domingo, 1 de novembro de 2020

Alterações climáticas e impactes na economia europeia e portuguesa

 

A insustentabilidade do ritmo atual de emissão de gases com efeito de estufa (GEE), a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e a indesejabilidade da dependência energética externa são preocupações centrais das sociedades modernas, que moldam e continuarão a moldar as economias globais nas décadas vindouras.

Após o primeiro alerta efetuado pela comunidade científica em 1988 gerou-se na comunidade internacional uma verdadeira preocupação com a questão das alterações climáticas. Em 2015, após 20 anos de avanços e recuos nas negociações globais de clima e dos relatórios cada vez mais preocupantes do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, os Estados chegaram finalmente ao Acordo de Paris. Um objetivo central deste acordo consistiu no compromisso de manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2ªC, e, se possível, abaixo dos 1,5ºC.

Numa economia global fortemente baseada em indústrias emissoras de GEE, questiona-se a viabilidade de uma economia verde. No entanto, segundo a Comissão Europeia, é possível a redução dos GEE sem comprometer o crescimento económico tal como demonstrado pelo dados recolhidos e pela figura 1, entre 1990-2017, em que se verificou uma redução das emissões destes gases em 22% enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou em 58%.


Figura 1. A política climática e as emissões de GEE VS o crescimento do PIB


A prossecução dos objetivos emanados do Acordo de Paris tem orientado a ação da UE, no sentido de delinear estratégias para a criação de uma economia europeia com impacte neutro no clima até 2050. As medidas tomadas deverão seguir 7 trajetórias estratégicas: a melhoria da eficiência energética, o investimento nas energias renováveis, a promoção de uma mobilidade limpa, segura e conectada, a existência de uma indústria competitiva e de uma economia circular, a criação de uma infraestrutura sustentável no setor dos transportes e energia, o desenvolvimento da bioeconomia e dos sumidouros de carbono naturais, e a eliminação das emissões remanescentes com captura e armazenamento de carbono.

No âmbito da eficiência energética, assume particular importância a renovação do parque habitacional já que atualmente os edifícios representam cerca de 40% do consumo energético da UE.

Também é importante destacar a aposta nas energias renováveis como forma de limitar a dependência energética da Europa (em 2019, cerca de 55% da energia é importada, pretendendo-se que até 2050 este valor desça para 20%, fruto da transição para uma economia verde).

Uma vez que os transportes representam 25% das emissões de GEE da UE, este é um setor fundamental cuja reestruturação incluirá medidas como ao incremento de veículos movidos a eletricidade, maior aposta nos transportes públicos, etc.

A transição para uma economia neutra terá grandes impactes económicos e sociais, nomeadamente através da criação de empregos verdes que permitirão um acréscimo de 1-1,5% de mão-de-obra. Espera-se também um declínio ou transformação de alguns setores, como a atividade mineira, a exploração de petróleo/gás e, portanto, alguns empregos terão de ser adaptados à nova realidade. A economia terá de adaptar-se a uma população ativa que se prevê de menor dimensão e mais envelhecida, num mercado de trabalho mais tecnológico.

Em termos ambientais, além dos benefícios diretos (como melhoria da qualidade do ar), a aplicação das medidas permitirá evitar prejuízos com as inundações, cuidados de saúde (motivados pela poluição), produção alimentar, etc.

Também Portugal assumiu em 2016 o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2050, pelo que o Governo português elaborou o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050).

Por fim, e apesar das consequências devastadoras para a economia, a pandemia provocada pela doença COVID-19 também veio alertar para a urgência no combate da poluição atmosférica e obrigar as pessoas a procurar alternativas de trabalho com base nas tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente pelo teletrabalho.


Figura 2- Poluição na Europa em 2019 VS a poluição na Europa em 2020

 

Do meu ponto de vista, para além das medidas supramencionadas, deve apostar-se em benefícios fiscais para continuar a incentivar as pessoas a optar por soluções que reduzam a pegada ecológica (como é o caso da compra de veículos elétricos) e uma consciencialização da população para os problemas que iremos enfrentar se não se travar a poluição através de alterações nos comportamentos das pessoas. Mais ainda, a UE deve prestar apoios aos setores que entrarão em declínio.

 

Concluindo, a Europa pretende estar na vanguarda das economias neutras climaticamente e já tem o seu plano traçado.

