quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O pesadelo norte-americano: Como a covid-19 “desmascarou” o frágil sistema de saúde norte americano

No contexto da atualidade, a nível mundial, o impacte da pandemia provocada pelo coronavírus na realidade socioeconómica dos países é devastador. Focando-nos nos EUA em específico, este continua a infetar milhares de norte-americanos diariamente. À data da realização deste ensaio, há a lamentar um total de 726 mil norte-americanos que perderam a vida por efeito da covid-19.

Detentores de tecnologia de topo e de alguns dos melhores centros médicos do mundo, os Estados Unidos, não foram capazes de atender aos problemas da maioria da sua população.

De um momento para o outro, uma das maiores potências mundiais tornou-se o epicentro da pandemia do coronavírus, agravando-se a situação devido à inexistência de um sistema público e universal de saúde, bem como ao acesso limitado e confinado de uma percentagem reduzida da população a consultas médicas – cerca de 70 milhões de cidadãos encontram-se sem qualquer tipo de assistência médica ou apenas com planos de saúde precários.

As fragilidades do sistema de saúde norte americano são bem mais complexas quando as cruzamos com a realidade social da sua população mais carenciada: a elevada percentagem de indivíduos com baixos rendimentos, incapaz de aceder aos seguros de saúde cujos valores são inflacionados pela concorrência descontrolada entre as seguradoras, complementada com a inatividade do Estado face a todas estas problemáticas, culminou com uma propagação descontrolada do vírus e com níveis de mortalidade elevadíssimos, quando comparados com a realidade de outros países.

Os Estados Unidos são um dos países que mais gasta com saúde, aproximadamente 17,7% do PIB (3,6 triliões de dólares, em 2018). No entanto, cerca de 28 milhões de norte-americanos não possuem um seguro de saúde, já a maioria população que possuiu um seguro de saúde tem-no por meio do seu emprego. Desde 2020, a pandemia destruiu cerca de 22 milhões postos de trabalho, dos quais apenas metade foi recuperada até agora. Um estudo recente do The Commonwealth Fund estimou que cerca de 14 milhões de pessoas perderam temporariamente o seu seguro de saúde devido à pandemia.

Face a esta dramática situação, tornou-se, para mim, de extrema relevância a reflexão crítica sobre o equilíbrio entre os direitos e os deveres dos cidadãos americanos e os deveres do Estado como agente de promoção de saúde pública, facultando o acesso generalizado de toda a população aos cuidados médicos.

Esta problemática leva-nos a questionar a eficácia de um regime económico capitalista quando refletido num sistema nacional de saúde. Aqui, o equilíbrio entre os direitos e os deveres do Estado, das empresas privadas, dos hospitais e dos utentes fica claramente anulado. Depender exclusivamente de um sistema de saúde privado dá espaço para enormes desigualdades, uma vez que a saúde, direito fundamental consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, passa a ser vista como mais um produto a guiar-se por curvas de oferta e procura, e se torna acessível apenas a quem possui capacidade para pagar um bom seguro de saúde. Ademais, a qualidade dos cuidados de saúde passa a reger-se pela nossa disponibilidade financeira, colocando em risco a dignidade e a própria vida humana dos indivíduos em situações de fragilidade.

Num país com elevados recursos financeiros e de capital humano ao dispor, estruturar um sistema de saúde público capacitado a dar a resposta necessária a todos os cidadãos faria com que, muito provavelmente, todos os norte americanos gastassem menos e tivessem os mesmos direitos, independentemente do rendimento de cada um.

Na minha opinião, como defensor do princípio de que a saúde deve ser um direito constitucional de acesso gratuito a toda população, principalmente à mais carenciada, e sendo os Estados Unidos da América uma das maiores potências económicas mundiais, é urgente uma reformulação do panorama da saúde, protegendo todos os cidadãos e garantindo o seu acesso igualitário e digno a cuidados e serviços de saúde, prevenindo uma nova pandemia de surgir e se intensificar como, lamentavelmente, sucedeu com a Covid-19.

 

Francisco Silva Fernandes 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A dor invisível de doenças mentais: a falta de investimento em saúde mental na UE e OCDE...

