quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Desigualdades: mais do mesmo…

Um dos assuntos de grande importância que nos últimos dias tem sido falado nos meios de comunicação social prende-se com a repartição dos rendimentos. Segundo o relatório "Growing Unequal?", recentemente divulgado pela OCDE, Portugal (0,32) é o terceiro país desta organização com mais desigualdades, a par dos EUA, e a seguir à Turquia (0,42) e ao México (0,47). O índice de Gini é um indicador estatístico que mede disparidades de rendimento, variando entre 0 e 1, correspondendo respectivamente, à completa igualdade e desigualdade. Para além de sermos o país da União Europeia com mais disparidades, o fosso entre ricos e pobres aumentou nos últimos vinte anos, o mesmo não acontecendo com outros países que viram a sua situação melhorar, sendo de salientar o exemplo da nossa vizinha Espanha e do México. Este aumento caracterizou-se num incremento da pobreza infantil (crianças e jovens adultos) em detrimento das pessoas idosas. De acordo com o estudo, os 10% mais pobres em Inglaterra ganham em média mais dinheiro do que o português com rendimento médio, o que é de realçar. Ainda é de referir a posição curiosa dos EUA, o que vai contra o facto de ser um dos países mais desenvolvidos do mundo.
Como seria de esperar é nos países onde as diferenças sociais são maiores que o risco de pobreza é mais elevado. A pobreza é um conceito que está intimamente relacionado com este tema e portanto convém referir que esta apresenta um valor de 18% para o nosso país. Encontram-se em situação de pobreza todos aqueles que não conseguem satisfazer de forma regular todas as suas necessidades básicas, isto é, todos aqueles que vivem com menos de 406 euros mensais. Feito um ponto de situação surgem rapidamente questões, tais como: será que se tem feito o que é preciso para inverter esta situação, por outras palavras tem-se assistido a uma boa intervenção do Estado?
Portugal foi um dos 15 países da OCDE que optou por não apoiar os seus trabalhadores com salários mais baixos, um grupo vulnerável à pobreza e que viu a sua situação deteriorar-se com a crise económico-financeira. Estas pessoas, que apesar de trabalharem e receberem salário estão na pobreza, representam cerca de 12%, número que subiu relativamente ao ano transacto. Apesar de muitos países terem posto em prática medidas fiscais de ajuda a este grupo após o estalar da crise, como o adiantamento do pagamento de impostos verificado em Espanha ou as descidas nas taxas na Alemanha, Portugal resolveu apenas prestar ligeiras ajudas, que reflectiram um peso de 0,8% do PIB, muito aquém dos seus pares europeus. Também segundo um relatório há dias divulgado pela Comissão Europeia, a rigidez das leis do mercado de trabalho português tornou ineficazes as medidas de combate ao desemprego, importantes para uma diminuição da pobreza, o que está a alimentar a economia informal. Bruxelas sugere um reforço da capacidade de ajustamento dos mercados para além de um aumento da eficácia dos centros de emprego e formação profissional como medidas a serem postas em prática com a maior brevidade possível. Olhando portanto para a actuação do governo parece que se tem feito pouco e que ainda há um longo caminho pela frente, caminho esse que urge em ser alcançado. No entanto, o ex-ministro do trabalho Vieira da Silva (com a pasta da economia neste novo governo) contrapõe nomeadamente o relatório da OCDE, afirmando que este refere-se a um período longo, desde os anos 80, em que se verificaram períodos de maiores e menores assimetrias. Apoiando-se em dados mais recentes (desde 1995) da UE, defende portanto que Portugal foi o país em que a taxa de pobreza mais diminuiu, passando de 23% para 18%. Seja como for, continuamos a ter uma taxa superior à média europeia.
A inversão da situação actual pode passar designadamente pela subida dos impostos aos mais ricos, ou seja, actuando no limite superior, pelo que, por exemplo, a medida de taxar 20% os rendimentos de capitais que se tem falado parece fazer sentido, uma vez que este dinheiro pode ser redistribuído sob a forma de prestações sociais ou usado como contrapartida ao alívio de impostos às famílias mais carenciadas. Ainda de referir que somos um dos poucos países da OCDE em que não se verifica tributação de mais-valias obtidas em bolsa. Por outro lado, pode passar pela criação de mais postos de trabalho ou pela melhoria salarial, através da subida do salário mínimo, aumentando deste modo o limite inferior e consequentemente reduzindo o respectivo fosso. Mas estes aumentos salariais têm de ser realizados com cuidado dado o problema estrutural da baixa produtividade existente no nosso país, pelo que o acesso à formação e a melhoria da qualidade da mão-de-obra tem um papel crucial.
Para além disto, outras questões como as grandes quantias pagas em prémios e em indemnizações a executivos de topo devem ser aqui focadas. Numa altura em que ainda se sentem alguns efeitos da crise económico-financeira, não serão estes prémios, que em parte levaram a esta mesma crise e que elevam o fosso existente, excessivos? É esta a pergunta que se impõem e a resposta parece não deixar muitas dúvidas. Certamente que toda a gente ainda se lembra da falência da Lehman Brothers ou da nacionalização da Merryl Lynch nos EUA, com grandes repercussões no sistema financeiro global, pois bem, os seus respectivos presidentes receberam as chorudas indemnizações de 38 e 117 milhões de euros, respectivamente. Como estes muitos mais receberam e ainda recebem altos prémios e salários. Tudo bem que é preciso incentivar os gestores, mas por outro lado a “obsessão” na obtenção de lucros efémeros e imediatos, investindo em activos demasiado arriscados, é prejudicial para o sistema capitalista, para além de conduzir a um aumento do diferencial entre ricos e pobres. Parece então necessário limitar estes prémios e/ou torná-los plurianuais, o que vai ao encontro das preocupações manifestadas pelos líderes do G-20. Em jeito de conclusão é preciso então fazer muito mais e como vem referido no relatório da OCDE supramencionado: “o que importa não é a igualdade das situações, mas a igualdade das oportunidades”.