 

Sofia Pereira

 

Bibliografia

FIGURA 1- fonte: Comissão Europeia (https://op.europa.eu/pt/publication-detail/-/publication/92f6d5bc-76bc-11e9-9f05-01aa75ed71a1)

FIGURA 2- fonte: ESA (Agência Espacial Europeia)

Suporte do artigo:

https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_en

https://www.portugal2020.pt/content/uniao-europeia-alcancar-neutralidade-climatica-ate-2050

https://ecoxxi.abae.pt/our_news/green-deal/

https://ec.europa.eu/clima/policies/eu-climate-action/law_pt

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Tecnologia – ameaça ou aliada?

 

O mundo está cada vez mais dependente da tecnologia, onde a criação de novos mecanismos surge da necessidade de enfrentar falhas e melhorar a capacidade de resposta aos mais variados desafios. Daí levantam-se várias questões quanto àquilo que nos espera no futuro. Um dos temas que mais entra nesta discussão é o desemprego: serão os trabalhadores substituídos por máquinas?

Na última década, o volume de vendas de robôs industriais no mundo triplicou, atingindo 400.000 unidades em 2018, com o setor automóvel responsável por um terço da procura, sendo o Japão, China, Estados Unidos, Coreia do Sul e Alemanha os principais fornecedores do mercado mundial. A crescente automatização da indústria conduz inevitavelmente a alterações no mercado de trabalho, tanto no desaparecimento de profissões como ao nível da formação dos trabalhadores. Para um empregador pode ser mais atrativo ter uma máquina, que pode produzir com maior velocidade e menor custo, e não cometer erros humanos.

Este fenómeno foi há muito previsto por John Maynard Keynes, em 1930: “Estamos a ser atingidos por uma nova doença da qual alguns leitores podem não ter ouvido o nome, mas da qual ouvirão muito nos próximos anos - o desemprego tecnológico”. Leontief (1952) dizia também que, com a cada vez maior substituição dos trabalhadores por máquinas, não haveria espaço nas indústrias para empregar todos os que quisessem trabalhar. Mas será a automação responsável por causar desemprego?

Acemoglu e Restrepo (2017) analisaram o impacte dos robôs industriais no mercado de trabalho entre 1990 e 2007, evidenciando um efeito negativo em todas as profissões, exceto cargos de gestão, e que este efeito diminui à medida que o nível educacional do indivíduo aumenta, não havendo impacte em profissionais com pós-graduações. Assim, a educação terá um papel cada vez mais importante daqui para a frente. Os autores admitem que o uso de robôs é ainda limitado e, por isso, causou a perda de um número limitado de empregos, mas com o aumento da sua implementação previsto para o futuro empregos e salários poderão ser afetados.

Esta observação pode ser questionada no sentido em que se evidenciam tendências de aumento das especializações dos trabalhadores ocupando cargos mais altos e de maior rendimento. Além do mais, não poderão estar os jovens a formar carreiras em áreas em que a robotização não consegue (para já) chegar? Se um cargo está a tornar-se desnecessário, já não vão haver interessados a dedicarem-se a essa área. Pode ainda considerar-se uma modificação do modo de empregar a mão-de-obra dispensada noutras áreas onde a tecnologia menos intervém. Assim, as pessoas vão-se adaptando às modificações do mercado de trabalho, ao mesmo tempo que a nova introdução de tecnologia melhora a produtividade e competitividade das indústrias, permitindo a expansão do emprego.

Guy Ryder, o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho, acredita que novas tecnologias podem criar empregos, mas também roubar alguns, e que esta é uma realidade que teremos que enfrentar à medida que vamos entrando na chamada 4ª revolução industrial, pois, olhando para a história, as três primeiras revoluções industrias tiveram um “período de turbulência e ajuste”. Depois, saímo-nos melhor do que quando começamos, com mais empregos, de melhor qualidade e com padrões de vida mais elevados.  Porque não encarar esta mudança como uma libertação dos humanos? Permitir a redução dos horários de trabalho; menos tarefas “chatas”. Seria inverter a condição do “viver para trabalhar”

De facto, o tempo de trabalho diminuiu substancialmente no último século e meio. Segundo Walterskirchen (2016), as horas anuais de trabalho na Alemanha e França diminuíram em mais de 50% entre 1870 e 2000, no Reino Unido essa diminuição foi de 37% e nos EUA de 27%. As décadas que se seguiram ao fim da II Guerra Mundial foram também marcadas por uma diminuição significativa das horas de trabalho na Europa.

