sexta-feira, 10 de junho de 2011

Combater a crise com a solidariedade

A crise financeira que surgiu nos Estados Unidos entre 2007 e 2008 foi tremendamente contagiosa, espalhando-se por toda a Europa, prejudicando a sua economia e trazendo à tona os problemas estruturais de alguns países, como foi o caso da Grécia, da Irlanda e de Portugal. O seu forte impacto negativo reflectiu-se no estilo de vida de muitos portugueses, com o decréscimo do seu poder de compra, da sua qualidade de vida e com o aumento do desemprego. Passado o período de grave depressão, começou-se a registar a retoma de muitas economias europeias. Porém, os problemas estruturais portugueses não permitiram que Portugal acompanhasse esta tendência ascendente. A economia portuguesa, em 2011, entrou em recessão, com dois trimestres consecutivos a apresentar registos negativos da variação do PIB. Este recuo do produto interno bruto fica a dever-se, essencialmente, à queda pronunciada da procura interna.
Em reflexo, Portugal apresenta uma das taxas de pobreza infantil mais altas da Europa, apresentando a 8º maior taxa de pobreza infantil da OCDE. Estes são momentos particularmente difíceis, em que a crueza da situação aqui apresentada, e a perspectiva de uma mais que certa deterioração, poderiam suscitar sentimentos de pessimismo, desânimo e desesperança. Porém a realidade evidência contornos diferentes: nem uma crise como esta consegue afectar o lado solidário dos portugueses. O Banco Alimentar Contra a Fome recolheu em Portugal, no passado fim-de-semana, um total de 2309 toneladas de géneros alimentares na campanha realizada em mais de 1560 superfícies comerciais. Simultaneamente, a sua campanha “online” de doação de alimentos angariou numa semana 68 toneladas doados por 3.962 internautas. Se comparamos com o ano de 2009, a quantidade agora recolhida apresenta um acréscimo surpreendente de 14,9 pontos percentuais.
Os resultados obtidos voltam a evidenciar uma extraordinária adesão, contrariando todas as expectativas de que as características tradicionais de generosidade e de solidariedade portuguesas poderiam desviar-se do seu nível habitual.
É curioso concluir que numa altura em que se esperava que se désse menos, os portugueses estão a dar bastante mais. Os portugueses estão a tentar reagir à crise, agindo ao invés de protestar, evidenciando o seu carácter resiliente. Portugal escolhe a solidariedade como uma arma de combate e certamente que com ela o combate será facilitado.
Porém, e sem desvalorizar o seu carácter mobilizador, é importante ter em conta que a solidariedade por si só não é suficiente - a crise têm que ser enfrentada com as nossas melhores armas, consciencializando-nos que o estilo consumista adoptado até então terá que ser substituído definitivamente , dando lugar a um espírito de contenção e de poupança. Poupar terá que voltar a “estar na moda”.

Ana Francisca Mota da Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Portugal está a desaparecer

