sábado, 21 de setembro de 2019

Estudos de felicidade

O que é a felicidade? É algo que pode ser medido? Há forma de aumentarmos a nossa felicidade? Se sim, como? “Se acreditamos que algo é importante, temos de tentar medi-lo”. Esta frase foi proferida por um economista britânico, Richard Layard, conhecido por tentar medir a felicidade. E sendo o paradoxo da nossa vida a felicidade, podemos e/ou devemos medir a nossa própria felicidade? E, acima de tudo, será que a conseguimos interligar com a Economia?
         Talvez consigamos definir a felicidade como um estado de satisfação a nível pessoal e profissional, em que encontramos um equilíbrio com o nosso estado psicológico. Mas, o grau de perceção de felicidade será o mesmo para mim e para o resto das pessoas? A felicidade é uma definição individualista. Tanto que se nos perguntarmos se somos felizes, muitas pessoas podem assumir que são felizes porque têm uma boa casa ou um bom salário, enquanto que outras dão como razão da sua felicidade terem uma família feliz ou saúde. E é aqui que o paradoxo começa. Se a definição e a causa da felicidade são díspares para todos, como podemos medi-la? A verdade é que sim, podemos medi-la, mas talvez seja uma avaliação subjetiva.
Tendo em conta a dificuldade de mensuração da felicidade, um exemplo interessante do estudo exaustivo desta matéria é o Better Life Index. A meu ver, a felicidade é algo que não se consegue traduzir num número objetivo. Porém, podemos tentar estabelecer uma conexão entre a felicidade e uma boa vida, e desta forma chegarmos a um resultado mais concreto. Mas será uma vida melhor sinónimo de felicidade?
         A OCDE lançou em 2011 o Better Life Index, onde mostra como cada país agrupa as variáveis que considera mais importantes, de forma a chegar a um resultado. Este Índice engloba 11 variáveis, umas subjetivas, como a medição da nossa satisfação pessoal, e outras mais objetivas (embora não tanto), como o rendimento e o equilíbrio pessoal-profissional. É de salientar que quantas mais dimensões abarcarmos, mais sustentável será o nosso resultado. Mas isto atrai dificuldades, como o peso relativo atribuído a cada variável ou a tendência de querer adicionar dimensões que são difíceis, ou talvez impossíveis de medir. Como exemplo, temos o engajamento cívico e a qualidade do meio ambiente.
         Porém, é interessante efetuarmos uma comparação entre os países da OCDE. Conseguimos retratar que os países nórdicos, como a Noruega, a Islândia e a Dinamarca obtêm um Índice mais elevado, ao contrário de países como a África do Sul, o México e o Brasil.
                 

         
Nada de inesperado até agora, mas em que medida estes dados são exequíveis? Tal como foi dito, um dos dilemas deste Índice é o peso de cada variável na sua medição. Porque não é o rendimento a variável mais importante? É certo que a maioria das pessoas quer mais rendimento, mas a verdade é que apesar de as sociedades se tornarem mais ricas, tal não quer dizer que sejam sociedades mais felizes, ou até que vivam melhor. Estudos recentes demonstram que as pessoas, nos últimos 50 anos, não apresentam um grande aumento no seu nível de felicidade, mesmo que o rendimento médio tenha mais que duplicado. É claro que o dinheiro não compra a felicidade, mas é um fator marcante para avaliar o padrão de vida das sociedades. E, nesta variável, o Luxemburgo, seguido dos Estados Unidos, é o pais que apresenta um Índice mais elevado e, por outo lado, é o país que apresenta mais desigualdades na distribuição do rendimento.
No que concerne a Portugal, o nosso país encontra-se acima da média em variáveis como a segurança e o equilíbrio pessoal-profissional, mas encontra-se abaixo da média em variáveis como o emprego e a satisfação pessoal. Mas os portugueses vivem pior que os luxemburgueses porque apresentam um Índice mais baixo?