Ricardo Pinheiro
[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fraudes na Responsabilidade Social do Estado

A discussão sobre a responsabilidade social do Estado para com os seus cidadãos é sempre pertinente. No entanto, é quando o país atravessa maiores dificuldades económicas que o tema se torna mais apetecível à discussão nos meios mediáticos. Mas há temas que não são uma questão de moda ou, pelo menos, não o deveriam ser.
É com o objectivo de proteger as pessoas que se encontram em situação de falta ou diminuição dos seus meios de subsistência que o Rendimento Social de Inserção é atribuído, procurando promover a integração social e laboral dos beneficiados. Simplificando, é atribuído a todos aqueles que estejam numa situação identificada como de carência económica. Para uma família constituída por dois adultos e dois menores isto significa que os seus rendimentos devem ser inferiores a 561,54€.
Se perguntarmos às 379 849 pessoas que têm acesso ao RSI como é viver nesta situação, é provável que tenham dificuldade em explicar-nos. Mas podem com certeza explicar-nos por que a responsabilidade social não pode estar dependente de modas, campanhas eleitorais e outros oportunismos. Em Setembro passado, 148 377 famílias tiveram acesso a esta ajuda social, mais 22 856 famílias que no período homólogo. Apesar de estes números não serem surpreendentes dada a conjuntura económica que atravessamos, não deixam de ser alarmantes em termos económicos e sociais. Estes dados são mais inquietantes no distrito do Porto, onde se encontram 126 958 dos beneficiários. Em Lisboa, o número de beneficiários fica-se pelos 63 845.
Muitos dos beneficiários são pessoas que têm algum tipo de actividade profissional mas cujo rendimento de que dispõe não é suficiente para suprimir as suas necessidades mínimas. Cerca de um terço das pessoas que recebem o RSI têm empregos em part - time ou empregos a tempo inteiro mas que não chegam para pagar todas as suas despesas.
Devido ao elevado número de processos torna-se difícil verificar todas as alterações nas situações económicas dos beneficiários pelo que existem muitas fraudes. Nos primeiros seis meses do ano foram gastos 243,7 milhões de euros com o RSI. Em 2008, as fraudes na atribuição do RSI estão calculadas em 82 milhões de euros. As previsões para os primeiros seis meses deste ano são de 36 milhões.
Apesar de muitas vezes este tipo de rendimento social suscitar controvérsia devido às fraudes na sua concessão, não há dúvida que é devido a ele que muitas famílias não passam fome e outro tipo de carências que mais ou menos graves condicionam a sua vida. A solução para este problema deverá passar por uma maior fiscalização que seja capaz de identificar as atribuições indevidas, não só no que se refere ao RSI, mas também em todas as outras prestações sociais. Estas fraudes prejudicam a solvabilidade financeira da Segurança Social, logo, afecta a capacidade do Estado para responder às reais necessidades do país. Isto deve ser motivo de preocupação pois um dos objectivos das ajudas sociais é o de manter a equidade na sociedade e não é através de actos fraudulentos que esse objectivo é atingido.

