sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O estado da dívida pública portuguesa

Portugal tem, como se sabe, uma das maiores dívidas públicas do mundo, facto que gera constrangimentos em termos das políticas orçamentais que o país pode adotar. Esta realidade faz com que esteja assustadoramente dependente dos ventos que sopram nos mercados internacionais, e particularmente sensível a variações significativas nas taxas de juro. Assim sendo, torna-se imperativo o controlo dos níveis de endividamento nacionais por parte do futuro governo, de forma a evitar um novo desastre económico.
Portugal tem de aproveitar a atual conjuntura (interna e externa) favorável para alcançar, simultaneamente, dois objetivos aparentemente incompatíveis: o da redução do défice (com a possibilidade de existirem até excedentes orçamentais), de forma a seguir uma trajetória de diminuição da dívida; e, por outro lado, fomentar o crescimento económico para que o país se possa progressivamente aproximar do resto da Europa, e a situação económica dos portugueses possa ser melhorada. Um dos grandes problemas da economia portuguesa é precisamente o de conjugar estas duas questões e encontrar respostas que deem solução a ambas, visto ser complicado reduzir a dívida ao mesmo tempo que se tomam medidas de incentivo à economia, ou, pelo caminho inverso, fomentar a economia enquanto se “aperta o cinto”.
Este ponto apenas se coloca devido às más políticas tomadas no passado, que arruinaram as contas públicas e deixaram o país numa situação extremamente debilitada. A dívida pública em percentagem do PIB passou dos 62%, em 2004, para mais de 130%, em 2014 – por outras palavras, duplicou numa década. Apesar da situação económica mundial não ter sido a mais favorável durante este período, a realidade que os números refletem espelha também a incompetência por parte dos governos que lideraram a nação.
Durante esta fase, os governos tentaram duas formas de tentar resolver a crise. Inicialmente, durante o governo chefiado por José Sócrates, o Estado procurou tomar medidas de incentivo ao crescimento[1], o que fez disparar a despesa e, consequentemente, a dívida e as taxas de juro a ela associadas, provocando a necessidade de recorrer a ajuda externa[2]. Numa segunda fase, já com o governo do PSD, apoiado pelo CDS, e com maiores restrições em função do memorando assinado com a Troika, tomou-se a via da austeridade, que procurava domar as contas públicas a todo o custo e inverter a espiral negativa em que o país se encontrava. Nem uma nem outra abordagem demonstraram ser totalmente capazes de lidar com a situação pela qual Portugal passava na altura, com destaque para a primeira, que, através do completo desprezo que demonstrou para com a sustentabilidade no futuro, teve efeitos extremamente nocivos para a economia a longo prazo.
Atualmente, estando a dívida na casa dos 121,5% (2018), Portugal encontra-se ainda longe de uma situação que se possa dizer ser realmente confortável. Sendo verdade que o país tem obtido bons resultados nesta matéria nos últimos anos, estes não são suficientes, e Portugal tem tido bastante mais dificuldades para diminuir a despesa e regressar aos valores desejados de endividamento (recorde-se que o definido pela UE no Pacto de Estabilidade e Crescimento é de 60% do PIB) do que aquelas que teve para os aumentar.
Esta diminuição da dívida em termos relativos tem sido possível devido a uma gestão cautelosa e criteriosa das contas nacionais por parte do atual ministro das finanças, Mário Centeno[3]. Também a atuação do BCE se assume como fundamental ao bom momento das finanças públicas, uma vez que permitiu que Portugal (assim como outros países da UE em dificuldades) disfrutasse de taxas de juro mais baixas. Apesar dos bons indicadores, é necessário procurar fazer mais pela saúde e sustentabilidade de longo prazo da dívida portuguesa.
O próprio crescimento económico português segue na mesma linha: desempenho positivo, acima da média da UE, mas não brilhante, havendo vários países europeus a crescer a ritmos ainda mais acelerados[4]. Com tempos que se adivinham difíceis tendo em conta a constante ameaça de guerras comerciais, a situação do Brexit, e o abrandamento de economias com as quais o nosso país tem fortes relações comerciais, como a Alemanha ou o Reino Unido, Portugal necessitará de tomar também medidas de fomento ao crescimento.
O mais difícil é encontrar uma solução que consigo aliar estes dois pontos – crescimento económico e redução da dívida; responsabilidade que caberá ao futuro executivo. E, em período eleitoral, convém estar atento às propostas de partidos mais populistas, que ameaçam deitar por terra todo o trabalho feito nesta matéria. Partidos como o BE e a CDU, apelam a constantes aumentos do peso do Estado na economia, do investimento público, dos salários e pensões/subsídios sem considerarem as consequências para a economia e para as contas nacionais.
Qualquer que seja a solução governativa, uma gestão mais conservadora e eficiente dos dinheiros públicos, e um cuidado extra para que o défice e a dívida se encontrem sempre em valores sustentáveis parece impor-se. Até porque, caso este controlo não seja feito agora, o problema continuará a assombrar a economia portuguesa no futuro, constituindo um entrave à política orçamental durante longos e difíceis anos.