Este Índice serve de comparação, mas há que ter atenção que temos de analisar estes valores com total consciência que existe uma panóplia de fatores por detrás destes números que não estão a ser considerados como, por exemplo, o da desigualdade no rendimento.
Sendo a Economia uma ciência que ampara as outras ciências, não seria impensável pensar em “felicidade económica” como medida do bem-estar e qualidade de vida, e fazendo uma conexão entre a satisfação de cada indivíduo e os problemas económicos.
Na minha opinião, é notório que não é fácil medir algo tão abstrato como a felicidade, até porque os índices de felicidade não apresentam um significado próprio, mas acredito que, à medida que nos questionamos sobre a nossa própria felicidade, possamos ter mais em conta valores humanos do que valores materialistas.
         Em suma, se este artigo não traz nada, pelo menos, que traga alguma felicidade. E em contraste ao que foi dito inicialmente, Albert Einstein afirma que “Nem tudo o que conta pode ser medido, nem tudo o que pode ser medido conta”.

Mariana Azevedo Gomes

Referências: http://www.oecdbetterlifeindex.org/pt/

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Comércio 24h

O comércio tradicional é baseado na proximidade entre cliente e vendedor. O cliente tem a possibilidade de ver o artigo que deseja comprar, experimentar se for o caso e até, por vezes, regatear o preço. Hoje em dia, este tipo de comércio já é escasso. As novas tecnologias tornam o que é tradicional em algo pouco apelativo, tornando o comércio tão simples quanto um clique no artigo que pretendem comprar.
As desvantagens de um comércio que não exige sair do sofá podem se basear na qualidade do produto não ser a expectável, o tamanho não ser o mais adequado, ou até mesmo o produto nunca chegar a casa e o dinheiro já estar no destino. Para além disso, o comércio local tem-se ressentido com este avanço tecnológico. Em alguns casos, há um acompanhamento deste desenvolvimento criando websites e vendendo os seus produtos online. No entanto, nem sempre existe esta opção, ou seja, nem sempre as pessoas se conseguem adaptar, principalmente as pessoas de mais idade, e, nesses casos, manter o negócio torna-se algo insustentável.
Os portugueses vão aderindo à moda e, segundo dados apresentados pelo jornal económico, 34% da população afirma que tenciona fazer compras online nos próximos 12 meses. Parte das suas compras são feitas em sites de marcas, mas nos últimos anos também a rede social Facebook tem vindo a ganhar espaço no que concerne à venda pela internet. Os produtos adquiridos são, na sua maioria, de sites nacionais, sendo este fator um contributo para o desenvolvimento da economia. Na realidade, o número de portugueses que realiza compras online aumentou para mais do dobro nos últimos setes anos, contudo, este aumento não é suficiente para Portugal se encontrar acima da média da União Europeia.
Todavia, o comércio 24h não se prende apenas com as grandes empresas, mas é também uma oportunidade para as pessoas venderem os produtos que não utilizam, de forma rápida e sem muito esforço. Sites como Amazon, Ebay, OLX e Aliexpress são exemplos de plataformas que permitem às pessoas adicionarem o produto que querem vender e pessoas do outro lado do planeta comprarem. O desenvolvimento da tecnologia gerou maior competitividade entre as empresas, tornando a competição de preços ainda mais visível. Promoções caso a compra seja feita online ou e o não pagamento dos portes de envio são fatores que pesam na decisão do consumidor.
As vantagens deste tipo de compras são visíveis: a comodidade, o facto de ninguém saber o que está a ser comprado, a variedade existente nas lojas online é mais elevada que a das lojas físicas, a possibilidade de criar filtros para a pesquisa ser mais eficiente e como, já foi referido, as promoções para produtos online. Contudo, também existem desvantagens: o tempo de espera, porque a compra em si é rápida, mas o produto demora a chegar até à casa das pessoas, as trocas são mais difíceis e, para além disto, o método de pagamento nem sempre agrada a todos, dado que na maioria das plataformas os cartões de créditos são os utilizados.
Em suma, é inquestionável dizer que o comércio vai se desenvolvendo e adaptando aos avanços tecnológicos. Para as gerações mais jovens, isto já é inato e não acarreta muitas complicações, parece algo natural e de fácil adaptação. Para as gerações mais antigas, a história já não é a mesma; ainda há um longo caminho a percorrer para a mudança. Acredito que, apesar de tudo, o comércio tradicional não morra completamente e que continuarão a existir pessoas em todas as gerações que prefiram o contacto humano às teclas de um computador.