Portugal é o país da UE-27 com a mais baixa taxa de fertilidade. De acordo com o Banco Mundial, em 2009 nasceram 1,32 filhos por mulher, enquanto que a média europeia foi de 1,6 nascimentos. Para que se conste, a regeneração das gerações implicaria uma taxa de 2,1 nascimentos.
Actualmente, no nosso país ter filhos não é normal, é excepcional!
Para além da crise económica e financeira que se alojou no país, estamos a atravessar uma crise demográfica caracterizada por uma diminuição drástica da taxa de natalidade aliada à nova vaga de emigração. Esta crise constitui um grave problema estrutural que a longo prazo pode vir a causar danos irreversíveis na sustentabilidade do sistema de Segurança Social e no desequilíbrio das finanças públicas portuguesas.
A questão do aumento dos fluxos de emigração tem-se traduzido numa diminuição do capital humano, reduzindo o efeito rejuvenescedor das contribuições sociais, e diminuindo a capacidade reprodutiva. Nem o recorrer à imigração de mão-de-obra tem permitido contrabalançar esta situação.
É certo que todos os dias somos bombardeados com estratégias ou medidas para estimular a economia, como promover a competitividade e produtividade, fomentar as exportações, reduzir o défice externo, entre outras. Mas, e o problema da natalidade? Alguém se tem preocupado de forma séria com o crescimento da população? Que medidas ou politicas estão a ser implementadas para reverter esta tendência decrescente? Infelizmente, a sociedade ainda não se apercebeu verdadeiramente dos seus efeitos nefastos, culpa em parte, devido aos políticos, que simplesmente ignoram o problema, assumindo que este se vai resolver por si mesmo.
O aumento do número de anos de escolaridade, o incremento significativo da idade com que os jovens contraem matrimónio, atrasando a idade com que as mulheres têm o seu primeiro filho. A instabilidade económica e a maior exigência de proporcionar bem-estar aos filhos, acompanhado de um aumento de custos, são algumas das razões apontadas para o decréscimo da taxa de natalidade. No entanto, a principal causa apontada pelos portugueses é a inflexibilidade laboral, as mulheres são das que mais trabalham fora de casa na UE. São mal pagas, e por vezes, penalizadas por estarem grávidas. Urge agora, que os governos se dediquem à protecção de maternidade com empenho. Não é com simples subsídios e abonos de família que o problema se irá reverter. É imprescindível criar estruturas de apoio, aumentando a rede pública de creches e infantários, alargando a sua taxa de cobertura e tornando os preços mais acessíveis que permitam aos pais conciliar as suas exigentes vidas profissionais com o acompanhamento dos seus filhos. Garantir a integração dos jovens no mercado de trabalho, porque, enquanto que a actual precariedade se mantiver, estes não terão condições para constituir família e procriar.
Se quisermos pensar na despesa com o dito Estado Social, seja pela redução da população (aqui entra a baixa fertilidade e o acentuado desemprego), seja pela crise económica e financeira actual, o problema começa a tomar dimensões deveras preocupantes. Quando tivermos cerca de 30% da população com mais de 65 anos, quem irá pagar as pensões e os cuidados de saúde a que estas pessoas têm direito? É importante realçar que sai muito mais barato investir na natalidade do que depois suportar despesas de uma população maioritariamente envelhecida.

Filipa Sousa

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Flexibilização laboral: precisa-se?

Nos últimos tempos, muito se tem falado em Portugal, da necessidade de flexibilizar o mercado laboral, numa tentativa de promover a competitividade das empresas portuguesas. Este é um dos pontos da economia portuguesa que o Fundo Monetário Internacional quer reformar. Assim, ressaltam as seguintes questões:
Será que é urgente uma revisão das leis laborais? É necessário facilitar os despedimentos para tornar a economia mais competitiva? Acabaram-se os “empregos para a vida”? Infelizmente, o nosso mercado de trabalho sofre de uma deformação económica que dá origem a uma estagnação laboral persistente. Portugal tem as leis laborais mais rígidas de toda a OCDE. Estas dificultam o despedimento individual, obrigam a uma determinada indemnização em caso de despedimento, impõem salário mínimo, limite de horas, entre outras obrigações.
A rigidez laboral é um convite à economia paralela, através do trabalho temporário, falsos recibos verdes, trabalho informal, horas extraordinárias não pagas e salários baixos. De facto, o mercado laboral em Portugal é pouco flexível, na medida em que é impossível ou quase impossível despedir um trabalhador pouco produtivo ou ineficiente. Para muitas empresas, o custo de despedir um trabalhador é demasiado elevado, pagar uma indemnização, pode ser sinónimo de cessação de portas. Por esta razão, muitas dessas empresas têm optado por despedir todos os trabalhadores (despedimento colectivo), declarando falência. A lei acaba por ter um efeito perverso, já que é mais barato despedir todos os trabalhadores do que apenas alguns! Será que a solução passa por uma redução das indemnizações?
Apesar do seu efeito perverso, a existência de indemnizações é fundamental para garantir as relações de confiança entre empregadores e empregados. Para o empregador, são uma boa forma de convencer ao trabalhador um emprego duradouro. Para os trabalhadores, são uma garantia de que, caso a relação laboral cesse, haverá sempre uma retribuição para o risco de assumir o contrato.
Flexibilização laboral? Sim, mas com prudência! É essencial tornar o nosso mercado mais flexível, ou seja, mais adaptável e mais fácil na contratação de trabalhadores. Flexibilizar através do ajustamento de funções que os trabalhadores podem exercer, do local onde desempenham a sua actividade, ou em matéria de horário de trabalhos. A redução das indemnizações de despedimento, apenas concretizável, nos casos em que se o sector privado não é capaz de criar emprego, o Estado deve oferecer trabalho.
Para compensar esta flexibilização, o Estado tem de se comprometer a investir no desenvolvimento de escolas, universidades e na formação para tornar a mão-de-obra mais ajustável ao mercado de trabalho. Proporcionar incentivos fiscais a empresas privadas que ofereçam um rendimento suplementar acima do mínimo pago pelo Estado, quando perdem o emprego. Segundo o economista britânico, Will Hutton, para equilibrar o facto de as indemnizações por despedimento diminuírem, este sugere a criação de um seguro oferecido por companhias ou sindicatos que, no caso de despedimento, pagaria um prémio para além do subsídio de desemprego mínimo.
Deste modo, a flexibilidade só é praticável se for extremamente clara (sem injustiças económicas e sociais) aos olhos de todos os trabalhadores, se estes souberem que são remunerados de forma justa e de acordo com a sua produtividade e lucro que proporcionam à empresa. Só resulta se o empregador cumprir minuciosamente com todas as suas obrigações perante o trabalhador e o Estado. Só é viável se o empregado e empregador encararem a empresa com finalidades específicas e complementares.
Em jeito de conclusão, só há flexibilidade se existir segurança, daí o tão aclamado termo flexi-segurança! A aposta na flexibilização, estimula o dinamismo e produtividade na economia, com exportações mais competitivas, haverá mais criação de emprego e, consequentemente menos desemprego. A flexibilização laboral é benéfica para todos.

