terça-feira, 6 de novembro de 2018

“Quem não tem cão, caça com gato”

“Europa 2020” é a estratégia da União Europeia para melhorar a sua competitividade e produtividade, assegurando uma economia social de mercado sustentável, permitindo um crescimento sustentável.
Esta estratégia desenvolve-se com base em metas em diferentes áreas, como, por exemplo: da empregabilidade (garantir uma taxa de emprego de 75% na faixa etária entre os 20 e os 64 anos); da investigação e desenvolvimento (investir 3% do PIB nestes setores); da educação (reduzir  abandono escolar para menos de 10% e aumentar para pelo menos, 40% a percentagem de pessoas entre os 30 e os 34 anos que concluíram estudos superiores); da pobreza e exclusão social (diminuir em, pelo menos, 20 milhões o número de pessoas em situação de risco de pobreza e exclusão social); e, por fim, das alterações climáticas e energia (reduzir em 20% as emissões de gases com efeito de estufa em relação aos níveis de 1990; aumentar para 20% a parte da energia proveniente de fontes renováveis; aumentar em 20% a eficiência energética).
Antes desta nova estratégia, outras já tinham sido implementadas, como é exemplo o Sexto Programa de Ação da União em matéria de Ambiente (PAA), que deixou muitas metas por cumprir. Então, o que nos leva a acreditar que a Estratégia da Europa 2020 resultará?!
Apesar de as metas serem globais para a União Europeia, como um todo, estas são, posteriormente, adaptadas a cada país, dependendo do seu grau de desenvolvimento.
Por exemplo, Portugal deverá atingir 2,7% de despesas em investigação e desenvolvimento ou aumentar as emissões de gases com efeito de estufa em 1% face ao ano de 2005. Podemos ver que, Portugal não está a adotar a segunda opção.
O Potencial do efeito de estufa diz-nos quanto dióxido de carbono e outros gases causadores do aquecimento global são emitidos na agricultura, indústria, comércio ou noutros serviços, em toneladas equivalentes de dióxido de carbono. Poderíamos ser levados a pensar que a sua diminuição prejudicaria o desenvolvimento económico das indústrias, o que não é correto. Tal contradição deve-se aos novos mecanismos mais eficientes que a tecnologia nos tem proporcionado para a redução da poluição, assim como aos acordos feitos entre países. Apesar da sua diminuição no total, a realidade é que em alguns setores, como na agricultura, a educação ou nas atividades imobiliárias, o valor aumentou, embora tenha sido uma subida muito ligeira.
O campo referente ao das energias, principalmente das energias renováveis, é um dos de maior destaque para o nosso país. O objetivo da União Europeia seria aumentar para 20% a parte da energia proveniente de fontes renováveis, no entanto, em 2016, a Europa ficou-se pelos 17% de consumo de energia de fontes renováveis. No nosso país, é notório o enorme esforço feito para que a meta seja alcançada com a implementação de inúmeras medidas, como a obrigatoriedade de ter painéis solares nas casas construídas, o aumento da produção de energia eólica nos últimos anos, e os estudos feitos para um maior aproveitamento das ondas marítimas na produção de energia. Tudo isto mostra a forte consciencialização face aos problemas que o nosso planeta enfrenta.
No entanto, é quase impossível acreditar que algum dia a Europa tenha energia tão barata como os EUA têm, assim como um crescimento do consumo pela via do aumento da população.
Outra área com um grande relevo é a educação, uma vez que uma população mais formada permite o aumento da produtividade e o desenvolvimento do país.
Por exemplo, no que diz respeito ao sistema de ensino, em Portugal, a taxa de população com o ensino superior atingiu apenas 34,6% e a taxa de abandono escolar precoce ficou perto do 12,6% (longe do objetivo da União Europeia, mas o valor mais baixo desde 1992). Nestes dois campos, a União Europeia ficou mais perto de atingir o resultado pretendido, com cerca de 39,1% da população com ensino superior e apenas 10,6% de abandono precoce do ensino.
É certo que o facto de a escolaridade obrigatória ter aumentado levou a que os jovens tivessem que frequentar a escola por mais tempo, quer quisessem quer não. Esta é, a meu ver, a razão fulcral para a diminuição do abandono escolar de 23% em 2011, ano em que esta medida ainda não tinha sido tomada, para 20,5% em 2012, ano em que a medida foi implementada. No entanto, esta medida não foi suficiente para que Portugal conseguisse atingir os objetivos da União Europeia, estando, todavia, cada vez mais perto. Tiago Brandão afirmou durante uma audição que houve “algumas medidas genéricas que permitiram esta descida, como o aumento de escolaridade obrigatória, e defendeu que "agora são precisas medidas muito mais individualizadas"
“A Estratégia Europa 2020 da UE tenta ultrapassar as desvantagens recorrendo aos vetores onde poderá ter vantagens comparativas. Em linguagem popular, quem não tem cão caça com gato!” (Henrique Jacinto, Diretor- Geral da OVO Solutions).

