quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Despesas das Famílias Portuguesas em Tempo de Pandemia

 

Num artigo do jornal ‘Expresso’, publicado em abril de 2020, acerca do consumo doméstico de energia no período inicial do confinamento (meados de Março a meados de Abril de 2020), nota-se que este cresceu 10%, em termos homólogos, de acordo com a fonte oficial da EDP distribuição. Este aumento resultou do confinamento decorrente da pandemia do COVID-19, que obrigou a transformação do dia-a-dia das famílias portuguesas. O interior da casa passou a ser o cenário do quotidiano: o regime de teletrabalho, as aulas dadas à distância, o entretenimento através de redes sociais e televisão, e até o próprio contacto com a comunidade - feito de forma digital. Além disso, várias ações quotidianas foram acentuadas, como refeições, aquecimento da água e casa, entre outras.

Isto contrasta com a descida significativa de consumo por parte das indústrias e empresas, que viram a redução e/ou o encerramento das suas atividades económicas. A confirmar este cenário, o relatório mensal de abril de 2020 da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) assinala que o consumo doméstico ultrapassou o consumo industrial, historicamente, na procura de energia elétrica: o consumo doméstico registou um aumento de 30,7%, enquanto que o consumo industrial verificou uma descida de 17,2%, quando comparado com abril de 2019. Também através dos relatórios mensais da DGEG, consegue-se inferir que nos primeiros 9 meses do ano de 2020, o consumo doméstico aumentou em 7,5%, o que demonstra que esta tendência se prolongou para além do confinamento de março e abril.

Além do aumento das despesas com a energia, as famílias têm-se deparado com o aumento dos encargos com a habitação, a saúde (pela necessidade de comprar máscara, álcool-gel e medicamentos) e alimentação, o que tem dificultado a taxa de esforço das famílias. 

A pandemia provocou uma quebra no mercado de trabalho, criando uma forte instabilidade, tendo-se verificado um aumento de desemprego, a recorrência ao lay-off e a instabilidade dos contratos precários (particularmente grave no setor cultural, de restauração e hotelaria), provocando uma descida dos rendimentos de muitas famílias portuguesas.

Face a este contexto, o governo procurou apoiar as famílias através de moratórias de encargos na habitação e outras despesas gerais (energia, telecomunicações, entre outros), e, segundo o relatório do Banco de Portugal, entre 27 de março e final de agosto, os bancos receberam pedidos para moratórias relativas a 787.807 contratos de crédito, o que demonstra que existem imensas situações de fragilidade. Instituições Sem Fins Lucrativos ao serviço das famílias também têm auxiliado famílias carenciadas, como é o caso do Banco Alimentar, que entre final de março e abril recebeu cerca de 350 pedidos de ajuda por dia, diz Isabel Jonet, cabeça do Banco Alimentar,  ao jornal ‘Observador’. Também é importante denotar o apoio da Segurança Social às famílias, entre eles, Medidas de Apoio de Emprego, Medidas Extraordinárias de Proteção Social e Assistência à Família.

No contexto em que vivemos, apesar do peso no Orçamento de Estado dos apoios às famílias e empresas, considero que os mesmos são imperativos para garantir a sobrevivência das famílias e contrariar o crescimento da pobreza em Portugal.

  

Ana Luísa Bento

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O retornar da economia – essencial ou perigoso?

 

Como consequência da pandemia da Covid-19, muitas economias, incluindo a portuguesa, foram obrigadas a parar quase que por completo pela necessidade de manter os trabalhadores em casa, minimizando o contágio em estágios iniciais da propagação do vírus. Isto contribuiu para que o turismo caísse drasticamente, a restauração e hotelaria sofressem perdas e setores como cuidados de saúde, logística e retalho alimentar ficassem em perigo de colapso. A taxa de desemprego aumentou e existem estimativas de uma queda no PIB entre 8% a 10% em Portugal, segundo entidades como o FMI, OCDE e Banco de Portugal.