Filipa Sousa

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Empreendedorismo: o antídoto!

"O empreendedorismo é uma revolução silenciosa que será para o séc. XXI mais do que a revolução industrial para o séc. XX” (Timmons, 1990)

Fazendo uma retrospectiva da conjuntura económica portuguesa, na última década, Portugal foi um país de poucos progressos: em média crescemos menos de 1% ao ano, o desemprego praticamente duplicou, a dívida pública atingiu valores excessivos desde os 50% até aos 80% do PIB, o crédito às famílias sofreu o mesmo crescimento e o endividamento externo não parou de crescer. Portugal foi um país mal gerido, nos últimos anos, o que levou à situação económica actual do país. Gastamos mais do que aquilo que produzimos e, agora, vamos ter de pagar.
As contas do FMI mostram que seria preciso ganhar o jackpot do Euromilhões todos os dias - cerca de 100 milhões de euros - até ao final de 2012, para ultrapassar a crise sem qualquer esforço. Mas, recuperar Portugal exige agora um esforço que só é possível se todos contribuirmos. Não há milagres e ficar de braços cruzados não é a solução. Neste momento, a solução é reflectirmos sobre quais as alternativas possíveis para superar as dificuldades deste ano e, provavelmente, da próxima década.
A persistência de elevadas taxas de desemprego e a falta de oferta de emprego não devem ser vistas como uma desmotivação, mas sim como um incentivo aos portugueses em inovar. Por vezes, a solução passa por criar o seu próprio emprego. O emprego para toda a vida já não existe e, por isso, é fulcral começar-se a pensar na hipótese de gerarmos o nosso próprio emprego. No estado actual dos portugueses, denota-se uma absoluta necessidade de mudança de atitude assente num espírito inovador e empreendedor: fazer a diferença, identificar e explorar oportunidades ao máximo, assumir riscos, determinação e dedicação. É este espírito que conduz ao conceito de empreendedorismo: "O empreendedorismo é o fenómeno associado com a actividade empreendedora, sendo a actividade empreendedora toda a acção humana empresarial em busca da criação de valor através da criação ou expansão da actividade económica pela identificação e exploração de novos produtos, processos ou mercados" (in " A Framework for Addressing and Measuring Entrepreneurship", OECD)
Este fenómeno tem sido vastamente considerado um aspecto chave no desenvolvimento económico dos países e no bem-estar das sociedades. As vantagens são nítidas: a criação de novas empresas conduz a investimentos nas economias locais, criação de postos de trabalho, melhoria na competitividade e promoção de métodos, técnicas e modelos inovadores. É também uma forma de aproveitar o potencial dos indivíduos e explorar os interesses da sociedade (protecção do ambiente, produção de serviços de saúde, de serviços de educação e de segurança social).
Neste sentido, a formação, o apoio, a promoção e o fomento da iniciativa de uma cultura empreendedora e da criação de empresas, deverá ser um dos objectivos estratégicos prioritários de qualquer governo central, local ou de qualquer instituição (associações empresariais, universidades, etc.).
Assim, considero que o empreendedorismo é, neste momento, um dos poucos “antídotos” de que os portugueses dispõem para ultrapassar a falta de boas condições de vida.