Cláudia Sofia Amorim Rodrigues

Referências:
http://www.ambienteonline.pt/canal/detalhe/estrategia-europa-2020
           Jornal PÚBLICO
Jornal NEGOCIOS
Dados retirados de PORDATA

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

“AGEING SUMMIT”, PORQUÊ?

Não é novidade para os portugueses que a população do nosso país está a tornar-se cada vez mais envelhecida. Surge assim, pela primeira vez, março de 2018, o “Ageing Summit”, em Serralves, Portugal. Tratou-se de uma cimeira sobre o envelhecimento populacional português, onde estiveram presentes vários nomes de grande importância, conhecidos nacional e internacionalmente, tais como Nelson Machado, John Farrell e Javier Ganzarain.
O evento, constituído por 4 conferências, começou por abordar o envelhecimento demográfico, ou seja, a reconfiguração demográfica e os desafios e as políticas públicas e sociais. De seguida, questionou-se como se pode proporcionar um envelhecimento ativo e saudável para que posteriormente se possa falar sobre inovação e investimento. Por último, temas como a gestão de reformas e realidade e ainda as tendências do consumo sénior foram também tratadas.
Assim sendo, fazendo uma análise mais detalhada, o índice de envelhecimento é a relação existente entre o número de idosos e a população jovem numa certa região, concretamente, é o número de residentes com 65 anos (ou mais) por 100 residentes com menos de 15 anos. Os últimos dados do INE - Instituto Nacional de Estatística - demonstram Portugal como um país desequilibrado e envelhecido.
Vários estudos são realizados todos os dias de modo a aumentar a esperança média de vida. Neste seguimento, um estudo iniciado em 2011 em Espanha, com o objetivo de prolongar a esperança média de vida a quem sofre de doenças associadas ao envelhecimento prematuro (atualmente sem cura), permitiu aumentar em 65% a esperança média de vida de ratos de laboratório devido a duas moléculas experimentais (epz-5676 e epz-4777).
Será possível que isto seja aplicado em seres humanos? Quase de certeza que sim. No futuro, poderá ser possível tratar doenças ligadas ao envelhecimento precoce. Sendo que, atualmente, as moléculas já estão a ser testadas em seres humanos com leucemia mieloide crónica. O médico responsável pela investigação afirma que nos ratos saudáveis também se verificou um efeito rejuvenescedor, o que poderia significar uma esperança média de vida até aos 135 anos. Será isto uma boa novidade para Portugal em termos económicos?
Para Portugal, entre 2000-2050, as projeções revelam que o envelhecimento da população vai continuar devido ao aumento da esperança média de vida e também devido a uma taxa de natalidade baixa. Esta pode vir a ser atenuado com a verificação de saldos migratórios positivos, no entanto, não vai evitar que tal fenómeno aconteça.
Por volta de 2030, a população de Portugal vai ficar abaixo do limiar de 10 milhões de pessoas. No seguimento disto, entre 2015-2080, o número de jovens diminuirá de 1,5 para 0,9 milhões e o número de idosos passará de 2,1 para 2,8 milhões. Assim sendo, o índice de envelhecimento vai duplicar, ou seja, para cada 100 jovens em vez de 147 idosos passarão a ser 317, em 2080.
É de salientar que a população em idade ativa diminuirá de 6,7 para 3,8 milhões de pessoas. Assim sendo, o índice de sustentabilidade poderá diminuir de forma acentuada, devido a esse decréscimo. Este índice passará de 315 para 137 pessoas em idade ativa, por cada 100 idosos.
Vendo desta perspetiva, as expectativas para Portugal não são favoráveis e o mesmo acontece noutros países desenvolvidos, visto que a taxa de natalidade é baixa e a esperança média de vida tem vindo a aumentar. Assim, o envelhecimento demográfico traduz alterações na distribuição etária da população, sendo as idades mais avanças em maior proporção. É ainda possível afirmar, segundo o INE, que no conjunto dos 28 Estados Membros, Portugal apresenta o 3º valor mais baixo quando se fala no índice de renovação da população em idade ativa e o 5º valor mais alto para o índice de envelhecimento. Para além disso, é o 3º país que apresenta um maior aumento da idade mediana entre 2003 e 2013. Portugal, Malta, Eslováquia e Croácia são os países que vão assistir com uma maior rapidez à pressão efetuada por este acontecimento.
Este fenómeno trará um desafio aos serviços públicos de saúde e de Segurança Social. Assim sendo, para a avaliação orçamental, vai ser cada vez mais importante como os Governos adaptam os seus sistemas de cuidados com a saúde ao envelhecimento populacional.
Na minha opinião, as descobertas feitas pelos médicos-cientistas são positivas na perspetiva dos seres humanos. No entanto, enquanto estudante de Economia, tenho que ser realista ao ponto de afirmar que podem ser más notícias para a economia portuguesa, visto que trará desafios devido à queda do número de pessoas em idade ativa e ao aumento do número de pessoas em idade não ativa. Deste modo, acho que iniciativas como o “Ageing Summit” bastante importantes porque ajudam a perceber e colmatar problemas futuros.