Cláudia Carvalho
[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Endividamento das Famílias e das Empresas Portuguesas

As famílias e as empresas Portuguesas têm vindo a sentir dificuldades crescentes em pagar as suas dívidas. Contudo, a evolução dos empréstimos dos bancos às empresas registaram em Agosto a terceira quebra mensal consecutiva, recuando para os 117,4 mil milhões de euros. Nos empréstimos às famílias o crédito concedido em Agosto prosseguiu uma tendência de aumento, totalizando 135 mil milhões de euros.
Concomitantemente, o Banco de Portugal regista uma subida do crédito malparado ininterruptamente desde Janeiro de 2009. Segundo o balanço do Banco de Portugal, os empréstimos que as famílias Portuguesas não conseguem pagar atingiu um valor recorde em Agosto de 3,75 mil milhões de euros, o que revela um aumento de 25% em relação aos montantes observados em Janeiro. Nas empresas, a situação não é melhor, com o total de crédito malparado a ascender em Agosto deste ano aos 4,65 mil milhões de euros, um aumento de 69,2% face ao valor registado em Janeiro de 2009.
Consequência do aumento do desemprego, baixos salários ou uma “vontade incontrolável de gastar”, a verdade é que as dívidas continuam a aumentar, facto a que não são alheias a má gestão financeira das famílias, mas também a oferta insistente, facilitada e, por vezes, irresponsável das instituições de crédito. Vivemos numa era de febre consumista, em que a taxa de poupança Portuguesa se cifra pouco acima dos 8% (cerca de metade da média da União Europeia segundo os dados do Eurostat). Apesar dos baixos salários médios e da crise de competitividade da economia Portuguesa, as famílias abusam do crédito ao consumo, fácil e de simples acesso, acumulando prestações numa ilusória riqueza. As menos inocentes instituições de crédito exploram esta febre, “vendendo” dinheiro sem restrições. Com a crise a esquecer-se a cada dia que passa, com a clara regulação deficiente do sistema bancário e mais grave, com a ausência de correcção das falhas detectadas com a crise (o crédito ao consumo continua a aumentar), o que acontecerá quando a Europa começar a sair da crise e, o Banco Central Europeu começar a rever em alta os valores das taxas de juro de referência, com impacto directo na Euribor?!
De forma preocupante, as famílias Portuguesas parecem continuar na sua fuga para a frente, sustentando um nível de consumo baseado na antecipação de rendimentos futuros num montante sustentável apenas num cenário idílico, mas irresponsável, de taxas de juro baixas. A crise expôs as debilidades do sistema financeiro internacional, com custos económicos muito elevados, responsabilidade das más práticas do sistema financeiro, das falhas de regulação das entidades competentes e da irresponsabilidade das famílias que sustentaram perfis de consumo irrealista e apenas suportáveis num cenário de taxas de juro baixas.
Em Portugal, as famílias devem educar-se para uma mais sustentável gestão financeira, aumentando a poupança e refreando a pressão consumista. As instituições de crédito devem assumir a sua responsabilidade social e económica e promover o aconselhamento das famílias quanto ao sobreendividamento. Face aos dados de contínua expansão do crédito às famílias e diminuição do investimento das empresas, corremos um risco elevado de estar a minar a recuperação económica e de continuarmos a crescer a um ritmo demasiado lento e de divergência face à União europeia.