Acerca de cinco meses ocorreu a reabertura da economia, de forma faseada, permitindo que a maioria daqueles que ainda se encontravam empregados regressassem ao trabalho, numa tentativa de recuperar lucros e atrasos nas produções. No entanto, uma questão que preocupou grande parte da população foi a possibilidade de que o vírus se espalhasse incontrolavelmente assim que as pessoas voltassem a contactar umas com as outras. Isto agrava-se pela impossibilidade de a clausura acontecer de novo.

De facto, a abertura da economia é necessária, na medida em que são todos os setores que a constituem contribuem para as contas do país, o cotidiano das pessoas e a nossa manutenção a nível global. É mantendo o país a funcionar que podemos gerar receita, quer no sentido de produtos, quer no sentido monetário, e seguir com a educação nas escolas. No primeiro caso, estes permitirão que preservemos as nossas exportações, fonte de rendimento, mas também que supramos necessidades dos cidadãos, bem como fornecer materiais para diversas indústrias.

A nível monetário, não só os salários, subsídios de desemprego, pensões e similares deverão ser pagos para permitir a manutenção do poder de compra, que por sua vez vai ter um papel essencial na rotação dos produtos, mantendo um ciclo de funcionamento das atividades diárias que ajudam outros setores, como na área da recreação ou no próprio turismo interno, e, apesar do valor extremo da palavra, a sobrevivência das pessoas. Por outro lado, esta dimensão monetária tem de alcançar o Estado, para que seja possível financiar o país, como nos serviços de saúde, transportes ou educação, investimento em empresas – incluindo os apoios necessários à retoma da sua atividade, tecnologia e desenvolvimento, e, algo que também tem vindo a preocupar um grande número de economistas, reduzir a dívida e o défice de Portugal.

É uma constatação que o governo tem vindo a conseguir diminuir, a pouco e pouco, estes valores, mas será de esperar que aumentem novamente, bem como o PIB diminua talvez numa percentagem maior à determinada por este cenário relativamente otimista, com os efeitos da pandemia, não só a nível do fecho da economia, mas de gastos com os hospitais e cuidados sanitários, por exemplo. Assim, a reabertura contribui adicionalmente para que estes valores macroeconómicos não sofram uma alteração drástica que coloque em risco a sustentabilidade do país.

No reverso da moeda, temos a possibilidade do surgimento de um contágio incontrolável. Sabendo-se que a maioria das normas a serem tomadas para a contenção do vírus deverão ser praticadas e respeitadas pela população, através da responsabilidade própria e não apenas das regras impostas pelo governo, existe o receio de que estas não sejam cumpridas. Incluem-se aqui o uso de máscara, a desinfeção e lavagem das mãos, distanciamento social e a tentativa de evitar ajuntamentos, dentro das possibilidades de regresso à normalidade. Sabe-se também que poucas pessoas infringindo estas medidas são o suficiente para que o contágio acelere, prejudicando o esforço de outros, aumentando o número de internamentos, mortes, e em consequência dos gastos com saúde, com o possível fecho de estabelecimentos. Atingindo maiores proporções, em especial com a chegada da segunda vaga, o país pode atingir um estado de grande número de infetados, algo próximo do ingovernável, sem outra solução que não tentar, possivelmente, um novo confinamento, confinamento esse já provado não ser possível, causando a quebra da sustentabilidade económica a um nível de difícil recuperação.

Posto isto, apesar dos perigos que a reabertura acarreta para a sociedade, tendo em conta as previsões e perdas que o país enfrentaria se esta não acontecesse, considero que a manutenção do fecho seria mais prejudicial para todas as entidades envolvidas, indivíduos ou empresas, pelo que teremos de esperar uma atitude responsável por parte de todos para que esta decisão não se mostre custosa. No entanto, será possível confiar no comportamento das pessoas? As consequências deste comportamento não poderão vir a ser tão ou mais graves do que o lockdown?