Francisca Nogueira da Cunha

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

ISP – UM PROBLEMA OU UMA SOLUÇÃO?

      O aumento extraordinário do ISP (Imposto sobre Produtos Petrolíferos), pressuposto no OE de 2016, gerou bastante polémica. O governo defendeu que o aumento de 6 cêntimos por litro no imposto aplicável à gasolina sem chumbo e ao gasóleo rodoviário visava “corrigir a perda de receita fiscal resultante da diminuição da cotação internacional” e tinha “em consideração os impactos negativos adicionais ao nível ambiental e no volume das importações nacionais causados pelo aumento do consumo promovido pela redução do preço de venda ao público”. Contudo, de forma a responder às fortes críticas que lhe foram apontadas, quer pela oposição, quer pela ANTRAM, quer pela ANTP, o governo garantiu que iria proceder à revisão do ISP numa base trimestral, em função das cotações do preço do petróleo. Contudo, o governo fez reavaliações do ISP em maio, agosto e novembro de 2016 e só na primeira revisão é que o imposto sobre a gasolina foi alterado.
          Na primeira revisão, o imposto diminuiu em um cêntimo por litro no gasóleo e na gasolina, porque se tinha registado um aumento de 4,6 cêntimos por litro no preço de referência médio da gasolina. Na segunda revisão, em agosto, manteve o imposto inalterado. Finalmente, em novembro, o imposto sobre gasóleo registou uma descida em um cêntimo por litro e a taxa sobre a gasolina ficou inalterada. Em 2017, manteve-se o adicional às taxas do imposto sobre os produtos petrolíferos e energéticos e o governo deixou que a promessa de revisão caísse no esquecimento até dia 30 de outubro de 2018, quando Mário Centeno anunciou um alívio fiscal somente no imposto sobre a gasolina, de 3 cêntimos por litro.
Portugal, assim como o resto do mundo, é um país dependente dos combustíveis fósseis. Deste modo, não será de estranhar que o ISP esteja sempre na mira da comunicação social, alimente o “clickbait” para títulos como “Mais de metade do preço dos combustíveis resulta de taxas e de impostos”, e faça tanta “comichão” à carteira dos portugueses.
O ISP é sem sombra de dúvidas um imposto bastante alto, contudo, é um imposto que incide sobre um produto cuja utilização excessiva em nada contribui para um desenvolvimento e crescimento sustentável.
O transporte rodoviário representa, e continuará a representar, um papel preponderante no desenvolvimento social e económico, bem como no bem-estar. Contudo, e lamentavelmente, o transporte rodoviário é um dos maiores responsáveis pela poluição ambiental e pelas emissões de gases com efeito de estufa. Conciliar esta necessidade de utilização do transporte rodoviário com a obrigatoriedade de reduzir o seu impacto no ambiente e na saúde pública é um dos grandes desafios com que a humanidade em geral se confronta.