Lisa Rute Gonçalves de Paiva Cunha

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]

El deshielo ártico: nuevas perspectivas

De acuerdo con las últimas predicciones climáticas, el deshielo de la banquisa ártica se va a acelerar en las próximas décadas. La banquisa podría incluso desaparecer totalmente durante los veranos dentro de un par de décadas y el Polo Norte ser sólo un recuerdo dentro de cien años.
Éste fenómeno va acompañado de una reducción de los territorios de vida para los animales polares, de modificaciones en los territorios de caza, de cambios en los modos de vida de las comunidades humanas árticas, las cuales tienen seriamente amenazada su supervivencia futura, por no hablar de otras consecuencias de las que seguramente ya habremos oído hablar, ya que cada vez son más los medios de comunicación que se hacen eco de estas noticias. Me refiero al aumento de las temperaturas, la subida del nivel del mar, cambios en la disponibilidad de agua para beber y para regar…
Pero el deshielo también ofrece nuevas perspectivas y, si bien es cierto que bajo mi punto de vista los perjuicios superan con creces a los beneficios, en un mundo como el que vivimos tan necesitado de fuentes de energía e intercambios comerciales con los que mantener nuestros estilos de vida y ritmos de crecimiento, no me cabe la menor duda de que mucha gente se estará frotando las manos e incluso alguno babeará, pensando en la enorme tarta a la que se le puede hincar el diente si el citado deshielo polar llegara a producirse. Siguiendo con el símil, es como si tuviésemos en nuestras manos una jugosa tarta pero para poder disfrutarla tuviésemos que esperar hasta que se derritiera el envoltorio. El problema es que corremos un alto riesgo de indigestión.
Todo este elenco de nuevas perspectivas al que me estoy refiriendo lo voy a clasificar en dos grupos: Por un lado tenemos la apertura de nuevas vías marítimas que reducirán en gran medida las distancias entre Europa y Asia o entre los Estados Unidos y Asia. Por el otro lado tenemos los yacimientos de petróleo y gas que esconden los fondos marinos del ártico. Vamos con el primer grupo:
Durante siglos, el “Paso del noroeste”, esa vía marítima que permitía atravesar los hielos boreales del Atlántico hasta el Pacífico parecía sólo un mito, una leyenda que acababa con la vida de intrépidos exploradores, que eran derrotados y engullidos una y otra vez por la banquisa. Pero en 2007, los hielos que sellaban esta mítica vía se abrieron por primera vez.
Hace apenas unos días, dos mercantes alemanes procedentes de Corea del sur, atracaban en un puerto siberiano. Podría parecer una simple operación rutinaria pero nada más lejos de la realidad: se trataba de la primera ocasión en la que se transitaba con éxito y sin ayuda de rompehielos por el paso del norte.
Según fuentes autorizadas, esta ruta marítima del norte está lejos de competir con la tradicional vía marítima de Asia a Europa que pasa a través del Golfo de Adén y del canal de Suez. Actualmente ésta ruta sólo es transitable sin ayuda de rompehielos durante un mes y medio, pero si el cambio climático mantiene su ritmo actual, no se descarta que en pocos anhos se convierta durante cuatro o cinco meses en una ruta atractiva. Ahí van unos ejemplos de hasta que punto puede resultar atractiva esta vía marítima del norte:
El paso del noroeste rebaja hasta los 14000km (4200km menos que antes) la distancia entre Tokio y Nueva York y a 13000km la distancia que separa Tokio de Hamburgo (cuando antes era de 21600km).
Desde el puerto japonés de Osaka hasta Rótterdam haciendo la ruta polar se ahorrarían unos 15 días con respecto al actual trayecto a través de los canales de Suez o Panamá.
Vamos ahora con el segundo grupo de nuevas perspectivas:
El deshielo ártico ofrece una oportunidad económica enorme en cuanto a recursos energéticos se refiere. El retroceso de la capa helada del océano dejará al descubierto grandes riquezas: enormes yacimientos de petróleo, grandes bolsas de gas natural e importantes yacimientos mineros.
Se calcula que el ártico alberga el 20% de las cada vez más escasas reservas mundiales de crudo. En términos de número de barriles, podríamos estar hablando de unos 100.000 millones de barriles de crudo, estimaciones que podrían llegar a ser mayores.
La región acumula también 1550 billones de metros cúbicos de gas natural (30% de las reservas mundiales) y 44000 millones de barriles de gas natural licuado (20% de las reservas), volumen que alcanzaría para cubrir las necesidades de la Humanidad durante 14 anhos. El ártico podría ser el futuro proveedor de petróleo y gas del planeta.
Además, en el lecho marino del ártico se esconden importantes yacimiento de oro, plata, níquel, cobre, zinc… e incluso diamantes.
Toda esta situación está provocando una serie de litigios entre varios estados (Rusia, Canadá, EEUU, Dinamarca y Noruega principalmente), los cuales luchan entre sí por hacerse con una porción de la golosa tarta del ártico.
Antes se hablaba del ártico en términos de naturaleza, aventura y desafío. Hoy, esta última frontera se ha convertido en un campo de juego geopolítico donde parece que, de no ponerse remedio, se puede decidir el futuro del planeta.

