sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O futuro português no euro – dentro ou fora?

Nos últimos anos, temos observado alguns economistas e políticos a defenderam a saída de Portugal da moeda única.

O euro, como moeda, está em circulação desde 2002. Tem, neste momento, 19 países integrantes (Portugal incluído). Estes países são os estado-membros da União Económica e Monetária (UEM), que foi criada com o intuito de promover a integração europeia e facilitar as trocas comerciais entre os países aderentes, bem como competir com o dólar americano.

Por um lado, é inegável que a moeda única trouxe bastantes vantagens para Portugal. Trouxe uma maior integração e transparência nos mercados, bem como um reforço na credibilidade da economia portuguesa, por esta ser agora seguida com uma maior atenção por pertencer a um espaço económico de moeda única, partilhado com outros países. Isto trouxe, sem dúvida, uma maior competitividade para a nossa economia, servindo também como estímulo para a modernização desta.

Para além disso, a moeda única trouxe, como grande benefício, a eliminação do risco cambial e dos custos de conversão nas transações com países pertencentes à UEM, grupo onde se encontram a maior parte dos principais parceiros de comércio. Outro aspeto positivo que adveio desta situação foi a diminuição das taxas de juro e a maior facilidade na obtenção de crédito, que acabou por favorecer o investimento em Portugal.

Por outro lado, com a maior integração dos mercados, veio também o aumento da concorrência entre as empresas de diferentes países. Os países pequenos, como o nosso, não tiveram tempo de se adaptar aos mercados internacionais em que subitamente entraram, passando a competir com outros de um nível de industrialização largamente superior.

Portugal perdeu também autonomia na condução das políticas monetárias e cambiais, pertencendo este controlo agora ao Banco Central Europeu (BCE). Isto significa que o governo deixa de, em situação de necessidade, poder alterar as taxas de câmbio da moeda do país, aumentando a oferta de moeda com o intuito de potenciar as exportações, e deixa de ter a capacidade de ajustar as suas taxas de juro, de forma a estimular a atividade comercial. As economias mais debilitadas, como a portuguesa, são muitas vezes afetadas pelas decisões do BCE, que privilegiam recorrentemente a estabilidade dos preços dentro da zona euro em detrimento do emprego e do crescimento económico dos seus estados-membros.

Ao analisar estas vantagens e desvantagens, rapidamente concluímos que pertencer à UEM é bastante benéfico para um país que tenha uma economia e uma indústria fortes e desenvolvida. Contudo, para países que não o são, como era o caso de Portugal em 2002 (e ainda o é atualmente), pertencer a uma zona de moeda única pode vir a prejudicar mais do que propriamente beneficiar.

Mas, neste momento, pouco adianta discutir se Portugal deveria ou não ter aderido à UEM. O que é necessário agora é decidir o caminho pelo qual o país deve agora trilhar. Deve abandonar a união, ou manter-se resoluto no seu lugar? Na minha opinião, deve-se manter. Uma saída do euro significa, por si só, uma total reestruturação da nossa economia. Entraríamos numa enorme crise financeira, e a única forma de a mitigar um pouco seria se os nossos parceiros do euro aceitassem a nossa saída ordenada. Isto nunca aconteceria, uma vez que teriam de pagar custos enormes para compensar a nossa ausência.

Portugal perderia também um grande volume de negócios de exportações, uma vez que os seus maiores parceiros de comércio se encontram quase todos na UEM. Com uma nova moeda, que terá uma tendência de desvalorização, pelo menos na sua fase inicial de vida pela fuga de ativos do país, estes países terão maior interesse económico em negociar com outros países da UEM ou, pelo menos, com países com uma economia estável, agravando ainda mais a situação económica hipotética portuguesa.

Portugal deve, portanto, manter-se na UEM e procurar, com os instrumentos que ainda tem, tomar decisões políticas e económicas que procurem maximizar o crescimento da economia portuguesa.