Daqui emerge outra questão: serão estes efeitos iguais em todo o mundo? Pode dizer-se que o avanço tecnológico está para o desenvolvimento do país assim como o desenvolvimento do país esta para o avanço tecnológico. Ou seja, países que enfrentam um rápido envelhecimento populacional, como a maioria dos países desenvolvidos, com cada vez menos jovens para trabalhar, necessitam de recorrer à tecnologia para compensar esse défice de força laboral. Já nos países em desenvolvimento, há uma tendência de rápido crescimento populacional e uma grande procura de trabalho jovem para desempenhar tarefas mais manuais e fisicamente exigentes. Aí, o progresso tecnológico pode não ser sustentável, pois as populações não têm condições financeiras e sociais para se adaptarem às alterações do mercado de trabalho.

Assim, quando utilizada de forma inteligente, a tecnologia pode proporcionar crescimento económico e melhores condições de vida das populações, aproveitando essa vantagem para transformar as comunidades que mais necessitam, e não apenas dar ainda mais lucro aos mais ricos.

 

Cláudia Ribeiro

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A Guerra dos nossos dias: a Covid-19!

 

Entende-se por guerra a inimizade declarada e luta armada entre nações ou partidos. Alguns indivíduos consideram aquela um conflito armado entre grupos ou estados que envolve mortes e destruição. Porém, outros qualificam-na pela coação política, económica, psicológica ou militar. Em última instância, a guerra é “um massacre de homens que não se conhecem em benefício de outros que se conhecem mas não se massacram” (Paul Valéry). Todas as guerras, geralmente, envolvem várias e simultâneas causas, nomeadamente poder, estratégia, economia e riqueza, etnia, religião, e outras tantas. Deste modo, fica a questão: será a pandemia Covid-19 uma guerra? O que é certo é que a mesma é uma crise a vários níveis, tanto nacional como internacionalmente. É uma crise de saúde, uma crise económica e até uma crise social!

          Em primeiro lugar, é inquestionável o impacte que a pandemia teve na saúde: queda no número de consultas médicas, redução significativa de cirurgias, queda no internamento de doentes, etc., mas a mais importante, sem sombra de dúvida, é o elevado número de mortes. A Covid-19 já matou mais no Reino Unido do que os bombardeamentos alemães da Segunda Guerra Mundial!

 

Figura 1: Países com mais óbitos por milhão de habitantes

Fonte: PORDATA

Posteriormente, ao nível da economia verificou-se uma quebra acentuada no rendimento, no emprego, no consumo privado, no investimento e no turismo. Ademais, ainda se podem apontar vários efeitos negativos na produção, na produtividade e no sistema financeiro. De entre as diversas despesas públicas, destacam-se o aumento do consumo na saúde, dos subsídios (incluindo o lay-off), das prestações sociais, e também uma perda de contribuições (como as remessas dos emigrantes). Não nos podemos esquecer, evidentemente, do claro aumento da dívida pública e, consequentemente, do défice orçamental. Por exemplo, os EUA já gastaram quase tanto com a Covid-19 como com a Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, a dívida pública mundial vai atingir um nível inédito este ano, representando 101,5% do Produto Interno Bruto, mais do que no fim da Segunda Grande Guerra, segundo declarações do FMI.

Finalmente, no que diz respeito à sociedade, pudemos assistir ao encerramento de escolas, ao distanciamento e isolamento social, ao aumento do medo, da ansiedade, da depressão, da insegurança e da incerteza face a esta nova realidade. Aliás, o Banco Mundial estima que a Covid-19 levará cerca de 60 milhões de pessoas à pobreza extrema apenas em 2020.

Como todos sabemos, a Segunda Guerra Mundial foi o conflito mais mortal da história, com um total estimado de mais de 55 milhões de mortes. Por sua vez, a atual pandemia da Covid-19, embora apresente um número bem menor de mortes em relação a outras catástrofes, exibe um aspeto peculiar: será aquela da qual resultará a maior quebra na economia. Mário Centeno declarou que o surto de Covid-19 está a ter um impacte na economia como em “tempos de guerra”. Divergindo desta opinião, o chefe de Estado alemão afirmou que a pandemia "não é uma guerra", pois "nações não se estão a erguer contra nações, nem soldados contra soldados". A verdade é que a pandemia da Covid-19 e a guerra podem não se revelar semelhantes, contudo as suas consequências já o são.