Filipa Ferreira

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Energias renováveis: o caso português

É sabido que, apesar de Portugal não dispor de combustíveis fósseis, possui larga vantagem em muitas outras fontes de energia, nomeadamente a hídrica e a solar. A aposta de Portugal nestas fontes alternativas de energia tem sido cada vez maior (ou, talvez, mais difundida junto das pessoas) desde o primeiro governo de José Sócrates, em 2005, sendo uma das bandeiras deste.
Esta aposta foi levada a cabo pela necessidade de mudança impulsionada pela constante volatilidade do preço das energias fósseis que perfaziam cerca de metade do défice comercial do país, aumentando os custos de vida dos cidadãos. O custo total desta mudança de estrutura energética será superior a 16 mil milhões de euros, grande parte financiado por privados mas suportado por todos, reflectindo-se mais tarde na factura dos consumidores. No final, a poupança poderá ser de quase 2 mil milhões de euros anuais.
Sendo que Portugal pertence ao grupo de países mais dependentes energeticamente: em 2008 o seu nível de dependência era de 83% face aos 55% da média da UE27 e tendo em conta que dispõe de um potencial enorme em Portugal para o aproveitamento das energias renováveis é compreensível a aposta do Governo nas energias renováveis e é salutar que não se resignem à ideia que ser dependente dos combustíveis fósseis é um facto consumado. Porém, as apostas têm que ser realistas e necessitam de atingir fins de eficiência económica e sustentabilidade futura ao contrário do populismo e aceitação instantânea que este tipo de medidas provoca.
À primeira vista, o aproveitamento das energias renováveis aparenta ser uma win-win situation: as fontes são ilimitadas, diminuem a dependência de combustíveis fósseis, substituem as importações atenuando o défice externo e diminuem a emissão de gases poluentes assegurando assim a sustentabilidade energética e ambiental do país. Para além disto, contribuem para a criação de riqueza através de mais emprego qualificado e pelo estímulo à produção e exportação deste tipo de soluções com elevada incorporação tecnológica.
Actualmente, a base renovável do país assenta maioritariamente na fonte hídrica e eólica, já que em 2010, a potência total instalada a partir de fonte eólica era de 20,7% e de 25,5% para a fonte hídrica. Do investimento novo previsto na Estratégia Nacional para a Energia, até 2020, destaca-se o peso de 40% das centrais hídricas (ao abrigo do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico), de 24% de eólica, de 15% de centrais termoeléctricas a gás natural e de 12% de potência solar, o que permitirá, até 2014, o encerramento de duas centrais eléctricas.
O plano para a construção de dez novas barragens tem sido criticado porque levará a um aumento de apenas 3,3% de produção de electricidade no consumo final. Juntando a isto um impacto negativo na qualidade da água dos rios, levará à sua deformação e destruirá o Sabor e a linha do Tua. O verdadeiro objectivo das barragens é o aproveitamento da energia eólica pela instalação de um sistema de bombagem que permita elevar a água.
Por sua vez, quando se investe em eólicas é necessário fazer um triplo investimento: 1) o investimento no aerogerador em si; 2) o investimento em centrais de bombeamento para compensar os períodos nocturnos em que existe vento mas não existe consumo; 3) o investimento em centrais térmicas (gás natural e carvão) para compensar os períodos do dia em que existe consumo mas não existe vento suficiente.
Apesar de as centrais para a produção estarem disponíveis a maioria do tempo, a sua fonte, seja o vento, sol ou a energia hídrica, é intermitente e apenas está disponível para trabalhar à potência nominal, na melhor das hipóteses, um terço do ano.
Com todo este investimento, o sector das renováveis representava, em 2009, 0,8% do PIB empregando 45 mil pessoas e prevê-se que chegue aos 1,3% do PIB em 2020, o que significa que o sector poderá gerar valor acrescentado bruto de cerca de 2.900 milhões de euros, sendo que se as metas do plano forem cumpridas irão ser criados 100 mil novos empregos (directos e indirectos). Os incentivos, para as empresas privadas financiarem grande parte do investimento, são subsídios contidos nos contratos dos produtores que garantem um preço estável durante vários anos e asseguram a venda de toda a produção à rede eléctrica a preços mais elevados. Isto levanta um problema: é importante que o preço da electricidade seja competitivo para que permita que as empresas portuguesas possam concorrer com as suas congéneres estrangeiras.
Um estudo do BPI sobre o sector das renováveis apresenta resultados nada animadores para o sector: 1) o investimento em centrais fotovoltaicas deve ser abandonado porque não é justificável financeiramente; 2) para que o Plano Nacional de Acção para as Energias Renováveis seja viável economicamente o preço do barril de petróleo teria que se situar nos 172 dólares por barril; 3) permanecendo o preço do barril de petróleo perto dos 98 dólares, a não realização do plano e aposta numa nova central termoeléctrica (Lavos) seria mais vantajoso e levaria a uma poupança de 11 mil milhões de euros.
A aposta em energias renováveis deve continuar a ser fomentada porém, a realidade mostra que, actualmente, não é possível nem é sustentável um país satisfazer as suas necessidades em termos energéticos apenas com as fontes alternativas de energia. Estas não reduzem as importações de petróleo de forma significativa porque este é maioritariamente usado no sector dos transportes e como matéria-prima de alguma indústria e só o irão fazer quando o carro eléctrico estiver suficientemente massificado. Talvez seja, por isso necessário repensar a estratégia energética do país.