 

Gonçalo Vaz Vieira de Castro

https://www.economias.pt/vantagens-do-euro/

https://europa.eu/european-union/about-eu/euro/benefits_pt

https://core.ac.uk/download/pdf/62686527.pdf

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Que impacto terá efetivamente a Inteligência Artificial na economia?

A tecnologia surgiu e desde então que a evolução do mundo tem sido exponencial. As vantagens são claras e a vida de muitos ficou facilitada. No entanto, como em tudo, vem acompanhada de desvantagens.

Já há alguns anos que a introdução da inteligência artificial traz consigo a questão da eliminação de empregos, mas será isso real? Diz-se também que novas profissões surgirão e que a qualificação será fundamental. O Think Tank Bruegel estima que 54% dos empregos na União Europeia podem estar em risco, nos próximos 20 anos. Os cenários de desemprego abundantes e em escala global assustam, mas também vêm acompanhados da expectativa de crescimento económico e da geração de novos tipos e emprego, mas será isso suficiente? Segundo 32 países membros da OCDE, quase um em cada dois empregos será afetado pela automação.

David Autor e Anna Salmons desenvolveram um paper que, em 2017, foi apresentado pelo BCE no fórum de bancos centrais. Este paper aborda mais o lado do crescimento da produtividade, no qual a robotização é apenas uma influência. Os autores analisaram 19 países ao longo de quatro décadas e tentaram perceber em que medida é que a produtividade influencia o emprego. O objetivo passou por descobrir se a inovação, que faz com que seja cada vez mais fácil produzir mais bens e serviços com menos pessoas, tende a criar uma massa cada vez maior de desempregados. Os dados sugerem que é exatamente o contrário. Existe uma ligação positiva entre produtividade e emprego, porque apesar do aumento de produtividade numa determinada indústria reduzir o volume de postos de trabalho nessa mesma indústria tal acaba por ser contrabalançada pela criação de empregos noutras que mais do que compensam o choque inicial. Os países mais robotizados: Alemanha, EUA e Japão, são exatamente aqueles em que o desemprego é mais baixo.

Para além disso, estudos de consultoras de renome indicam que o impacto da Inteligência Artificial na economia pode ser estimado em mais de 15,7 triliões de dólares na próxima década [Rao e Verweij, 2017]. Deste valor estimado, 6,6 triliões ocorrerão do aumento da produtividade, enquanto 9,1 triliões estão associados aos efeitos no consumo. Este impacto ocorrerá em todos os setores da economia. Além disso, [Brynjolfsson et. al., 2019] é necessário considerarmos, inclusive no PIB, o valor intangível dos bens digitais. Muitos destes bens digitais são derivados de técnicas e ferramentas da inteligência artificial e ciência da computação.

Brynjolfsson e os seus colaboradores mostraram experiências em que os consumidores são convidados a avaliar o preço dos bens digitais que consomem diariamente (como as redes sociais, Instagram, Facebook e motores de busca, como o Google) e concluíram que os consumidores pagariam entre 40 dólares (no caso do Facebook) e 1.500 dólares por mês (no caso dos motores de busca, como o Google) pelos serviços que hoje obtemos de forma gratuita. A consequência do estudo é um forte indício da forma como estes bem digitais impactam na economia.

Adicionalmente, indicadores económicos mostram que, nas últimas décadas, organizações de base tecnológica (Amazon, Microsoft, Alphabet (Google), Apple e Facebook) tiveram valorizações crescentes em termos de capitalização de mercado. A valorização das ações destas empresas representa, entre outros fatores, uma expectativa de desempenho baseada nas tecnologias e dados que estas empresas detêm.

Em junho de 2020, a Amazon, Microsoft e Apple atingiram, cada uma, mais de 1,3 triliões de dólares de capitalização de mercado. Neste mesmo tempo, a gigante de óleo e gás, maior do setor nos EUA, atingiu valores abaixo dos 300 biliões de dólares. Estes números ilustram algumas caraterísticas da economia: organizações centradas em dados, conhecimento e capital intelectual, hoje têm maior impacto entre investidores. Adicionalmente, a base de negócios e tecnologias destas empresas é fundamentada na ciência da computação e, recentemente, na adoção de tecnologias inovadoras de inteligência artificial. De facto, temos de refletir e perceber que a adoção destas tecnologias fez com que estas empresas se tornassem paradigmas de uma nova era da economia do conhecimento. Ao contrário de tecnologias inovadoras do passado recente, a Inteligência Artificial tem maior potencial de impacto econômico, social, cultural e político por ser uma tecnologia de aplicação e impacto em todos os setores económicos.

