sábado, 20 de dezembro de 2014

O Peso do Petróleo na Economia Portuguesa

A partir de meados do século XX, o petróleo assumiu um papel determinante enquanto fonte de energia desencadeadora de crescimento e desenvolvimento dos países. 
A forte intensificação da sua utilização, quer enquanto combustível quer através da incorporação desta matéria-prima na produção de bens e serviços, explicam como as variações do seu preço estão intrinsecamente associadas a flutuações económicas tratando-se, portanto, de um fator preponderante na explicação das variações da atividade económica. Deste modo, variações positivas no preço do petróleo afetam positivamente e de uma maneira significativa a taxa de inflação e a taxa de desemprego. Já quanto ao emprego total, o PIB e o índice de produção industrial os efeitos são negativos.
Portugal apresenta um grau de dependência elevado (calculado através da diferença entre o nível de produção doméstica de energia comparada com a oferta total de energia primária), uma vez que a produção primária de energia se restringe a energias renováveis devido à inexistência de fontes de energia fósseis no nosso país.
No entanto, apesar do petróleo representar cerca de 55% da componente energética da nossa economia, tem-se vindo a verificar uma substituição gradual por gás, uma intensificação da aposta na produção de energia eólica e hídrica e até uma estratégia para assegurar um maior nível de segurança energético através da diversificação de fornecedores. 
Com isto, aliado ainda a fatores como a flexibilização do mercado de trabalho e políticas monetárias mais credíveis, comparativamente às praticadas na década de 70 (quando ocorreu o primeiro grande choque petrolífero), Portugal tem conseguido suavizar a exposição da sua economia ao preço do crude. Ainda assim, tratando-se de uma economia importadora de petróleo, permanece sensível às subidas no preço do crude, contribuindo tal para deteriorar a balança comercial.

Camila Helena Ӧlund Matos 

Bibliografia:
Robalo, Pedro Brito and Salvado, João Cotter (2008). “Oil Price Shocks and the Portuguese Economy since the 1970s”. FEUNL Working Paper Series No. 529;
Amador, J. (2010) “Produção e consumo de energia em Portugal: Factos estilizados”. Artigo do Banco de Portugal;
Barsky R., Kilian L. (2004). “Oil and the macroeconomy since the 1970s”. NBER working paper 10855;
Rotemberg, J. J., and Michael Woodford (1996). “Imperfect Competition and the Effects of Energy Price Increases”. Journal of Money, Credit, and Banking, 28 (part 1), pp. 549-577.

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

A crise e a saúde mental dos portugueses

Crise, palavra tão insinuada e debatida nos dias de hoje… Sim, é esta a palavra escolhida para definir todos os danos, muitos deles irreversíveis, que se têm verificado ao longo dos anos e nos mais variados sectores da economia portuguesa. Da educação à saúde, os problemas são cada vez mais preocupantes e, no que toca a soluções, estas parecem não existir. 
Mas terá o povo português tanta capacidade de adaptação a estas situações como dizem? Terão, estas pessoas (nas quais eu me incluo), algum motivo para encarar a situação de degradação do país de ânimo leve, sabendo que isso se repercute de forma avassaladora no estado da sociedade? Apesar das diferentes manifestações e protestos que fazem (e aos quais não têm resposta), não existirá nenhum tipo de corrosão do seu foro psicológico, do seu estado mental, da maneira como encaram a vida ao não receberem pelo menos metade daquilo que dão em dobro ao seu país? 
A verdade é que o problema é mais grave do que aquilo que parece e as respostas a estas perguntas demonstram uma “face” do povo lusitano que ninguém conhecia e que tem vindo a transparecer. 
Segundo instituições como a OMS, a UE, o Parlamento Europeu e a Federação Mundial de Saúde Mental, “as crises económicas ao provocarem desemprego, empobrecimento e insegurança, têm repercussões na saúde mental dos envolvidos, particularmente com evoluções depressivas e risco acrescido de suicídio, em especial quando se agrava o endividamento e é afetada a situação residencial dos mesmos”. As notícias e relatórios que têm vindo a tirar este tipo de conclusões são vários e, segundo o Diretor do Programa Nacional da Promoção de Saúde Mental, a solução para estes “impactos da crise na saúde mental, nomeadamente o suicídio, está na criação de trabalho e no apoio social nas situações mais dramáticas” e não nos “medicamentos e em psicoterapias”. O mesmo enfatiza esta sua posição defendendo “que os efeitos da crise na saúde mental são um problema transversal porque não se resolvem sem respostas da segurança social, do mercado social de emprego ou de cursos de formação que respondam a áreas em que há défice a nível de mercado para reduzir o desemprego”. 
Da mesma forma, o Observatório Português dos Sistemas de Saúde, além de concordar com as medidas mencionadas anteriormente, aponta ainda para a necessidade de um aumento do suporte familiar, de respostas ao endividamento e de políticas relativas ao alcoolismo, uma das dependências que cresce com a crise. 
É então fácil de concluir que, apesar de todas as discussões e opiniões que se geram em torno deste assunto, as crises económicas constituem momentos de alto risco para o bem-estar mental da população portuguesa, existindo por isso uma emergência na definição e implementação de medidas para que a situação não tome ainda maiores proporções. Apesar dos abalos que tem sofrido o Sistema de Saúde Português, são poucos os esforços que se têm verificado para o melhorar e para inverter ou minimizar os impactos negativos da atual conjuntura económica e financeira de Portugal no mesmo. 
São medidas como programas de apoio familiar, cuidados de saúde de proximidade, incluindo de saúde mental para as pessoas mais vulneráveis, desenvolvimento de competências que visam a proteção da depressão e do comportamento suicidário, reconhecimento precoce de consumos de risco e do seu respetivo contributo para a depressão e suicídio, maior apoio das estruturas da comunidade, em particular dos cuidados de saúde primários, programas de formação em saúde mental dirigidos a profissionais de saúde mental e sensibilização da população em geral, serviços de cuidados primários acessíveis e implementação de um sistema de cuidados partilhados entre cuidados de saúde primários e outros níveis de cuidados, nomeadamente cuidados hospitalares, de modo a assegurar uma resposta eficaz e eficiente junto da comunidade, que, na minha opinião, podem sinceramente fazer a diferença, criando melhorias num povo debilitado mas com esperança de encontrar um futuro melhor.

