sábado, 16 de novembro de 2019

Cultura: uma despesa ou um investimento?

Foram divulgados no mês de outubro deste ano os resultados provisórios dos Concursos Sustentados Bienais 2020/2021, realizados pela Direção-geral das Artes (DGArtes). A Direção-geral das Artes é o organismo responsável pela coordenação e execução de políticas de apoio às artes. Detém, assim, um papel fulcral na garantia de condições para a estabilidade, consolidação e renovação do tecido artístico profissional em Portugal, bem como para a sua internacionalização.
O concurso permite que entidades que apresentem projetos com a finalidade de dinamizar e renovar a oferta artística nacional se associem a outras entidades financiadoras, públicas e privadas, para promover a atribuição de apoio a projetos artísticos. De entre 196 candidaturas apresentadas, apenas 177 foram consideradas elegíveis, sendo que, destas, só 102 vão receber financiamento. De acordo com um comunicado da entidade responsável pela organização dos concursos, este resultado, que totaliza uma verba de 18,7 milhões de euros para o próximo biénio, “garante uma cobertura de 60% do total das 177 candidaturas elegíveis”. Apesar do concurso apresentar um crescimento de quase três milhões de euros face a anos anteriores, as verbas ainda não são suficientes para financiar todos os candidatos elegíveis.
Numa missiva ao governo, várias entidades artísticas defenderam que: “Os apoios às artes são investimento em bens de interesse público, defendendo o direito à criação e à fruição cultural (de acordo com os artigos 73.º e 78.º da Constituição da República Portuguesa). Consideramos de extrema importância a ampliação da verba afeta à criação e programação das artes em Portugal".
A indústria cultural não se consegue afirmar em Portugal e não é vista de forma atrativa. No entanto, o mesmo não se verifica com os restantes países da União Europeia. O comércio cultural tem vindo a crescer na Europa, mas estagna em Portugal. Em dados fornecidos pela Eurostat sobre gastos em lazer, cultura e religião, para 2016, Portugal encontra-se nos cincos países que menos investem em cultura na União Europeia. Do mesmo modo, o turismo cultural apresenta-se, agora, como uma das maiores fontes de rendimento económico na União Europeia, ao mesmo tempo que as empresas culturais crescem e se conjugam com novos e diferentes mercados.



Apesar de o governo defender que “A cultura é um elemento fundamental na valorização da marca Portugal”, a mesma é ainda vista como uma despesa e não um investimento e não é aceite como um possível pilar para o crescimento. É então necessária uma revisão do modelo de apoio às artes em Portugal, em que não se promova apenas o investimento de verbas em cultura mas que, também, incentive os cidadãos a consumirem mais bens culturais.
Portugal é um país com grande potencial e capacidades em termos culturais, sendo muito rico em património cultural. Daí que entenda ser necessário apostar na re-funcionalização pública do património, dos museus e monumentos, e na reconstrução de serviços públicos que garantam pluralidade de oferta cultural.

Sílvia Dias

http://portocanal.sapo.pt/noticia/198573

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Estarão as BITCOINS ainda na moda? Quem ainda investe?