Rita Sofia Mesquita

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A Amazónia “brasileira” ardida

Amazónia: a floresta de cerca de cinco milhões e meio de quilómetros quadrados que alguns dizem não ser nossa. “(...) A Amazónia não é património da Humanidade”, ouviu-se da boca do Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno. Teimam em tratá-la como se fosse só deles, mas será que têm esse direito? Será que o Brasil quer afastar o resto do mundo do debate para tratar o problema da forma que lhe convier?
Só este ano, até setembro, já arderam 43 573 km², aos quais acresce o aumento de 68% do nível de desflorestação, dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), representando assim a pior fase da história do considerado por muitos “pulmão do mundo”. A última vez que ardera tanto foi em 2005, ano em que se reduziram a cinzas cerca de 50 mil km².
Será isto obra do acaso? Ora veja-se: a verba disponível em orçamento de Estado para o Ministério do Meio Ambiente foi reduzida em 10%, comparativamente ao ano anterior, sendo que ficam disponíveis 124 milhões de euros (R$ 561 milhões), e ainda reduziram a verba para combate a incêndios em 34%, caindo de 10 milhões de euros (R$45,5 milhões) para 6,5 milhões de euros (R$29,6 milhões). A isto acresce a redução do orçamento associado à gestão do uso sustentável da biodiversidade e recuperação ambiental. Ainda que os dados tenham sido divulgados pelo INPE, foram negados por Bolsonaro, o que criou um embate entre governo e a entidade divulgadora. Este episódio levou à demissão de Ricardo Galvão, presidente do INPE, depois de vir a público negar todas as acusações de Bolsonaro e confirmar a veracidade dos dados.
Temos, portanto, mais um problema resolvido à moda brasileira, “não és dos nossos, sai!”. A conjugação dos orçamentos de prevenção e proteção da Amazónia tem vindo a sofrer cortes de tal maneira drásticos ao longo dos anos que, no segundo mandato do Presidente Lula da Silva, a verba conjunta rondava os mil milhões de euros (R$6 mil milhões), na legislatura seguinte, presidida por Dilma Rousseff, desceu para os 886 milhões de euros (R$4 mil milhões) e agora já está quase a sair da casa dos mil milhões de reais.
Estas reduções de orçamentos abarcam consequências, mas parece que é interesse do governo... E porquê? Uma área devastada vale mais que uma terra florestada. O madeireiro corta as árvores. O restante é queimado de forma a limpar o terreno e ficar pronto a explorar, tanto para pecuária como para agricultura. Um em cada três focos de incêndio é uma queimada. Outro facto que fundamenta o interesse comercial subentendido em toda esta situação é a redução de 29% do número de multas emitidas pelo Ibama, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, referentes a crimes ambientais, em relação ao período homólogo do ano transato.

Internacionalmente, existem dois agentes bastante interventivos nesta matéria -  Estados Unidos e União Europeia - com opiniões polarizadas. Por um lado, temos o Presidente americano que demonstra o seu apoio às políticas de Bolsonaro, chegando até a dizer que o mesmo está a trabalhar “duro” em matéria de incêndios: I have gotten to know President Jair Bolsonaro well in our dealings with Brazil. He is working very hard on the Amazon fires and in all respects doing a great job for the people of Brazil - Not easy. He and his country have the full and complete support of the USA!. A esse propósito, importa ter presente que ambos já demonstraram interesse em estabelecer relações comerciais bilaterais no âmbito, por exemplo, da exploração de uma área da Amazónia. Contudo, tem surgido uma forte oposição por parte dos congressistas, que ameaçam dificultar esta aproximação entre Donald Trump e Bolsonaro, usando como fundamento os incêndios que deflagram. 
Por outro, temos a União Europeia que estabeleceu um acordo de mercado livre com o Mercosul que permite eliminar tarifas e facilitar comércio no setor industrial e agrícola entre os dois blocos. Contudo, a Comissária do Comércio, Cecilia Malmstrom, ameaçou cessá- lo, criticando a postura do governo do Brasil face aos incêndios. O ministro-general Augusto Heleno, figura representativa de todo o espectro governativo brasileiro, mostrou, mais uma vez, a sua insensibilidade na matéria, preterindo o bem-estar da sociedade em prol dos interesses económicos: desvaloriza os incêndios e acusa os países europeus de se aproveitarem da situação para fazer cair o acordo comercial. Mas um dia ainda irão perceber que o dinheiro não se come nem se respira. A Amazónia é de todos NÓS!

