domingo, 31 de outubro de 2021

Reino Unido: falta de motoristas de pesados causa problemas nos abastecimentos

          A falta de motoristas de pesados de mercadorias está a instalar o receio de um inverno muito difícil no Reino Unido, calculando-se a falta de aproximadamente 100 mil motoristas. A escassez de camionistas é um problema identificado há anos a nível mundial. A Transport Intelligence publicou recentemente um estudo que identifica a Polónia como o país com mais vagas por preencher neste setor, quase 124 mil, enquanto na Alemanha se aproxima de 50 mil e em França de 43 mil.

          As causas desta escassez são, principalmente, o Brexit e a pandemia. Com a pandemia, muitos trabalhadores europeus voltaram ao seu país de origem. Muitos poderão não regressar ao Reino Unido, e aqueles que não têm estatuto de residente precisam de um visto de trabalho porque o Brexit tornou o recrutamento na União Europeia mais difícil. Outras das causas são a interrupção de dezenas de milhares de exames de condução durante a pandemia, a aposentação de muitos profissionais, cuja idade média é de 55 anos, e a mudança das regras nos contratos dos motoristas para evitar a evasão fiscal. Existe ainda o entrave das condições de trabalho, como turnos longos e noturnos que afetam a vida social e familiar, o que fez alguns condutores profissionais mudarem de carreira ou para entregas ao domicílio.

          Devido ao tema em discussão, existem problemas como bombas sem combustíveis, alimentos que não chegam às prateleiras dos supermercados, restaurantes com falta das suas matérias-primas principais, entre outros.

          Para tentar solucionar estes problemas, o governo inglês, primeiramente, apelou à calma e à consciência dos automobilistas para que comprem apenas a gasolina ou gasóleo que de que precisem, deu a oportunidade a camionistas estrangeiros, através de cinco mil vistos, apostou na aceleração dos testes de condução que estavam em atraso devido à pandemia, pediu ajuda aos seus militares para que o transporte dos combustíveis fosse assegurado e suspendeu as regras da concorrência para que as petrolíferas possam partilhar recursos no abastecimento de postos com maior necessidade.

          Desta forma, a procura elevada de motoristas fez com que os salários aumentassem e que algumas empresas estejam a oferecer prémios superiores a 2 000 euros. Mesmo assim continua difícil para os ingleses ocupar os postos de trabalho nessa área necessitada.


Sofia Silva 

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Retoma do Turismo em Portugal após a Covid-19

          O turismo se tornou uma atividade económica de grande importância para Portugal, tanto para o desenvolvimento das cidades como para a geração de emprego e de rendimento, sendo assim benéfico para os turistas e residentes locais. Até 2019, o turismo estava em grande crescimento e desenvolvimento, já em 2020 deu-se início a uma situação bastante diferente com a doença por COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2. Mudanças mundiais ocorreram em busca do combate à infeção do vírus, com grande implicação na comercialização e contacto internacional entre os países. O turismo nacional e internacional foram afetados. Tendo se tornado até então um atividade económica de grande importância, a questão é: como recuperar e promover novamente o turismo nacional e internacional após já ter sido ultrapassado o pior momento da pandemia?

          As chegadas de turistas internacionais no ano de 2019, de acordo com a OMT, mesmo em percentagem de crescimento, estava mais branda do que nos anos anteriores: 3,8%, em 2019. Já em 2020, em especifico no dia 2 março, a situação do país começou a se alterar, com a elaboração de um plano de contingência no âmbito da prevenção e controlo de infeção pelo Coronavírus. Em abril, foram determinadas mais restrições já relacionadas com o turismo. Segundo dados disponibilizados pela OMT, as chegadas de turistas internacionais diminuíram em 73,1% (em 2019, +3,8%).

          Em relação ao turismo internacional, em 2021, já se deu inicio a um pequeno desenvolvimento, mesmo que com algumas restrições que dificultam a entrada no país, claro por segurança e proteção de todos, como a necessidade de realização de teste ou certificado digital de vacinação, mas já nota se uma abertura para esse tipo de turismo. Em relação ao turismo nacional, este teve aprovação de um plano de ação para reativar o turismo, de forma segura e também com o intuito de retomada do desenvolvimento na economia nacional, onde o principal responsável pela execução do plano é o Turismo de Portugal. Foram quatro os principais pontos de atuação: apoiar empresas, fomentar segurança, gerar negócio e construir futuro.