            Felizmente, como portugueses, temos a sorte de ter um Sistema Nacional de Saúde com bons profissionais que, “gratuitamente” (apesar de contrapartidas como impostos, taxas moderadoras, ...), cuidam de nós e da nossa saúde. Mas isso só se as doenças forem físicas, pois para quem tem doenças mentais a situação é outra. É necessário pagar 60 euros ou mais por consulta num psicólogo ou psiquiatra. Deixem-me ser clara: o SNS também oferece consultas com estes profissionais, mas é sabido que o setor privado predomina sobre o público neste ramo da saúde.

          Porquê? Bem, a parcela de gastos em saúde que os países da UE (e OCDE) dedicam aos cuidados psicológicos é diminuta, o que faz com que a maioria dos profissionais prefira pertencer ao setor privado, deixando o setor público com défice de psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, etc. Ou, pior, desmotiva a escolha deste tipo de carreira. Assim, os doentes são deixados não só à mercê de dificuldades sociais e pessoais que ter uma doença mental acarreta, mas também de dificuldades económicas. As pensões de baixa médica são baixas, e os custos de tratamento das doenças são altas.

          De facto, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde mental apontou para os seguintes números: 165 milhões de europeus são anualmente afetados por uma perturbação/doença mental e “apenas um quarto dos doentes com perturbações mentais recebe tratamento, e só 10% têm tratamento considerado adequado”. Acrescenta-se que “as doenças e as perturbações mentais tornaram-se, nos últimos anos, na principal causa de incapacidade e numa das principais causas de morbilidade nas sociedades”. E, segundo a OCDE, o custo económico das doenças mentais pode ser de até 4% do PIB.

Fonte: excerto de parte de uma imagem de https://www.oecd.org/health/health-systems/Mental-health-Facts-and-Figures.pdf

          Tais dados deveriam incentivar o investimento. Para tantos europeus, seria de esperar que o número de médicos especializados nesta área fosse igualmente grande. Mas não. A média da OCDE é de 0,18 psiquiatras por 1000 habitantes, sendo que Portugal está ainda abaixo deste número. Quanto aos gastos públicos em saúde mental, apenas o Reino Unido, a Noruega e a França estão acima do limiar dos 10%. A meu ver, são números francamente baixos.

          A discussão deste debate aumentou com o aparecimento da pandemia e a preocupação com aumento de depressão, ansiedade, e outros nos jovens e adultos que desta adveio. Contudo, a meu ver, meros diálogos não são suficientes nem se têm traduzido em melhorias significativas.

          Assim, a minha opinião é: a saúde mental dos cidadãos é tão importante como a física, já que, além dos problemas pessoais, acarreta também um custo para a sociedade (em termos de produtividade, desemprego, consumo, etc.). Deste modo, é do interesse dos doentes e de todos que estes tenham acesso fácil a tratamento adequado e qualificado, independentemente da capacidade financeira. Cabe ao governo de cada país, e às entidades supranacionais (para que todos os países possam convergir neste sentido), promover e financiar este ramo da saúde.

          Para terminar, acredito que a nova geração é mais consciente e preocupada com este problema e, como tal, o futuro trará resultados animadores e melhores estatísticas!

 

Bruna Sequeira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 17 de outubro de 2021

Haverá saúde mental pós-pandemia?

Em 2020 deparamo-nos com uma pandemia que poucos esperavam e para a qual ninguém estava preparado, a durar mais do que o previsto e a mudar vidas. Com este surgimento, Portugal e todos os restantes países, não só europeus como a nível mundial, viram-se obrigados a tomar decisões importantes de forma rápida e a decidir prioridades.

Deu-se uma nova importância e olhou-se de outra forma para a saúde, pelo menos tendo em conta o país em que vivo. Decidiu-se fechar tudo. A preocupação com a vida dos portuguesa e bem-estar ficou em primeiro lugar, estando a economia posta de parte.

Penso que agimos da melhor forma possível ao que nos era desconhecido. Apoios foram dados, que nunca seriam suficientes mas atenuaram de certa forma toda esta catástrofre a nível económico e empresarial, devido ao enorme horizonte temporal em que muitas empresas se viram obrigadas a cessar ou limitar a atividade. Ao nível dos hospitais, aumentamos fortemente a nossa capacidade em reação ao que estava a acontecer e, enquanto isto, a maioria da população estava confinada nas suas quatro paredes.

Com o passar do tempo, o vírus foi-se obviamente espalhando e só não de forma pior devido a esse confinamento. E, apesar de eu, como já referi, considerar que foi a melhor decisão a tomar, a mesma trouxe consequências económicas, como já referi, mas também, mentais, tão importantes e tão esquecidas!