Alberto Recondo Lago
[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]

sábado, 31 de outubro de 2009

Crise no sector do leite

No passado dia 19 de Outubro, a crise no sector do leite voltou, a ser discutida pelos ministros da agricultura da União Europeia. Perante os protestos que têm varrido a Europa, Bruxelas vai libertar 280 milhões de euros para apoiar os produtores. E como será distribuído o dinheiro entre os 27 países membros? Foi o que começou a ser discutido no Conselho de Ministros da Agricultura, é que nenhum país defende um regresso ao passado e às quotas que limitam a produção de leite na UE e que deverão ser aumentadas progressivamente até à eliminação total em 2015. Desses 280, apenas seis a sete milhões estão destinados aos produtores portugueses, sendo que as ajudas vão-se reflectir em «0,003 euros» em cada litro de leite. Estas ajudas ganham ainda menos importância tendo em conta que os produtores portugueses estão a perder mais de 20 cêntimos por litro de leite face ao preço registado há um ano. Desde há alguns meses que os produtores europeus de leite dão conta do seu desespero com a quebra de preços na produção que, segundo eles, por vezes é mais do que 50% em relação aos preços de 2007-2008, o que ameaça a sobrevivência do sector. É lamentável o facto dos produtores de leite serem obrigados a venderem-no mais barato e o preço que chega ao consumidor ser praticamente igual, portanto alguém está a ficar com o dinheiro! Por detrás das dificuldades destes produtores está ainda a retracção do consumo a nível mundial e a actuação das grandes superfícies, que gostam de utilizar o leite como «produto isco» e procuram vendê-lo o mais barato possível. Isto pressiona a indústria que, por sua vez, pressiona os produtores, que como elos mais fracos da cadeia lhes restam poucas alternativas. A ajuda de Bruxelas pode chegar tarde demais aos produtores de leite e neste momento solicitar um orçamento maior para a reestruturação não parece que seja o caminho indicado para resolver um problema de conjuntura. O secretário-geral da Confederação Agricultores de Portugal (CAP) considerou insuficiente a intenção da Comissão Europeia de atribuir 280 milhões de euros aos produtores de leite, que alertam de que estas ajudas não servem para resolver a crise que começou há cerca de um ano.
Sobre este assunto as opiniões divergem, alguns produtores de leite defendem que essas ajudas têm de ser intensificadas e que devem ser distribuídas por todos aqueles que estão em dificuldades, com bom senso e rapidez, outros são de opinião que há produção de leite em excesso em Portugal e que o mercado não chega para todos, logo implica uma urgente reforma. Até agora, Bruxelas evitou ir além de algumas medidas de emergência anunciadas no início de Setembro, e que incluem o reforço do mecanismo da intervenção (segundo o qual a UE garante um determinado nível de preços), um aumento da armazenagem de manteiga e leite em pó ou a autorização dada aos Estados de conceder ajudas públicas aos produtores até 15 mil euros. A Federação Europeia dos Produtores de Leite (EMB) considerou aliás a ajuda "insuficiente", convicta de que a crise não se resolve "com subsídios, mas com uma regulação flexível dos volumes" de produção. No longo prazo, o Executivo Comunitário propõe a criação de legislação que enquadre as relações contratuais no sector do leite, entre produtores e indústria transformadora, de modo a equilibrar a oferta e a procura, mas salvaguardando a concorrência. Outra das medidas propostas para o longo prazo é a possibilidade de criação de um mercado em que os preços sejam mais transparentes. A crise do sector tem sido denunciada pelos agricultores que, nas últimas semanas, promoveram uma greve a nível europeu e várias acções de protesto, mas não existem soluções milagrosas à vista!