Com o preço do gasóleo ou da gasolina cada vez mais altos, porque não “viramos” o tabuleiro? Por que razão continuamos a exigir e a batalhar por uma diminuição do ISP, ao invés de lutarmos por um país eco-friendly? Porque não exigimos um maior esforço do governo neste período de transição, por exemplo aumentando o cheque de 2250 euros destinados à aquisição de um carro elétrico? Ou impedindo que a rede Mobi.e comece a cobrar aos seus utilizadores? Ou apostando fortemente na modernização e ampliação de infraestruturas e equipamentos que aumentem a eficiência dos transportes públicos?
E se virarmos novamente o “tabuleiro”, será o governo responsável pela nossa dependência dos comustíveis fósseis? Talvez, e nós? Estaremos suficientemente sensibilizados para os perigos de uma exploração e consumo excessivo de combustíveis fósseis? A palavra “sustentável” tornou-se fashionable, mas o que fazemos para entregarmos um Green Planet às gerações futuras? Por que é que nós, portugueses, continuamos a alimentar esta cultura de sobre-valorização do automóvel? Porque não há mais fatos e gravatas em cima de bicicletas, ou dentro de transportes públicos?
Portugal foi um early adopter, isto é, foi um dos pioneiros no tema das energias renováveis, e sempre se quis colocar na dianteira das políticas de descarbonização e transição energética. Os mais céticos apontam críticas aos elevados custos despendidos no desenvolvimento da tecnologia, da indústria e do conhecimento e consideram a estratégia energética “um embuste para financiar as empresas do costume”. Contudo, entrar em detalhe em tais polémicas seria uma perda de tempo pois considero que, mais do que salientar os erros e os custos, importa salvaguardar o engenho nacional e a capacidade de estarmos hoje dotados de competências que tornam Portugal num reputado produtor de energias renováveis, e isso demonstra que o investimento dos consumidores tem sido reprodutivo.
A UE estabeleceu no seu programa Europa 2020 uma meta de 20% de renováveis no consumo de energia final. Portugal foi mais ambicioso e definiu um target de 31% uma vez que já consome 28,5% de renováveis. No âmbito da promoção da mobilidade elétrica, o governo criou, em 2016, um incentivo de 2250€ a quem adquire um veículo elétrico. No OE2019, a medida manteve-se, além disso, de forma a dar o exemplo e a manter-se na vanguarda do movimento verde, o próprio Estado vai introduzir 600 veículos elétricos, exclusivamente, para organismos da Administração Pública.
O preço de um carro elétrico e a desconfiança dos consumidores em relação à sua autonomia contribuem para esta solução menos atraente e competitiva face a uma equivalente com motor a gasóleo. Por isso, os incentivos são fundamentais.
Se o governo podia dar mais incentivos... é discutível. Agora, o que é, claramente, abominável é pensarmos que Lisboa tem um sistema de transportes públicos muito bem desenvolvido, 80 km de ciclovias que serão ampliadas para 200 km, mas que continua a haver uma clara preferência pelo veículo pessoal, mesmo sendo uma cidade com um trânsito infernal e com falta de estacionamento, havendo 4 carros para cada lugar.
“A cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que os ricos usam transporte público” (Enrique Peñalosa)