Podemos ter a certeza de que a inteligência artificial terá impactos muito positivos no crescimento económico, na produtividade e no aumento da riqueza. É expectável que o desemprego, apesar de poder atingir níveis indesejáveis, o que provoca um impacto negativo na economia, não seja algo fulcral, visto que poderá ser contrabalançado pela criação de outros empregos. Tudo dependerá de se conseguir compatibilizar o ritmo acelerado de tecnologias e a velocidade de adaptação do fator trabalho.

 

Renata Salgueiro

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

“Reativar Turismo | Construir Futuro”

A transição de 2019 para 2020 ficou marcada pelo surgimento inesperado de uma crise pandémica suscitada pelo vírus Sars-Cov2, usualmente designado Covid-19. Este período destaca-se pela incerteza associada quer aos impactes globais quer à durabilidade das consequências. 

Desde o seu surgimento e propagação, certas convicções têm acompanhado a evolução da pandemia, nomeadamente: o impacte global, sem poupar países ou populações; o sentimento de insegurança decorrente de uma ameaça global invisível; a dificuldade em encontrar soluções para a contenção dos canais de transmissão em tempo útil; e o impacto negativo sentido em todos os setores de atividade económica.

Com o intuito de controlar a situação pandémica, diversos governos implementaram regras quanto à circulação. Estas normas provocaram uma forte contração da atividade económica, com efeitos particularmente nocivos no setor do turismo. Para Portugal, um país em que o turismo é um dos principais motores da atividade económica nacional, os efeitos agravaram-se.

Através da análise dos gráficos seguintes, constatamos que, em 2019, a indústria turística empregava 365 269 indivíduos e o saldo da sua balança de pagamentos igualava os 13 107,85 milhões de euros. Contudo, com o surgimento da crise sanitária, o número de indivíduos empregues neste setor registou um decréscimo de 7,79%, o que equivale a 336 810 funcionários. Relativamente ao saldo da balança de pagamentos deste setor, depreendemos que, em 2020, correspondia a 4 957,80 milhões de euros, o que reflete uma redução de 62,18%.

              Fonte: Banco de Portugal

                Fonte: PORDATA

Tendo presente a importância do turismo para a economia portuguesa, o Governo decidiu implementar um programa de modo a reativar esta indústria. A iniciativa “Reativar Turismo | Construir Futuro” incide em quatro pilares de atuação: apoiar empresas, fomentar segurança, gerar negócio e construir futuro. Este plano é constituído por ações de curto, médio e longo prazos, que permitirão ultrapassar os 27 milhões de euros de receitas turísticas em 2027.

No imediato, a ação do governo centra-se no apoio às empresas, efetivando esta prioridade através da implementação de diversas medidas, destacando-se: a criação de instrumentos dedicados à capitalização das organizações, nomeadamente o Fundo para a Capitalização das Empresas, e a elaboração de mecanismos de apoio ao desenvolvimento e consolidação da estratégia operacional das empresas, tal como a Rede Integrada de Apoio ao Empresário, a qual conecta digitalmente o Turismo de Portugal, as entidades regionais de turismo, as associações empresariais do setor e as equipas de turismo no estrangeiro numa plataforma comum.

Fomentar Segurança é outro dos objetivos do plano, o qual atuará essencialmente na criação de condições que possibilitem o reforço da confiança no turismo. Para isso, o Turismo de Portugal analisou as novas necessidades do mercado, uma vez que o surgimento da pandemia realçou a importância de questões relacionadas com a higiene, atualizando, neste sentido, os requisitos do Selo Clean & Safe 2.0 e do Programa Adaptar 2.0, entre outras medidas.  