Para quem ainda não sabe ou até mesmo já se esqueceu, a bitcoin é uma moeda digital que permite transferir dinheiro ou fazer pagamentos de uma forma instantânea e barata para qualquer ponto do mundo e que não é controlada pelos bancos centrais ou por entidades governamentais.
Sendo digital, é fácil de transferir. E uma vez que a sua emissão e transmissão dependem de um complexo processo de autenticação, a famosa blockchain, é muito difícil de falsificar. Duas boas razões para a bitcoin poder ser considerada uma moeda. Mas cumpre as funções de uma moeda? Em teoria, sim. Na prática, não. Ou ainda não. Ou sim, mas de forma muito imperfeita. O número de agentes económicos que aceitam a bitcoin ainda é limitado. E faltam leis que regulem as transações.
A bitcoin é sinónimo de valorizações estonteantes. Partindo literalmente do zero quando foi criada, a bitcoin começou uma escalada impressionante que a levou a atingir quase 20 mil dólares em algumas bolsas de bitcoin no mês de dezembro de 2017, antes de perder mais de 80% desse valor e regressar aos 3 mil dólares um ano depois (dezembro de 2018), valor que desde aí voltou a quadruplicar. Tudo isto com subidas e descidas diárias que, de forma rotineira, ultrapassam os 10%. 2019, tem sido um ano de recuperação para o mercado de criptomoedas e para a bitcoin, em particular. Depois da queda em 2018, a bitcoin tem vindo a fazer uma recuperação significativa em 2019.
Depois de começar o ano a valer 3.746$, a bitcoin estabilizou entretanto por volta dos 10.000$, o que representa um aumento de cerca de 160% no seu valor.
Quem é que investe em bitcoins? Dado que as bitcoins são um tipo de ativo que apresenta alta volatilidade e risco, o investimento é mais indicado para investidores com experiência. São os chamados investidores de perfil arrojado, capazes de tolerar perdas em curto prazo em vista de ganhos maiores no futuro. Então as bitcoins não são uma boa opção de investimento para o investidor conservador
Se for um investidor com perfil moderado, ou seja, que tem algum apetite por risco, em troca de maiores ganhos, talvez as moedas digitais possam ter uma pequena parte na sua carteira de investimentos. Afinal, a diversificação reduz o risco total da sua carteira de investimentos, ajudando seu patrimônio a crescer com um bom nível de segurança.
Mas é seguro investir em bitcoins? No passado, houve casos de ataques informáticos a carteiras de moedas virtuais que resultaram em perdas totais para os investidores. Houve também sites fraudulentos que prometiam este serviço, mas desapareceram, levando com eles as moedas digitais que tinham guardadas.
O Banco de Portugal publicou nos últimos anos avisos a explicar que "as moedas virtuais não são seguras”. As entidades que emitem e comercializam "moedas virtuais" não são reguladas nem supervisionadas por qualquer autoridade do sistema financeiro, nacional ou europeio.
Estarão os economistas a favor da compra/investimento em Bitcoins? O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, advertiu que a 'bitcoin' e outras criptomoedas são "ativos muito arriscados", que devem ser mantidos com prudência, nomeadamente por bancos. "As moedas virtuais estão sujeitas a grande volatilidade. O seu preço é completamente especulativo", declarou Draghi, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Draghi disse ainda que as criptomoedas evoluem “num espaço que não está regulamentado” e que os bancos têm de ter em conta “um risco elevado”, sobretudo devido a grande volatilidade.
Joseph Stiglitz, de 74 anos, Prêmio Nobel de Economia em 2001 e ex-economista-chefe do Banco Mundial, não usa meias palavras ao falar da bitcoin. Em entrevista à BBC, o economista americano explicou por que acredita que o bitcoin deveria ser proibido: "Por que as pessoas querem bitcoins? Por que as pessoas querem uma moeda alternativa? A verdadeira razão pela qual as pessoas querem uma moeda alternativa é participar de atividades ilícitas: lavagem de dinheiro, evasão fiscal".
De forma a concluir, na minha opinião, o investimento em bitcoins não é “para todos”. É um investimento favorável aos investidores que já se encontram em níveis superiores quer de experiência quer em reservas monetárias. Contudo, gostava de experienciar uma economia em que os Bancos aceitassem as moedas digitais como a bitcoin, entre outras. Tal aceitação levaria provavelmente à “falência” de algumas moedas atuais que não são tao fortes no mercado, prejudicando os países que as adotassem, contudo poderia vir a beneficiar outros.
Também consigo imaginar o uso da bitcoin como a moeda dos indivíduos de classe média-alta, que auferem rendimentos superiores. Dado que uma bitcoin corresponde a 8202,62 €, porque não usar bitcoins na transação/compra de bens de preço elevado, como casa, carro, de modo a simplificar o processo.

Tomás Ferreira Pinto

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

¿Quién financia el cambio climático?