                                                                                                            Luísa Cunha Lima 
Bibliografia:
http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/B7E58F6F-48F5-4907-BDE2-B5EB65AE9BC3/0/Parecer_CNSM.pdf

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A pobreza em Portugal: “a terra das desigualdade”

Não é fácil descrever algo que nos assusta já que ninguém está preparado para enfrentar este “monstro”. A pobreza é um estado de carência por parte dos indivíduos. Consiste na falta de acesso a serviços de saúde, educação, segurança e recursos mínimos financeiros, o que prejudica ou impossibilita a sobrevivência dos indivíduos. 
Este problema não depende de um único factor, mas sim de um conjunto, nomeadamente factores políticos, económicos e socioculturais. As consequências são inúmeras: fome, baixa esperança média de vida, doenças, falta de oportunidade de emprego, maior risco de instabilidade política e violência, depressão e outros. 
A grande crise económica que enfrentamos é uma das maiores responsáveis pela pobreza no nosso país, já que a ela se associa o desemprego, a redução dos salários e o aumento dos impostos. 
A taxa de população em risco de pobreza em Portugal é preocupante e em 2013 o seu valor, sendo este o mais elevado desde há vários anos, era de 27,4% da população. Considerando os grupos etários, o grupo que regista um valor mais elevado eram os jovens (0-17 anos), com 31,6% em 2013. O grupo que registava um menor valor era o dos +65 anos, que apresentava uma tendência negativa, tendo-se reduzido de 35,2% em 2004 para 20,3% em 2013. Contudo, a tendência geral era crescente, o que em pleno século XXI não é compreensível. 
Podemos justificar estes valores através das desigualdades sociais, sendo Portugal considerado “a terra das desigualdades”, ou seja, um dos três países europeus com mais desigualdades. O índice de Gini, que nos permite comparar as desigualdades dos rendimentos, tem apresentado uma tendência constante: já em 2004 era de 0,381 e foi diminuindo até 0,337 em 2009, ano em que voltou a aumentar, situando-se em 0,342 no ano de 2012. Apesar destes valores não serem muito elevados, o nosso país é o 6º com maior grau de desigualdade na União Europeia. 
Além da existência das desigualdades nos rendimentos, a taxa de desemprego também regista valores muito elevados, o que é um factor preocupante, uma vez que influencia a emigração, levando a que Portugal perca parte da sua população ativa, jovem e inovadora. 
 Uma entidade de combate a estas desigualdades e de prevenção contra a pobreza é o Sistema de Segurança Social, que procura garantir os direitos básicos de qualquer cidadão, bem como fazer “chegar” a todos as mesmas oportunidades. O abono de família e o rendimento social de inserção são alguns dos mecanismos que utiliza, de modo a auxiliar a população mais carenciada, para reduzir o risco de pobreza. 
O abono de família é uma prestação mensal atribuída a crianças ou jovens de forma a ajudar e atenuar os encargos com a educação, desde que as famílias respeitem certos padrões económicos. Ao longo dos anos não se verificavam grandes alterações, no entanto, de 2010 para 2011 passaram de 1.200.000 para 850.000 o número de famílias abrangidas por este abono. Notícias da altura afirmam que a necessidade de reduzir o défice de 7,3% para 4,6% levou o Executivo a avançar com um conjunto de medidas de austeridade que, como se podia prever, não iria deixar o abono de fora. Deste modo, ao invés de incentivar a natalidade, os cortes sucessivos no abono acabam por ajudar a diminuí-la, já que cada vez menos se reúnem condições para sustentar uma família, visto que todas as ajudas vão sendo diminuídas ou até eliminadas. 
O Rendimento Social de Inserção é uma medida de proteção social criada para apoiar as pessoas ou famílias que se encontrem em situação de grave carência económica e em risco de exclusão social. Para se ter acesso a este existem várias condições, sendo a primeira que a soma dos rendimentos mensais não seja superior a 178,15€. Como se pode imaginar, um rendimento deste valor põe em risco a sobrevivência dos indivíduos. 
Perante esta situação, que exige especial atenção da parte dos governantes e do resto da sociedade, existem algumas tentativas de combate à pobreza, como por exemplo a estratégia Europa 2020, que tem como objectivo a redução do risco de pobreza e exclusão social. No entanto, seria necessário que houvesse mais medidas pois estamos a falar do bem-estar de pessoas e não de brinquedos, como tal não podemos “jogar” com estas vidas procedendo a cortes orçamentais sem fim. 