Por mais importante que seja o turismo para a economia do país e para a população, é necessário seguir com a responsabilidade e prevenção da expansão do vírus. Portanto, concordo com as restrições para o cuidado e proteção de todos e acredito que, com um passo de cada vez, será possível ter novamente uma percentagem positiva de turistas internacionais e desenvolvimento económico.

 

Paula Furbino Lana

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

sábado, 30 de outubro de 2021

A revolução elétrica no ramo automóvel: o futuro ou a ponta de um precipício?

      É impossível ser-se indiferente à crescente procura de automóveis elétricos. A indústria automóvel não esconde esta indiferença investindo e transladando cada vez mais recursos para a sua comercialização.  Porém, será que o ramo automóvel está a caminhar na direção certa ou a dirigir-se para um precipício?

          É indiscutível que a procura de meios de transportes movidos a energias mais limpas é prioritário. Atualmente, 30% do dióxido de carbono emitido na União Europeia provém dos transportes, sendo que 72% dos mesmos são oriundos dos transportes rodoviários. Esta entidade definiu como objetivo reduzir este valor em 60% até 2050, meta que poderá ser alcançada de duas formas: reduzindo o número de carros em circulação; ou substituir os atuais por veículos movidos a energias menos poluentes. A indústria automóvel, naturalmente, optou pela solução que não prejudicaria as suas vendas, investindo na investigação e desenvolvimento de motores movidos a eletricidade – estima-se que nos próximos cinco a 10 anos sejam investidos 300 mil milhões de dólares em tecnologias de carros elétricos.

          Todavia, a solução elétrica não é alheia de aspetos menos positivos. É indubitável a menor eficiência deste tipo de veículos, seja pela sua menor esperança de vida, entre 8 a 10 anos, ou pela sua menor autonomia, flutuando entre os 100 e 400 quilómetros para veículos elétricos a bateria e de 320 a 600 quilómetros para veículos elétricos a célula de combustível. Ademais, acrescentam-se as críticas levantadas em relação à pegada ecológica desta nova tecnologia.

Primeiramente, esta prende-se com a proveniência da energia utilizada como propulsora dos mesmos. Atualmente, menos de 20% da energia produzida na União Europeia advém de energias renováveis. Desta forma, apesar do mercado ser dominado por motores de combustão, grande parte da energia utilizada nos carros elétricos já provém da queima de combustíveis fósseis. Suponhamos, agora, que a transição para os veículos elétricos é total. Em Portugal, seria expectável um aumento do consumo de energia em 14,2% (6665 GWh), ou seja, assumindo que esta transição não é acompanhada, na totalidade, por um maior investimento em energias renováveis, esta culminaria num aumento da queima de combustíveis fósseis.

Em segundo lugar, tem-se o acréscimo da exploração das reservas mundiais de lítio. Sabe-se que uma tonelada de lítio poderá levar a emissões tão exorbitantes de CO2 como 15 toneladas e a um consumo de perto de 2 milhões de litros de água, para além de todo o impacto em termos paisagísticos e na biodiversidade resultantes de dita exploração. Em suma, a transição para o elétrico findaria não só na utilização de combustíveis fósseis, já consumidos pelos motores a combustão, mas também da exploração em massa do lítio.

          Ademais do impacto ambiental desta revolução elétrica, o impacto económico é indeclinável. Por um lado, prende-se com a questão da realocação de parte da indústria. O senso comum diz-nos que as indústrias irão procurar estar junto dos recursos naturais por questões de eficiência, maior rapidez e menor custo no transporte do local de extração para o local de transformação. Com isto, teremos a fuga de diversas indústrias do território europeu para junto do triangulo do lítio, formado pela Bolívia, Argentina e Chile, impactando diretamente as economias europeias tanto ao nível da sua riqueza como do seu emprego.