Tiago Fernandes Vieira

Bibliografia
BPI. 2011. O Sector Eléctrico em Portugal Continental – Contributo para a Discussão
European Comission. Eurostat. 2010. Energy, Transport and Environment Indicators
Ministério da Economia, Inovação e Desenvolvimento. 2010. Plano Novas Energias ENE 2020

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Empresas municipais

As empresas municipais em Portugal foram criadas para “exploração de actividades que prossigam fins de reconhecido interesse público”. Atendendo ao objectivo estabelecido em Diário da República para as empresas municipais, torna-se ambíguo o significado de “interesse público” quando são analisados os resultados anuais destas empresas, das quais se espera eficiência e sobretudo utilidade para a comunidade em geral.
Actualmente, existem 286 empresas municipais, sendo que 41 das mesmas já declararam falência técnica, o que representa 15% do seu total, falência essa que significa a perda de emprego para 2.856 pessoas. Apesar de ano após ano serem apresentados prejuízos na maioria delas, continuam a ser geridas da mesma forma e também pelas mesmas pessoas, o que trás consequências bastante negativas, que com as soluções certas poderiam ser evitadas.
Ainda assim, o mais curioso é que a criação de empresas municipais continua a aumentar, já que desde o ano 2000 foram criadas mais de 198 empresas, sendo este valor justificado pelos incentivos fiscais existentes para a criação das mesmas.
Hoje em dia, no actual contexto económico-social em que nos é exigido uma consolidação orçamental, não é de todo sustentável continuar a financiar empresas municipais que apresentam constantemente resultados negativos, não cumprindo, por isso, o seu objectivo de satisfazer o interesse público. Assim, o próprio ex-ministro das finanças considera a privatização como a solução para uma boa parte destas empresas, que pela sua má gestão e consequente falência significam um aumento das despesas do Estado.
Na minha opinião, a privatização seria uma solução viável para empresas municipais que não prestam um serviço público considerado essencial, de forma a inverter a situação financeira de algumas delas (que acaba por se reflectir na saúde económica do próprio Estado). A obtenção de receitas extraordinárias com a privatização destas empresas seria de extrema importância para os cofres do nosso Estado, e ao mesmo tempo poderia significar uma melhoria da sua eficiência na prestação dos seus serviços. (Tendo em conta que a privatização serve, não raras vezes, de incentivo para uma produção a um ritmo superior e com um espírito mais competitivo, do qual, neste momento, Portugal necessita).
Quais as razões dos maus resultados financeiros das empresas municipais?
A principal razão refere-se à falta de eficiência, gestão pouco rigorosa e fiscalização insuficiente de algumas empresas. Outro dos factores criticados é o salário dos gestores de empresas municipais. Não é compreensível um gestor de uma empresa municipal que aufere milhares de euros anuais apresente todos os anos prejuízos constantes na sua empresa. Muitas vezes também é apontado o poder político como tendo influência negativa nestas empresas, apesar de existirem excelentes profissionais na classe política e com bons exemplos na gestão de empresas, contribuindo de sobremaneira para o sucesso e eficácia daquilo que se espera ser um veículo para a concretização do interesse público.