Na perspetiva do pilar “Gerar Negócio”, é fundamental estimular a competitividade deste setor, nomeadamente, através da promoção nacional e internacional, da aposta em segmentos diversificados, do alargamento a novos mercados de maior valor acrescentado, da continuidade da política de reforço das acessibilidades aéreas, entre outros projetos.

Finalmente, o último eixo de atuação, Construir Futuro, pretende construir um turismo mais responsável, mais sustentável e capaz de gerar mais valor acrescentado, mediante formações, inovação tecnológica, etc.

Assim, em forma de conclusão, considero que é urgente a implementação destas medidas, dado que Portugal é um país em que o turismo assume um papel crucial no crescimento económico. Além disso, julgo que seja necessário impulsionar o turismo realizado por residentes, visto que o futuro é incerto.

 

Ana Catarina Gonçalves Caridade

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

A Emigração em Portugal

            Como bem sabemos, Portugal é um país de emigrantes. Muitos são os portugueses que deixam o seu país e se dispõem a arriscar uma nova vida, na esperança de alcançar melhores condições de vida e de trabalho. Os principais países de destino são: Reino Unido, Luxemburgo, Suíça, Alemanha, Holanda, França, Espanha, Moçambique, Angola, Brasil e EUA.

No início do novo século, Portugal assinalou níveis de emigração historicamente baixos, registando apenas cerca de 5.000 emigrantes permanentes anuais. Todavia, com a crise financeira de 2008-2009 este número tomou valores muito elevados, atingindo o número recorde de 85.000 emigrantes em 2014.

Contudo, consoante os dados mais recentes do Observatório da Emigração, o número de emigrantes portugueses tem vindo a decair desde os anos negros em que a troika esteve instalada no país. O processo de retoma económica em Portugal, associado com o crescimento do emprego e descida do desemprego, parece ter incentivado o regresso dos seus conterrâneos. No entanto, é de notar que no ano de 2017 Portugal foi o país da União Europeia com mais emigrantes, em proporção da população residente, para além de que quase 70 mil portugueses deixaram o país em 2020.

A descida do número de emigrantes portugueses pode em parte ser explicada pela diminuição acentuada da emigração para o Reino Unido. Após a sua saída da EU, aquele impôs novas regras de imigração para o país, para além de que a crise pandémica restringiu a mobilidade entre os territórios, o que se mostrou ser mais um entrave. De 2019 para 2020, o número passou de 24.593 para 6.664, o que indica uma queda de cerca de 73%.

Já a Suíça volta a apresentar uma diminuição significativa da emigração portuguesa. Também a tendência recessiva no Brasil verificada nos últimos anos traduziu-se numa perda de Lusitanos, sendo que apenas 439 deram entrada no país, no ano anterior. Do mesmo modo, a crise económica e financeira em Angola, que se agravou neste último ano, não foi um fator a favor na escolha do país como destino de trabalho, contribuindo para esta queda.

Já as novas tendências no mercado de trabalho português, como novas oportunidades de emprego, a possibilidade de formação e requalificação de pessoas e ainda a eventual atualização do salário mínimo nacional têm um efeito positivo nos fluxos migratórios de e para Portugal. Grosso modo, a década passada configura uma evolução muito significativa do número de imigrantes em Portugal (6% de população estrangeira no total da população residente). De tal modo que, em 2020, o INE apurou um saldo migratório positivo de 41.271, pois o número de imigrantes permanentes (67.160) ultrapassou o de emigrantes permanentes (25.886), o que resultou num aumento da população residente em Portugal.

De qualquer modo, é importante notar que entre os portugueses emigrados observa-se um crescimento da proporção de diplomados emigrados nos países da OCDE. A probabilidade de os portugueses com qualificações emigrarem é maior do que os menos qualificados.