Rui Pedro Lopes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Alemanha entre guerras

Nestes últimos 2 anos, tem-se vindo a registar um abrandamento da atividade económica de vários países Europeus e uma das economias que mais tem sofrido é a alemã.  Segundo dados da OCDE, em 2018, houve uma contração de 0,8 pontos percentuais no PIB Alemão relativamente ao ano anterior, dando-se assim os primeiros indícios para uma possível recessão. Também no segundo trimestre deste ano se observou uma queda do produto, que rondou os -0,1%, valor verdadeiramente alarmante numa economia com uma década de crescimento praticamente constante e uma taxa de crescimento média de 2,0%. 

Este desenvolvimento, sustentado principalmente na indústria, teve também os seus retrocessos associados à situação política e social vivida nos momentos de recessão. Por exemplo, em 2002, houve uma fase de maior incerteza na mudança da moeda em circulação para o euro, em 2007, deu-se o período em que se sucedeu a crise financeira internacional e, por fim, em 2010, sucedeu-se a crise das dívidas soberanas.



Mas então qual é a razão para este fraco desempenho económico neste momento? A meu ver, existem duas explicações por detrás deste recuo que se complementam entre si.
Uma delas prende-se com o facto da Alemanha, sendo considerada a cabeça de cartaz da elite Europeia, poder estar também mais vulnerável às consequências adjacentes ao atual contexto interno vivido na Europa, nomeadamente, a saída do Reino Unido da União Europeia. A desaceleração da atividade económica poderá estar relacionada com o Brexit na medida em que este põe em causa a própria consistência da União e adiciona mais incertezas no mercado europeu, fazendo com que os investidores pensem duas vezes antes de apostar na Europa.
A outra hipótese considera que, para além da instabilidade interna, existe também um problema no mercado externo, fruto da guerra comercial entre as duas maiores potências mundiais. Tudo começou no dia 22 de março de 2018, data em que o presidente Donald Trump tomou a iniciativa de aumentar o preço das tarifas dos produtos chineses importados. Como seria de esperar, o líder Chinês Xi Jinping não se mostrou indiferente perante essa decisão e respondeu da mesma forma às importações Americanas.
Este tema é bastante polémico na atualidade dado que as trocas comerciais entre os EUA e a China representam 3,4% do comércio mundial. Porém, estes dois países que estão diretamente envolvidos neste conflito não são os únicos, nem mesmo os que estão a ser mais prejudicados com esta guerra. Este clima, que já perdura há quase dois anos, tem afetado a economia mundial e posto à prova principalmente as balanças comerciais Europeias (até porque o peso do comércio entre a China e a União Europeia no total do comércio do mundo é cerca de 3,7%.) O FMI calculou que a guerra comercial poderia reduzir o PIB mundial em cerca de 0,8% em 2020 e levar ainda a mais perdas nos anos seguintes.
Mas esta guerra pode agora ter implicações mais diretas nos países Europeus uma vez que na sexta feira passada a Organização Mundial do Comércio (OMC) chegou a uma conclusão sobre a queixa feita em 2006 pelos Estados Unidos contra os apoios concedidos pelos países europeus à fabricante de aviões Airbus. A decisão tomada ainda não é pública, mas segundo consta, de acordo com os rumores vindos de Washington, a deliberação da OMC foi feita a favor dos norte-americanos e pouco deve faltar para que seja oficial pois a verdade é que o caso já não é recente. Deste modo, foram abertas assim as portas à possibilidade da criação de tarifas aos produtos europeus exportados para a América.
Perante estas condições, as previsões para a Alemanha não são muito otimistas e as medidas tomadas, ou melhor, a falta de medidas tomadas pela chanceler Angela Merkel perante a situação começam a ser questionadas. O setor automóvel, em particular, provavelmente continuará a lidar com o aumento da incerteza sobre política comercial e sobre as preferências do consumidor enquanto a deterioração no ambiente externo persistir e poderá arrastar com ele outras economias. Portugal, por exemplo, já começa a sentir os efeitos nesta indústria, quer por via dos investimentos que os alemães fazem na economia nacional, quer por via das exportações, dado que a Alemanha é o terceiro maior cliente dos bens e serviços vendidos por Portugal ao exterior.
No meio deste clima de turbulência, a Alemanha prepara-se assim para enfrentar a primeira grande recessão da década, e provavelmente não será a única a cair. Apesar de tudo, num debate parlamentar em Berlim, Olaf Scholz, Ministro alemão das Finanças, assegurou que, em caso de crise, o Estado alemão tem o dinheiro que é preciso para ajudar a economia a recuperar. Agora se esta declaração será a suficiente para assegurar a estabilidade do país isso permanece uma incógnita, mas a verdade é que mesmo perante esta possibilidade as previsões de abrandamento na conjuntura económica internacional mantêm-se.
A meu ver, o futuro é bastante incerto, até porque as eleições presidenciais de vários países estão aí ao virar da esquina e elas podem trazer grandes mudanças. Uma coisa é certa: a história tem-nos mostrado que a Alemanha é capaz de feitos inimagináveis.
Cristiana Gião