Ao olhar para a sociedade atual, parece que o desenvolvimento incidiu apenas sobre certas classes sociais, notando-se cada vez mais as disparidades entre ricos e pobres. Contudo, a evolução deveria levar ao aumento da igualdade, proporcionando a todos as mesmas oportunidades. Mas, ao contrário disso, as desigualdades e a pobreza aumentam. Estaremos a ser bem governados? Estarão a olhar pelos nossos interesses da melhor forma? 

 Joana Sampaio 

Referências:
http://www.dn.pt/inicio/default.aspxhttp://www.pordata.pt

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Energias Renováveis

O setor das energias renováveis assume cada vez mais uma posição de relevo na economia portuguesa. Desta situação resulta uma importante contribuição para o desenvolvimento sustentável do país, para a criação de riqueza e para a geração de emprego.
No seu conjunto, as energias renováveis contribuem para uma verdadeira democratização do setor energético e para o aumento da concorrência na geração de eletricidade. Num momento em que a palavra “reindustrialização” volta a estar na ordem do dia, é importante referir que o investimento em energias renováveis promove a criação de emprego especializado e contribui para a coesão territorial, em virtude da generalidade dos projetos se encontrarem localizados em áreas menos favorecidas e em muitos casos em vias de desertificação.
Em 2013, as fontes de energias renováveis contribuíram para cerca de 57% do total de consumo de energia elétrica em Portugal e, em 2014, asseguraram 64% desse mesmo consumo, sendo a energia eólica a que teve mais impacto na produção de energia.
A aposta no setor da eletricidade de fontes renováveis em Portugal traduz-se num conjunto de benefícios económicos, ambientais e sociais. Do ponto de vista ambiental, as energias renováveis, ao substituir fontes mais poluentes, permitem evitar emissões de gases com efeito de estuda, como o dióxido de carbono, e reduzir a taxa de dependência energética, devido à diminuição da importação de combustíveis fósseis e de energia eléctrica. Por seu lado, do ponto de vista socioeconómico, permitem uma melhoria da qualidade de vida da população, consequente dos benefícios ambientais e do impacto significativo na criação e geração de emprego e riqueza no nosso país.
Nos últimos anos, o peso no PIB nacional do setor da eletricidade a partir de fontes de energia renovável aumentou, fruto de um crescimento médio da contribuição das mesmas de 4% ao ano, representando, em 2013, cerca de 1,6% do PIB nacional. As fontes de energia eólica e hídrica foram as que mais contribuíram para tal situação. Também em 2013 contribuiu para a geração de mais de 40 mil empregos em Portugal. Tal facto, deve-se ao aumento verificado de potência instalada Eólica, associado às unidades fabris existentes no nosso País. Ainda em 2013, o setor da electricidade de origem renovável contribuiu para evitar importações no valor de 1.479 milhões de euros e para reduzir a taxa de dependência energética em 12,3%.
Segundo um estudo apresentado pela Associação Portuguesa de Renováveis (APREN) e pela Delloite, espera-se que, até 2020, esta área de negócio crie, em Portugal, perto de 18 mil novos postos de trabalho, representando um acréscimo de 40% face a 2013. A chamada eletricidade verde contribuirá ainda com cerca de mil milhões de euros para o PIB, mais 40% do que a riqueza gerada em 2013.
Posto isto, todo este impacto positivo na economia leva-nos a concluir que Portugal não deve desistir de um futuro sustentável, mas sim continuar a aplicar medidas que progridam nesse sentido. Este mercado é importante demais para ficarmos aquém do exterior. Devemos aproveitar ao máximo a potencialidade natural que o país nos oferece e continuar a apostar na inovação e tecnologia associados à indústria de componentes e equipamentos da área das energias renováveis, contribuindo assim para a melhoria das condições de vida das populações, para um crescimento e desenvolvimento económico e aumento de emprego, até porque aumentar o investimento de energia remete-nos, automaticamente, para crescimento económico de empresas portuguesas e, consequentemente, para a geração de uma maior receita económica e financeira.