Jorge Martins

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Hoje, o turista quer uma experiência criativa?

“Existe uma grande diferença entre uma viagem apenas para se lembrar e outra realmente marcante, para nunca mais se esquecer”. Então pergunto: O que é verdadeiramente fundamental para os viajantes quando escolhem os seus destinos?
Perante a realidade de que os turistas são cada vez mais informados, exigentes e aventureiros, a meu ver, estes procuram experiências únicas, genuínas, altamente personalizadas e enriquecedoras. Atualmente, existe uma nova vertente de turismo: o turismo criativo, que oferece experiências culturais e humanas autênticas, envolvendo a participação dos turistas com a população local.
Fazer turismo hoje em dia é muito mais do que visitar os pontos turísticos, e o turismo em Portugal está longe dos dias em que os turistas vinham procurar apenas sol e praia. Portugal distingue-se dos outros países não só pela qualidade do clima e praias, história, cultura e tradições, natureza, gastronomia, mas principalmente pelas pessoas e experiências oferecidas, tornando a viagem inesquecível. No final, o que dá sentido à viagem é a conexão com as pessoas, e com os locais visitados. Como viajante, não quero somente “ir a” mas sentir que, por alguns dias, faço “parte de”.
Existem várias formas para aprofundar a experiência criativa do turista que lhe permite descobrir a cultura local, como workshops, cursos de culinária, ateliers, experiências de degustação, novas formas de alojamento, fabrico de artesanato, itinerários culturais e paisagísticos, ambientes e espaços criativos. A co-criação é enriquecedora visto que leva o turista a participar na experiência bem como a fazer parte do processo de criação, ocorrendo a partilha de conhecimentos, tradições e cultura.
Mas como é que Portugal têm vindo a desenvolver o turismo criativo? Os responsáveis pelo desenvolvimento territorial e os operadores cada vez mais aventuram-se nesta área, pois sabem que a criatividade lhes permite acrescentar valor aos destinos e aos produtos culturais, criar novos produtos e facilitar a sustentabilidade.
Alguns exemplos, no nosso país, são a empresa Douro-Wellcome, que têm iniciativas como o Fim-de-Semana à Lareira, em que se tenta recriar um serão na aldeia, com direito a confecionar compota e bolos e ouvir histórias. Outras propostas da empresa são os Caminhos do Pastor, onde se pode acompanhar o pastor e o seu rebanho por um dia, ou os Caminhos do Pão, em que o turista vai "meter a mão na massa" e acompanhar o processo da produção de pão cozido.
A Cerdeira Village oferece alojamento criativo e de qualidade, na Serra da Lousã, aliado a uma vasta oferta de actividades, workshops e retiros criativos. No Porto, também existem múltiplas ofertas, desde “passear e azulejar”, tratando-se de um passeio cultural pelos azulejos do Porto e um workshop para pintar o seu próprio azulejo, conhecer e aprender a fazer a arte da Filigrana Portuguesa, entre outros.
Para além disto, existem os ambientes e espaços criativos, desde o espaço Maus Hábitos, um espaço interessante do Porto de intervenção cultural, abrangendo um restaurante, residência artística e salas para exposições e conferências, à Capital Europeia da Cultura em Guimarães (2012), etc.
Sendo assim, o turismo criativo é sustentável, uma vez que dá a oportunidade de diversificar a oferta turística de um destino, atraindo um turismo de qualidade, dando relevância ao património construído e imaterial. Além do mais, permite o combate à sazonalidade, possibilitando atividade turística durante todo o ano.
O interesse inferior dos turistas pelas “atracções turísticas” colabora para uma distribuição populacional mais equilibrada da área geográfica de destino e sua curiosidade pela cultura, em geral, e a do destino, especialmente, influência positivamente a autoestima da população local, sendo que também contribui para a imortalização e valorização de tradições. Por último, considera a preocupação ambiental, contrariamente ao turismo de praia, que produz bastante lixo.
Em suma, na minha perspetiva, o turismo criativo está na moda porque os turistas procuram cada vez mais esta forma de turismo, detendo uma postura diferente quanto à oferta. Porém, igualmente quem oferece um produto único tem de possuir uma atitude diferenciada. A criatividade é o fator de distinção nos destinos turísticos, logo Portugal precisa de apostar em novas ofertas turísticas criativas, em cidades mais pequenas e no espaço rural para potenciar estas zonas, e é importante atrair os turistas “certos”, aqueles que têm propensão a gastar mais.

Ana Catarina Freitas da Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O retrato da pobreza em Portugal e as medidas a adotar para a sua erradicação

A pobreza é definida como uma condição humana caraterizada por privação de recursos, escolhas, segurança e poder necessários para desfrutar de um  padrão de vida e outros direitos civis, culturais, económicos, políticos e sociais adequados. No entanto, muitas vezes, limita-se o conceito de pobreza a uma dimensão meramente financeira e transpõem-se dimensões como o acesso aos direitos e aos serviços para o conceito de exclusão social.
O limiar de risco de pobreza, segundo dados do PORDATA, tem apresentado uma tendência contínua e significativa de crescimento, passando de 2602 euros, em 1994, para 5443 euros anuais, em 2016. Uma vez que o limiar corresponde a 60% da mediana da distribuição dos rendimentos monetários líquidos equivalentes, então tal significa que a mediana da distribuição dos rendimentos aumentou consideravelmente. Assim, em 2016, todos os indivíduos que tivessem um rendimento monetário líquido anual por adulto inferior a 5443 euros, perfazendo um valor de 454 euros por mês, estavam em risco de pobreza.
Tal risco torna-se muito subjetivo se pensarmos num valor residual, como 1 euro, que poderá fazer a diferença entre ser ou não considerado em situação de pobreza, entre outros aspetos como, por exemplo, a possibilidade de uma família aceder ou não a alojamento gratuito, o que faria com que pessoas que recebem menos mas que tenham uma casa cedida, acabassem por ter mais possibilidades que outras que recebem um pouco mais mas que têm um aluguer a pagar todos os meses.


