sexta-feira, 29 de outubro de 2021

“Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço!”

           Nestes últimos tempos, muitas das discussões políticas a que temos assistido giram em torno do aumento do preço dos combustíveis e de este ser dos valores mais elevados da União Europeia, o 6º lugar segundo o boletim mais recente da Comissão Europeia, apesar do nosso baixo rendimento, comparado com os restantes concidadões europeus. Este custo elevado pode explicar-se pelo relançamento da economia, através da concertação entre os produtores, e da inflação que fez crescer o preço do barril de petróleo, mas, sobretudo, pela carga fiscal associada a este tipo de bens, com principal destaque para os impostos sobre os produtos petrolíferos (ISP). Estes, para além de ser uma fonte de financiamento do estado, cerca de 2,7 mil milhões de euros em 2020, também tem o intuito de reduzir a pegada de carbono.

Por outro lado, desde 2020 que estamos a assistir à renacionalização de uma companhia aérea, em que não se veem lucros no horizonte, muito pelo contrário. Por exemplo, a Lufthansa já esta a reembolsar os empréstimos que lhes foram concedidos pelo governo alemão, enquanto a TAP ainda está à espera de mais apoios. Ao todo, esperam-se pelo menos 3,19 mil milhões de euros até 2023 (998 milhões neste ano de 2021). Isto, para termos um termo de comparação, representa aproximadamente 118% da receita do ISP de 2020 (cerca de 37% para as injeções previstas em 2021).

Numa ótica de risco, este tipo de investimento é considerado um tiro no escuro, em que não sabemos se vai apenas atingir a carteira dos contribuintes ou a carteira e um órgão vital do governo, pois os possíveis retornos previstos ou fim das injeções são neste momento, ainda, uma mera especulação. Para além disso, dados de 2014 da European Enviromment Agency, mostram-nos que os aviões são um meio de transporte tanto ou mais poluente que o automóvel.

Dado todo este contexto e numa perspetiva estritamente económica, o aumento dos impostos sobre os combustíveis não faz sentido, mas se nós temos cientistas que estudam os efeitos e impactos das alterações climáticas, e nos dizem com convicção e evidência empírica que as alterações climáticas são uma forte ameaça, então teremos que ter esta variável em consideração e a diminuição dos impostos não pode acontecer, pois estaríamos a dar os incentivos errados a economia. E quando se fala em incentivos errados, é visível esta incoerência no que toca as alterações climáticas: por um lado, cobra-se, e bem, um imposto em prol da redução da pegada de carbono; enquanto, por outro, “afundam-se” dinheiros públicos numa empresa que nada ajuda o combate às alterações climáticas.

Se é verdade que caso se tivesse optado pela insolvência da TAP nem todos os apoios económicos seriam poupados pois haveria outros custos associados, como, por exemplo, com o pagamento aos fornecedores, mesmo assim esses custos nunca chegariam nem perto dos apoios já prestados, e esse dinheiro “poupado” poderia ser investido em mobilidade sustentável, para oferecer uma real alternativa aos automóveis.

Até ao final do ano está prevista uma despesa a rondar 650 milhões de euros neste setor, com o reforço dos transportes públicos e da ferrovia. Trata-se de um crescimento colossal, e bem, em relação a 2020, mas que ainda assim fica abaixo dos 998 milhões de euros previstos para a TAP no ano de 2021. Poder-se-ia também apoiar as famílias mais pobres, no curto-prazo, a fazer face a este aumento abrupto dos preços dos combustíveis. A realidade é que o governo já anunciou um desconto que pode chegar aos 25 euros por contribuinte, mas para tal está a incentivar o consumo, pois só assim se tem direito ao apoio, e está a limitá-lo aos utilizadores do IVAaucher, em que muito provavelmente famílias carenciadas terão dificuldades em aceder a esta plataforma.

Por fim, outra das soluções estaria relacionada com o reforço da aposta nas energias renováveis, dotando, por exemplo, os edifícios públicos de painéis solares, ou o apoiar ainda mais as famílias na compra de equipamentos que usam como principal fonte de energias renováveis.