 

Margarida Soares

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Efeitos dos aumentos do Salário Mínimo Nacional

 

O rendimento mínimo é um fator de grande relevância e que influência fortemente a economia de um país, tal como a qualidade de vida da sua população. Por esse motivo achei pertinente trazer este tema com a análise das respetivas vantagens e desvantagens.

Grande parte dos países europeus apresenta um rendimento mínimo, ou seja, o valor mínimo legal que o empregador pode pagar como forma de remuneração pelo trabalho do mesmo e que foi implementado em Portugal em 1974. Em 2018, segundo a Pordata, a percentagem de portugueses que trabalham por conta de outro e aufere o rendimento mínimo rondava os 22,1% e também, entre 2014 e 2020, verificamos um aumento de 150€. Porém, comparando com os restantes países da EU, podemos denotar que Portugal é um dos que apresenta o salário mínimo mais baixo, sendo que no topo da tabela está o Luxemburgo com um salário mínimo nacional a rondar os 2142€, que compensa o elevado custo de vida local.

Segundo o projeto do salário mínimo europeu enunciado no discurso anual do estado da união, retomado pela presidente Ursula Von der Leyen, pretende-se a imposição de salário mínimo em todos os países que ainda não o têm, principalmente devido a toda a situação vivida. Para além disso é também pretendido que o salário mínimo corresponda a 50% do salário médio do país ou 60% da mediana do salário. No caso de Portugal, o salário mínimo está acima dos 60% da mediana, mas não a 50% da média. Para tal, a remuneração mínima teria de ser 663€.

Além de Portugal apresentar um baixo SMN, o seu aumento pode prejudicar pequenas e médias empresas que vão pagar mais pelo mesmo serviço. Perante isto, existem duas hipóteses: ou as empresas aumentam os preços dos seus bens ou existe o colapso dessas empresas, posto que muitas delas já estão a passar dificuldades devido à crise sanitária. Logo, o aumento do SMN pode levar ao aumento do desemprego, principalmente em pessoas com menos qualificações, tal como é descrito num artigo de João Cerejeira, Fernando Alexandre, Pedro Bação, Hélder Costa e Miguel Portela: "a subida do salário mínimo induz a empresa a investir mais em capital, e também a substituir menos qualificados por trabalhadores mais qualificados, dado que o preço relativo entre uns e outros se altera", pois já que tem de pagar mais prefere pagar a pessoas que lhe possam trazer mais retornos e aumentar os seus lucros.

Normalmente, o aumento do SMN leva ao aumento do consumo, todavia este ano tal não deve verificar-se devido aos momentos de incerteza que vivemos, visto que as pessoas vão ter mais incentivos para a poupança. Este aumento podia ser benéfico para quem o aufere, porém, penso que existem medidas que possam ser mais efetivas pois os aumentos dos salários são reduzidos e por vezes acompanhados de aumentos nos impostos.

Em suma, penso que não deveria existir um aumento do salário mínimo nacional, tanto por prejudicar pequenas e médias empresas, que representam grande parte das empresas portuguesas, mas também por os seus efeitos serem uma incógnita.

 

Carla Oliveira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A (in)sustentabilidade do aumento do Salário Mínimo Nacional

 

A expressão “Salário Mínimo Nacional” parece criar controvérsia entre alguns políticos e economistas. Uma fração parece concordar com a sua implementação, enquanto outra... nem tanto! A discórdia surge associada ao argumento de que a fixação de um salário mínimo distorce o equilíbrio de mercado, sendo, assim, economicamente indesejável. Mas, a questão que coloco é a seguinte: a distorção do mercado, neste caso de trabalho, não é já visível na posição dominante do empregador face ao empregado?

É fulcral entender o conceito de Salário Mínimo Nacional, que se traduz, portanto, na remuneração mínima legal atribuída aos trabalhadores pelos esforços e tempo aplicados na produção de bens ou serviços prestados.