Mucho antes de lo esperado por la investigación científica, el ser humano ha forjado el calentamiento global desde antes del siglo XX, durante las primeras etapas de la revolución industrial,  causando que el clima medio sobrepase la variabilidad normal en los siglos anteriores a dicha revolución. Como consecuencia del calentamiento global se da el cambio climático, noticia y problema actual del cual es inevitable haberse enterado.
 El término de “financiación climática” hace referencia a la descripción de los flujos financieros de los países desarrollados a los países en desarrollo para financiar las actividades de mitigación y adaptación del cambio climático. A modo de definición está claro pero… ¿quiénes son los encargados de desembolsar esta ingente cantidad de dinero?
 La Unión Europea y sus estados miembros son el mayor proveedor de financiación pública climática. Sus contribuciones llegaron a los 21,700 millones de euros en 2018, frente a los 20,400 millones de euros de 2017. Estas contribuciones fueron exitosas y se utilizaron para iniciativas de mitigación del cambio climático en los países en desarrollo. Las últimas cifras dicen que la Unión Europea puede ampliar su contribución internacional a financiar este proyecto  para alcanzar una meta de 100 mil millones de dólares  por año, establecida para los países industrializados para 2020 y hasta 2025, año en que las partes establecerán una nueva meta cuantificada colectiva.
Al hilo de la financiación pública destinada a luchar contra el cambio climático existen muchas contribuciones bilaterales de países como Reino Unido, Alemania, Francia, España, Dinamarca, Noruega, Estados Unidos, Canadá, Japón o Australia, canalizadas a través de iniciativas de Naciones Unidas, de la Unión Europea o de bancos multilaterales de desarrollo.
En este contexto, en los últimos años se ha producido el desarrollo de nuevos instrumentos de financiación verde, siendo los bonos verdes el más avanzado. Son bonos emitidos tanto por entidades públicas como privadas cuyo fin es obtener fondos para financiar proyectos dedicados a la sostenibilidad del medio ambiente. Desde 2007 que se produjo la primera emisión por el Banco Europeo de Inversiones. El mercado ha sido especialmente activo con emisiones de este tipo de bonos tanto de instituciones financieras  como no financieras e incluso tesoros.
España es uno de los países europeos donde el impacto agregado del cambio climático es más intenso, teniendo en cuenta daños potenciales tanto físicos, ambientales, económicos, sociales como culturales. Los veranos ya duran cinco semanas más y en las ciudades la temperatura ha subido el doble que la media mundial.

Además, España se encuentra, en comparación con el resto de Europa, entre los países con  menor capacidad de adaptación a dicho cambio climático, calculado como la combinación de la capacidad económica, de las infraestructuras, tecnología, conocimiento, sensibilización y la capacidad institucional.

Cabe añadir que la tierra ya ha sufrido periodos de calentamiento y enfriamiento de forma natural,  pero  estos ciclos siempre han sido mucho más lentos, necesitando millones de años. Actualmente, por el contrario, y como consecuencia de la actividad humana, se está llegando a alcanzar niveles que en otras épocas llevaron a extinciones en apenas 200 años.                
Es necesario pedir que los gobiernos garanticen un juego limpio, seguir intentando producir con menos CO2 y para ello utilizar otras fuentes de energía, la implementación urgente del Acuerdo de París con objetivos realistas y necesidad de una arquitectura financiera climática potente a nivel global que englobe no solo al sector público (que incluye instituciones financieras de desarrollo y bancos multilaterales)  sino también al sector privado.
La utopía lleva a la realidad, y solamente dándonos cuenta de que existe un problema se podrá llegar a reducir su impacto, y ojalá que en un futuro solventarlo por completo.