Ana Pereira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Economia Verde – o futuro

O conceito de Economia Verde surgiu com a Green Economy Initiative da Organização das Nações Unidas lançada em 2008, no quadro do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP).
Neste mesmo programa, a Economia Verde aparece descrita como uma economia que "resulta numa melhoria do bem-estar humano e da equidade social ao mesmo tempo que reduz de forma significativa os riscos ambientais e a escassez ecológica; uma economia de baixo carbono, uso eficiente dos recursos e inclusão social".
Este conceito, apesar de recente, não deve ser considerado um novo paradigma, mas antes uma forma de operacionalizar o conceito de desenvolvimento sustentável, pela necessidade urgente de conciliar o crescimento económico com ações que evitem danos irreversíveis para o meio ambiente.
Os objetivos mais elementares da Economia Verde passam pela utilização de recursos renováveis dentro da sua capacidade de regeneração, implementação de medidas de adaptação para compensar a perda de recursos não renováveis, limitando a poluição e aumentando a resiliência e a estabilidade dos ecossistemas e assegurar que as necessidades das gerações futuras serão satisfeitas.
São várias as vantagens que se podem retirar da implementação de políticas verdes e, consequentemente, este investimento deve ser estimulado, visto que levará indiscutivelmente a um aumento do bem-estar social. Porém, e como tudo na economia, o investimento neste setor não é bem visto por todos, nomeadamente por alguns setores que estão consolidados no mercado há décadas. Um exemplo fácil é o da indústria do petróleo que, atualmente, está a mover toda a sua influência e poder de mercado para que aquele produto não seja substituído por esta vaga de energias renováveis, que além de menos poluentes, vários estudos já provaram serem mais baratas. 
A posição do governo português não tem sido a mais favorável ao desenvolvimento da Economia Verde. “No atual contexto de crise mundial parece ser entendimento que o ambiente, e toda esta problemática, deve ser deixada para segundo plano, havendo que priorizar as soluções para os problemas económicos”, como referiu Jorge Rio Cardoso num artigo de opinião publicado no Jornal de Negócios, em Junho de 2012. Esta visão do atual governo está, no entanto, longe da realidade, pois estudos comprovam que a Economia Verde pode até ser uma importante ajuda na resolução dos problemas económicos que correntemente afetam Portugal.
No que diz respeito ao emprego, a revista Visão (com base em estudos realizados por organizações como as Nações Unidas) avança valores merecedores de atenção: investindo 2% do PIB na Economia Verde, o total de empregados neste sector, que é, atualmente, de 3,2 milhões de pessoas, poderia passar para 3,44 milhões, em 2015. Para o mesmo ano, a projeção de postos de trabalho para Portugal (de acordo com a Quercus) é de 61 mil. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que uma transição do atual modelo industrial para uma economia mais verde deverá gerar “entre 15 e 60 milhões de novos empregos nos próximos vinte anos”. Ainda com base numa publicação da Visão, os dados mostram que, no PIB total da economia, um investimento de 2% conduziria, numa perspetiva de longo prazo, a um aumento do mesmo em cerca de 130 biliões de dólares.
Tendo em conta todas as vantagens que a Economia Verde nos traria, é difícil perceber as razões pelas quais não existe um maior investimento nesta, mesmo tendo em conta o atual panorama de crise e consequentes restrições orçamentais, que limitam as decisões de investimento nesta matéria. 
Os ganhos de um investimento ponderado e bem executado seriam muito maiores que as perdas. Daí vem a importância de ponderar e de gerir a receita pública da melhor forma possível, de modo a possibilitar este tipo de investimentos. 