Bárbara Teixeira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]

Valorização do Euro é Problema ou Solução ?

Uns dos temas mais abordados ultimamente, tem sido a apreciação da moeda única, que esta a deixar a Zona EURO em alerta. Depois da crise financeira mundial de que todos nos ouvimos falar, surge uma nova ameaça, que é a valorização do EURO. Segundo alguns esta valorização terá consequências positivas, mas também há quem diga que o movimento altista pode dar seguimento a ondas negativas sobre famílias e empresas. Afinal, esta apreciação do Euro terá mais vantagens ou desvantagens ?
Ultimamente o Euro, não tem parado de subir, desde Fevereiro valorizou cerca de 20% face ao dólar e cerca de 10% face a libra. Caso continue assim, a recuperação económica pode levar uma recaída. Para certos economistas valorizou em má hora, uma vez que, como diz João Ferreira do Amaral, professor do ISEG “ Qualquer recuperação terá de ser sustentada no comércio externo o que com moeda alta, é mais difícil”. A Europa olha essencialmente para o dólar, mas Portugal também tem de estar atento à libra, porque muito da exportação nacional vai para o Reino-Unido. Falando da exportação, João Ferreira do Amaral mostra-se muito preocupado, porque os “ apoios do Estado apenas serviram para aguentar a queda da actividade e evitar o colapso do sistema financeiro, mas não chegaram para relançar a economia”. A exportação nacional desceu de 20% nestes primeiros sete meses do ano (10% serviços, 25% mercadorias), segundo o Jornal «Negócios».
Em principio, está previsto um crescimento do PIB para o próximo ano, mesmo se está dependendo da recuperação do comércio externo. Será que esta apreciação do Euro será causa para alarme? Não, porque posso citar quatro factores que podem fazer descansar a cabeça de todos nós. Primeiramente, as empresas prepararam-se através de contratos de cobertura de risco que lhes garante uma certa estabilidade nos contractos em moedas estrageiras. O segundo factor é que não há certeza que o Euro permaneça alto no próximo ano, apesar do que tem subido nestes últimos seis meses. O terceiro factor, é que os Estados Unidos mostram sinais de recuperação. O economista-chefe do Santander, Rui Constantino declara no Jornal «Negócios» : “os sinais positivos nos EUA apontam para que a moeda norte-americana possa regressar à casa dos 1.4 dólares por euro dentro de um ano”. O quarto factor, importantíssimo para Portugal, é que o nosso país exporta mais de metade do seu produto para dentro da Zona Euro. Em contra-partida de todos efeitos negativos que a valorização do Euro tem, há um efeito positivo, que é a importação de matérias-primas que são transaccionadas em dólar, por exemplo o Petróleo.
Manuel Caldeira Cabral, professor da Universidade do Minho, lembra que a evolução da cotação da libra pode ser mais perigosa para Portugal do que a do próprio dólar, isto porque o Reino-Unido é o principal alvo de exportações de serviços, e ainda por mais o mercado mais influente para o Turismo português. Por exemplo, o Algarve em período de Verão é solicitado por muitos turistas ingleses. Um bom exemplo da onda negativa que pode criar a desvalorização do dólar vê-se através da comparação do turismo no Algarve do Verão 2007 com o do Verão 2008. Em 2007, a hotelaria algarvia estava praticamente esgotada, enquanto o ano passado, foi uma grande desilusão para os comerciantes do sul do País. A razão principal foi a queda do dólar em meados de 2008, que chamou muito turismo aos Estados-Unidos.