 

Mickaël Cruz

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O impacte da Covid-19 no crédito ao consumo

O crédito ao consumo, relacionado muitas vezes com a compra de bens e serviços, não se reduz só a este panorama, pois assume um papel importantíssimo na estabilização do poder de compra das famílias quando existe uma quebra no rendimento obtido. Este indicador funciona como um mecanismo de dinamização económica, na medida em que para as instituições bancárias existe facilidade em concedê-lo e é necessário para os consumidores continuarem a intervir de forma ativa numa das componentes mais importantes do Produto Português, o consumo.

A concessão de crédito para o consumo seguia uma trajetória ascendente, até pela estabilidade financeira em que Portugal se encontrava em 2019. Contudo, o aparecimento da crise pandémica e económica, ocorrida em 2020, veio revelar uma completa mudança de cenário nesta vertente. Desde logo, uma implícita maior regulação e fiscalização na atribuição do crédito, devido ao maior endividamento das famílias e ao incumprimento nas obrigações do pagamento do mesmo. Também esta redução abrupta, apesar de ser previsível, evidenciou um travão firme para a estimulação da economia portuguesa, como se pode verificar no seguinte gráfico.

            Figura 1 - Taxa de crescimento do número de créditos aos consumidores

Como podemos verificar, existiu uma taxa de crescimento positiva ao longo dos anos de 2014 a 2017, no entanto, a maior taxa de crescimento escrutinada sucedeu-se na passagem do ano 2014 para 2015, na ordem dos 10%. Por outro lado, no ano de 2018 o número de créditos aos consumidores teve a sua primeira queda neste espaço temporal. Apesar de pequena, os valores rondaram os -1,1%.

No ano seguinte, existiu um grande crescimento face ao ano transato, sendo que 2019 atingiu quase os valores de crescimento de 2015, fomentando assim de novo a tendência de aumento de solicitação de crédito pelos consumidores e o equilíbrio financeiro vivido na altura, que permitia essa trajetória. Chegamos ao ano da pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 e, como não poderíamos deixar de prever, existiu uma quebra gigantesca no que toca à taxa de crescimento de número de créditos aos consumidores, na ordem dos 32%, o que vem a comprovar as ideias acima referidas.

Uma das estratégias encontradas para o controle do pagamento do crédito foram a existência de moratórias, tanto as privadas relacionadas com o crédito à habitação e o crédito automóvel (estas duas componentes as mais importantes), como as moratórias públicas. Ambas serviram para atenuar o efeito repentino e a pressão fatigante que os desembolsos exigiam, de forma a não haver um sobre-endividamento destes consumidores vulneráveis.

Num cenário de esperança e de recuperação, evidencia-se este ano de 2021, com a diminuição das restrições sanitárias e o aumento gradual da atividade económica. Assim, é de aguardar um trajeto positivo do crédito, apesar de ser uma progressão muito vagarosa, com o crédito automóvel a apresentar uma evolução com um peso bem negativo neste agosto passado, e as componentes do crédito pessoal e os cartões e descoberto a ter um comportamento evolutivo.

Figura 2 - Montante de novos créditos aos consumidores

Para concluir, na minha opinião, considero que devemos continuar a fomentar o crédito ao consumo para continuar a dinamização da economia e para a continuação da recuperação da nossa economia. Contudo, é preciso ter em atenção os diversos consumidores que apresentam um carácter frágil, para que não exista um sobre-endividamento nestes agentes devido à quebra de rendimento que muitos destes sofreram com a paragem de produção e de atividade que houve durante a pandemia. Para isso, seria importante, por exemplo, a apresentação de um plano por parte das instituições bancárias tendo em conta o rendimento presente e o esperado no futuro dos consumidores, de forma a garantir que se minimiza o risco de incumprimento destes mesmos.