Diogo Miguel Simões de Sousa Pinto Abreu

Referências:
Dados: Fonte – Eurostat: https://ec.europa.eu/eurostat/data/database


Veganismo/Vegetarianismo: moda ou credibilidade?

Nos últimos tempos, tem-se verificado um aumento exponencial do número de pessoas aderentes ao veganismo. Este estilo de vida carateriza-se pela exclusão absoluta de objetos e alimentos de origem animal na vida quotidiana, diferenciando-se assim da dieta vegetariana pois esta última apenas exclui alimentos como a carne e o peixe.

Um estudo realizado em 2015, nos Estados Unidos da América, revelou que 3,4% dos indivíduos se consideravam vegetarianos e apenas 0,4% vegan. No entanto e apesar destes valores baixos, é expectável que os valores apresentados aumentem até aos 25% da população americana dos 25 aos 34 anos, na soma das percentagens dos dois estilos de vida (Vegan e Vegetariana), resultado de uma evolução significativa na disponibilidade dos produtos vegan no mercado. Em 2015, menos de 3% dos novos produtos alimentares que surgiam no mercado eram de origem vegan, contudo, em 2018, a disponibilidade dos produtos vegan mais do que triplicou, passando a aproximadamente a 10%.

A par do aumento dos produtos vegan, verifica-se, ainda, que os alimentos vegetarianos seguem também a mesma linha de crescimento. Assume-se que a principal razão pela qual as pessoas estão a mudar os seus comportamentos, em particular, os alimentares, está relacionada com a facilidade com que se consegue ter acesso à informação de todo o mundo quase em tempo real. Essa informação alerta-nos para o aquecimento global e as implicações do comportamento do ser humano tem no planeta terra. Prevê-se que num futuro próximo as alterações climáticas sejam de tal ordem dramáticas que levarão à extinção de diversas espécies, incluindo a humana.

A consciencialização individual e coletiva tem tentado promover a adoção de hábitos mais sustentáveis, como utilização de objetos pessoais tais como: escovas de dentes, pentes e talheres descartáveis de origem vegetal; o aumento da utilização de transportes públicos; e ainda diminuição do consumo de alimentos de origem animal. Os indivíduos mais despertos para esta problemática adotam o veganismo e/ou vegetarianismo no quotidiano. O veganismo é, de facto, o estilo de alimentação que menor emissão de CO2 liberta para a atmosfera. Contudo, importa referir que uma dieta no dairy é menos poluente do que o vegetarianismo, ou seja, é possível afirmar que o corte do consumo de leite, queijo, iogurtes e ovos é menos poluente do que se optarmos por uma alimentação na qual o único critério é a abolição da morte dos animais.

Por um lado, gostava de acreditar que o aumento do número de pessoas que é contra a tortura animal não fosse apenas uma moda mas, pelo contrário, uma decisão consciente e definitiva. Apoio esta minha opinião num estudo realizado por investigadores da Oxford Martin School, o qual diz que se o mundo se tornasse vegan poderiam ser salvas cerca de 8 milhões de vidas até 2050, devido à diminuição de dois terços das emissões de gases nocivos, o que levaria a poupanças relativas a cuidados de saúde e desastres ambientais evitados de cerca de 1,5 biliões de dólares.