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Mundo ligado à corrente

No que diz respeito aos carros elétricos, Portugal inclui-se no “clube” dos países ricos da Europa. Segundo dados publicados pela ACEA (European Automobile Manufacturers’ Association), as vendas de carros elétricos, em 2018, em Portugal dispararam 95% face a 2017, passando respetivamente de 4237 para 8241 automóveis elétricos ligeiros de passageiros vendidos. Embora o PIB per capita português se situe apenas na ordem dos 19 500€, este possui uma quota de mercado de carros elétricos de 3,5%. Esta fração consegue superar os 2% e os 0,9% da quota de mercado de carros elétricos da Suíça e da nossa vizinha Espanha, e até mesmo os 3,2% Alemães. Mas até que ponto serão estes carros elétricos uma alternativa mais sustentável relativamente aos tradicionais veículos a gasóleo ou gasolina?
 De acordo com o último relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA), este tipo de veículo são melhores para o ambiente e para a qualidade do ar durante o seu ciclo de vida, porém, na fase de produção, nomeadamente das suas baterias, é necessária a extração e processamento de cobre, níquel e outras matérias-primas que são fontes altamente prejudiciais para a nossa camada de ozono, devido à quantidade de gases de efeito de estufa que são emitidas. Também um estudo realizado recentemente pelo IVL (Instituto Sueco de Pesquisa Ambiental) demonstrou que a simples produção das baterias tem um impacto ambiental semelhante a conduzir um automóvel a gasolina durante vários anos. Segundo esse estudo «A produção das baterias de lítio corresponde a emissões de 150-200 kg de dióxido de carbono por cada kWh de energia gerada pela bateria. (…) Isto significa que um automóvel a gasolina com emissões de 120 g/km necessita de percorrer 125 mil quilómetros para emitir a mesma quantidade de dióxido de carbono que um Tesla com bateria de 100 kWh». Esse risco é reconhecido pelo secretário-geral da ACAP (Associação Do Comércio Automóvel De Portugal), que lembrou ao jornal i que «a maioria dos carros elétricos são produzidos na China e que a componente ambiental não é tida em conta no momento do fabrico».
É importante ainda referir que nestes dados estão omissos os problemas de poluição das águas aquando da extração dos minérios e a questão da reciclagem das baterias, que ainda só é feita a 50%. Em termos económicos, pode ainda existir a desvantagem relacionada com a dependência estratégica de países detentores destas matérias-primas, não sendo Portugal indiferente a esta questão (dado que está no top 10 mundial das reservas de lítio). Assim, embora o uso dos carros elétricos tenha de facto benefícios ambientais no dia-a-dia, o perigo destes veículos encontra-se na sua origem.
E quanto ao uso dos carros a gasolina ou a diesel? Neste caso, o problema já é outro. Embora o seu fabrico não seja tão poluente, é no seu uso diário que está a raiz do problema, e viver num mundo capitalista como é o nosso não o suaviza. Apesar do esforço internacional para travar o aquecimento global e da legislação implementada em 2009 no pacote de medidas “euro 5” (que estabelece a obrigatoriedade dos automóveis a gasóleo circularem com um filtro de partículas), o uso de filtros das partículas nos carros a diesel, que retêm quase 80% das emissões produzidas pelo escape de um automóvel a gasóleo, não parece ser uma opção viável, pelo menos para os portugueses devido ao peso que a manutenção deste componente representa na carteira do condutor, à falta de regulamentação e ao atraso da implementação da legislação portuguesa, que ainda permite aos centros de inspeção automóvel aplicar um despacho de 1999 (que atualiza os limites máximos a aplicar nas inspeções técnicas). «Para evitar pagar 1000€ na aplicação de um novo filtro, muitos proprietários preferem pagar 400€ a uma oficina para retirar esse mesmo filtro» (“Público”, 3 de junho).
Face a esta realidade, a conservação do planeta parece impossível no movimentado quotidiano atual. A meu ver, uma opção mais sustentável seria o recurso a práticas mais rudimentares, tais como as caminhadas, o ciclismo ou os transportes públicos, contudo estas representam um custo de oportunidade muito elevado por parte dos indivíduos. Este custo pode ser reduzido a partir da criação de um sistema de transportes mais eficiente, que permitisse a redução do número de veículos em circulação através de uma rede de partilha e coordenação das informações das rotinas dos diversos usuários. Mas seria o humano capaz de criar tal sistema? E, se sim, estaria o leitor disposto a sacrificar parte da sua privacidade em prol do futuro da humanidade?