Luís Carlos Monteiro Silva 

Fontes:
http://www.abae.pt/programa/EE/seminario/2013/docs/painel_1/Economia_Verde_SusanaEscaria.pdf

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Várias famílias em Portugal não conseguem pagar os seus créditos

Apesar da recuperação, ainda que lenta, da economia portuguesa, as empresas e famílias portuguesas continuam a não conseguir cumprir com as suas responsabilidades de crédito. De facto, a percentagem de devedores em incumprimento continua elevada, perto de máximos históricos, tal como os rácios de crédito vencido, tanto de empresas como de famílias.
Dados publicados pela Central de Responsabilidades de Crédito em 11 de Novembro de 2014 apontam que, no final de Setembro, 659.809 famílias estavam em situação de crédito malparado. Apesar de serem menos 9.524 famílias em comparação com dados de Junho, correspondem a 15% do total de famílias com créditos concedidos, uma percentagem considerável. O valor máximo foi atingido em Junho de 2012, altura em que 15.6% das famílias portuguesas, 708.630 agregados, se encontravam em situação de incumprimento. Esta situação tem vindo a melhorar, já que existem hoje menos 48.821 famílias com crédito vencido face ao número máximo atingido. No entanto, é necessário recordar que, desde o início de 2013 até ao primeiro semestre de 2014, foram concluídos mais de 417 mil processos incluídos em PERSI (procedimento extrajudicial de regularização de situações de incumprimento) com regularização do incumprimento.
Estes números apresentados ainda não incluem o terceiro trimestre deste ano, cuja média ronda os 140 mil processos concluídos com sucesso por trimestre, pelo que o número de regularizações deverá alcançar cerca dos 557 mil processos. Ou seja, os números apontam para um ritmo mais acelerado de novos incumprimentos por parte das famílias portuguesas face às saídas conseguidas por via da renegociação dos créditos exigida pelo Banco de Portugal.
Analisando apenas os números deste ano, esta realidade torna-se mais percetível: nos primeiros seis meses foram regularizados, no âmbito do PERSI, 148.926 contratos, entre habitação e consumo, mas, apesar disso, o número de famílias em incumprimento aumentou em 2.539 agregados até Setembro. Se, por um lado, o número de famílias em incumprimento já desceu dos máximos atingidos em junho de 2012, por outro, observou-se que, em Setembro, o rácio de crédito vencido atingiu um novo record (4,9%) potenciado principalmente pelo crédito malparado na habitação.
Ao longo do terceiro trimestre, os bancos portugueses tinham registo de 150.970 famílias em incumprimento no empréstimo à habitação, um número elevado, apesar de menor que no trimestre anterior. Os dados estatísticos do Banco de Portugal indicam que a percentagem de devedores com crédito vencido na habitação rondava os 6,5% no final de Setembro. Apesar da melhoria percentual em termos trimestrais, comparando com o início do ano, conclui-se que há mais 5.199 famílias em incumprimento na prestação da casa.
O crédito malparado engloba os empréstimos em mora há mais de 90 dias. A comparação homóloga com o terceiro trimestre de 2013 revela um agravamento da situação, já que nesse período os dados apontavam para a existência de 146.195 particulares em incumprimento, o equivalente a 6,2% nos devedores com crédito à habitação.
Analisando agora a situação das empresas, as mais afectadas são as microempresas, pois, no total, existem 69.629 empresas com crédito malparado em Portugal, o que corresponde a 31,3% do total de empresas com crédito bancário. Note-se que o valor máximo atingido foi em Junho com 31,4%. O rácio de crédito vencido atingiu também novos recordes e está agora em 14,7%. O perfil do incumprimento das empresas não difere muito do que acontece nas famílias e, apesar de existirem menos 416 empresas com crédito vencido face a Junho, desde o início do ano este número aumentou em 1.919 instituições.
As microempresas (crédito até 20.000 euros) são as mais afetadas pela atual conjuntura e, além de representarem metade do total de empresas em incumprimento, existiam em Setembro mais 259 microempresas com crédito malparado.
Aguarda-se ainda que as melhorias na economia portuguesa se comecem a fazer notar na capacidade de pagamento de crédito, com melhoria da microeconomia familiar e de pequenas empresas.