Por outro lado, haverá um reajustamento e readaptação das indústrias que terminarem não se realocando. É previsível um investimento tanto em capital físico como humano de forma a capacitar as indústrias para produzir com esta nova tecnologia. Sabendo isto, a grande questão que se alevanta é a sustentabilidade deste investimento. Sendo a solução elétrica uma “não solução”, a indústria automóvel estará a reinventar-se sobre os princípios errados, isto é, estará a não só adiar como agravar um problema. As questões ambientais que se prendem com esta necessidade de procurar uma nova tecnologia continuarão presentes, ou seja, a indústria automóvel ficará retida numa solução menos eficiente que a atual e igualmente danosa para o ambiente até ser capaz de desenvolver uma verdadeira resposta para o futuro do planeta.

          Em suma, acredito que a indústria automóvel tenha sentido a pressão social de combater a tendência poluente vivida nas últimas décadas conformando-se com uma resposta simples, incompleta e de curto-prazo.


Manuel Pereira

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Turismo

O turismo é um dos setores que gera mais riqueza em Portugal e que emprega um grande número de pessoas. Em finais de 2019/ início de 2020 o mundo foi apanhado de surpresa com a chegada de uma crise sanitária que fez com que a economia mundial e os seus variados setores fossem seriamente afetados. Um desses setores foi o Turismo, principalmente no caso de países como Portugal, em que esta atividade económica estava muito presente.

Segundo os dados da PORDATA, o PIB português diminuiu 7502,2M€ entre o primeiro e segundo trimestre de 2020, consequências da crise sanitária, tendo aumentado nos trimestres seguintes, mas até ao momento deste artigo o PIB português ainda não conseguiu atingir os valores pré-pandémicos. Uma das razões para esta diminuição é o setor turístico, uma vez que corresponde a uma grande parte da riqueza nacional. Se olharmos para os países da Europa, apercebemo-nos que aqueles países que obtiveram uma diminuição mais acentuada do seu PIB são, nomeadamente, aqueles países que mais aproveito retiram do turismo, como a Itália, França, entre outros, mostrando assim a importância do referido setor na economia.

Com a pandemia, houve muitas restrições instaladas, como o encerramento das fronteiras durante vários meses, e as condições para se poder viajar sofreram alteração, que foi desde a apresentação de um teste negativo até à realização de quarentenas de vários dias, aquando da chegada ao destino. Estas limitações levaram a que a procura de viajar diminuísse e, como consequência, com que o Turismo e todas as atividades económicas subjacentes sofressem grandes perdas.

Gráfico 1- Dormidas nos alojamentos turísticos por 100 habitantes

Fonte: PORDATA

No gráfico acima, disponibilizado pela PORDATA, observamos que até 2019 o número de dormidas nos alojamentos turísticos por 100 habitantes tinha vindo a apresentar um crescimento exponencial, especialmente na última década. 2019 foi o ano em que se verificou o maior número desde sempre (682,1). Em 2020, com o inico da crise sanitária, podemos constatar que houve um decréscimo colossal, para uma terça parte (250,5) do número apresentado no ano anterior. Conseguimos com estes dados provar o impacto da pandemia no turismo. 

Para combater esta crise no setor turístico foi aprovado em conselho de ministros um plano de ação, intitulado “Reativar o Turismo | Construir o Futuro”. Esta proposta tem como estratégia 4 passos: apoiar empresas, fomentar segurança, gerar negócio e construir futuro. O objetivo deste plano é tentar reavivar o turismo e o seu setor em Portugal e de alguma forma aumentar a riqueza portuguesa, e fazer com que o PIB nacional volte para valores pré-pandemia.

No meu ponto de vista, devem ser tomados este tipo de iniciativas, pois o setor precisa de voltar à normalidade, uma vez que foram muitas as pessoas afetadas com estas adversidades, e a economia portuguesa precisa de voltar a crescer.


Ana Margarida Queirós da Costa

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O Impacto das Alterações Climáticas

A temática das alterações climáticas e o impacto nas diversas esferas da sociedade e da economia têm vindo a ser recorrentemente alvo de debate nos dias de hoje, o que leva a crer que a discussão das suas repercussões não parece ter um fim imediato à vista. Trata-se de um entrave que exige forte colaboração entre o setor privado e o setor publico, com o intuito de revigorar o modelo produtivo para garantir e impulsionar o desenvolvimento e o crescimento económico sustentáveis.