Cristiana Gião

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 23 de dezembro de 2018

sábado, 22 de dezembro de 2018

Criptomoedas e a ´Blockchain`

As  criptomoedas  têm  dado  muito  que  falar,  em  especial  nos  últimos  dois  anos,  após  o  “boom”  ocorrido  em  Janeiro  de  2018,  seguido  do  “crash”  até  ao  presente.  No  início  de  2018,  o  mercado  das  criptomoedas  chegou  a  atingir  os  700  mil  milhões  de  dólares.  Hoje,  vale  cerca  de  125  mil  milhões.  A  queda  foi  resultado  da  implementação  de  contractos  futuros,  que  facilitaram  o  “short”  da  criptomoedas  (BTC),  eliminando  o  preço  fictício  que  detinha,  derivado  da  alavancagem  permitida  pelas  corretoras.  Ou  seja,  sem  alteração  dos  fundamentais,  as  criptomoedas  cresceram  exponencialmente,  atingindo  valores  insustentáveis,  alimentados  por  dívida,  e  após  pressão  dos  vendedores  (provocando  o  chamado  “margin  squeeze”),  posições  alavancadas  foram  forçadas  a  serem  vendidas.  A  exemplo,  a  Bitcoin  caiu  de  máximos  de  19  000 $  para  os  4  000 $  (preço  médio  corrente).
Esta  desinformação  deveu-se  ao  facto  de  as  transações  das  criptomoedas  serem  maioritariamente  realizadas  por  “investidores  de  retalho”,  e  não  por  investidores  institucionais.  Logo,  estes,  sendo  mais  desinformados,  estão  mais  facilmente  sujeitos  a  manipulações  e  persuasões  sobre  as  suas  expetativas,  ou  seja,  maior  parte  do  volume  transacionado  era  derivado  de  indivíduos  que  não  sabiam  o  que  estavam  a  comprar. Mas  então,  se  não  existiu  alterações  dos  fundamentais,  de  onde  veio  esta  euforia  sobre  a  tecnologia  “Blockchain”?
Apesar  destas  conotações  negativas,  as  criptomoedas  têm  como  objetivos  resolver  certos  problemas  inerentes  a  um  sistema  fiduciário  tradicional,  nomeadamente  o  problema  de  inconsistência  temporal.  Na abstenção  de  políticas  reguladoras,  entidades  responsáveis  pela  oferta  e  distribuição  monetária  (B.C.  e  bancos  comerciais)  não  são  incentivadas  a  reter  moeda  de  forma  a  evitar  uma  sobre-inflação  dos  preços  (White  1999).  Produtores  de  moeda  podem  criar  moeda  de  forma  a  “produzir”  receita,  hiperinflacionando  a  economia,  contudo  potenciais  consumidores  não  têm  incentivos  para  reter  a  mesma. 