Na minha opinião, poderemos vir a assistir a uma Terceira Guerra Mundial, mas desta vez o cenário será ligeiramente diferente dos que conhecemos. Que tal uma guerra biológica? Ou química? Ou até mesmo económica? Mais tarde ou mais cedo, chegará o dia em que viveremos um quotidiano de guerra crónica, seja ela de que tipo for!

 

Cristiana Mendes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Impacte Covid-19 no desemprego em Portugal

A covid-19 foi responsável por revolucionar a vida em todo mundo. O objetivo deste relatório é avaliar as consequências que proporcionou em termos de desemprego no nosso país. Este revela-se um instrumento importante de análise económica e social e torna-se essencial perceber os impactes que a pandemia provocou, tal como previsões para o futuro e possíveis soluções que pretendam combater as presentes dificuldades.

Segundo uma notícia divulgada no Expresso, a 25 de agosto de 2020, o desemprego registou um aumento em 84% dos concelhos do país desde fevereiro (último mês antes da pandemia) até ao período de julho. Este aumento refletiu-se em 92 mil novos desempregados, sendo que o número total de desempregados ultrapassava já as 407 mil pessoas.

Se efetuarmos uma comparação em termos anuais, Portugal, em julho de 2019, fase pela qual o país atravessava um nível de desemprego próximo do estrutural, registava menos 110.012 desempregados face a julho de 2020, ou seja, ocorreu um aumento de 37%. Este crescimento no mês de julho de 2020 face a 2019 encontra-se visível no gráfico apresentado.

Numa notícia mais recente, de 20 de outubro de 2020, publicada pela SIC notícias, foi possível verificar a existência de 410.174 desempregados no final de setembro, onde se registou um aumento comparativamente aos 407 mil respetivos à notícia anterior (julho). Neste período, relativo ao final de setembro, foi constatado um crescimento de cerca de 36,1%, em termos homólogos, no que diz respeito ao número de desempregados inscritos nos centros de emprego.

Se olharmos para este impacte no desemprego do ponto de vista regional, e com o suporte em ambas as notícias anteriormente referenciadas, percebemos que em julho de 2020 a região de Lisboa e Vale do Tejo foi claramente a mais prejudicada, com um aumento no desemprego de 46,3% desde fevereiro do mesmo ano.

Considerando agora setembro, em termos homólogos, existe um claro destaque para o Algarve, que verificou um grande pico no número de desempregados (157,5%). Este disparo no desemprego no Algarve, em termos homólogos, está claramente associado ao turismo, setor que se carateriza por ter sido dos mais prejudicados face à pandemia. Sendo o Algarve a região portuguesa mais dependente deste setor, o impacte revelado no número de desempregados foi assustador face ao ano anterior.

Entrando agora em previsões face ao futuro do desemprego, segundo uma notícia publicada no expresso no dia 6/10/2020, o boletim económico apresentado apontava para uma taxa de desemprego de 7,5% em termos médios anuais, ou seja, um crescimento face ao ano de 2019 (6,5%). Esta revisão apresentou indícios positivos face aqueles que constavam no boletim económico de junho, que previa uma taxa de desemprego de 10,1%. O abrandamento da atividade económica provocado pela crise sanitária da Covid-19 implica então uma subida em termos do número de desempregados para 2020, sendo que o aumento será menor que o esperado. Face a anteriores períodos de recessão, a queda prevista é de 2,8%, contrapondo os 4,5% apresentados pelo Banco Central em julho.

Entretanto, Portugal vai receber em “breve” 5,9 mil milhões de euros do Programa Europeu de Combate ao Desemprego, que tem como objetivos atenuar os riscos de desemprego numa situação de emergência e a proteção do emprego. Este dinheiro, sendo bem utilizado e canalizado da forma mais adequada, pode, de facto, ser fulcral para recompor o panorama de desemprego português, algo que tem que ser visto como uma solução.


José Pedro Fernandes Oliveira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Bibliografia

Esteves, C., & Mateus, C. (2020). Covid-19. Pandemia criou 92 mil novos desempregados. 46% estão na região de Lisboa. Expresso.

