, alojamento, alimentação e material escolar. A meu ver, isto é completamente insuportável para as famílias portuguesas. Para quem é estudante deslocado, torna-se motivo de inquietação e receio porque põe em causa a formação na universidade em que desejam estudar e é mesmo um motivo de impedimento.
O pior é que a subida de preços não parece abrandar, muito pelo contrário. A resposta das pessoas a esta situação passa pela saída dos centros para as periferias. Porém, podemos perceber que o acesso à habitação por boa parte da classe média (por arrendamento ou por compra) pode estar posto em causa, principalmente no centro da capital e no centro das cidades mais turísticas.
Este tema suscita-me bastante apreensão porque, apesar de ter a sorte de frequentar a universidade da cidade onde nasci e sempre vivi, como uma jovem adulta não vejo a oportunidade de me tornar independente, uma vez que o valor de uma renda representa mais de metade de um salário “normal”. Fora as outras despesas acrescidas, seria completamente impossível conseguir fazer face a todos os gastos.
A minha questão é: onde vamos parar? Será isto uma mudança permanente?

Inês Azevedo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]