Irene Rabal Marco

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Os desafios do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul

O acordo comercial entre a União Europeia (EU) e o Mercosul, que teve suas negociações iniciadas há 20 anos, foi finalmente finalizado e aguarda ratificação dos países envolvidos. Este seria o segundo maior acordo firmado pela União Europeia e envolve 25% da economia global. Apesar de ter sido noticiado como histórico, devido aos recentes incêndios que se deram na Amazónia e as declarações do governo brasileiro, países como Franca e Áustria repensaram suas posições em relação ao acordo.
Não há dúvidas que este acordo trará uma série de benefícios para todos os países envolvidos. Estima-se, de acordo com o Ministério da Economia do Brasil, um impacto de 336 bilhões de reais no PIB do Brasil, em 15 anos. Se forem levadas em consideração as eliminações de tarifas sob produtos como frutas, café, suco de laranja, este efeito pode ser de 480 bilhões. Além disso, é esperada uma redução de tarifas sobre os produtos industrializados, o que estimularia a economia da EU. No presente momento, a indústria automotiva chega a enfrentar taxas de 35%, quando tentam exportar para o Mercosul. É previsto que em 10 anos cerca de 90% das tarifas da EU sobre produtos do Mercosul sejam retiradas.
Em suma, o acordo, que pode ser o segundo maior do mundo, é um sopro de livre comércio em uma economia global que caminha cada vez mais para o protecionismo. Outro fator significante é seu peso na economia europeia: sua redução tarifária supera o acordo com o Japão.


Justamente por isso, os últimos desenvolvimentos na Áustria e França são tão preocupantes. Ambos os países já começaram a se movimentar contra o acordo, isso por não concordarem com a postura do governo brasileiro em relação às mudanças climáticas. De fato o presidente Bolsonaro mostra uma inabilidade notável não só em compreender a importância do problema climático mas, também, em como lidar com crises, quaisquer que sejam estas, relacionadas com seu governo. A forma truculenta e indisposição para dialogar com opositores do presidente brasileiro não é bem vista pela opinião pública europeia que, em geral, vê a questão climática com prioridade. O que os críticos do acordo comercial parecem ignorar é que seus signatários se comprometem a cumprir as diretrizes estabelecidas em Paris, em 12 de dezembro de 2015.
Tendo em vista a atual situação económica do Brasil, a instabilidade política na Argentina e o quanto esses países contam com o acordo comercial para estimular suas economias, aqueles que realmente se importam com o meio ambiente deveriam ser os maiores defensores de uma resolução rápida das negociações. O acordo deveria ser visto como uma oportunidade ímpar de forçar as economias sul-americanas, em específico, o setor da agropecuária, a aderirem aos padrões climáticos exigidos pela Europa.
Por fim, fica evidente que o acordo comercial tem muito a acrescentar para os dois blocos. A postura de certos governos, seja o brasileiro, o austríaco ou o francês, não traz benefícios nem para suas economias nem para suas supostas causas. Na realidade, estes líderes políticos estão cedendo ao populismo barato em detrimento dos fatos. É triste ver que uma oportunidade histórica está sendo desperdiçada e que décadas de negociação podem ser jogadas pelo ralo porque governantes se preocupam mais com suas reeleições do que com seus países.

Gabriel Costa Mendes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Direitos (Des)Humanos