Verificam-se outros fenómenos, nomeadamente os chamados influenciadores digitais, de todo o mundo, que se dizem vegans ou vegetarianos e que tentam persuadir milhares de pessoas a ter novas opções no estilo de vida, nomeadamente no que toca à tortura animal. Apenas o fazem para conseguir mais seguidores e, por conseguinte, mais dinheiro. Alguns destes influenciadores digitais anunciaram  deixar a dieta vegan por questões médicas. Este dicurso teve um impacto gigante na credibilidade da alimentação vegana pois criou-se o preconceito de que se o individuo adotar este estilo de vida terá necessariamente problemas de saúde. Alguns estudos apontam para que não é de todo verdade, pois todos os nutrientes e proteínas podem ser obtidos através da ingestão exclusiva de vegetais e frutas em quantidades adequadas à pessoa em questão.

Pesssoalmente, acredito que veganismo não seja apenas uma moda, mas antes uma forma de estar que veio para ficar!


Mariana Teixeira


[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Ensino superior e as bolsas de estudo

Segundo as últimas estatísticas da OCDE, Portugal tem assistido a um crescimento maior do número relativo de jovens licenciados do que a média da União Europeia, bastante mais do que a Alemanha ou o Reino Unido, por exemplo. Ou seja, o nosso sistema de ensino superior parece estar de boa saúde.


Como vemos no gráfico acima apresentado, o número de beneficiários de bolsa de estudo no ensino superior tem vindo a aumentar. No ano passado contavam-se 74.092 estudantes. Os 21% de estudantes a receber bolsa registados no ano passado (2018), colocam Portugal nos países da Europa em que esta proporção é mais baixa. Na Dinamarca e na Suécia o número de bolseiros representa mais de 75% dos estudantes do ensino superior, segundo o último relatório da rede Eurydice.
Os estudantes do ensino superior em Portugal podem ser beneficiários de bolsas atribuídas pelos serviços de ação social tendo em conta a situação económica dos seus agregados familiares. A bolsa de estudo é uma prestação pecuniária anual para comparticipação nos encargos com a frequência de um curso ou com a realização de um estágio profissional de caráter obrigatório, atribuída pelo Estado, a fundo perdido, sempre que o agregado familiar em que o estudante se integra não disponha de um nível mínimo adequado de recursos financeiros.
Para além destas, existem as bolsas de estudo por mérito que são atribuídas pelos estabelecimentos de Ensino Superior Público e Privado aos estudantes com aproveitamento excecional, independentemente dos seus rendimentos, de acordo com o Regulamento de Atribuição de Bolsas de Estudo por Mérito a Estudantes de Instituições de Ensino Superior.
Outras, de caráter mais específico, são as Bolsas de Estudo para Frequência no Ensino Superior de Estudantes com incapacidade igual ou superior a 60%, de acordo com o qual os estudantes elegíveis podem solicitar a concessão de uma bolsa de estudo correspondente ao valor da propina efetivamente paga.
Em 2018, registou-se assim a proporção de bolseiros mais elevada desde 2010. Neste sentido, a despesa com bolsas no ano passado foi a segunda mais elevada de sempre, 120,6 milhões de euros. Apenas em 2010 os gastos com bolsas foram mais elevados, 135,8 milhões de euros.
O dinheiro utilizado em bolsas de estudo está em máximos históricos, mas o setor e os estudantes pedem um novo investimento do Estado no setor. Uma das razões para este pedido é o facto de cerda de 40% dos estudantes receber apenas a bolsa mínima, que apenas é suficiente para pagar as propinas. Assim, os estudantes ficam sem apoios para as restantes despesas que enfrentam durante o seu percurso académico, sendo uma delas o alojamento, com os valores das rendas astronomicamente elevados para os estudantes e as suas famílias os conseguirem suportar, o que pode levar ao abandono dos estudos. Outra exigência que os estudantes fazem é o aceleramento do processo de análise e atribuição das bolsas. Nos últimos anos, têm persistido os problemas que levam a que muitos estudantes recebam o apoio de que necessitam para estudar vários meses depois de iniciado o ano lectivo.
Em suma, o nosso sistema de ensino superior no que diz respeito ao número de licenciados dá uma ideia errada do que realmente se passa no nosso país. Temos de facto muitos licenciados e em franca crescimento, mas existe um longo caminho a percorrer para que as condições do nosso ensino superior fiquem ao nível de países como a Alemanha, Dinamarca e Suécia. O ensino superior é um dos reflexos da nossa economia e são de lá que saem os representantes do nosso país, por isso, é urgente a reforma que o Estado tem de efetuar ao nível da ação social no ensino superior, dando mais apoios aos estudantes e às famílias necessitadas para que haja igualdade de oportunidades.