 De acordo com o gráfico acima, em 2017, 23,3% da população portuguesa estava em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a quase 2,4 milhões de pessoas. Com algumas oscilações ao longo dos anos, em 2013 e 2014, o valor registado voltou para o mesmo valor de 2004, de 27,5% (valor mais alto do período em análise), tendo, desde aí, registado melhorias, uma vez que a taxa diminui de forma contínua até 2017.
Esta descida desde 2014 deve-se, essencialmente, à queda acentuada de indivíduos em risco de pobreza até aos 17 anos, uma vez que se registou uma diminuição de 7,2 pontos percentuais nesse grupo etário entre 2014 e 2017. As pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos também obtiveram uma descida, apesar de menos significativa, de 4,4 pontos percentuais. Ao invés, o grupo da população com mais de 65 anos, apresentou uma tendência de crescimento até 2016, caindo depois em 2017.
Numa perspetiva mais atual, e segundo dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento do Instituto Nacional de Estatística (INE), incidindo sobre o ano de 2017, verificámos que dos 23,3% de pessoas em risco de pobreza, 18% (431 mil) eram menores de 18 anos, enquanto que 18,8% (451 mil) eram pessoas com 65 ou mais anos.
Como podemos percecionar, apesar das melhorias que ainda têm de ser conseguidas, a pobreza em Portugal tem apresentado quebras. Isto deve-se à descida da taxa de desemprego, que recuou para valores pré-crise, e à reposição dos rendimentos das famílias, feita, de forma gradual, através das transferências sociais. Ainda assim, Portugal é das sociedades mais desiguais e com elevado risco de pobreza na Europa, o que levou o Presidente da República a comentar publicamente que é urgente juntar ao crescimento e ao emprego uma estratégia autónoma nacional de combate à pobreza, para a sua erradicação.
Uma outra situação que está presente em Portugal e que tem que ser combatida é a fraca mobilidade social, em que as pessoas mais pobres têm poucas oportunidades para subir, bem como as que estão “no topo” acabam por lá permanecer. De acordo com a OCDE, isso traz consequências negativas, uma vez que muitos talentos podem não estar a ser aproveitados, diminuindo, assim, o potencial crescimento económico, bem como faz reduzir o bem-estar e a coesão social. Assim, para reverter/melhorar este cenário, deve-se apoiar crianças de meios desfavorecidos, assegurando-lhes uma boa educação, combater o desemprego de longa duração e aumentar o nível de qualificações através da educação para adultos.
Concluindo, e de modo a fazer face a esta situação da pobreza e exclusão social, foi criado um acordo de parceria entre Portugal e a Comissão Europeia, chamado Portugal 2020, alinhado com os princípios de crescimento Inteligente, Sustentável e Inclusivo. No que diz respeito ao princípio inclusivo, pretende-se aumentar a taxa de emprego para 75% (tendo duas dimensões subjacentes: diminuição do desemprego e aumento da taxa de atividade) e reduzir em 200 mil o número de pessoas pobres (no caso da União Europeia é 20 milhões), meta eventualmente atingível.

Ana Carolina Gonçalves Viana de Sá

Bibliografia:
Jornal de Notícias
Diário de Notícias
Jornal Público

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O populismo casa com fascismo ou com radicalismo?

Com Jair Bolsonaro, Trump e o novo partido de André Ventura, surgiram-me as questões: o que é o populismo? É a mesma coisa que fascismo? Ou são só radicalistas sem noção?
Começo, então, por tentar definir populismo. No livro “The Global Rise of Populism”, Benjamin Moffitt conclui que não faz sentido associar este termo a uma única definição. Podemos associar o populismo a uma frustração decorrente do declínio de um status ou uma simples nostalgia dos tempos de nacionalismo. Outros olham para o populismo como uma forma de apelar às massas, com discursos que roçam o anarquismo.
Cas Muddle, professor de ciência política na Universidade da Georgia, vê o populismo como uma thin ideology, pois não escolhe lados. Tanto pode ser da esquerda como da direita, ou criar, por vezes, um híbrido ao centro.

Já Jan-Werner Müller, da Universidade de Princeton, afirma que os populistas querem passar para os cidadãos a ideia de que estão completamente solidários com os mesmos e que, tal como os cidadãos, também eles estão fartos das elites corruptas. Para o professor, há duas distinções importantes dentro do populismo: exclusivo e inclusivo. O exclusivo é mais comum na Europa e foca-se na estigmatização de certos grupos, como, por exemplo, os refugiados. O inclusivo acha que a política deve ser, como a própria palavra o diz, inclusiva e aberta a grupos mais estigmatizados, sendo comum em países da América Latina.