Assim, a meu ver, Portugal é hoje um país de repulsão migratória. Facilmente damos conta de que em períodos menos favoráveis os portugueses emigram, e em períodos de alguma prosperidade a emigração decai. Para uma boa parte dos nossos compatriotas, na ínfima possibilidade de terem o mesmo estilo de vida que têm no estrangeiro, em Portugal, não hesitaria em voltar a casa.

Como filha de um emigrante, sei o quão difícil é a vida no estrangeiro. Por mais que seja possível criar uma vida lá fora, as saudades dos amigos e família são imensas. Mas tal como o meu pai, muitos deixam o país à procura de uma vida melhor, que lhes permita acumular riqueza. E custa ver tantos portugueses emigrados, tendo nós um país tão evoluído e seguro e com o potencial para oferecer aquilo que os “outros” oferecem. Mas se permanecem longe de casa é porque têm motivos.  Cabe a Portugal tornar-se um país capaz de oferecer amplamente condições dignas a todos os portugueses. Ou Portugal ou uma vida digna!

 

Bruna Daniela Rodrigues Oliveira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

O mercado imobiliário em Portugal e as consequências da Covid-19

O acesso à habitação é, inquestionavelmente, uma necessidade e um direito básicos, indispensáveis e essenciais de toda a população e sociedade, em geral. Contudo, ainda que se mostre como uma dimensão central de bem-estar, o setor habitacional e o acesso a moradias tornaram-se, devido aos nefastos efeitos da covid-19, cada vez mais desafiadores em vários países, com os preços das casas e alugueres a subir e a ocupar uma proporção cada vez maior dos rendimentos das famílias quando comparados com outros gastos, como educação e saúde. Deste modo, Portugal apresenta-se no topo dos países onde os agregados familiares mais sentem o peso do crédito à habitação em comparação com os restantes países pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE).

Ao longo dos anos, também outros fatores contribuíram para a sobrevalorização imobiliária e para a desregulação entre a oferta e procura de imóveis que presenciamos atualmente, como por exemplo a expansão da exploração de imóveis para turismo e a concessão de crédito à habitação às famílias com taxas de juro muito reduzidas, enquadrada numa política monetária expansionista em Portugal e na União Europeia.

Deste modo, é reivindicado pelos agentes do setor imobiliário, como os construtores, a necessidade de medidas políticas interventivas que permitam rever o paradigma atual do setor e fazer com que este seja um propulsor para o contínuo desenvolvimento e progresso da economia num período pós-pandemia, de forma a poder atender e amparar as dificuldades habitacionais da população portuguesa. Uma das contestações prende-se na revisão dos impostos, nomeadamente a redução do IVA dos materiais de 23% para 6%. Com um IVA na construção de 23%, e com todos os restantes custos que normalmente estão associados a um projeto imobiliário, é pouco razoável haver habitação acessível.

A juntar a esta carga fiscal desmedida, também o preço das matérias-primas tem apresentado valores excessivos nos últimos meses, além da escassa mão-de-obra que também interfere e exacerba o custo de investimento de um projeto. Dadas as evidentes adversidades que a pandemia trouxe à economia portuguesa, a adoção de providências que permitissem o incremento da construção a preços razoáveis, bem como a dedução do IVA (idealmente para a sua taxa reduzida), seriam muito favoráveis.

Como forma de mitigar os efeitos provenientes da covid-19 no mercado habitacional, as moratórias bancárias foram, sem dúvida, um balão de oxigénio para muitas famílias, uma vez que as prestações relativas ao crédito de habitação foram suspensas e permitiram que as famílias adiassem o pagamento desse crédito, na tentativa de evitar o sobre-endividamento dos consumidores mais vulneráveis economicamente. Este cenário parece, à partida, vantajoso para as famílias uma vez que as moratórias funcionam como uma espécie de “almofada” para o mercado, mas o desfecho exato desta situação específica não é ainda fácil de prever, havendo ainda várias questões pendentes de resposta. Que impacto terá o fim das moratórias? Qual o futuro para as famílias portuguesas que veem agora o seu “balão de oxigénio” a esgotar? Tudo vai depender da forma como vai continuar a evoluir a pandemia e da situação da economia aquando do fim das moratórias.