Inês Araújo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A influência do turismo religioso e da religião na economia

Nos tempos em que vivemos, a ideia de crise é algo que tem preocupado cada vez mais qualquer pessoa em qualquer lado do mundo, não necessariamente a ideia de crise económica, que já há muitos anos é anunciada pelas gerações mais antigas, mas principalmente uma crise humano-social que cada vez mais afeta-nos no dia-a-dia, ou seja, sinteticamente a mentalidade e a opinião das pessoas.
Atualmente, devido à importância das tecnologias e dos sistemas de informação, qualquer um de nós conhece ou pode conhecer a realidade de qualquer ponto do mundo. Nesta visão, podemos constatar que Portugal apresenta todo um potencial social, cultural, geográfico, entre muitos outros, que nos torna num local de destino muito cobiçado. A agitação social, política, o clima de insegurança vivido em todo o mundo, permite que o mercado do turismo em Portugal seja assim um dos maiores geradores de riqueza.
Neste artigo, vou concentrar-me no impacto da religião na economia, que vai além do turismo religioso e do impulso consumista originado por eventos de culto.
As peregrinações e cerimónias em Fátima mostram-nos que significativo fluxo de pessoas dinamizam na região diversas áreas da economia, desde o comércio de artigos religiosos, hotelaria, restauração entre outros. Dentro dos artigos religiosos, tem especial destaque o da cera, porque através deste ato de comércio os crentes expressam a sua fé e o seu estado de espírito em algo específico.
No caso concreto de Fátima, e de acordo com dados divulgados, este negócio da cera movimenta cerca de 30 toneladas, só na semana do dia 13 de maio. Os caminhos de Santiago também são bastante procurados pelos peregrinos e começam a ter um grande impacto económico no dinamismo de certas áreas, principalmente mais rurais, fazendo-se clientes do comércio e da restauração.
A atividade turística tem aumentado nos últimos anos na região do norte. No ano passado, foram mais de 5,2 milhões de hóspedes e nos primeiros cinco meses de 2019 a região registou 2,02 milhões de pessoas nas unidades hoteleiras, o que representa mais 161 mil do que no período homólogo de 2018. A nomeação do Santuário do Bom Jesus a Património Mundial da UNESCO ajudou e vai continuar a potenciar tudo isto.
Os peregrinos que vão a Fátima e que muitas vezes percorrem as nossas estradas nacionais, no último ano, foram sete milhões de pessoas, uma afluência reveladora da dimensão do fenómeno. Uma aposta feita no turismo é o investimento feito na plataforma online “Os Caminhos da Fé”, dedicada ao turismo religioso, lançada por Portugal, que disponibiliza os recursos de Portugal, um país aberto, de diálogo e intercultural, e que posiciona Portugal internacionalmente como destino de fruição espiritual e cultural.
Ainda como sinal do vigor e importância da religião, temos na Arquidiocese de Braga projetada a construção de um grande santuário eucarístico em honra à Beata Alexandrina de Balasar. Este projeto, que será executado em Balasar, garante uma nova dinâmica na zona da sua edificação, tendo já forçado a autarquia local a suspender o PDM. Dada a importância acima descrita e de acordo com dados recolhidos, atualmente, o turismo religioso representa entre os 10% e os 15% do total do turismo nacional. 
Para além do impacto do turismo religioso na economia, também podemos e devemos estudar o efeito dos valores religiosos no comportamento socioeconómico dos indivíduos, uma vez que a religião socializa as pessoas dentro de um padrão de valores éticos, morais e cívicos, que ao serem cumpridos proporcionariam uma sociedade mais harmoniosa. Vários exemplos se podem equacionar, como a capacidade de perdoar, os níveis de confiança nos outros, os níveis de altruísmo, a honestidade, a justiça e o sentido de oportunidade. Estas dimensões sociais têm efeitos económicos, por exemplo, nos níveis de corrupção, evasão fiscal, trabalho voluntário, nas doações a instituições, na produtividade no trabalho como resposta a um aumento salarial, na disponibilidade que cada ser tem para com o seu semelhante, na equidade. Segundo dados publicados, países cristãos têm em média um PIB per capita superior a países islâmicos.
Concluo com um exemplo que demonstra o valor da religião e do culto: as mais recentes apostas na Arábia Saudita nas grandes peregrinações a Meca, que rendem milhões de dólares ao país, diante da queda dos preços do petróleo desde meados de 2014 pelo colapso dos preços do barril. Essas peregrinações são já consideradas o ouro branco da Arábia Saudita.