No meu entender, sem este valor mínimo imposto pelo Estado muitos trabalhadores estariam a receber salários abaixo do desejável. Após escrever esta última frase levantou-se imediatamente outra questão: Mas o que é na verdade desejável? Desejável é ter rendimento suficiente para viver condignamente na sociedade em que estamos inseridos e, claramente (na minha opinião), que os 635€ atuais não o permitem (quanto mais salários inferiores).

Está então em cima da mesa, mais uma vez, o aumento do salário mínimo nacional. Por um lado, assegurar o rendimento mínimo, cada vez mais elevado, às pessoas permite incentivar a procura e o investimento, fundamentais para estimular a oferta das empresas, a economia como um todo e, mais importante, melhorar a qualidade de vida destas. Por outro lado, o aumento dos custos com os recursos humanos pode ser insustentável para as pequenas e médias empresas se não for acompanhado por um aumento de produtividade.

Uma tentativa de colmatar o aumento dos gastos, devido ao aumento do Salário Mínimo Nacional, seria aumentar os preços em resposta à mão-de-obra mais dispendiosa. Numa situação em que as nossas empresas estão expostas à forte concorrência estrangeira, o aumento dos preços não seria sustentável porque iriam perder competitividade. Nesse caso, o encargo da despesa gerada pelo aumento do salário mínimo seria totalmente espelhado numa diminuição do lucro da empresa. É ainda de referir que, se nos depararmos com o aumento do preço do bem, o aumento do poder de compra associado ao aumento do salário pode não se verificar em termos reais.

A verdade é que podemos partir de um círculo vicioso, podendo ser quebrado, tornando-se num círculo virtuoso, desde que se garanta a melhoria da produtividade. Isto é, havendo um aumento de produtividade, consegue-se fundo de maneio para aumentar o salário mínimo, que, por sua vez, estimula a procura, gerando mais produção do lado das empresas e o crescimento da economia como um todo. Mas até que ponto o aumento da produtividade conseguirá acompanhar o aumento do salário mínimo nas condições de incerteza sanitária que vivemos?

Perante este enquadramento, temos ainda de considerar a situação pandémica que o mundo enfrenta assim como o forte ciclo de recessão económica adjacente. Numa situação de normalidade, o aumento do Salário Mínimo Nacional provavelmente não iria ser alvo de muita discussão, já que a maior parte das negociações já se teriam realizado em 2019. Com a conjuntura económica virada de pernas para o ar, a situação não é tão linear. Provavelmente, esperar que a economia estabilizasse seria a melhor solução, mas, no entretanto, quem (sobre)vive com o atual Salário Mínimo Nacional iria enfrentar ainda mais adversidades.

Considero que o (justo) aumento do Salário Mínimo Nacional é crucial, mas não podemos condenar a economia com medidas precipitadas. Este tema deve ser abordado com toda a sensibilidade que lhe está associada. É importante centrar a atenção no aumento da produtividade para permitir a sustentabilidade da evolução positiva dos salários e, assim, combater a desigualdade e pobreza de quem trabalha e, consequentemente, dinamizar a economia.

Por fim, não podemos desviar-nos do argumento central para o aumento do salário mínimo, que considero ser o mais importante, isto é, a melhoria de qualidade de vida da população e a valorização do trabalho prestado.

 

Ana Carolina Ribeiro Abreu

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

COVID-19 na Terra, tempestade no Ar

 

Vivemos num mundo em que a circulação de bens e pessoas é um grande dinamizador das economias, principalmente o transporte aéreo. No entanto, em tempos de pandemia devido à COVID-19, o setor da aviação, que dinamiza o turismo e o comércio internacional, sofreu drásticas transformações. Apenas quatro meses depois do primeiro caso de COVID-19 ter sido relatado na China, a doença alastrou-se pelo mundo e atingiu mais de dois milhões de pessoas. Ao dia de hoje, estamos perto de atingir os 50 milhões de casos a nível mundial.