As ondas de calor, aleadas aos fenómenos dos furacões, ciclones e tufões, comprometem, em grande escala, os níveis de produtividade, podendo em casos extremos dizimar por completo milhões de cidadãos, traduzindo-se em perdas com impactos incalculáveis ao nível do capital humano e do espetro económico. O grande ponto de interrogação que se impõe sobre as gerações futuras está relacionado com a manutenção de uma sociedade global estável, que se prevê que atinga a marca de 10 mil milhões de cidadãos em 2050 e, a partir desse vaticínio, em como as alterações climáticas que se vêm despoletando com cada vez mais frequência possam comprometer a prosperidade da sociedade num futuro iminente. Estudos levados a cabo pelo Banco Mundial advertem que, se não forem adotadas medidas de carácter urgente, os efeitos nefastos das mudanças climáticas podem levar à ruína cerca de 100 milhões de pessoas até 2030.

O que era até há bem pouco tempo analisado como um mero fator externo, a saúde ambiental, é atualmente tomado como um fator chave a incorporar nos modelos dos economistas atuais. Nicholas Stern defende que “as emissões de gases de efeito de estufa são a maior falha de mercado que o mundo já viu”, e alerta para a necessidade de conceber um investimento equivalente a 2% do PIB Mundial para mitigar os efeitos das alterações climáticas.

Não obstante as reticências iniciais impostas pela comunidade empresarial, novos estudos e atuações têm vindo a demonstrar que as medidas destinadas a combater o aquecimento global são uma oportunidade de ouro para assegurar o desenvolvimento sustentável e impulsionar o crescimento económico. Segundo a Comissão Mundial sobre a Economia e o Clima, a adoção de medidas de ação climática pode vir a gerar lucros económicos de mais de 26 mil milhões de dólares até 2030, e ainda providenciar a criação de novos postos de trabalho para 65 milhões de indivíduos em todo o mundo.

Os efeitos sobre as economias dos países mais ricos serão ainda mais severos comparativamente à crise pandémica, caso os governos não consigam lidar com o avolumar das emissões de gases de efeito estufa. Estudos apontam que as nações do G7 podem retrair-se cerca de 8,5% PIB/ano e o globo perder até 10% do valor económico total até 2050, na eventualidade da temperatura global subir 2,6ºC. A principal causa reside nas perdas causadas pelo calor, aumento do nível do mar, secas e inundações e redução da produtividade agrícola, o que pode inibir a prosperidade das nações.

O Índice de Economia do Clima revela que muitas economias avançadas no hemisfério norte são menos vulneráveis aos efeitos gerais das alterações climáticas, estando assim menos expostas aos riscos associados e com recursos mais avantajados para lidar com as adversidades impostas. Portugal aparece nos primeiros lugares como um dos países menos vulneráveis a impactos físicos e, analogamente, com maior capacidade de adaptação. Em contrapartida, é dos países mais ameaçados por secas extremas, subida do nível do mar e inundações. Assumindo um cenário mais pessimista, e projetando uma subida de 2ºC na temperatura, as perdas económicas corresponderão a 6,2% PIB, ainda que, se cumpridas as metas do Acordo de Paris, este impacto será atenuado para 4%. Este acordo visa alcançar a descarbonização das economias mundiais e estipula como seu principal objetivo de longo-prazo a limitação do aumento da temperatura média global para níveis abaixo dos 2ºC acima dos pré-industriais.

Ao redor do globo, a inércia na atuação para mitigar os riscos inerentes às alterações, conjeturando uma subida de 3,2ºC na temperatura, pode comprometer 18% do PIB Global e acarretar cenários bastante funestos para a prosperidade das sociedades.

O grande alerta relembrado pela ONU exprime-se na ideia de que ainda não é tarde para reverter a mudança climática e minimizar os seus aterrorizantes impactos. A verdade é que, hoje em dia, a humanidade tem ao seu dispor ferramentas que viabilizam uma irrefutável capacidade organizacional e tecnológica para compensar e restituir todos os malefícios cometidos que afetam o planeta, e assim se reconciliar novamente com a natureza e saúde ambiental.

 

Tiago Martins 

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

SEM CULTURA, O QUE É QUE SOBRA?