Falando das consequências da valorização do Euro, temos de citar a influência sobre os salários. Segundo o presidente da CIP, o salário mínimo não deve ser aumentado. Os salários podem crescer menos. A razão principal, especificamente para as empresas que fazem exportação, é que a valorização do euro é mais um obstáculo, e deve-se ser mais cauteloso com os aumentos salariais, que podem criar mais problemas na própria empresa. Mais importante do que os salários é a criação do emprego e a saúde do emprego. Só empresas saudáveis e produtivas podem garantir emprego.
Apesar dos efeitos na economia ainda não serem fortes, nós temos de ser cautelosos, porque caso a tendência da apreciação não se inverte, o futuro pode vir a ser muito difícil para todos nós. O Euro ainda não atingiu os valores altos de inicio 2008, mas a aproximação esta a preocupar os exportadores, que podem cair em graves problemas financeiros. Este ano foi o pior ano em várias décadas para o comércio internacional. As exportações recuaram de 20%. João Ferreira de Amaral, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, mostra-se preocupado com a actual situação, porque diz ele que “ uma recuperação sustentada terá sempre de depender das exportações, e como a economia dos Estados Unidos não apontam para que o dólar possa valorizar significamente nos próximos tempos, isto é preocupante”. Ao invés da Zona Euro, o dólar fraco esta a ajudar as exportações americanas, contribuindo para tirar o pais da recessão ao mesmo tempo que se verifica uma certa re-importaçao da produção tendo em conta uma diferença dos custos da mão de obra agora mais competitivos nos EUA. Isto da razão a quem diga que este é um jogo em que certamente uns ganham e os outros perdem.
Um artigo no jornal «Negocios», no dia 16 de Outubro 2009, refere que depois de varias tentativas de relançar a economia norte-americana, o dólar é considerado como a ultima arma. Entre as tais tentativas destaca-se a taxa de juro próximo do 0, medidas excepcionais na política monetária com o banco central a funcionar quase como banco comercial. Com a queda do dólar, os Estados-Unidos alcança uma clara subida de procura pelos seus produtos e diminui a procura dirigida aos outros. Isto pode criar sérios problemas as empresas da zona Euro, que vêem a recuperação da economia seriamente ameaçada. Num artigo publicado no jornal «Correio do Minho» indica que no último dia 21 de outubro 2009 a cotação do euro voltou a passar a barreira dos 1,5 dólares, o mais alto valor desde agosto 2008. Desde a entrada de Portugal no clube da moeda única, as empresas que não conseguem ser competitivas desapareçam. Isto é uma das razoes para a fraca evolução do PIB nos últimos anos. Antes da moeda única, Portugal tinha um trunfo, chamado «escudo», que mantinha muitas empresas a bordo de falência, porque as desvalorizações do escudo tornavam as exportações mais baratas e as importações mais caras. Portugal perdeu esse poder e milhares de empresas não aguentam a concorrência.
As consequências sobre a política orçamental desta conjuntura deverão ser vistas na perspectiva de equilíbrio orçamental difícil de obter a curto prazo devido à queda das receitas e com as despesas estáveis ou a aumentar. Os investimentos públicos que, como era tradicional, poderiam ser um motor de relance da economia terão dificuldades em se realizar sem um apelo profundo ao endividamento do Estado.
Em conclusão, tudo leva a indicar as consequências negativas a curto prazo de uma apreciação do Euro em relação ao dólar.