A saúde mental foi, desde sempre não tomada como importante, sempre secundária, como se não fosse ela uma doença como tantas outras ou até, por vezes, pior pois o cerebro é que nos comanda. Estando ele a funcionar mal, como se poderá viver?

Estes problemas desde sempre existiram e sempre foram um tabu e, nestes últimos tempos, devido ao reduzir da vida social, à restrição de locais, horas, impossibilidade de ver quem mais gostamos, entre outros aspetos, fez aumentar os níveis de ansiedade e depressão, em geral. Isto, apesar de preocupante, continua a não ser tomado em conta com a importância que tem. É necessário normalizar-se, deixar-se de considerar um assunto vergonhoso, assumir o problema e tratá-lo! E, na minha opinião, o apoio do Estado nesse aspeto deveria aumentar.

O nosso sistema nacional de saúde é pobre quando se tem em conta este tema, o que se torna terrível tendo em conta que há pessoas que chegam a pôr fim à própria vida por não saber como lidar com o problema.  

Segundo pesquisas que realizei, ”A prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal é elevada: estima-se que um em cada cinco portugueses tenha algum tipo de episódio nos 12 meses anteriores a consultar o médico. No espaço europeu, só a Irlanda do Norte tem piores estatísticas do que as nossas.” Isto diz-nos que existe demasiado que não sabemos sobre a nossa própria realidade e é preciso investigar. Apesar dos vários contributos de investigadores, psiquiatras e outros profissionais, tudo isto não tem vindo a ser suficiente tendo ainda se agravado mais pós-pandemia, ou seja, esta investigação e inovação necessita de ser mais reforçada.

A meu ver, é demasiado notável a diferença antes e pós-crise sanitária nas pessoas, destacando-se os mais jovens. Seja em conhecidos, no meu círculo de amigos, colegas de turma ou, mesmo, em mim mesma, sinto que tudo isto nos mudou. Quem já sofria psicologicamente piorou e precisa de mais apoios, apoios esses com valores monetários altíssimos e que nem todas as famílias conseguem suportar. Muitos que nunca estiveram perto de se ver neste estado, viram a própria mente deteriorar-se e passaram a sentir a ansiedade na pele, seja de uma simples saída de casa que se tornou menos usual como de um acontecimento específico de maior importância, como um exame na faculdade.

Para rematar e depois de toda a importância dada e de forma correta à saúde física, considero que está na altura de tratar da mente para que tudo volte realmente à normalidade, que muitos ainda não sabem o que é!


Rafaela Filipa Barbosa Bastos 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Como é que as pessoas compram atualmente?

             O comércio atual é muito diferente do comércio a que assistimos há 30 anos. Não é preciso recuar muito no tempo para perceber o que mudou e por que é que mudou. Se nos primórdios da humanidade o comércio era pouco notório (as pessoas produziam aquilo que consumiam), nos últimos séculos este fenómeno tem sido fundamental (e quase “obrigatório”), permitindo a aproximação das diferentes populações. Esta globalização (muito devida à necessidade de comercializar e contactar com diferentes países) foi sustentada pela criação da internet.

A internet é uma ferramenta essencial na atualidade e tem tido um papel cada vez mais relevante nas transações económicas. Graças a esta invenção, podemos fazer uma compra qualquer coisa numa questão de minutos e sem sair de casa. Esta adesão ao e-commerce (comércio eletrónico) tem vindo a intensificar-se ao longo dos anos e tem conquistado a confiança do consumidor. Do meu ponto de vista, os principais motivos que levam a este incremento no uso da tecnologia para comprar algo prendem-se com a comodidade e rapidez da transação, com a segurança garantida, com os menores custos envolvidos (para as empresas) e com o aumento do número de pessoas com acesso à internet.

Em relação a este último parâmetro, dados estatísticos do EUROSTAT demonstram que, em Portugal, em 2018, 79,4% das pessoas tinham ligação à internet, e a média da União Europeia (UE) situava-se nos 89%. Já em 2019, a mesma fonte garantiu que 80,9% dos portugueses tinha acesso ao mundo digital, e a média da UE correspondia a 90% da população.