       No passado dia 11 de outubro, o governo apresentou a proposta de Lei do Orçamento do Estado para o exercício de 2022. Este programa gerou uma onda de indignação por parte dos artistas com a verba apresentada pelo Ministério da Cultura, sendo que apenas 0,25% da despesa total consolidada é dedicada aos organismos do setor, excluindo a dotação para o ramo da comunicação audiovisual e social. Considerando as despesas com a RTP, a percentagem cresce para 0,41%.

          A Administração Central prevê uma despesa total consolidada para o setor de 644 milhões de euros, uma subida de 14,2% face aos 565,9 milhões constatados no exercício de 2021, sendo que cerca de metade da quantia é absorvida pela RTP (47,9%). Verifica-se, então, um reforço de 70,1 milhões apropriado diretamente pela Cultura. Detém assim o terceiro lugar no pódio da despesa mais baixa do programa orçamental, numa perspetiva da despesa consolidada. E como nem tudo é mau, excluindo a RTP, sobe a posição para o segundo lugar, com uma despesa de 390 milhões de euros.

De acordo com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), parte da despesa será ainda atribuída à valorização do património cultural, no entanto esse investimento é limitado ao Estado (requalificação dos museus, monumentos e teatros do Estado). Claro que essa intervenção é necessária, porém a cultura não se centra no património material. De que vale uma sala recuperada se não há como remunerar os artistas e os técnicos? Nomeadamente, com o intuito de avaliar os efeitos da pandemia nas artes do espetáculo, a Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas) realizou um inquérito que indica que, “por cada espetáculo cancelado, ficaram sem rendimento, em média, 18 artistas, 1,3 profissionais de produção e 2,5 técnicos", isto, de acordo com o comunicado prestado à Lusa, refletindo muito da realidade sentida.

Ainda assim, à primeira vista, este reforço orçamental até pode ser considerado significativo tendo em conta o acréscimo face a 2021 (que auferiu 0,21% do OE), mas é uma proposta desligada da realidade. Este setor foi, sem sombra de dúvida, um dos mais afetados, com perdas em todas as suas áreas de atuação, em consequência dos efeitos da pandemia. As salas de espetáculo fecharam, os eventos foram cancelados e em causa estão os artistas, realizadores, cenógrafos, músicos, escritores, bailarinos, encenadores, técnicos de som e luz, produtores, entre muitos outros profissionais que ficaram sem qualquer fonte de rendimento, muitos dos quais continuam com o estatuto de “prestadores de serviço”, com trabalhos precários e sem qualquer proteção social, ainda que, a nova proposta garanta alguma segurança aos agentes culturais.

Sendo que a economia cultural e criativa ocupa o terceiro lugar de empregador Europeu e que representa um valor significativo na economia portuguesa, não se entende esta desvalorização constante por parte do governo do investimento na Cultura. A arte é fulcral para o nosso desenvolvimento. Educa e faz-nos progredir . É o que nos carateriza e diferencia enquanto indivíduos e sociedade. No fundo, é o que nos salva da realidade, pelo que deve ser valorizada e estimulada.

O Executivo de António Costa admite que a Cultura é um elemento essencial e necessário no desenvolvimento do país, mas ao fim e ao cabo o orçamento fica muito aquém do prometido e almejado 1%. Contudo, esta medida não é novidade no nosso país. Todos os anos o setor depara-se com a mesma situação.

                 Comunidade Cultura e Arte – Sem Cultura Não Há Futuro

O reforço do Ministério da Cultura indica uma melhoria, mas não suficiente e se antes o apoio era necessário então agora, mais do que nunca, é crucial. Entretanto o OE apresentado foi chumbado no passado dia 27 de outubro. Esperemos que o futuro reserve alguma esperança para este setor.

Assim, no meu entender, é fácil descartar a cultura quando esta não é urgente, mas é preciso evoluir e mudar o paradigma. Não é possível definir o preço da cultura, mas “sem números não há cultura”[1].

 

Bruna Daniela Oliveira



[1]   Catarina Ferreira, JN.