Nuno Alves

Bibliografia:

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A questão da energia nuclear em Portugal

O tema da energia nuclear em Portugal, nomeadamente a construção de uma central nuclear, sempre foi uma matéria com bastante pertinência no nosso país. Isto deve-se ao facto de que associado aos benefícios económicos que podem advir da construção de uma central nuclear, também está uma extensa lista de riscos.
O investidor português Patrik Monteiro de Barros volta a afirmar que «Portugal tem capacidade para ter uma ou duas centrais» e acrescenta que «A questão central é que, se quisermos ser competitivos e ser um País que produz e que exporta, temos de ter acesso à energia, e nos próximos anos a solução mais competitiva, em termos de preço, mais limpa, em termos de emissões de CO2, e mais segura, é o nuclear». Na verdade, concordando em parte com esta ideia, os benefícios económicos que advêm desta construção são inegáveis. Para além de reduzir a dependência energética do país face ao exterior, permitindo reduzir o défice e aumentar a competitividade, esta é também uma fonte mais concentrada na geração de energia, ou seja, um pequeno pedaço de urânio pode abastecer uma cidade inteira, fazendo assim com que não sejam necessários grandes investimentos no recurso.
Pelo contrário, o jornal Expresso avança com a notícia de que 70% dos portugueses estão contra a construção de uma central nuclear, de acordo com o estudo feito pela Associação Portuguesa de Energia (APE). O argumento principal, a meu ver, relaciona-se com os diversos problemas que se têm vivido no Japão, especialmente com as explosões das centrais nucleares, ou seja, estão relacionados com problema de segurança mundial. Mas, por outro lado, a questão também pode transparecer uma insustentabilidade a nível financeiro: apesar do que é apresentado relativamente à desnecessidade de grandes investimentos, a verdade é que para além dos custos que Portugal não seria capaz de suportar devido à crise económica e financeira que se está a atravessar, (visto que era essencial um oneroso investimento inicial para além dos custos de manutenção) a exploração do urânio, essencial para a produção de energia nuclear ainda não é consistente, ou seja, não está desenvolvida o suficiente, fazendo com que ainda fosse fundamental importar o urânio. Ora isto acentuaria ainda mais a dependência face ao exterior. Finalmente é importante referir que ainda não foi implementado um método eficiente de armazenar os resíduos, o que suporta ainda mais as ideias contra a construção de uma central nuclear.
De tudo o que é aqui discutido, a verdade é que existem alternativas para contornar esta situação. É possível conciliar os prós de ambas as posições. Se os argumentos apontados pelo investidor português prendem-se essencialmente em realçar as potencialidades do país com o objectivo de promoção da competitividade e redução de uma das maiores dependências que o país enfrenta, a dependência energética, é possível que este objectivo também possa ser alcançado com um incentivo à promoção de outras potencialidades nacionais, nomeadamente as Energias Renováveis. As Energias Renováveis são aquelas que mais podem contribuir para a redução de dependência energética nacional. Associado a esta questão, ainda contribui para o fomento da economia portuguesa noutros sentidos. Em termos de criação de emprego, permite o desenvolvimento de pequenas empresas e consequentemente aumenta os postos de trabalho. Também contribui para a dinamização das zonas rurais, ajudando na redução das assimetrias regionais, uma vez que as zonas rurais oferecem uma vasta superfície livre e podem, assim, fornecer espaço para, por exemplo, a implementação de painéis solares.
Assim sendo, creio que apenas na aposta em algo que, de facto, mostra-se como sustentável, poderemos melhorar a nossa situação. Embora a ideia da criação de centrais nucleares possa parecer tentadora do ponto de vista económico, o país possui outras alternativas que pode desenvolver. Para além dos benefícios ambientais, as energias renováveis oferecem um vasto leque de vantagens económicas, e creio que esta deve ser a nossa maior aposta.

Luísa do Nascimento Lourenço

Bibliografia:

[artigo de opinião produzido no âmbito da u.c. "Economia Portuguesa e Europeia", do Curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]