O populismo tende a atacar o sistema judicial e os jornalistas dizendo que os mesmos não estão do lado dos cidadãos. Um exemplo desta situação são os constantes ataques do presidente Trump à CNN, dizendo que tudo o que a mesma reporta são fake news, e, recentemente, a atitude de chacota para com o jornalista atacado por Greg Gianforte, na altura candidato a congressista no estado do Montana, com uma placagem, quando o mesmo apenas lhe colocava uma questão.
O uso de slogans que incitam ao nacionalismo também é um trade mark. Alguns exemplos são a Front Nationale, com “Este é o nosso país”, o partido Alemão contra a Islamização na Europa Ocidental (PEGIDA), com “Ganhar outra vez controlo”, ou então o famoso “Make America Great Again”.
Mas é correto associar fascismo a populismo? O que é o fascismo? Madeline Albright, escritora e ex-secretária de estado nos Estados Unidos, numa entrevista ao The Economist, afirma não haver consensos na definição do termo, razão pela qual muitas vezes o mesmo é usado de forma aleatória. Porém, a mesma afirma que o fascismo não é uma ideologia de esquerda, direita ou centro, mas sim uma abordagem usada para tomar controlo, ou consolidar poder por um indivíduo ou partido que proclama estar a atuar em nome de uma nação ou grupo.
Através do uso de violência e outros meios, o proclamado fascista usa de tudo para atingir os fins, sendo profundamente antidemocrático, apesar de obter o seu poder através de um processo democrático (por exemplo, Hitler, ou mesmo Salazar). A Sr.ª Albright, à exceção da Coreia do Norte, não considera que hoje em dia exista algum país com governantes fascistas. Contudo, discordo da Sr.ª Madeline Albright neste aspeto. O estado atual da Rússia e da Arábia Saudita são exemplos de democracias “disfarçadas”, uma vez que não existe liberdade de expressão, visto ser do conhecimento geral que quem tem uma opinião diferente do regime sofre retaliação.
Existem, contudo, pontos que partilho com a Sr.ª Madeline Albright. Atualmente, defrontamo-nos com ideais e condições sociais (disparidades económicas, uma queda na confiança em partidos políticos mainstream, difamação de minorias e um esforço constante para distorcer a verdade com os alternative facts) muito semelhantes aos que levaram à eleição de Hitler e Mussolini.
Podemos associar o radicalismo ao populismo? Sim. Geert Wilders, político Dinamarquês, ao pretender eliminar leis contradiscursos de ódio, e Rodrigo Duterte, ao declarar guerra às drogas, deu permissão à polícia para executar suspeitos de tráfico. Ninguém gosta da circulação de droga, muito menos de traficantes, porém, será matar aleatoriamente sem julgamento a melhor abordagem quando 3967 supostas personalidades da droga morreram e outras 16355 (só entre o curto espaço de 1 de julho a 30 de setembro de 2017) estão classificados como “em investigação”?
Apesar de Portugal ser um país de brandos costumes, começam a surgir grupos que defendem os ideais do Estado Novo, da glorificação de Salazar e do nacionalismo renovador. Já André Ventura, com o “Chega”, veio trazer as mesmas ideias do século passado, como o fim do casamento homossexual e até mesmo a proibição constitucional da eutanásia (só faltava o fim do aborto...). Tenho alguma dificuldade em perceber estes ideais, uma vez que os mesmos vão interferir com a liberdade de escolha de cada indivíduo.
Só passaram 73 anos desde o fim da 2ª Guerra Mundial e apenas 44 desde o fim do Estado Novo, ambos, períodos carregados de ódio e medo. Porque é que decorridos todos estes anos queremos repetir os mesmos erros do passado?
Os populistas não precisam de ganhar eleições para fazer valer as suas ideias e espalhar o seu estilo de política. Conseguem infestar os partidos políticos à volta deles como parasitas e, como sabemos, eventualmente, o parasita consome o hospedeiro.


Mariana Alves

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sábado, 3 de novembro de 2018