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O motor agroalimentar em contexto pandémico

Aquando de uma crise sanitária, torna-se fundamental combater problemas, existentes ou iminentes, nos diferentes setores, nomeadamente no agroalimentar. Desta forma, pretende-se garantir a atividade ininterrupta das cadeias de abastecimento alimentares, intra e internacionais, para possibilitar o fornecimento de alimentos, não agravamento de crises alimentares e redução dos efeitos negativos da pandemia na economia mundial.

Ainda que, nas últimas duas décadas, o peso deste setor tenha diminuído de 40,2% para 26,8% no peso total de trabalhadores a nível mundial, a agricultura continua a constituir não só um meio de subsistência para mais de mil milhões de indivíduos, como também é o setor mais importante em países de baixos rendimentos, chegando a representar um terço do PIB e 60,4% dos trabalhadores em alguns casos. A urbanização, aumento de rendimentos associados a outros setores e o crescente fenómeno de globalização explicam a retração da agricultura, no entanto, o setor agroalimentar estende-se a outros setores não agrícolas (p.ex., processamento, transporte e preparação de produtos alimentares), sendo assim capaz de gerar novos postos de trabalho. Ímpar com o seu valor, principalmente em contexto pandémico, continua a existir uma falta de preocupação com este setor e, por isso, acabam por se verificar inúmeros problemas laborais que envolvem o não cumprimento de legislações, falta de inspeções e de condições de trabalho, baixos níveis salariais e de produtividade, e despreocupação com questões climáticas. Torna-se, deste modo, evidente a necessária intervenção presente e futura para garantir uma melhoria do funcionamento do setor agroalimentar.

As limitações à liberdade de circulação e de venda, bem como questões laborais, foram os maiores desafios logísticos enfrentados pelo setor agroalimentar durante a pandemia, porque facilmente conduziriam a perturbações no fornecimento e eventual desperdício de alimentos. Ainda que o setor tenha, aparentemente, prevalecido pela ausência de interrupções significativas no aprovisionamento alimentar, a nível interno houve graves consequências, sobretudo a degradação da qualidade e redução de postos de trabalho.

Na Europa, por exemplo, o setor enfrentou uma grave carência de mão-de-obra, uma vez que o encerramento das fronteiras impediu centenas de milhares de trabalhadores sazonais de se deslocarem de acordo com as suas necessidades de trabalho. A organização italiana representante dos agricultores, Coldiretti, defende que mais de um quarto dos produtos alimentares produzidos no país dependem de cerca de 370 000 trabalhadores sazonais, sendo que em 2020 mais de 100 000 foram impedidos de se deslocar até lá. Em reposta, a este e outros casos, no dia 2 de abril de 2020, a Comissão Europeia publicou orientações práticas no sentido de os Estados-Membros facilitarem as viagens fronteiriças aos trabalhadores sazonais com profissões essenciais, o caso do setor agrícola, sem comprometerem a saúde pública.

Num contexto intercontinental, em países de baixos rendimentos, a maior parte em desenvolvimento, estima-se que os trabalhadores agrícolas, de forma a manterem a sua situação económica ou não caírem em pobreza, teriam de trabalhar uma semana adicional todos os meses.

A crise, enquanto assunto urgente, requer ação pronta e imediata, no entanto, não justifica o descorar dos princípios e direitos fundamentais do trabalho. Disseminação de informações transparentes e monotorização dos preços e dos mercados alimentares conseguem, em parte, evitar tais infrações e, adicionalmente, assegurar uma gestão eficaz do mercado, evitar compras consequentes do pânico e orientar empresas agrícolas no processo de tomada de decisão. No contexto presente, torna-se elementar garantir a livre circulação do comércio internacional, assegurando simultaneamente a qualidade dos empregos nos setores alimentar e associados.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabeleceu um quadro pelo qual se devem guiar as respostas políticas de combate ao impacto da crise sanitária. Este quadro baseia-se em quatro grandes princípios: estimular a economia e o emprego; apoiar as empresas, o emprego e os rendimentos; proteger os trabalhadores nos locais de trabalho; e recorrer ao diálogo social para encontrar soluções.

De acordo com a pesquisa apresentada, os países, principalmente os desenvolvidos, deveriam tomar uma carreira de ação compaginável com a importância do setor agroalimentar e à qual estariam inerentes consequências económicas, socias e políticas positivas.


Marta Fernandes

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]