A crise sanitária que estamos a viver afetou diretamente o comércio internacional. A pandemia está a atingir o comércio global de uma forma mais profunda e duradoura do que assistimos noutras crises do passado. Num estudo realizado pelo McKinsey Global Institute, estimou-se que a procura comercial global pudesse cair entre 13% e 22% no segundo e terceiro trimestres de 2020, o que nos deixou alarmados, uma vez que na Crise Financeira Global de 2008 a queda rondou os 5%. Apesar destes números assustadores, o impacte significativo nos volumes de comércio, e por sua vez na economia, irá ser recuperado ao longo do tempo.

Numa economia global, para além do comércio internacional, é importante referir que o setor da aviação potencia a livre circulação de pessoas, seja por motivos profissionais ou de lazer. A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) considera que o setor da aviação se encontra numa situação frágil. Embora quase todos os setores sintam alguma repercussão, incluindo a fragilidade da saúde pública, poucos foram tão afetados como o setor da aviação recreativa.

A queda repentina e acentuada na procura por viagens de avião é bem mais violenta do que a observada depois do 11 de setembro de 2001 e da Crise Financeira de 2008, em conjunto. Com o fecho das fronteiras internacionais e a imposição de diretivas enquanto medidas nacionais de contenção, a procura de viagens em pandemia é quase inexistente. Apesar da queda repentina nas receitas, uma parte das companhias aéreas tem liquidez de curto prazo suficiente para sobreviver nos próximos três a seis meses. Não obstante, são já conhecidas companhias que declararam falência.

Travar o turismo não significa necessariamente que se congele a possibilidade de voar com os aviões dessas companhias. Aliás, sendo certamente uma das melhores medidas desta pandemia, mesmo com as frotas suspensas ou a maioria dos voos cancelados, as companhias aéreas direcionaram os seus recursos para auxiliar no reforço de alívio da crise. Várias pessoas foram transportadas para hospitais em aviões comerciais, que chegaram também a servir para transporte de carga.

Mas será o uso dos aviões a salvação das companhias aéreas? Certamente que não. Numa perspetiva de arranjar solução, o mais fácil seria atribuir subsídios diretos, ajudas financeiras diretas, como empréstimos do governo ou garantias para o aprovisionamento da dívida de instituições financeiras ou, até, reduzir impostos às companhias de aviação. O que, na minha modesta opinião, apenas conduz a uma futura competição mais feroz entre elas, havendo vantagens comparativas indestrutíveis. Daí considerar que os governos têm de adaptar os critérios de distribuição dos incentivos à concorrência.

Para ajudar a formular uma resposta a estes desafios, a IATA e a McKinsey fizeram uma parceria para desenvolver o Air Travel Pulse, um painel que fornece uma visão atual e abrangente da situação da aviação e indicações de recuperação. O objetivo é permitir que as companhias aéreas e outros participantes do setor avaliem a sua progressão, aloquem recursos e ajustem os preços nos próximos meses.

 

No gráfico, podemos observar a abrupta queda na compra de viagens em meados de março (início da pandemia). No entanto, a confiança dos passageiros parecia estar a ganhar terreno na época da Páscoa, uma vez que aumentaram, ainda que pouco, o número de voos adquiridos.

É também claro nos dados do gráfico que, apesar de as fronteiras estarem abertas tanto para questões de trabalho como de lazer na época balnear, o número de passageiros a circular internacionalmente não foi exorbitante. Será que o pico de casos que estamos a assistir tem quase que exclusivamente a ver com o incumprimento das regras intra-país? Certamente que sim! O volume de circulação de pessoas entre países não foi grande o suficiente para elevar o número de infetados como tantos se preocupavam. Resta-nos a esperança de que a ciência, em parceria com a economia, nos ajudem a sair da tempestade.

 

Constança Soares da Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A Emigração Portuguesa dos Anos 60 aos Nossos Dias

 

O século XX ficou marcado pela emigração. Entre os anos 20 e a década de 50, a região do mundo que mais atraiu os portugueses foi o Brasil, devido à facilidade linguística e cultural. A partir dos anos 60, os destinos prediletos dos portugueses passaram a ser a França e a Alemanha.