Lusa. (2020). Banco de Portugal melhora previsão da taxa de desemprego para 7,5% em 2020. Expresso.

Lusa. (2020). Covid-19: Portugal recebe em "breve" 5,9 mil milhões de euros do programa europeu de combate ao desemprego. Tvi 24.

Lusa. (2020). Número de desempregados em Portugal sobe 36,1% em setembro. Sic Notícias.



O Impacte da Pandemia no Setor Automóvel

 

Neste momento, ninguém pensa em comprar um carro! A população encontra-se preocupada com o futuro do país e do mundo, e fazer um investimento num veículo está quase fora de questão. Estamos numa posição onde nos vimos obrigados a ter prioridades, mais do que nunca.

Em Portugal, o setor automóvel representa 8% do produto interno bruto (PIB), exportando 98% dos veículos produzidos, onde estão envolvidas cerca de mil empresas que empregam à volta de 75 mil trabalhadores.

Nos últimos anos, a indústria automóvel teve de se reinventar e adaptar, tal como outras indústrias, às novas tecnologias, isto é, ao mundo online, e à procura exigida pelos consumidores, surgindo assim, automóveis elétricos e híbridos e, até mesmo, a condução autónoma. Toda esta evolução aconteceu gradualmente ao longo do tempo, o que exigiu investimento e capacidade de responder às expectativas impostas pelos compradores, resultando num crescimento do setor automóvel.

A pandemia afetou negativamente a maior parte dos setores, incluindo este, estando prevista uma redução dos negócios em cerca de 30% em relação ao ano anterior. A maior parte das empresas de indústria automóvel entrou em lay-off no confinamento, o que significa que as fábricas deste ramo interromperam completamente a produção, reduzindo abruptamente o fabrico das peças e montagem das mesmas, o que levou ao desemprego de 15 mil trabalhadores, tendo assim, um impacte económico de grande dimensão. Devido a tudo isto, os departamentos de Recursos Humanos das empresas foram obrigados a tomar decisões drásticas, dispensando inúmeros trabalhadores, que na sua maioria eram jovens, com novas ideias, no auge da criatividade, sendo a força de trabalho do futuro.

A maioria dos carros vendidos em março deste ano resultaram de encomendas feitas previamente, quando ainda era impensável o futuro infeliz que se aproximava. Em abril, o comércio de veículos ligeiros de passageiros reduziu-se 86%, representando uma perda de 15 milhões de euros para o Estado.

Atualmente, as fábricas da indústria automóvel estão a produzir sem perspetivas de venda, ou seja, todo o processo de montagem de veículos está a ser feito apenas para stock. Perante todas estas dificuldades, o que poderá ser feito para erguer de novo este setor?

A indústria automóvel apela ao Governo por um plano de apoio tendo em consideração que é dos setores com maior impacte na economia do país. Uma das propostas feitas é a possibilidade de pedir reforma antecipada dos colaboradores com mais anos de experiência, com o intuito de dar oportunidade à geração mais nova e evitar o despedimento de trabalhadores. Outras medidas sugeridas são a redução do imposto sobre os automóveis ou, até mesmo, incentivos em modernizar os seus veículos.

Assim, é possível afirmar que o setor automóvel é muito importante para o país a nível interno, mas principalmente no que diz respeito à exportação. Representa uma grande percentagem do PIB português. Daí, ter um forte impacto na economia. É ainda necessário realçar que esta indústria emprega inúmeros trabalhadores e que se não forem tomadas medidas de forma a evitar despedimentos, as consequências desta pandemia serão ainda maiores do que nos tempos atuais.


Ana Teresa Silva  

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

BANCA: UM NOVO PARADIGMA?

 

E se não precisasse de ir a uma agência bancária para abrir uma conta ou solicitar um empréstimo? Poder transformar um longo tempo de espera na fila num simples “clique” através do smartphone? A pressão dos cidadãos neste importante setor da economia é progressivamente notória e, de facto, a banca, assumindo um papel de destaque no desenvolvimento económico, uma vez que é uma fonte primária de financiamento de grande parte dos investimentos e consumos, tem-se deparado ao longo dos anos com a necessidade de adaptação a novas realidades que trazem consigo inúmeros desafios e ameaças. Estes são hoje particularmente impostos pelas questões inicialmente destacadas, tornando imperativas a resposta ágil às mudanças por parte dos bancos e dos seus modelos de negociação.  