André Oliveira


[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Guimarães - uma cidade excessivamente tradicional?

Num mundo em constante mudança, novos desafios e obstáculos são colocados todos os dias. A competitividade económica e industrial entre municípios é cada vez mais feroz, pelo que é necessário estes adequarem as suas políticas às necessidades do quotidiano.
A cidade de Guimarães, além da história que a carateriza, é também, do ponto de vista industrial, uma cidade com tradição. A indústria têxtil e a indústria do calçado são as duas componentes que mais contribuem para a economia vimaranense. No entanto, este forte contributo deve-se, em grande parte, às caraterísticas da sub-região Cávado e Ave ao longo dos anos e não de uma aposta direcionada do município. O norte do país é, por si só, uma macrorregião maioritariamente industrial.
Quando queremos comparar o desempenho de Guimarães em termos económicos, é preciso enquadrar num contexto e equiparar os seus resultados com as cidades com que compete, nomeadamente as cidades de Braga e Vila Nova de Famalicão. Segundo dados do PORDATA, em 2018, Famalicão atingiu a marca dos 2.074 milhões de euros de exportações, ficando à frente de Braga e Guimarães (1.490 milhões de euros). Neste mesmo ano, Famalicão foi o município com a melhor balança comercial do país e, com isso, o que mais contribui para a saúde da economia nacional, entre os 308 concelhos de Portugal. Isto deve-se essencialmente ao investimento que é feito por empresas de renome em Famalicão. Vejamos o exemplo da fabricante alemã de pneus Continental, que anunciou, em 2019, um investimento de 100 milhões de euros para produzir pneus para veículos de movimentação de terras e para aplicações portuárias. Este investimento irá permitir criar mais de 100 postos de trabalho. Além disso, este sucesso económico do município deve-se ao contributo da câmara municipal, que tem apostado incessantemente na atração de grandes empresas e com isso na captação de investimento.
Em 2013, o município de Famalicão inaugurou o Famalicão Made IN, com o intuito de promover, valorizar e afirmar o desenvolvimento económico do concelho. Até 2017, Famalicão Made IN criou 87 empresas, das quais 67 são negócios e 22 são empresas que se instalaram no concelho.
A Câmara de Guimarães criou também, em 2018, um projeto semelhante designado Set.Up Guimarães procurando igualmente potenciar a economia do concelho. Contudo, uma das dificuldades de Guimarães em atrair investimento e empresas com renome nacional e internacional prende-se, especialmente, com os acessos às zonas industriais do concelho. Este é um problema de anos, reconhecido pelo município, mas que tarda em ser resolvido. Em 2017, havia sido aprovado, segundo a Câmara Municipal, um projeto do Governo Português que iria permitir resolver a problemática da principal saída da autoestrada. Passaram-se dois anos e nada feito.
Em 2008 foi inaugurado o Parque de Ciência e Tecnologia Avepark, localizado a 8km do centro da cidade e com um custo de cerca de 10 milhões de euros, procurando aproveitar o posicionamento estratégico nas áreas geográficas do Ave e confinantes. Nesta data, era projetado o Avepark acolher 200 empresas e criar quatro mil empregos qualificados num prazo de 10 anos. Estamos em 2019 e apenas estão sediadas 15 instituições, como a Farfetch, IPCA, TecPark, entre outras. Estes números dececionantes, são a prova inequivoca de que os acessos são um obstáculo à atração de empresas e, consequentemente, ao desenvolvimento económico de Guimarães.
Ademais, um dos polos da Universidade do Minho está localizado em Guimarães. Tendo em conta este facto, seria de todo o interesse a cidade captar este talento universitário para empresas de cariz tecnológico, mas dada a ausência de empresas deste ramo, o município não consegue “agarrar” os jovens. Reter o talento destes é importante para aquilo que é o progresso e o desenvolvimento económico, social e cultural de Guimarães.  
Ainda no decorrer deste ano, Famalicão instalou no seu território um dos oito supercomputadores europeus que dão à indústria e a investigadores o acesso a novas ferramentas para projetos em áreas como a medicina e a inteligência artificial. Em resultado dessa ação, estabeleceu uma pareceria com Universidade do Minho para que, em conjunto, possam cooperar em futuros projetos de investigação. Desta forma, Guimarães poderia ter auferido deste supercomputador e estabelecer cooperação com o polo da Universidade do Minho situado no seu território.
Em suma, é evidente que Guimarães, não obstante continuar com indicadores económicos positivos, ainda que em 2018 as exportações tivessem aumentado (6,2%) menos do que as importações (19,4%), em relação aos seus mais diretos competidores tem ficado para trás. A indústria vimaranense é uma indústria muito tradicional e pouco virada para as tecnologias, enquanto que outros concelhos, como Famalicão, têm-se adaptado ao contexto industrial e económico do país e do mundo, apostando na tecnologia e investigação. Quando olhamos para um futuro próximo, Guimarães poderá ter dificuldade em manter estes dados económicos dada a competitividade nacional e mundial.