José Pedro Neves

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

“Uma sociedade de consumo”

O consumismo, caraterístico da conhecida como “sociedade de consumo”, é entendido como um ato compulsivo que leva o indivíduo a comprar de forma ilimitada bens, mercadorias e/ou serviços, sem refletir sobre a real necessidade de fazer essa compra. Atualmente, a sociedade reconhece o consumo como um sinónimo de felicidade e bem-estar, e até mesmo de prestígio e status, no entanto consumo e consumismo são termos distintos. Enquanto que o primeiro está associado ao ato de consumir, necessário a todos os seres humanos, o segundo está associado à “doença”, neste caso uma possível perturbação mental, na medida que remete para o consumo excessivo e alienado.

A principal causa destes comportamentos são o marketing das empresas e as mensagens publicitárias que tem gerado uma população consumista e alienada que impossibilita os indivíduos de terem pensamentos e ações próprias, os quais são diretamente influenciados pelos modelos e padrões de vida reproduzidos pelos meios de comunicação como televisão, jornais, revistas e a internet, que é atualmente o meio mais utilizado para publicidades e divulgação de novas marcas e produtos, principalmente por entre os mais jovens. Isto trouxe diversos problemas para as sociedades modernas, como o desenvolvimento de doenças relacionadas com o consumo, o sentimento de impotência dos consumidores, a insatisfação, isto porque o ser humano encontra a felicidade no “ter coisas” ao invés do “ser”, criando estereótipos e preconceitos sobre a imagem. Por outro lado, temos também a globalização, uma vez que ela faz com que diferentes produtos sejam facilmente encontrados em todas as partes do mundo e à distância de um click.

As críticas sobre a sociedade de consumo direcionam-se também para a parte ambiental. Afinal, um dos efeitos do consumismo é a ampliação da exploração dos recursos naturais para a criação de matérias-primas com vista à fabricação de mais e mais mercadorias. Com isso, há a devastação das florestas e o esgotamento até mesmo dos recursos renováveis, tais como a água potável e o solo. Além disso, os recursos não renováveis vão tendo os dias contados para a escassez completa, tais como as reservas de petróleo e de diversos minérios utilizados para a fabricação dos mais diferentes produtos utilizados pela sociedade.

Um dos aspetos mais criticados no que se refere à sociedade de consumo é a obsolescência programada, que consiste na produção de mercadorias previamente elaboradas para serem rapidamente descartadas, fazendo com que o consumidor compre um novo produto em breve. Assim, aumenta-se o consumo, mas também se aumenta a procura de recursos naturais e maximiza-se a produção de lixo, dando-se cada vez mais enfase à problemática ambiental associada a esse processo.

Por fim, temos o outro lado da moeda, o lado da Economia, que tem bastante a ganhar com todo este consumo. Para a Economia, consumismo significa expansão do sistema capitalista e crescimento da produção industrial. No entanto, não só de consumo se faz a Economia de um país. Tudo isto é um longo processo de transformação de matérias-primas e de criação de valor – que são conduzidos por investimentos e  poupanças.

Antes de ser consumidor, um indivíduo deve ser produtor. Afinal, de onde vem o dinheiro utilizado para comprar? O dinheiro nada mais é do que um recibo: um papel que recebemos em troca do trabalho realizado. E é apenas assim, após receber esse pagamento, que um trabalhador pode consumir. As nossas procuras como consumidores só são possíveis pela nossa oferta de trabalho/produção a outras pessoas.

Fazendo agora um último apelo: sejamos consumidores conscientes! Há valores que devem falar mais alto e não devemos medir o sucesso e o valor de uma pessoa pela quantidade de sacos com que sai de um shopping ou pelas marcas que usa. O valor das pessoas está naquilo que se é e não naquilo que se tem.

 

Márcia Alves

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O futuro da reforma

Sessenta e seis anos e seis meses. Esta é a idade a que os portugueses se podem reformar em 2021, e que tem vindo a aumentar nos últimos anos para fazer face ao envelhecimento da população e à tendência decrescente da natalidade. Se nada mudar no paradigma demográfico, torna-se relevante questionar: passará o futuro do sistema de pensões pelo aumento sucessivo da idade da reforma ou existirão outras alternativas?