Assim como avançado por Nuno Cordeiro, partner da Deloitte, a segurança, a confiança, a base de clientes e também a excelência da informação constituem no seu conjunto determinantes das principais vantagens competitivas detidas pelos bancos relativamente a empresas que atuam noutros setores de atividade. A pandemia de COVID-19 impulsionou uma série de restrições de quarentena, que se refletiram em mudanças no comportamento dos clientes ao nível digital, verificando-se um crescimento significativo, entre 10% a 20% nos últimos seis meses, no uso de serviços remotos dos bancos. Neste sentido, os novos costumes adotados pelos indivíduos face às vantagens do mundo digital provavelmente continuarão a ser utilizados ativamente no período pós-COVID-19, impulsionando a aceleração dos sistemas de transformação digital dos bancos.

Note-se que os limites ao pagamento sem contacto foram expandidos em vários países, incluindo o Reino Unido, Alemanha, Irlanda, Polônia, Noruega, Egito e, em muitos, esta expansibilidade mais do que duplicou. A Fintech, apresentada como uma inovação revolucionária capaz de agitar os mercados financeiros tradicionais, trouxe um novo paradigma no qual a tecnologia da informação mostra-se capaz de criar impulsos à inovação no setor financeiro. A inevitável digitalização não é o único motivo. Afinal, o setor tem enfrentado uma queda no desempenho financeiro desde o ano passado. A Bloomberg Intelligence afirmou que o rácio custo-rendimento médio dos principais bancos europeus ascendeu a 67%, em 2019, a taxa mais elevada desde 2008.

O Banco Central Europeu, que supervisiona um agregado de 113 entidades financeiras, no relatório anual, em relação ao ano de 2019, divulgou que a rendibilidade dos capitais próprios desse conjunto de entidades teria sido de 5,2%. Este é um resultado inferior ao apresentado pelas instituições norte-americanas, e até mesmo quando comparado com as estimativas divulgadas pelas próprias instituições. Todavia, no primeiro semestre de 2020, os números agravaram-se e a rendibilidade dos capitais próprios das entidades financeiras reduziu-se para somente 1,2%.

Portugal, assim como alguns dos seus parceiros europeus, apresentou valores negativos (-0,77%) e países como a Alemanha, Itália e Bélgica, que detêm um mercado bancário muito superior ao de Portugal, apresentaram um valor ainda mais drástico. É certo que a recessão global em 2020 agravou os cenários. Afinal, a redução do rendimento da população, o aumento do desemprego e a incerteza financeira impulsionam a queda na quantidade e volume dos depósitos bancários e empréstimos para fins específicos, como hipotecas, empréstimos para automóveis, etc.

As transformações no modelo operacional e a transição digital são os meios para os bancos superarem as dificuldades. Além disso, pode estipular-se que os bancos forneçam empréstimos menores e avaliem os clientes de maneira menos formal, bem como comecem a adquirir empresas fintech, uma vez que, notavelmente, as próprias fintechs são bastante ativas nesse aspeto, na medida em que procuram oportunidades para melhorar o seu desempenho.


 



Por outro lado, o Banco Central Europeu, com o propósito de solucionar este problema, aguarda uma centralização dos bancos europeus, já que a ideia é que há uma oferta excessiva de bancos.

No meu ponto de vista, esta concentração apenas trará resultados a curto prazo, já que inicialmente será sentida a poupança nos custos. As pessoas cada vez mais valorizam o seu tempo e a tecnologia que os novos bancos oferecem e esta mudança de paradigma no comportamento dos novos consumidores está a deixar os bancos tradicionais para trás, que têm poucos anos para agirem e tomarem uma decisão assertiva. Fundamentalmente, é imperativo os bancos se tornarem mais relevantes para os seus clientes, num um mundo onde a competição pelo seu interesse e atenção se intensificou. As vantagens competitivas dos bancos deverão ser o ponto de partida para a análise e, a meu ver, fundamentam-se em duas: a segurança e confiança que os clientes depositam nos bancos; e a informação que estes detêm sobre a vida dos clientes.

Em suma, a flexibilidade da atividade bancária entrou numa espiral transversal de crescente utilização, acentuando não só a simplicidade e proximidade do serviço prestado cliente, mas também a fusão dos canais digitais com os serviços de balcão, o que é igualmente importante para que as vantagens de ambos os meios sejam explorados de forma sustentável. Mas engane-se quem somente denota a lógica desta questão, pois no fundo há que pensar numa nova questão daqui emergente e que diz respeito à aplicação de massivos investimentos no processo de transformação digital por parte dos bancos.