Ricardo Manuel Pereira Azevedo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Economia da Arte

O pensamento económico tem vindo a ser aplicado nas mais vastas áreas, como a educação, a poluição e até a corrupção. A arte não é exceção. Existe uma extensão de mercados relacionados com as diferentes formas de arte, que com o passar dos anos se transformaram em indústrias, como o caso das indústrias da música e do cinema.
Relativamente à arte, de uma perspetiva tradicional, mais propriamente as pinturas e as esculturas, existe todo um pensamento económico que vai um pouco contra os mercados de bens e serviços a que estamos habituados.
Uma tela de linho, tintas, pincéis e outros materiais necessários para a criação de uma obra custam, em média, pouco mais de 50€. Se partirmos do pressuposto que o tempo médio de trabalho, que na realidade tanto pode durar algumas horas como vários dias, seja de 3 dias, o custo total de produção poderá rondar os 200€. Então, porque é que existe tanta discrepância entre os valores das obras de arte? 
A questão da valoração e da determinação de preços está dependente não dos custos da produção mas sim dos potenciais compradores e da perceção dos especialistas. Podemos, então, dizer que a procura no mercado da arte depende de 3 elementos: em primeiro lugar, temos o valor social, isto é, o “status” social que o comprador obtém ao adquirir a obra; de seguida, temos o valor artístico, comparando com obras contemporâneas que marcam uma corrente artística ou um acontecimento histórico, ou a importância que tem para as gerações atuais e para as vindouras; por fim, temos o historial de preços que a obra detém, isto é, se o comprador adquiriu a obra com a perspetiva de, no futuro, o preço aumentar, ou seja, como forma de investimento. 
Um exemplo que retrata perfeitamente estas questões de valoração das obras de arte é o quadro de Róbert Berény, um artista húngaro do início do séc. XX. Este quadro foi utilizado como adereço no filme “Stuart Little”(1999), tendo sido adquirido pela cenógrafa por uma ninharia, numa loja de antiguidades em Pasadena, Califórnia. Só uma década mais tarde é que um historiador de arte húngara deu conta da obra, enquanto via o filme com a sua filha. A obra será leiloada dia 13 de Dezembro, com o valor inicial de €110.000. 
O que podemos retirar daqui é que o mesmo quadro, num curto espaço de tempo, passou de um valor irrisório para um valor superior a €100.000. Neste caso, o que foi valorizado foi a bagagem histórica e a importância artística que o autor da obra tem, na medida em que foi um dos artistas do movimento “avant-garde” que introduziu o expressionismo e o cubismo na arte húngara naquela época. 
Naturalmente, tudo isto questiona todas as perceções de mercado que nós temos, visto que não existe outro produto que tenha um valor acrescentado tão elevado como a arte. Materiais, custos de produção e mão-de-obra não têm qualquer importância ou significado quando se trata de uma obra de arte, nem sequer a noção tradicional da lei da oferta e da procura consegue explicar este fenómeno. A procura por arte em nada se restringe à questão da propriedade, visto que a experiência da observação da obra, o usufruto, o desejo de ver e de partilhar a experiência detêm uma maior relevância culturalmente. Como tal, com o passar do tempo, as obras mais importantes e mais marcantes vão para Museus. Quanta maior a afluência para ver uma determinada obra, maior o seu valor de mercado.
 Um exemplo é o Museu do Louvre, o museu mais visitado do mundo, onde, para além das muitas obras lá expostas, as pessoas deslocam-se apenas com o intuito de ver a mais enigmática obra de Leonardo Da Vinci, a Mona Lisa. Este quadro está estimado em cerca de 1,9 mil milhões de euros e o Governo francês até estudara a hipótese de vender o quadro para pagar as dívidas do Estado, tal como o governo português pretendeu fazer no caso dos quadros de Miró. Se tal acontecesse, deixariam as pessoas de visitar o Museu do Louvre?
Podemos então dizer que, tal como a arte em si, a economia inerente à arte é imprevisível, controversa, e por vezes um pouco disparatada, e ninguém entende o seu significado. 

Filipa Barros

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]