Antes de mais, é necessário compreender o atual modelo de financiamento da Segurança Social, que assenta em três pilares: o primeiro patamar é geralmente financiado pelos impostos do orçamento de Estado e inserem-se nele as pensões sociais e as pensões mínimas; no segundo está a cargo da gestão estatal, e aí se incluem-se as pensões de índole contributiva; e no terceiro, pouco desenvolvido em Portugal e de caráter complementar, inclui os fundos de pensões associados às empresas e aos ramos de atividade.

Ou seja, na prática, o sistema de pensões português resume-se aos dois primeiros níveis, fortemente dependentes das contribuições dos trabalhadores e, portanto, mais vulneráveis às dinâmicas demográficas.

Tendo presente a informação anterior, e esperando-se entre 2020 e 2070, uma diminuição da população portuguesa para 7,9 milhões de habitantes (-22,5%), a par de uma redução da população ativa em cerca de 37%, onde a hipótese de carreiras mais longas tem vindo a ganhar destaque. Adiar a reforma surge como uma medida que contribui para resolver o problema financeiro do país, assim como evita a perda de rendimento de muitos pensionistas, podendo a passagem gradual da vida ativa para a reforma, através de pensões parciais, ser uma decisão do agrado de muitos trabalhadores.

No entanto, só faz sentido a sua implementação se a economia tiver um baixo nível de desemprego, de modo a acomodar os trabalhadores mais velhos sem excluir os jovens do mercado laboral.

De um ponto de vista pessoal, não concordo com o atrasar sucessivo da reforma pois, além dos desafios que podem advir para os trabalhadores que não se encontram saudáveis ou têm empregos exigentes fisicamente, não faz sentido “reestruturar” os ambientes e horários de trabalho para incorporar trabalhadores que acredito estarem psicologicamente cansados e com dificuldades de motivação para permanecer no ativo numa idade a que se habituaram a ver como “idade da reforma.

Noutra perspetiva, a resposta pode passar pelo encorajamento das opções de capitalização e desenvolvimento do patamar de gestão privada, complementando-se a reforma tradicional com soluções privadas. Relativamente à primeira, apesar de crer que é necessário aumentar o nível de literacia nacional, não considero que a utilização das poupanças individuais como reforma seja uma alternativa justa, visto que a capacidade de poupar depende em grande medida do rendimento auferido.

O crescimento do PIB, a diminuição do desemprego e uma melhor regulação laboral, a par do aproveitamento do potencial tecnológico e maior tributação sobre as grandes riquezas são, na minha opinião, aspetos chave para o futuro, posto que a insustentabilidade do sistema previdencial é igualmente resultado do fraco crescimento do PIB, aumento do desemprego e baixa produtividade do trabalho.

Apostar nestes setores, através da promoção da inovação, desenvolvimento do capital humano e físico e eficiência das instituições é essencial. Porém, a sua concretização não é fácil, dado implicar a alteração do padrão de desenvolvimento económico, num contexto marcado por transformações tecnológicas e vidas contributivas cada vez mais irregulares, devido à tendência crescente de empregos precários e salários baixos.

Em suma, num momento histórico pautado pela incerteza, insegurança e constante mudança, para garantir a subsistência do sistema de reformas, do ciclo de vida convencional e da sociedade será necessário a tomada de decisões fulcrais pelas forças políticas, a começar agora.

 

Marta Pereira

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

A DESCENTRALIZAÇÃO EM PORTUGAL

Os espaços rurais portugueses tem sido, ao longo dos últimos anos, marcados pelo envelhecimento demográfico e por um crescimento debilitado a nível económico, social e político. Para além disso, são áreas deprimidas caraterizadas pela predominância do setor agrícola e pela pouca abundância de cuidados primários e serviços básicos (hospitais, supermercados, entre outros). Assim, face aos estrangulamentos das áreas rurais, a atividade turística surge como uma nova oportunidade e como uma tentativa de inverter a tendência da recessão rural.