Apesar  deste  fenómeno  não  ser  visível  em  economias  avançadas,  é  fortemente  realizável  em  economias  subdesenvolvidas,  como  a  hiperinflação  do  dólar  Zimbabuense  de  2009,    ou    a    recente    crise    vivida    na    Venezuela,    onde    o    próprio    dinheiro  (papel)    é    usado    para    produzir    acessórios    de    moda (Ex:  Bolsas  e  carteiras).    Visto o sistema  bancário  e  financeiro  ser  o  intermediário  entre  Bancos  Centrais  e  a  população,  a  confiança  na  moeda  fiduciária  encontra-se  paralelamente  subjacente  ao  funcionamento  deste  primeiro,  o  que  implica  que  apenas  uma  pequena  intervenção  de  agentes  maliciosos  (gananciosos)  ou  manipuladores  (Ex:  ciclo  político  económico  e  as  eleições),  possa  destabilizar  completamente  uma  economia. 
As  criptomoedas,  face  aos  problemas  descritos,  eliminam  a  necessidade  de  intermediários  bancários  na  realização  de  transações,  permitem  uma  descentralização  governamental  quanto  à  emição  de  moeda  e  têm  o  potencial  de  eliminar  qualquer  tipo  de  atividade  corrupta,  se  estas  destituíssem  o  seu  caráter  anónimo. 
São  compreensíveis  as  razões  pelas  quais  as  criptomoedas  são  um  “bicho  de  7  cabeças”.  Na  sua  estrutura  atual,  são  dificilmente  taxáveis,  eliminariam  o  poder  das  políticas  monetárias  (se  assumidas  como  moeda  principal  corrente),  são  demasiado  voláteis , levando  a  um  “pricing  out  the  dollar”  (  Warren  Buffet  2017)  e,  acima  de  tudo,  dado  o  seu  caráter  anónimo  facilitam  o  tráfico  ilegal. 
Concluindo,  no  seu  estado  atual,  as  criptomoedas  de  pouco  servem    e    não  devem  sequer    ser  consideradas    moedas,  contudo  a  potencialidade  da  tecnologia  por  detrás  delas  é  ilimitada.  Eliminando o caráter anónimo,  o  tráfico  ilegal  das  mesmas  seria  fortemente  limitado,  bem  como  a  própria  corrupção  (David  Cameron:  "most  excites  me  is  the  potential  that  your  technology  has  to  fight  corruption”).  A  transparência daí decorrente permitiria  a entidades  centrais  seguir o rasto de  qualquer  ato  ilegal  cometido.  Finalmente,  para  defensores  de  mercados  livres,  a  blockchain  é  o  passo  certo  para  a  destituição  de  barreiras  à  proliferação  comercial.  Se pensarmos mais além,  quando  reduzidas  discrepâncias  económicas  entre  os  países,  tal seria um  grande  passo  para  a  criação  de  uma  área  monetária  ótima.  

Luan  Fermino  Pires

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]