Michel Pereira Pinto

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho; aluno ERASMUS]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ambiente e crescimento económico: conciliação possível?

O grande desafio do milénio é tornar possível a conciliação entre a preservação ambiental e o crescimento económico. Mas será isto possível?
O modelo de crescimento económico das sociedades modernas, iniciado no século XVIII com a revolução industrial, tem sido acompanhado por um processo de degradação ambiental e destruição de muitos ecossistemas. O desenvolvimento das actividades industriais, dos transportes e do comércio implicaram o uso intensivo dos combustíveis fósseis e de outros recursos naturais com consequências dramáticas para o ambiente natural. Ao mesmo tempo, verifica-se um aumento significativo da população, o que vai contribuir para uma maior geração de resíduos e obrigando a uma maior produção e consequentemente, esgotamento de recursos.
Em meados da década de 50, assiste-se a um crescimento económico mundial de grande dimensão e ao aparecimento da sociedade da abundância e do bem-estar em vastas zonas do globo. Este fenómeno desencadeou uma ânsia desenfreada de consumo com custos pesadíssimos nos processos de degradação ambiental: destruição da cobertura vegetal; poluição dos rios, do ar e do solo; extinção de algumas espécies e levando muitas outras a constituírem grupos de risco.
Nos anos 60 surge um comportamento de consciencialização ecológica por parte de vários países desenvolvidos, preocupando-se com os impactos ambientais do crescimento económico. Coloca-se a questão de que já não será um pouco tarde? É que pouco tempo depois surge uma nova problemática: o aquecimento global.
Em pleno século XXI, não podemos permitir que ainda haja comportamentos individuais e colectivos (empresas, Estado…) que ignorem as suas obrigações para com o meio ambiente. Estas devem incorporar procedimentos que contribuam para a redução da emissão de gases e a reciclagem de materiais. Um exemplo da pouca importância dada às questões ambientais é o facto de no Plano Oficial de Contabilidade (POC) português não haver qualquer referência, de uma forma explícita, às questões ambientais. Ele não prevê contas específicas, nem outro tipo de divulgação dos riscos e custos ambientais.
Com o nível de consumo actual, as situações sócio económicas advindas de um crescimento exagerado e ambientalmente errado, tornam-se cada vez mais insustentáveis. Crescimento excessivo não significa, e nunca significou, qualidade de vida acrescida.
Mas será então possível que o crescimento económico possa colaborar com o ambiente? Apesar de tudo, pode-se dizer que sim. Mas o tempo urge e torna-se necessário que os governos, os agentes económicos e os cidadãos adoptem comportamentos que rompam com um passado de total desrespeito pelo ambiente e comecem desde já a adoptar políticas “amigas” do ambiente: desenvolvimento dos transportes públicos movidos a energias limpas; utilização de lâmpadas de baixo consumo; produção e compra de veículos de baixo consumo; investimento em energias renováveis; reciclagem obrigatória de materiais; aposta forte na floresta; investimento na recolha selectiva do lixo; no saneamento básico… E muitas outras medidas poderiam ser implementadas. No entanto, não devemos “deixar tudo para os outros”. Cabe a cada um de nós cuidar do espaço envolvente, começando por não deitar lixo para o chão, usar material reciclado, poupar energia, utilizar mais transportes públicos, etc.
Existem respostas bem simples que ajudariam muito na preservação ambiental. Ideias não faltam; boa vontade e bom senso, sim.

Ana Cláudia Ferreira Azevedo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo), da EEG/UMinho]