Apesar da emigração já ocorrer de forma massificada desde a segunda metade do século XIX, continua a ser um tema do século XXI, onde a população mais jovem continua a não encontrar oportunidades no seu país. Portugal é o país da União Europeia com mais emigrantes em termos relativos, uma vez que os seus 2 milhões de emigrantes representam 20% da população portuguesa.

Uma análise temporal das derradeiras seis décadas permite-nos concluir que houve duas grandes vagas que impactaram o país a nível socioeconómico.


Os picos da emigração verificaram-se em 1966 e 2014, com a saída de 120.239 e 134.624 portugueses, respetivamente. A partir do último assistiu-se a um gradual decréscimo do número de emigrantes, culminando com 77.040 em 2019, a que não será alheio o facto de Portugal ter vindo a registar um crescimento económico após a crise financeira que exigiu a intervenção da “troika”.

Ao contrário do segundo pico de emigração, o primeiro é explicado sobretudo pelo regime ditatorial salazarista, que embora registasse algum crescimento económico era caracterizado por uma enorme desigualdade entre uma elite urbana e uma empobrecida “província”, a que se associavam a falta de liberdade de expressão, a guerra colonial e as perseguições por motivos políticos e religiosos. Este conjunto de fatores levaram à fuga clandestina de muitos jovens, evitando o cumprimento do serviço militar obrigatório, e procurando fugir à situação de carência que observavam nas casas dos seus pais. Em 1960, a população emigrada era, portanto, caraterizada por uma população com baixo nível de qualificação académica, que procurava trabalho na área da construção, participando desse modo na reconstrução de países que se haviam envolvido na 2º Guerra Mundial.

Ao longo dos anos, a emigração portuguesa foi evoluindo, tornando-se mais diversificada, tanto a nível dos países acolhedores, como de perfil da própria população que emigra. No contexto histórico da crise económica de 2008/2009, os jovens voltavam a ser o grupo etário mais prejudicado, confrontando-se com taxas de desemprego jovem insustentáveis, como a de 40%, em 2012.

 


É de salientar que esta segunda grande vaga já não se carateriza por uma baixa educação, como a de 60. Trata-se de indivíduos qualificados e competentes, destinados a contribuir para o desenvolvimento do seu país, mas sem uma oferta de emprego condizente com a preparação académica proporcionada pelos cursos universitários obtidos, devido à imensa instabilidade económica vivida, que afetou particularmente os jovens que ainda não tinha entrado no mercado de trabalho.

Paul Krugman, economista americano, na sua análise sobre os impactes da emigração na economia portuguesa destaca o conceito de “espiral de morte demográfica” e a queda da população ativa em Portugal, em parte explicada pela saída de centenas de milhares de jovens, a que se adiciona a baixa natalidade.

Concordo com o autor visto que, se um país regista um elevado endividamento e a sua mão-de-obra diminui por efeito da emigração, terá de aumentar os impostos sobre os que permanecem no país, de forma a poder gerir a dívida. Este cenário pode originar um descontentamento da população residente e aumentar a saída de pessoas do país, criando um ciclo vicioso de emigração e impostos. Por outro lado, tendo Portugal uma estrutura etária desproporcional entre jovens e idosos, antecipa-se problemático o pagamento de reformas.

O sistema de reformas nacional adotado é o “Fully Funded System”, onde é a população ativa quem financia as pensões da população idosa. Se a população jovem, já demograficamente reduzida, emigrar sistematicamente, torna insustentável o custo da educação dos jovens, que irão criar riqueza para outros territórios, para além de não contribuírem para o financiamento das pensões.

Na minha opinião, a emigração massificada deve ser contrariada através da criação de políticas macroeconómicas que tentem debilitar as principais vicissitudes da economia portuguesa. Destaca-se o combate à corrupção, de modo a que os fundos europeus sejam devidamente aplicados na formação e na criação de postos de trabalho, ao invés de se concentrarem em grupos económicos influentes.