Num cenário em que as famílias se encontram desempregadas ou com baixos rendimentos, é expectável que estas continuem a ter dificuldade em efetuar os pagamentos suspensos, tendo, portanto, as moratórias sido apenas uma forma de adiar o inevitável. É de notar que caso se verifique esta última situação, vai haver motivação por parte dos bancos para reduzir as concessões de crédito, resultando numa descida dos preços do imobiliário.

          Para concluir, na minha opinião é fundamental rever as políticas de habitação em Portugal e traçar estratégias habitacionais que influenciem positivamente a população portuguesa, e assim ir de encontro às suas necessidades e desafios atuais. Deste modo, é crucial definir estratégias habitacionais, facilitar a mobilidade e providenciar mais acessos a apoios públicos, além de se implementarem novas medidas que tornem as rendas privadas mais acessíveis.

Apesar de se notar um progresso significativo e positivo no dinamismo do setor imobiliário face ao ano passado, continua a ser fulcral ter em atenção a mediação imobiliária na economia portuguesa. O mercado imobiliário continua a registar níveis elevados de procura, o que revela que as famílias têm vontade e necessidade de mudar de casa.

 

Guilherme António Rodrigues Augusto

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Crescimento económico de Angola

O fim do conflito armado interno em Angola promoveu a estabilidade política e social em 2002, abrindo portas para crescimento e desenvolvimento da economia. Porém, Angola enfrentou inúmeros desafios na questão do desenvolvimento, isto porque a sua dependência no petróleo e má gestão pública contribuíram para que uma vasta porção da população ainda esteja a viver na pobreza, sem um acesso a serviços públicos adequados. o país enfrentou, assim, uma árdua tarefa no que toca à canalização de fundos para a reconstrução das infraestruturas e à redução da pobreza.

Angola veio apresentando altas taxas de crescimento económico influenciadas pelo aumento de produção e altos níveis de preço do petróleo. A produção de petróleo e as atividades inerentes à produção contribuíam em cerca de 85% para o PIB, sendo que a extração e exportação de diamantes contribuíram com cerca de 5% para o PIB. Em 2004, houve uma retoma do crescimento, que atingiu os 11 por cento, devido à exploração de novas jazidas petrolíferas. O crescente aumento da produção de petróleo deveria permitir que se atingisse os 15 por cento em 2005 e os 25 por cento em 2006.

Segundo o relatório do CEIC (2010), o crescimento económico observado entre 2002 e 2008 foi de natureza essencialmente quantitativa, que beneficiou de uma elevada taxa de poupança global, com incidência nos empréstimos externos e no investimento estrangeiro direto, em particular nos setores do petróleo, diamantes e construção civil, sendo que estas atividades juntas sustentam um percentual superior a 70% do PIB angolano. Este crescimento verificou-se no PIB per capita de Angola, que era de US$745,8 (dólares americanos) em 2002, e que teve um crescimento ascendente até ao ano de 2008, quando chegou ao seu apogeu de US$ 4.592,6. Porém, com a queda do nível geral da atividade, o rendimento médio por habitante diminuiu em 2009 para $3.801,6, o que deve ter agravado as condições de vida da população mais pobre.

O impacto da crise financeira global e a quebra na produção petrolífera provocou um abrandamento significativo do crescimento entre 2009 e 2011, para uma média de apenas 2,5%. Em 2012, deu-se um aumento em 4,3% na produção petrolífera angolana. No período de Janeiro de 2009 a Dezembro de 2010 ocorreu a grande crise financeira e económica internacional que deixou em Angola de rastos, e que ainda hoje influencia o comportamento do PIB.

É pouco credível que o País volte a ter registos de crescimento tão impressivos como os ocorridos durante a “época das vacas gordas”. Ocorreram outros factos: diminuição das receitas do petróleo, quer as destinadas à economia, quer as de propriedade do Estado; decréscimo do investimento público em 7,5%; forte atenuação do crescimento económico (taxa média anual de 2,8%); subida da taxa de inflação; e instalação de um clima de certo descrédito quanto às capacidades e dinâmicas de crescimento sustentável da economia. O preço médio mensal do barril do petróleo foi de 70,5 USD.