Amadeu Júnio Castro

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Envelhecimento da população

Todos estamos familiarizados com a ideia de que, cada vez mais, e principalmente nos países desenvolvidos, a população está a envelhecer, sendo este um dos assuntos considerado como uma das transformações sociais mais significativas no século XXI.
Segundo a ONU, e devido a um estudo desenvolvido no Dia Internacional da Pessoa Idosa, foi concluído que há mais pessoas com 65 anos do que crianças menores de 5 anos, caso nunca antes ocorrido. Se este aumento continuar, poderá haver um aumento de 46% da população com mais de 60 anos até 2030, ultrapassando assim a classe das crianças com menos de 10 anos. O relatório indica também que o número de idosos será maior na Ásia, no entanto, o continente mais envelhecido será a Europa. O continente onde se verificará o maior aumento populacional é África.



O envelhecimento da população é, portanto, um fator preocupante para a Europa, uma vez que, devido aos avanços médicos e à melhoria da qualidade de vida, a esperança média de vida está a aumentar. Isto demonstra evolução, no entanto, esta não acompanha a taxa de natalidade e de fertilidade, que se encontram em declínio, o que pode trazer grandes consequências económicas. Teremos cada vez menos população ativa a suportar a população não ativa.
Neste momento, a Europa tem por cada pessoa de 65 anos ou mais, 4,4 pessoas em idade de trabalhar mas, se a população ativa diminuir, estima-se que o número baixe para 3,1 em 2025 e para 2,1 em 2050. Portugal não foge a este efeito, sendo um dos 5 países da Europa mais envelhecidos.
Além de mais mulheres terem menos filhos, estas estão a tê-los mais tarde. É de conhecimento geral que países europeus estão a desenvolver medidas de forma a incentivar o aumento da natalidade e a aumentar o bem-estar das famílias, e cada vez mais são as vantagens como a diminuição do IRS consoante o número de filhos, subsídios à natalidade, comparticipações nos primeiros anos, entre outros.
Se temos mais idosos e menos jovens, teremos menos mão-de-obra e a proporção de reformados face ao número de trabalhadores aumenta. Os custos de cuidados de saúde e sociais são maiores e há menos pessoas a contribuir para a segurança social com impostos e mais pessoas reformadas, o que vai alterar a sustentabilidade desta.
Na minha opinião e constatando estes factos, este é um assunto que representa cada vez mais um desafio para os países e que é necessário tentar combater o mais rapidamente possível, procurando encontrar soluções que permitam a sustentabilidade da segurança social. Várias políticas de apoio à natalidade anteriormente expostas iriam ajudar a combater este tema da atualidade. O verdadeiro problema é a não existência de suficientes incentivos a ter filhos, o que não passa só pelas mulheres e pelas novas gerações, mas sim prende-se com a mentalidade de todas as pessoas, do governo e do país.