Pelos Caminhos de Portugal

Reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, os destinos turísticos próprios, os recursos naturais e culturais e os produtos diversificados, são aspetos fundamentais a abordar quando pensamos e falamos de Portugal. A história rica e antiga, carateriza a diversidade deste país que nos diz tanto.                             
Assim, a gastronomia regional é um dos motivos principais do crescimento produtivo local, já que existe um constante interesse pela qualidade e diversidade do património Português. O Minho é a terra do bacalhau à minhota, do típico cozido à portuguesa, das famosas papas de sarrabulho, do caldo verde e de tantas outras iguarias cujas receitas vão passando de geração em geração, sendo estas referências únicas e verdadeiras componentes da oferta turística. Deste modo, a riqueza e a variedade da gastronomia do Alto Minho impressionam o verdadeiro turista, que exige acima de tudo originalidade, tradição e qualidade nos serviços prestados.                             
Primeiramente, destacamos uma gastronomia direcionada para o mercado de proximidade, sendo que estes se deslocam para distintas regiões do Minho devido à diversidade e excelência gastronómica que lhes apresentamos e, de seguida, orientada também para o mercado de estrangeiros, onde os turistas acabam por levar uma parte da nossa cultura para os seus próprios países, nomeadamente através dos sabores tradicionais que nos caraterizam.                                                   
Perante o reconhecimento do turismo como um dos mais importantes recursos económicos nacionais, podemos constatar que uma das fontes de criação de riqueza e de diversificação destacada é o turismo em espaço rural. No Norte de Portugal, em pleno coração do Vale do Lima, existe uma terra que merece um destaque particular. Falo de uma das vilas mais antigas do nosso país: Ponte de Lima, um local de histórias e raízes profundas, herdeira de um vasto património e dinâmica envolvente.                        
Atualmente, “é um dos principais destinos turísticos do Norte do país, pela sua vivacidade cultural e artística”, sendo dezenas as feiras e festivais que decorrem durante todo o ano, numa vila que preserva as suas tradições. Consideradas “o maior congresso ao vivo da cultura popular em Portugal”, as Feiras Novas, um dos maiores e mais genuínos arraiais populares do Alto Minho, e o facto de existir um plano de animação suportado pela câmara municipal, são referências nacionais, que atraem milhares de turistas de diversos lugares durante todo o ano.                                                     
Nos últimos anos, Ponte de Lima tem adotado uma estratégia de desenvolvimento que assenta na valorização das suas raízes e potencialidades, nomeadamente dos seus recursos endógenos, que potenciam o crescimento económico. Tais caraterísticas refletem-se no facto de Ponte de Lima ser um dos lugares mais visitados pelos turistas nacionais e internacionais, concentrando o “maior número de unidades de Turismo de Habitação e Turismo em Espaço Rural do país, sendo o Berço de Turismo de Habitação nacional”. Existiu, assim, uma explosão da oferta de unidades de alojamento local e um consequente esmagamento dos preços, o que não faz muito sentido tendo em conta a realidade, visto que não há mercado nem oportunidades para uma oferta tão elevada.
Ainda assim, deve permanecer um interesse primordial a conservação do património natural e cultural e um constante respeito pelos setores tradicionais desta região, nomeadamente ao nível de gestão das unidades turísticas. Ou seja, seguir uma estratégia de preços não é de todo o mais correto, mas sim um serviço personalizado, onde os valores locais e tradições prevalecem.
É ainda, importante destacar a riqueza que a carateriza em termos gastronómicos e de recursos naturais e patrimoniais, que, por sua vez, acabam por impulsionar o turismo rural e permitem o crescimento económico.                                                               
Recentemente, o Algarve foi distinguido como a “Melhor Região Europeia em Turismo e Gastronomia 2018”, o que se destacou como um importante prémio que veio dar reforço ao desenvolvimento da oferta turística. No entanto, a meu ver, devido à sua antiga tradição e diversidade de sabores, a gastronomia minhota é vista como uma relíquia e, como tal, esta apresenta caraterísticas bastante atrativas.
Hoje em dia, sabemos que o verdadeiro turista procura originalidade, autenticidade e qualidade nos produtos e serviços prestados, ou seja, querem viver experiências únicas que permitam a inserção na tradição e costumes do local. Como tal, na minha opinião existe um conjunto de fatores essenciais que atribuem vantagens competitivas a este território, onde o objetivo passa por maximizar o potencial do Minho enquanto destino gastronómico de excelência, através da valorização e preservação dos seus recursos endógenos. Assim sendo, a gastronomia regional é uma oportunidade única de conquistar o interesse desses mesmos turistas pelo nosso património, como também é um motivo de crescimento produtivo local.
Conclui-se que deve existir uma relação direta entre a gastronomia e a cultura, tradição e o património, já que a sua preservação significa manter tradições ancestrais que marcam a identidade do que é “ser português”. Num país tão pequeno como o nosso, em distâncias curtas conseguimos encontrar tradições muito distintas, o que traduz o conceito de riqueza e qualidade que Portugal oferece, através não só da nossa gastronomia tradicional típica mas também dos produtos únicos da nossa cultura.
A meu ver, Portugal é um dos países mais ricos em termos gastronómicos e culturais e, como tal, uma forte aposta na promoção da gastronomia local e tradicional seria o elemento diferenciador para o contínuo reconhecimento do património português e das suas caraterísticas tão próprias, de forma a impulsionar a economia portuguesa e desenvolver a economia local. Nesses contexto, deverá ser estabelecida uma ligação clara entre as viagens e a comida, dando a conhecer a região através de pratos e experiências à mesa, de forma a levar as iguarias e o património nacional aos mais diversos lugares mundo.

Maria João Barros Gonçalves

Referências:

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]