 

Nelson Fernandes

 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Aumento do Salário Mínimo Nacional e Pandemia: Fenômenos Compatíveis?

 

             O Aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) é atualmente um dos temas mais presentes na mesa do parlamento e que tem gerado opiniões díspares. Se, por um lado, temos os empresários com falta de receitas e com medo de não conseguir cumprir com os encargos de um aumento do SMN, do outro, temos a “teoria da economia” que nos mostra que um aumento do salário leva a um aumento do poder de compra, que por sua vez incentiva ao consumo. Ora, com um aumento do consumo estaremos a oferecer à economia portuguesa uma pequena bolsa de ar nesta crise que a Covid-19 tem gerado. Mas será que esta vertente teórica se mantém numa situação pandémica?

          A verdade é que a decisão terá de cair para um dos “lados”, mas é preciso escolher, de forma séria e cuidada, qual será o melhor “lado”. Para entendermos melhor esta situação, nada melhor do que recuarmos até ao pré-pandemia Covid-19 e perceber quais foram os indicadores que deram início ao debate de um possível aumento do Salário Mínimo Português em 2021.



          

              Analisemos então o seguinte gráfico, fornecido pelo PORDATA, que nos mostra a evolução do desempenho da economia portuguesa, através da Taxa de crescimento real do PIB. Facilmente percebemos que, se considerarmos o período desde 2012 e salvo os anos imediatamente seguintes, que a economia portuguesa vinha a atravessar momentos prósperos e de grande crescimento, anos onde finalmente o país começava a respirar alguma estabilidade. Note-se que Portugal vem apresentar taxas de crescimento real do PIB positivas desde 2014, o que equivale a 6 anos consecutivos de crescimento.

Foi tendo este gráfico como base, que várias propostas de aumento do Salário Mínimo Nacional foram surgindo e muitas delas aprovadas. Tal é possível de se observar no seguinte gráfico, retirado da Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho:




          Repare-se que os gráficos se encaixam de forma perfeita: a valores anuais positivos de crescimento do PIB correspondem aumentos do Salário Mínimo Nacional. Ora veja-se que, após 4 anos (2011 a 2014) em que o SMN se manteve sem alterações (485,00€), vivenciamos, felizmente, um crescimento do Salário Mínimo Nacional há 6 anos consecutivos, aumentos estes na casa dos 20,00€ aos 35,00€, reflexo da excelente prosperidade que a economia portuguesa apresentou nesses respetivos anos.

É bastante importante referir que, neste universo de aumentos salariais anuais, o maior aumento foi (e espante-se) em 2020, a 1 de janeiro, no valor de 35,00€, passando o Salário Mínimo Nacional atualmente para 635,00€. No entanto, este aumento foi efetuado sem sequer nos passar pela cabeça o surgimento de uma Pandemia Mundial. Talvez se soubéssemos o que sabemos agora não se tivesse levado a cabo um aumento tão grande. Ou pelos vistos não… uma vez que ainda se pretende aumentar mais. É verdade! António Costa pretende voltar a realizar um aumento do SMN em 2021, mas será isso viável num momento em que, segundo o Banco de Portugal projeta-se para 2020 uma quebra de 8,1% do PIB português, assim como quebras no consumo privado, exportações, emprego, etc.

Os portugueses foram obrigados a parar e muitos mudaram os seus hábitos, aprenderam a consumir menos e a aumentar as suas poupanças, daí que a teoria económica que nos ensinou que um aumento do salário leva a um aumento do consumo, entre muitas outras implicações, nos dias que correm talvez não seja tão simples, pois acredito que a principal consequência seria o aumento da poupança das famílias.

Desta forma, sou apologista de um cancelamento completo de aumentos do Salário Mínimo Nacional (no mínimo até inícios de 2022), onde aí, sim, acredito que seja possível realizar um aumento expressivo e com significado. Acredito que este é o momento para priorizar a sobrevivência das empresas, de combater o aumento da taxa de desemprego e apoiar aqueles que ficaram sem rendimentos nesta pandemia.

 

Eduardo José Pinto Gonçalves

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]