Com uma evolução semelhante, o desenvolvimento do e-commerce tem-se intensificado nos últimos tempos e, em 2018, o relatório anual da E-Commerce Europe revelou que 49% dos internautas portugueses realizaram algum tipo de compra online. Complementarmente a estes dados, o Instituto Nacional de Estatística verificou que são os homens quem recorre mais a este tipo de comércio, e a maior parte dos compradores (cerca de 71%) situa-se na faixa etária entre os 25 e os 34 anos.

Além disso, os países europeus que registaram um maior número de transações de e-commerce foram o Reino Unido, a Suécia e a Dinamarca, com percentagens de 88,5%, 83,9% e 82% dos internautas, respetivamente, em 2018.

Em 2020, a pandemia provocada pela COVID-19 permitiu, tal como previsto, o crescimento do e-commerce e estima-se que 56% dos consumidores portugueses fizeram, pelo menos, uma compra online. As empresas tiveram que se adaptar aos novos desafios e, de forma a colmatar as perdas sofridas devido ao confinamento, investiram mais no mundo digital, incluindo as cadeias de hipermercados.

Numa perspetiva pessoal e de acordo com as experiências vividas, posso afirmar-me uma adepta do e-commerce já que este me permite uma visão mais alargada, cómoda e rápida das oportunidades de negócio, apesar de continuar a achar imprescindível a existência de locais físicos, como as lojas.

Assim, na minha opinião e devido aos factos supramencionados, podemos (quase) garantir que a internet é e será o futuro e, numa perspetiva mais radical, todo o comércio vai passar a ser feito online, tornando o comércio tradicional (com espaços físicos) apenas uma memória do passado. Deste modo, cabe às empresas delinear estratégias para entrar no mundo digital de forma a expandir o seu mercado e marcar uma posição.

Concluindo, vários indicadores económicos apontam para o contínuo crescimento do e-commerce e, nesse sentido, as empresas devem tentar adaptar-se ao progresso tecnológico a que se assiste nas últimas décadas, preservando as raízes do negócio mas alterando a forma como o realizam!

 

Sofia Pereira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O conflito entre a Palestina e Israel

 O Conflito Israelo-Árabe, que é dos mais longos da história, com início no século XIX, e dos mais complexos das últimas décadas, é um centro de tensão geopolítico do mundo. Os motivos principais que impulsionam este conflito são a partilha da cidade de Jerusalém, o delineamento de fronteiras, o movimento de refugiados palestinianos e a partilha de recursos hídricos.

Movidos por um desejo de acabar, principalmente, com a violência, tal fez com que, em certos momentos fosse possível avançar com as negociações numa direção positiva, havendo um reconhecimento mútuo de ambas as partes. Porém, as lacunas existentes na comunicação e organização das partes foram fatores determinantes, negativamente, para a potencial resolução do problema, sendo necessário que tanto agora como no futuro se dê mais atenção a estes detalhes para que as negociações possam ser bem-sucedidas.

Este conflito entre Palestina e Israel, que é um dos mais antigos e mais complexos, deve-se ao facto de existirem países na esfera internacional com grande influência, que, sobre este assunto, têm posições e opiniões divergentes, como são os casos dos Estados Unidos da América, do Reino Unido e da França, pelo que tornará muito difícil a chegada a um entendimento que satisfaça os interesses de ambas as populações. Por exemplo, os Estados Unidos da América, interferiram como ator externo relativamente aos Acordos de Oslo, assinado na Noruega mediados na altura pelo presidente Bill Clinton,  e que foram considerados muito mais benéficos para Israel, não discriminando implicitamente um Estado da Palestina independente. Este facto, aliado à contínua ocupação por Israel de território palestiniano, tornou o lado da Palestina mais intransigente no que toca às negociações, tornando difícil alcançar a paz.



De forma a ultrapassar este conflito, será necessário respeitar as fronteiras pré-1967, que os israelitas desistam dos seus objetivos de colonização e que a Palestina se torne um Estado independente. Portanto, se queremos pensar em negociações bem-sucedidas, ambas as partes terão de ser capazes de enfrentar as suas divergências de forma espontânea, sem o recurso a armas e apresentando os seus pontos de vista, com o propósito de manterem uma comunicação direta e objetiva. É necessário, também, que Israel admita a Palestina enquanto ator soberano, que possui autoridade, sendo assim já reconhecido dessa forma por muitos organismos internacionais.