Acerca de 5 anos, um assunto já suficientemente conhecido por todos nós tornou-se alvo de ainda maior mediatismo. Desde então, que este tema começou a tomar proporções nunca antes vistas. Um refugiado é alguém que foi obrigado a deslocar-se para outra região devido à insegurança sentida, quer por conflitos armados ou por perseguições religiosas e de etnia. Nos moldes de hoje, poucos são os refugiados que se deslocam para regiões dentro do país, sendo por isso obrigados a atravessar fronteiras internacionais de forma a encontrar segurança noutra localidade. Embora seja um assunto muito discutido e sendo apresentadas estatísticas e notícias sobre os refugiados que através do Mediterrâneo tentam entrar na Europa, não é este Continente que comporta a grande parte dos refugiados. Países vizinhos de nações com grande instabilidade e falta de segurança tendem a ser os mais afetados, como é o caso da Turquia, da Jordânia, Líbano e Paquistão.
O relatório anual do ACNUR apresenta números assustadores: cerca de 70,8 milhões de pessoas no mundo foram forçadas a deslocar-se à procura do mínimo para a sua sobrevivência. No caso europeu, o país que acolhe mais refugiados é a Turquia, com cerca de 3,8 milhões de refugiados, seguindo-se a Alemanha, com cerca de 1,4 milhões, e a França, com 400 mil. Portugal ocupa a 28ª posição, acolhendo cerca de 1700, sendo o único país com um número inferior a este a Eslovénia, com 900 refugiados.
Estes refugiados têm como ambição e objetivo países com elevado nível de vida, que tendem a ser mais distantes e mais rígidos no controle. O problema surge pelo facto de que o processo de um indivíduo ser reconhecido como refugiado é bastante atribulado, quer pela falta de documentos (muitos são perdidos ao longo das sucessivas viagens) quer por questões burocráticas, tornando assim mais aliciante a vertente ilegal destas viagens e da entrada nos países em questão, recorrendo a redes criminosas para tal. Estas redes, cada vez mais, são formadas e desenvolvidas, aproveitando-se do desespero e vulnerabilidade das pessoas. Estima-se que 9 em cada 10 refugiados chegam à Europa através da contratação ou pagamento a intermediários que possibilitam documentação ilegal, viagens e estadia. Contudo, poucos são aqueles que conseguem chegar ao seu destino de sonho. Muitos fazem da sua realidade os campos de refugiados que são improvisados, dados os recursos monetários e físicos disponíveis em que as condições de vida estão abaixo daquilo que é considerado justo, outros são envolvidos em esquemas de tráfico humano, escravização e prostituição ou tendem a morrer ao longo do desafiante caminho em busca de uma vida melhor. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, este negócio obscuro estima-se que valha 10 mil milhões de dólares, anualmente.
Embora falar de refugiados seja falar da falta de direitos humanos, cada vez mais os países fecham fronteiras ou criam políticas para diminuir este fluxo de entrada. Contudo, quanto mais impedimentos existirem e mais difícil for a luta pela sua sobrevivência, mais poder terão estes criminosos de explorar as pessoas e fazerem disso um negócio bastante lucrativo, alimentando assim uma tragédia que tenderá a perdurar. Ou seja, a primeira e principal razão para um maior comprometimento dos países nesta temática deveria ser, sem margem de dúvida, os direitos humanos e a entreajuda entre nações, para uma construção de um mundo melhor e mais equitativo. A segunda grande razão prende-se com aquilo que foi enunciado anteriormente. Se os países não adotarem políticas ativas de reinserção e ajuda a estas pessoas, então as atividades ilegais emergem para valores bastante preocupantes, possivelmente superiores os valores de combate a estas situações do que se anteriormente tivessem sido criados programas ou ferramentas para uma melhor realocação dos mesmos. Além disso, estas pessoas tendem a provocar no longo prazo um elevado dinamismo económico pela sua faixa etária, mas também pelo seu nível de comprometimento e nível de escolaridade.
No caso português, o número de refugiados realocados ainda não é elevado, mas o país tem estado disponível e com a mente aberta para o fazer, o que na minha opinião é a postura que deverá ser adotada. Programas de inserção nas cidades portuguesas através da aprendizagem da língua e a facilitação de trabalhos em diferentes setores demonstram a preocupação para esta temática, mas também a necessidade de uma política mais ativa na sociedade para combater uma dimensão da economia paralela.

Maria Helena Santos Pereira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Salário Mínimo Nacional – uma questão prioritária