Apesar do crescente esforço do Governo para a contrariar, a centralização é uma realidade bem presente em Portugal. Investir no turismo rural deve ser, no meu ponto de vista, uma das prioridades do Estado para promover a descentralização, promovendo um desenvolvimento sustentado do país.

Ora, na generalidade, os jovens procuram algo mais inovador para a sua carreira, o que é bastante difícil encontrar no interior, visto que as melhores empresas e universidades localizam-se nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa.

Todos os dias nos apercebemos deste fenómeno, através, por exemplo, da afluência dos transportes nas grandes cidades, em contraste com a falta deles nas zonas rurais. Apesar disso, o turismo rural tem registado aumentos nos últimos anos, o que pode dever-se à mudança de preferências dos turistas. Muitos deles passaram a preferir a natureza e a calma do campo, ao invés das multidões das cidades.

 


Legenda: Dormidas nos estabelecimentos de turismo de habitação e de turismo no espaço rural.

     Fonte: PORDATA

É de realçar a enorme perda nas receitas do turismo em geral devido à COVID-19, no início de 2020. Apesar disso, é expectante que daqui para a frente tenhamos um aumento da procura do turismo rural.

Nos últimos anos, a procura do interior levou a que muitos empresários investissem nessas zonas, o que contribuiu também para o investimento em estabelecimentos de turismo. Todavia, há ainda um enorme caminho a percorrer no tocante ao desenvolvimento deste tipo de turismo.

 


Legenda: Estabelecimentos de turismo de habitação e de turismo no espaço rural.

Fonte: PORDATA.

Ultimamente, o Governo tem lutado para contrariar a tendência de desertificação. Assim, surge o Programa de Valorização do Interior. Este programa visa a atração de investimentos para que seja estimulante novos habitantes e empresas instalarem-se nestas regiões. Para além disso, prende-se com a possibilidade de criar emprego e condições de vida de qualidade.

O Ministro Adjunto e da Economia afirmou em 2019 que a descentralização era essencial para o crescimento económico. Para tal, é necessário tomar medidas que façam crescer o número de visitantes e que captem novos mercados.

Na minha opinião, o setor turístico move avultadas quantias, envolve pessoas em todo o mundo e utiliza recursos naturais, dos quais também depende. Apesar de já terem sido feitos progressos no que toca à descentralização, é necessária prudência com o desenvolvimento do turismo rural, zelando por um desenvolvimento sustentável, para que este não seja um consumidor voraz de recursos naturais e para conservar o meio ambiente a longo prazo.

 

Sofia Dias Salgado 

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

ONU e a sua intervenção, ou falta dela, nos conflitos militares

     A ONU é uma organização, a nível mundial, com sede em Nova Iorque, que tem como principal objetivo promover a paz em todo o mundo. É formada por vários países, que decidiram se juntar a esta organização por se identificarem com os princípios e missões da mesma. Foi criada logo após o fim da segunda guerra mundial, com o objetivo de impedir outra grande guerra a nível mundial, mas acabou por ter um papel mais amplo, sendo responsável pela criação de leis internacionais, defesa dos direitos humanos, promoção da segurança, ajuda no progresso social, económico e humanitário e proteção do meio ambiente.

    Esta organização, ao longo dos anos, foi recebendo muitas críticas, mas também muitos elogios. São vários os exemplos de conflitos em que interveio de forma assertiva e com sucesso, mas também são muitos os casos em que nada faz, intervindo tarde ou nem chegando a intrometer-se. Os principais estudiosos divergem nas opiniões em relação às Nações Unidas. Uns afirmam que esta é corrupta e tendenciosa e só intervém quando lhe convém, acabando por ser influenciada pelos interesses dos países-membros, outros pensam que acaba por ser uma fonte importante de ajuda na manutenção da paz e no estímulo ao desenvolvimento humano.