Outra questão que se revela um obstáculo à resolução do conflito tem a ver com o tempo, ou seja, quanto mais um conflito se arrastar no tempo mais difícil será atingir uma solução e mais facilmente esse conflito poderá ressurgir. Neste processo, os Estados Unidos da América procuraram mediar este conflito, mas o que é preciso verificar se essa mediação é feita da maneira correta. Um mediador é um terceiro país, reconhecido por ambas as partes, que tenta agilizar o processo de resolver o conflito. Para que este desempenhe o seu papel de forma bem-sucedida é necessária a sua imparcialidade, não procurando beneficiar uma das partes, algo que nem sempre se verificou. Portanto, apesar de se considerar a influência de um ator externo como sendo importante na ajuda aos processos de paz, esse ator deve procurar ser isento, pelo que para solucionar este conflito seria necessário reconsiderar a posição dos Estados Unidos da América naquela região, para que as partes possam desenvolver confiança, e assim seguir com garantia de sucesso nas propostas de paz.

Apesar de todas estas considerações, existe uma forte probabilidade de que estas negociações se venham a arrastar durante as próximas décadas, até que, eventualmente, um dia as Nações Unidas se mexam no sentido de intervir, pelo menos, no que toca a salvaguardar os direitos humanos.


Diogo Martins

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

IVA na eletricidade

          Portugal é um dos países dependentes da importação de combustíveis fósseis, devido à falta destes no seu território, e onde o imposto sobre o valor acrescido (IVA) é o que mais peso tem na receita de impostos do seu sub-setor Estado, representando cerca de 38,3% da receita fiscal.

          O IVA, para além ser um imposto indireto associado ao consumo / uso, tem um carater regressivo, pois ao tributar o consumo penaliza mais fortemente os contribuintes com menores recursos, ou seja, a taxa média de imposto é decrescente com o indicador da capacidade para pagar. Mas, por outro lado, ao estar associado ao consumo, tem a vantagem de não tributar a poupança, o que pode estimular a formação de capital e consequentemente o crescimento económico. Em Portugal continental, estão em vigor 3 taxas de IVA, a normal, a intermédia e a reduzida, sendo respetivamente 23%, 13% e 6%, que são aplicadas em função do tipo de produto ou serviço. Maioritariamente, os bens de primeira necessidade são aqueles onde a taxa mais baixa é aplicada.

Relativamente ao mercado energético em Portugal, nos últimos anos este tem sofrido alterações. Foi liberalizado em 2004 mas, na prática, o consumidor final só́ pôde escolher o seu fornecedor de energia em Setembro de 2006, pelo que é legítimo afirmar que o mercado foi totalmente liberalizado apenas em 2006 (Ferreira, Araújo, & O’Kelly, 2007), oferecendo assim uma maior eficiência tanto ao nível da produção como do consumo, conduzindo a preços mais competitivos, que por sua vez levam à redução na fatura da eletricidade.

A crescente preocupação na sociedade com a sustentabilidade do ambiente tem sido outro fator para a transformação desta área. Para uma maior diversificação e para responder a estas exigências ambientais, este setor tem direcionado o seu investimento e desenvolvimento para energias alternativas, passando assim para a produção e utilização das energias eólicas, solar e dos mares, entre outras, reduzindo desta forma a libertação de gases prejudiciais para a atmosfera. Em 2019, segundo o PORDATA, 54,2% da produção de energia elétrica foi a partir de fontes renováveis.

Em Portugal, até  1 de dezembro de 2020, o IVA aplicado sobre o consumo de eletricidade era de 23%, mas o decreto-Lei n.º 74/2020, de 24 de setembro, veio alterar essa taxa para determinados níveis de consumo e potências. Mais em concreto, este decreto veio estabelecer, para todos os consumidores com um contrato de Baixa Tensão (BTN) até uma potência contratada de 6,9 kVA, a aplicação da taxa de 13% de IVA, ou seja, a taxa intermédia na fatura da eletricidade. Com esta medida, prevê-se que sejam afetados pelo menos 80% dos consumos domésticos de baixa tensão. E de acordo com as contas apresentadas pelo próprio governo, isto pode conduzir a uma possível poupança que pode variar entre os 18 euros anuais para a generalidade das famílias e os 27 euros para as famílias mais numerosas.

Num mundo cada vez mais tecnológico, onde a dependência digital é visível, a eletricidade torna-se num dos bens de primeira necessidade para a população. Cabe ao governo a criação de políticas energéticas e de incentivos para ter uma maior diversificação de fontes energéticas, uma maior utilização de energias renováveis e acompanhar a independência energética.