Após a eleição legislativa do passado 6 de outubro, o país atravessa agora uma “nova” fase na política nacional. Desta eleição saiu um governo minoritário que precisará de acordos, sejam eles à direita ou à esquerda, para que Portugal tenha uma legislatura estável e produtiva. Desde esse momento eleitoral e até aos dias de hoje, um dos temas mais badalados é o tema do salário mínimo nacional. Muitas são as opiniões referentes a este assunto, mas todas elas são unânimes em certos aspetos. Desde logo é consensual que o atual salário mínimo é baixo em comparação com os demais países da União Europeia e que, por isso, é justo e necessário para os trabalhadores aumentá-lo.
Dados mais recentes do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social mostram que, nos primeiros noves meses deste ano, cerca de 21,3% dos trabalhadores recebem uma remuneração igual à Remuneração Mínima Mensal Garantida. Um número bastante elevado que reflete o estado “precário” do mercado de trabalho em Portugal.
Depois do período negro vivido com a presença da Troika em Portugal, em que devido às restrições Europeias e decisões do governo português em funções naquela época o salário mínimo manteve-se inalterado, temos assistido, nos últimos tempos, a aumentos consideráveis. De acordo com um estudo realizado pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Portugal continua a ter um dos salários mínimos mais baixos quer da União Europeia quer da Área Euro. Não obstante esse fator, é de realçar que nos últimos quatro anos a renumeração mínima aumentou dos 505 euros, em 2016, para os 600 euros, em 2019, um aumento de quase 19% em termos nominais (em termos reais o valor ficou nos 14%).
O atual Governo tem apostado numa valorização clara dos salários, adquirindo este um lugar central na política portuguesa. No entanto, esta aposta do governo português não era bem vista pela Comissão Europeia, que se demonstrava, no início, preocupada com o efeito do salário mínimo na destruição de empregos. Numa notícia publicada pelo Diário de Notícias no dia 7 de março de 2018, Bruxelas reconheceu o erro da primeira previsão e afirmou que o aumento do salário mínimo no nosso país permitiu melhorar o salário dos trabalhadores menos qualificados e que esta subida não teve uma influência negativa na criação de novos empregos. Deste modo, esta subida da remuneração mínima foi uma aposta ganha pelo governo. Na verdade, a conclusão da CE pode ser provada pelos dados estatísticos disponíveis sobre a matéria.

Mas se, por um lado, existe um consenso generalizado na questão prioritária que é a subida do salário mínimo a partir de 2020, esbarramos na falta de entendimento quanto ao valor do seu aumento. Desde a direita à esquerda e até mesmo a Comissão Europeia, que através das projeções referentes aos dados económicos portugueses dão argumentos a essa subida (previsão do crescimento para o PIB de 2% para 2019, face aos 1,7% previstos no Verão), concordam na prioridade da subida, mas os valores defendidos para esses aumentos são diferentes. De acordo com António Saraiva, Presidente da CIP, um aumento do salário mínimo para 700 euros até ao final da legislatura (2023) é “razoável”, mas alerta para os saltos abruptos, porque as empresas estão mais fragilizadas e expostas à concorrência internacional. É importante destacar que o objetivo do governo é chegar aos 750€ até 2023, face aos 700€ defendidos pelo maior partido da oposição e dos 850€ pela CDU. Divergências são visíveis, pelo que é necessário dialogar e debater.
Em suma, é evidente a importância do aumento do salário mínimo nacional. Mas o consenso que é necessário para que tal aconteça não dispensa cautela. Não podemos cair na tentação do aumentar sem primeiro ter em conta o equilíbrio da economia, nomeadamente ao nível da competitividade das nossas empresas. O salário mínimo deve subir ao ritmo que a nossa competitividade o permitir, porque se for em “overdose é pior a emenda que o soneto”. É de notar que grande parte do nosso tecido empresarial são Pequenas e Médias Empresas, assim como microempresas, pelo que é fundamental acompanhar a evolução das mesmas e das restantes empresas, criando-lhes condições para que seja possível suportar estes aumentos.
Em função de tudo anteriormente referido, é fundamental continuar analisar, debater e agir de uma maneira ponderada e eficaz no combate a este tema, mas sem nunca esquecer o equilíbrio preponderante da nossa economia. Nunca devemos querer obter rapidamente os resultados e comprometê-los no futuro, mas sim atuar em conformidade com o presente e o amanhã.

Amadeu Júnio Castro

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A POUPANÇA E O ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS

A poupança é a parte do rendimento disponível do agregado familiar que não é utilizada como despesa de consumo final. A quantidade de dinheiro que as famílias estão a poupar pode ser medida através da taxa de poupança das famílias, que é definida como a proporção de poupança do agregado familiar relativamente ao seu rendimento disponível.
A tendência de uma descida da taxa de poupança é justificada pela facilidade de acesso ao crédito. A procura de crédito por parte das famílias é sustentada pelas expectativas de crescimento e pela confiança na capacidade do Estado em cumprir os compromissos assumidos.
Na verdade, a taxa de poupança, em Portugal, registou um aumento durante o período de crise e, posteriormente, tem apresentado uma evolução no sentido da baixa, embora com algumas flutuações. Em 2018, a taxa de poupança das famílias terá atingido o valor mais baixo de sempre e, em 2019, prevê-se que ronde os 5% do rendimento disponível. Portugal é um dos países da zona euro com uma taxa de poupança significativamente abaixo da média registada nos países da zona euro, o que é motivo de preocupação.  
                      