    Por exemplo, devido ao envio de forças militares para determinadas regiões que estavam em conflito. Retenham, a esse propósito, as situações seguintes: em 1964, conseguiu restaurar a paz na República Democrática do Congo, no Estado de Katanga; conseguiu acabar com a Crise de Suez em 1956; em 1950, invalidou a invasão à Coreia do Sul por parte da Coreia do Norte, mas neste caso só o conseguiu fazer devido à ausência da URSS no conselho nesse momento, assumindo os EUA esse papel de impedir a invasão.

Em contraponto, em 1947, é aprovada a divisão da Plestina, sendo criado o estado chamado Israel, que acaba por resultar em conflitos entre os dois países anos mais tarde.

Na década de 60, 17 novos países acabam por se juntar às Nações Unidas, sendo 16 deles oriundos de África, devido a uma enorme descolonização que ocorreu na Ásia, África e Oceânia nesses anos. Devido a isto, estes países formam uma aliança de nome “Grupo dos 77”, liderados pela Argélia, tornando-se uma voz ativa dentro da organização, acabando por, em 1975, juntamente com a União Soviética entrar em conflitos no conselho da organização com os EUA, altura em que decorria a Guerra Fria.

A ONU teve muitos problemas pois não conseguiu intervir em conflitos no Médio Oriente, Vietname, entre outros, e por isso começou a concentrar-se mais em ajudar no desenvolvimento económico e cultural nos países em desenvolvimento, chegando a alocar mais orçamento para esta área que para a área de manutenção da paz.

    Com o fim da Guerra Fria, esta organização já conseguiu realizar mais missões de paz em dez anos do que nas quatro décadas anteriores, e isto permitiu que o orçamento para a promoção da paz sofresse um aumento muito significativo: cerca de dez vezes mais que o anterior. Algumas dessas missões foram: o supervisionamento das eleições democráticas na África do Sul e no Camboja; negociação para acabar com a Guerra Civil em El Salvador e na Serra Leoa; promoção da paz na Namíbia; ações que conduziram ao fim a invasão do Kuwait pelo Iraque, com a ajuda dos EUA, entre outras.

    Devido à Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, a ONU encontrava-se muitas vezes sem poder fazer nada, neutralizada, e quando podia intervir era em conflitos que ocorriam em locais distantes dos provocados pela tensão entre estes dois estados. Daí que muitas pessoas critiquem a ONU, afirmando que esta é corrupta e que em vários momentos teve uma má gestão dos conflitos. E de facto, recorrendo à história toda, é essa a minha opinião pois, desde o seu início até aos dias de hoje, a ONU tem tido um papel importante, realizando boas ações e tendo sucesso em várias missões, mas existem vários casos em que esta organização ficou aquém das suas responsabilidades e do que é esperado pela população mundial. Um desses casos foi a Guerra da Síria, que começou em 2011, e desde aí esta organização nada fez pela promoção da paz. Isto aconteceu pois os EUA e a Rússia não estavam de acordo em relação ao que fazer, e por isso a ONU não interveio. Este é um dos casos que ajuda a explicar a ineficiência desta organização, que acaba por se deixar corromper e subjugar pelos interesses económicos, políticos de potências como EUA, Rússia e China.

Um dos casos mais recentes é a crise no Afeganistão, em 2021, em que os talibãs conseguiram recuperar a cidade de Cabul às forças norte-americanas. Como é do interesse dos EUA voltar a ganhar poder nessa região, temos observado uma intervenção da ONU ao nível de envio de mantimentos e, até, efetuando pedidos ao conselho de segurança para que este fizesse uma declaração a pedir o fim das hostilidades e para que ajudasse ao nível humanitário, para impedir que o país voltasse a ser o foco de terrorismo que outrora já foi.

    A ONU é uma organização que já ajudou muito a vários níveis, mundialmente, e que no geral até acaba por ter um saldo positivo, pois não luta só pela paz mas também defende os direitos humanos, progresso social e económico. Contudo, pode e deve fazer muito mais no que respeita à sua intervenção nos conflitos armados. Esta organização deve ganhar mais poder e assumir-se perante as grandes potências, não se deixando subjugar às vontades destas, intervindo nos conflitos quando tem que intervir, de modo a promover a paz, não ligando se o que está a fazer vai incomodar os EUA ou a Rússia ou a China. Em muitas fases, a ONU agiu de forma incorreta e até de forma corrupta, deixando-se levar por outros interesses.