Telma Torres

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Mercado de Transferências – Uma "Janela" para Abrir ou para Fechar?

Sendo o mercado de transferências no Mundo do Futebol uma atividade que movimenta um volume de negócios cada vez com maior significado, inclusive “desconhecendo-se” o relativo aos mercados asiáticos, associado à sua importância social e ao carácter crescente dessa atividade, trata-se de um objeto de estudo que, além de atual, parece vir a ter cada vez mais significado do ponto de vista económico.
A forma semelhante com que eram definidos os períodos cronológicos de transferências tornava este mercado regulado pela procura e pela oferta. As variáveis existentes eram seguramente comuns na maioria das transações. Introduzida a variação na variável cronológica ao nível apenas de uma federação e sendo a mesma de importância marcante, verifica-se que o mercado geral sofreu alteração com essa mesma medida, apesar de unilateral.
Os clubes da Premier League (Liga Inglesa) tomaram a iniciativa: a partir de 2018 ,o período de transferências passou a encerrar mais cedo, antecipando agora o último momento possível para consumar uma transferência para a quinta-feira que antecede o início do campeonato e não o final de agosto, como acontecia anteriormente.
Esta medida foi tomada após se verificar um consenso entre os clubes, que afirmaram que uma janela expandida como a anterior provocava instabilidade na equipa e no campeonato. Não obstante, continua a ser permitida a venda/transferência de jogadores da Premier League para outro clube que atue em qualquer outro campeonato, desde que este tenha o mercado aberto. Assim sendo, o objetivo desta medida é acabar com a possibilidade de um jogador alinhar numa equipa e na jornada seguinte alinhar noutra, na terra de Sua Majestade.
Tendo o mercado de transferências de jogadores de futebol um fator especulativo associado, a possível redução do período de negociação/transferência poderia vir a retirar parte desse valor meramente especulativo, obrigando o negócio a ser mais objetivo, mais predefinido, mais assertivo da parte do comprador, tornando o vendedor menos influenciável a rumores. Esses rumores, por vezes, fazem com que o clube não desça a exigências que podem ser irrealistas tendo em vista a possível chegada de "concorrência" na compra do jogador, ou pode em simultâneo haver no mercado global uma transferência "louca" de 100 milhões, o que aumentaria os valores propostos, tentando assim concretizar o que pela dilatação do tempo possa ultrapassar a dita janela e assim impossibilitar a efetivação do negócio.
Recentemente, foi pública uma tentativa de contratação de Bruno Fernandes ao Sporting por parte do Tottenham a rondar os 65 milhões de euros. Essa transferência acabou por não se dar pelo facto do Sporting fomentar nos media a notícia da transferência e ao mesmo tempo atrasar a decisão, na expectativa de ter mais propostas e de maior montante.
A expectativa do aparecimento de ofertas noutros mercados acabou por gorar-se sobretudo porque, habitualmente, nesses mercados de outras ligas as transferências pautam-se por valores inferiores. Assim, o facto do mercado inglês encerrar mais cedo acabou por tirar o efeito de procura que existia até essa data e que naturalmente não foi contrabalançado por propostas de outras ligas, apesar de cronologicamente ainda ser possível realizar transferências.
O que aparentemente é um mercado com maior número de ofertas, atendendo ao desfasamento cronológico, acaba por se traduzir em momentos em que a procura é menor e, portanto, em termos de procura e oferta esse valor acaba por cair.
A sincronia cronológica parece ser necessária para que exista um modelo padrão, e as equipas possam programar e negociar com base no presente, atenuando uma maior imprevisibilidade associada ao desfasamento de prazos internacionais. Assim, talvez o Sporting tivesse aceitado a oferta de 65 milhões por um jogador avaliado no Transfermarkt em 55 milhões (7/06/2019).

André Vila Mendes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]