                                                     Fonte: Pordata

                                                   - Luxemburgo; -UE; -Portugal. 
                                                     Fonte: INE
                       
Contrariamente a Portugal, a taxa de poupança das famílias na UE tem sido bastante estável desde o início do milénio, oscilando entre 11% e 13%. O padrão é aproximadamente o mesmo na Zona Euro, mas com taxas ligeiramente superiores. As mais elevadas taxas de poupança das famílias foram observadas no Luxemburgo, na Suécia, na Alemanha e na França, e as mais baixas em Chipre, na Lituânia, na Letónia e na Polónia.

O crescimento do endividamento resulta de muitos fenómenos que também contribuem para a redução da taxa de poupança, por exemplo, a facilidade de acesso ao crédito e o crescente consumismo. Portanto, existe uma ligação entre a evolução registada destes dois indicadores.

O endividamento, ou seja, o recurso ao crédito genericamente, está ligado à aquisição de habitação própria, à aquisição de um veículo, à realização de obras em habitação e ao consumo de bens e serviços. Em situações limite, as famílias podem recorrer ao crédito para fazer face a imprevistos.

Por sua vez, no que concerne à composição da riqueza das famílias, verifica-se que esta é representada por mais de 75% em imóveis, 15 % em ativos não financeiros e o restante em ativos financeiros. 





É importante continuar a controlar a forma como os bancos praticam a concessão de crédito, ou seja, se estão a cumprir as recomendações do supervisor, para evitar que o rendimento disponível seja todo absorvido num empréstimo à habitação, não deixando margem para que se faça uma poupança. 

É importante que a taxa de esforço não ultrapasse um determinado limite face ao rendimento das famílias (50%) e que o empréstimo não se prolongue (mais de 30 anos) além da vida ativa do devedor, já que a pensão de reforma será, certamente, inferior ao rendimento auferido durante a vida ativa. Desta forma, surge a necessidade de as pessoas pouparem durante a vida ativa de forma a garantirem uma redistribuição dos seus rendimentos ao longo dos diferentes períodos, permitindo-se assim um alisamento do consumo. 

Como referido anteriormente, as famílias portuguesas, quando comparadas com as dos restantes países da área do euro, apresentam rácios do serviço da dívida e do montante da dívida no rendimento superiores. No entanto, apresentam um menor rácio da dívida face aos ativos. Esta situação resulta, designadamente, do facto de em Portugal uma maior percentagem de famílias ser proprietária de imóveis (cerca de 75% da riqueza das famílias) e de financiar a respetiva aquisição através do recurso ao crédito.

Em Portugal, praticamente, nada tem sido feito para incentivar a poupança. A última iniciativa realizada foi a criação do Regime Público de Capitalização (RPC), em 2008. O RPC é um regime complementar de adesão individual e voluntária, que permite efetuar contribuições adicionais ao longo da vida ativa do aderente, que serão capitalizados numa conta em seu nome e convertidos em certificados de reforma.

No entanto, existem medidas que incentivam a poupança, que decorrem, por exemplo, da atribuição de benefícios fiscais a produtos associados à poupança ou, até, da inclusão de uma percentagem nos salários dos trabalhadores alocada a uma conta poupança (com a autorização do trabalhador). Desta forma, a meu ver, incentivos ao aumento da poupança dos particulares são necessários para o desenvolvimento sustentável do país e, por isso, o Estado pode desempenhar um papel fulcral no que concerne à sua contribuição para a inversão deste ciclo vicioso de (des)poupança a que as famílias têm vindo a aderir. 

Cláudia Oliveira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]