Cristiana Raquel Martins Pinheiro

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]  

O que nos ensinou a Covid-19?

Todos nós, nunca iremos esquecer do que nos fez “parar” por um bem maior e comum que é a saúde, mas certamente na altura em que a Covid-19 assolou o mundo esquecemo-nos de pensar nas consequências futuras do que estávamos a viver precisamente porque estávamos muito ocupados a protegermo-nos a nós e aos outros.

Dados da Comissão Europeia indicavam que Portugal seria o quinto país com a maior queda do PIB em 2020. Este registou uma quebra de 8,4%, situação essa que já há 52 anos não se verificava. Consoante o Eurostat, a crise resultou em mais 40% das falências registadas em 2019. Este aumento foi o segundo maior entre os países da Zona Euro.

Na minha opinião, ainda é cedo para conseguirmos dizer com certezas o que é que a pandemia nos ensinou. Não podemos negar que esta nos tornou mais humanos e humildes, mas deteriorou o estado económico dos países, aprendemos a ajudar mais o próximo e a ficar mais empáticos, da mesma forma que vimos a economia a responder a acontecimentos inesperados.

De facto, a contração económica assistida deveu-se em grande parte à redução muito acentuada da procura interna, através essencialmente da queda do consumo privado, deveras resultado do medo dos consumidores e da perda em termos económicos para as empresas, principalmente as mais afetadas com a Covid, isto é, as ligadas ao setor dos serviços, como o turismo, os transportes e a restauração, que tiveram de limitar a sua atividade.

Naturalmente que países, como é o caso português, em que muitas das receitas eram arrecadadas do setor do turismo, foram os mais afetados com a situação que presenciamos. Em 2020, as receitas turísticas portuguesas caíram mais de 50% face ao ano transato. Este foi um dos grandes causadores da recessão a que assistimos, o que em meu entender poderá servir de impulsionador para que o Estado português se desprenda um pouco do estrangeiro e comece a apostar no potencial das empresas nacionais através do incentivo ao consumo e investimento.

Não nos podemos esquecer também dos meios digitais no contexto de trabalho, com o teletrabalho. De acordo com um estudo de Capgemini, em 2020 as empresas presenciaram um aumento da sua produtividade em 63%, o que poderá incitar as empresas a aplicar no futuro um misto entre trabalho presencial e remoto, de forma a potenciar as capacidades dos seus trabalhadores. O aumento da produtividade é deveras benéfico para a economia como um todo, pois não só permite a criação de um maior valor acrescentado como também potencia a competitividade económica, imprescindível para a expansão do mercado.

De certo modo, os impactos enunciados, maioritariamente negativos, podem ser ultrapassados pelo reforço do ensino, pelo incentivo dado às empresas privadas que viram os seus lucros diminuídos drasticamente, através, por exemplo, da diminuição do IRC para as empresas nacionais até recuperarem ou através do acesso mais facilitado ao crédito.

Tendo em vista a recuperação económica das empresas portuguesas, existe já nesse sentido um Plano de Recuperação e Resiliência, que consiste em recursos financeiros da União Europeia posto ao dispor de Portugal para  o desenvolvimento de infraestruturas e equipamentos e para apoiar  as empresas a fundo perdido. Esses apoios ascendem os 3,4% do PIB. Consoante Siza Vieira, esta medida vem, com certeza, dar um “empurrãozinho” para a retoma económica anteriormente perdida pelas instituições privadas.

Em suma, a Covid-19 tornou Portugal e diversos países economicamente mais fragilizados. Importa agora recuperar e reerguer, investindo e apostando no nacional, sem nunca esquecer o que se viveu e aprendeu.

 

Adriana Carmo

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]