Iniciaram-se então programas de diversificação da economia, visto que esse era o maior entrave no processo de desenvolvimento económico sustentável no país. O período 2013-2014 foi marcado por uma grande aposta do governo, sendo definidas políticas assentes na diversificação da economia, e no investimento publico e privado nas infraestruturas.

Desde 2014 aos nossos dias, o desfecho da crise é ainda imprevisível, pois devido à falta de uma estratégia clara, carência de financiamentos e uma corrupção a níveis inamagináveis. As consequências são sobejamente conhecidas, sentidas e vividas quotidianamente, pelo que o manto dos problemas por ela gerados cobrirá Angola por longo tempo.

Portanto, a economia angolana encontra-se assim numa fase de transição no seu processo de desenvolvimento, de factor-driven, muito dependente da exportação de petróleo em bruto, para efficiency-driven, orientada para o crescimento e diversificação dos setores de produção interna não ligados à atividade petrolífera. A exploração dos recursos naturais, sobretudo do petróleo, e, mais recentemente, do gás natural e das demais reservas minerais ainda por explorar continuarão a ser a médio-prazo o principal motor do desenvolvimento da economia angolana.

 

Tito Correia

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Pobreza e desigualdades sociais

Desigualdade social é a diferença no padrão de vida e nas condições de acesso a direitos, bens e serviços entre integrantes de uma sociedade. Pode acontecer em diversas formas: ao nível escolar, económico, profissional, de género, entre outros.

A desigualdade social é um tema muito interessante do ponto de vista económico e social uma vez que um fenómeno muito frequente deste tipo é o da concentração de riqueza, o que leva a um desequilíbrio no modo de vida dos grupos que compõem a sociedade. Portanto, alguns grupos têm total acesso aos seus direitos e a uma vida digna e outros são completamente excluídos, vivendo mesmo na miséria, sem o mínimo de condições a que todos os seres humanos deviam ter direito.

 Um fator que nos ajuda a perceber o grau de desigualdade é a divisão da sociedade em classes, como classe alta, média ou baixa, tendo cada classe social o seu próprio modo de vida e um padrão de consumo muito próprio mas, ao longo dos anos, as diferenças e desigualdades têm-se acentuado cada vez mais, tendo piorado mais ainda com o surgimento da pandemia.

São vários os fatores que provocam e acentuam as desigualdades entre classes, tais como um fraca distribuição de riqueza, fraca administração dos recursos públicos, falta de investimento em políticas sociais, corrupção, desemprego, entre muitos outros. Devido a isto, surgem enormes problemas sociais que afetam a sociedade tanto a nível social como político e económico, sendo eles: gentrificação, insegurança alimentar, mortalidade infantil, diminuição da esperança média de vida, desemprego, diminuição da escolaridade média da população, aumento da criminalidade, maiores diferenças entre classes sociais, atraso no desenvolvimento do país, dificuldade de acesso a serviços básicos, como saúde, transportes públicos e saneamento básico.

A taxa global de pobreza, desde 2000, tem vindo a diminuir mas ainda assim uma em cada dez pessoas, que vivem em regiões em desenvolvimento, vivem com menos de 1,90 dólares por dia. Atualmente, são mais de 780 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza, o que corresponde a mais de 11% da população mundial. Este é um problema atual e geral a nível mundial, e que piorou ainda mais com o surgimento da covid-19, que veio acentuar e demonstrar ainda mais a necessidade de combater este problema pois tem implicações a vários níveis na sociedade. Por exemplo, o fosso entre trabalhadores e patrões aumentou durante a pandemia, tornando os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.

Por isso, é importante arranjar mecanismos e soluções que combatam a pobreza e as desigualdades sociais e que promovam o emprego, tendo em vista o crescimento económico e a melhoria da vida e da convivência em sociedade.

 

Cristiana Raquel Martins Pinheiro

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]