No meu entender, a redução do IVA da eletricidade para apenas 13% não é a medida que melhor se adequa às características da Economia. Para além da eletricidade ser um bem essencial para melhorar a qualidade de vida das famílias, atendendo ao caracter regressivo do IVA, e estando num mundo cada vez mais dependente da eletricidade, a redução para os 6% seria a medida mais adequada.


Manuel José́ Barbosa Nogueira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 10 de janeiro de 2021

Portugal e o uso da tecnologia nas empresas

     Nos últimos anos, temos assistido a um forte desenvolvimento da indústria tecnológica, tanto a nível de dispositivos cada vez mais capazes de suportar enormes fontes de informação, como a nível de softwares que facilitam cada vez mais o controlo de novas informações. Perante este facto que temos vindo a constatar, surgiu-me a curiosidade de que maneira é que Portugal se estará a adaptar a todas estas novas tecnologias que vão aparecendo e se as empresas a atuar no nosso país têm vindo a tirar proveito delas para encontrarem ou formularem novos instrumentos que facilitem e melhorem os seus processos produtivos. Ou seja, este pequeno artigo tem como principal objetivo perceber se essas empresas se têm adaptado ao aparecimento destas novas tecnologias num mercado que se tem tornado cada vez mais digital, comparando o seu comportamento com o de outros países da UE27 e, por fim, apresentando algumas medidas que podem melhorar o envolvimento tecnológico no nosso país.

O gráfico apresentado mostra-nos a % de empresas (apenas aquelas que têm 10 ou mais trabalhadores em serviço) que possuem website em diferentes países e a média na UE27. Neste gráfico, Portugal situa-se na 24ª posição e apresenta um valor de 59%, em 2019, ou seja, apenas 59% das empresas portuguesas tinham website, enquanto que na média da UE27 cerca de 77% das empresas tinham website próprio. Apesar de demonstrar um crescimento significativo entre 2007 e 2019, tal como a maioria dos outros países, Portugal ainda continua muito aquém daquilo que se espera de um país que se considera desenvolvido.  De realçar a Dinamarca em que, em 2018, cerca de 94% das empresas apresentavam o seu próprio website.



                            Figura 1 - Empresas com website no total de empresas. Fonte: PORDATA

Deste modo, conseguimos perceber que ainda somos um país pouco adaptado a esta nova realidade e um pouco atrasado em relação a países que começaram mais cedo a investir na vertente tecnológica. Mas ainda não é tarde nem é impossível tentar alcançar o nível de adaptabilidade demonstrada pelos outros países. Para isso, considero ser necessário uma maior estabilidade no país, proporcionada pelo Estado, e uma mudança de pensamento nas empresas.

Por parte do Estado, é necessária ser fornecida uma maior estabilidade, tanto a nível social, judiciário e financeiro, melhorando as condições de vida existentes no país. Assim, indivíduos portugueses qualificados e mais adaptados à tecnologia que, por norma, emigram para outros países em busca de melhores condições de vida, ficariam em Portugal e seriam contratados por empresas que atuam no nosso país. Do mesmo modo, poder-se-iam sentir atraídos a vir para Portugal novos trabalhadores estrangeiros bem qualificados.

Nas empresas, considero ser necessário existir uma mudança de pensamento no sentido de aumentarem a sua proatividade. Isto é, as empresas deverão investir o mais rápido possível não só no envolvimento das TIC dentro das mesmas mas, também, manter uma procura ativa de sistemas e softwares que sejam capazes de tratar e gerir de forma mais eficaz toda a informação relevante dos processos produtivos, assim como transmiti-la de forma clara e rápida entre os trabalhadores. Deste modo, através de melhorias básicas, as empresas conseguirão detetar mais facilmente onde se encontram os seus pontos fracos, contrariando-os e sendo capazes de aumentar a sua produção sem ter de aumentar os seus gastos. Assim, o investimento nesta adaptação inicial será compensado por esse aumento do lucro proporcionado pelas correções feitas nos seus processos produtivos.

Em suma, Portugal tem muito por onde melhorar e se tornar mais adaptado a esta nova realidade, mas adotando algumas medidas nesse sentido, conseguirá diminuir a diferença existente em relação a alguns dos outros países europeus.

 

Diogo Carvalho

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]