É ainda urgente um melhoramento na justiça e diminuição da burocracia, com o intuito de captar mais recursos externos para o investimento produtivo.

 

Marta Gomes Ribeiro

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Será que os ´robots` vão tomar conta do mundo?

Todos concordamos que a ascensão dos robots e das máquinas no mundo do trabalho é clara, mas será que temos noção do quão rápido este fenómeno está a acontecer, como isso nos irá afetar e que vantagens e desvantagens trará? Será que o COVID-19 veio acelerar ou abrandar este processo?

Em 2019, o país com densidade robótica mais elevada foi claramente a Coreia do Sul, como podemos comprovar na figura abaixo, sendo que o país que lidera a corrida europeia é a Alemanha. Este processo de robotização está cada vez mais acelerado nos países desenvolvidos (como é o caso dos países europeus). É de notar que os robots e a maquinaria “inteligente” vêm substituir, maioritariamente, os trabalhadores que desenvolvem atividades manuais, isto é, cargos em que a educação superior não é necessária e que as qualificações requeridas são mais baixas.

Imagem 1- Os países com niveis mais elevados de trabalhadores robot.  Retirado do portal "statista".



Este fenómeno está a avançar a um ritmo absolutamente alucinante, sendo que, segundo o “World Economic Forum”, em 2025, metade dos postos de trabalho das empresas inquiridas neste estudo serão ocupados por robots. É de salientar que as empresas inquiridas empregam um total de 8 milhões de trabalhadores.

Embora os avanços tecnológicos sejam uma conquista para a Humanidade, as desvantagens podem ser catastróficas uma vez que esta redução nos postos de trabalho (e o desaparecimento de algumas profissões) levará a que um número elevado de pessoas fique no desemprego. Como referido anteriormente, as pessoas empregadas nestes postos têm poucas qualificações, o que desencadeia um problema ainda mais preocupante. Alguns economistas consideram, ainda, que este processo não trará problemas de maior mas exigirá uma forte capacidade de adaptação ao novo mundo. Mundo este que será feito de inovação, criatividade e comunicação, levando a que empregos em áreas regidas por estas máximas não sejam tão facilmente perdidos (“Perhaps future workers won't get a job — they'll create their own” (In Will robots steal our jobs?- World Economic Forum). As vantagens são bastante óbvias: a redução dos erros humanos, a maior produtividade, os baixos custos com mão-de-obra, possibilidade de produção 24h, menor número de acidentes no trabalho, maior precisão e repetibilidade e menor tempo de produção, entre outras.

A pandemia mundial veio, sem qualquer margem para dúvida, acelerar este processo de automação industrial uma vez que, face a esta nova realidade, muitas empresas viram-se obrigadas a despedir alguns dos seus empregados e a procurar novas soluções que reduzissem os custos. Assim, podemos afirmar que, fruto da pandemia, todas as desvantagens produzidas pela substituição de pessoas por robots estão a ser acentuadas e que as desigualdades no mercado de trabalho e os retrocessos a nível mundial são notórios.

Pode concluir-se que, apesar deste ser um tema bastante atual e controverso, os empregos em áreas qualificadas estarão, à partida, menos expostos a um possível desaparecimento. Já os postos de trabalho de pessoas com baixo nível de escolaridade e em particular, os ligados à produção e outras indústrias poderão desaparecer, diminuir o número de pessoas necessárias para os desempenhar ou ser completamente reestruturados.

 

Bárbara Fernandes Pontedeira

Referências:

·        https://executivedigest.sapo.pt/maquinas-vao-assumir-metade-do-trabalho-ate-2025-diz-o-forum-economico-mundial/

·        https://www.weforum.org/agenda/2020/09/countries-comparison-robot-workers-robotics-change-tech-manufacturing/

·        https://www.statista.com/chart/13645/the-countries-with-the-highest-density-of-robot-workers/

·        https://www.weforum.org/agenda/2019/08/the-robots-are-coming-but-take-a-breath 


[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]