quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Moratórias de crédito: a salvação que adia o inevitável


Falar, atualmente, da pandemia de COVID-19 tornou-se um hábito diário para todos nós. O que começou por ser uma crise sanitária ganhou proporções desmedidas, afetando as várias esferas da vida individual e da sociedade.

O setor económico ascendeu a protagonista no grupo dos mais afetados, com o novo coronavírus a impossibilitar o exercício de diversas atividades económicas. Sendo Portugal um país pequeno e tão dependente do exterior, as consequências deste “encerramento” rapidamente se sentiram e muitas foram as famílias afetadas. O desemprego (efetivo ou iminente) e a quebra de rendimentos assombraram os portugueses, impossibilitando, para alguns, o pagamento das suas prestações de crédito.

Ciente das dificuldades financeiras atravessadas, o Governo aprovou um Decreto-Lei (em vigor desde 27 de março) prevendo a concessão de períodos de 6 meses de moratória de crédito a particulares e empresas. Com esta medida, foi possível, mediante a verificação de certas condições, suspender o pagamento das prestações de crédito, o que, indubitavelmente, permitiu aliviar a situação financeira de muitas famílias e impediu a sua entrada em incumprimento junto das instituições financeiras.

De acordo com a Sinopse de Atividades de Supervisão Comportamental do Banco de Portugal (1º semestre de 2020), entre março e agosto, foram 726.996 os contratos de crédito que beneficiaram de períodos de moratória. Espelho da gravidade das consequências financeiras sobre as famílias, estas representavam cerca de 71,2% dos mutuários dos contratos beneficiados.

Porém, o que foi criado com o intuito de salvaguardar a situação financeira dos indivíduos, abriu, igualmente, espaço não só para dúvidas relativamente ao regime de aplicação da medida como, também, para comportamentos oportunistas por parte de quem não reunia as condições necessárias para beneficiar deste apoio.

De uma forma mais simples, o beneficiário de uma moratória de crédito pode, por um lado, optar por diferir o pagamento do valor de capital em dívida e dos juros associados, sendo que, neste caso, o valor em dívida aumenta ligeiramente, uma vez que os juros correspondentes a este período acrescem ao valor anteriormente em dívida; pode, por outro lado, optar por manter o pagamento dos juros, diferindo, apenas, o valor do capital em dívida, opção esta que, caso haja essa possibilidade financeira por parte do beneficiário, parece ser a menos “gravosa”, visto que o valor em dívida se mantém igual. 

Logo aqui foi criada uma confusão generalizada, já que muitas pessoas viram este apoio como uma forma de escape ao pagamento da suas obrigações financeiras, o que, do meu ponto de vista, constitui uma verdade enganadora: se é verdade que a moratória permite suspender o pagamento do crédito por um determinado período, também é verdade que o pagamento não deixará de ocorrer; pode ser hoje ou daqui a 6 meses, mas o valor em dívida certamente não diminuirá, nem desaparecerá, como assumido por alguns. No entanto, de acordo com o relatório do Banco de Portugal, apenas 9,2% das moratórias públicas concedidas aos consumidores correspondem ao diferimento do valor do capital em dívida, o que poderá ser reflexo do gravoso impacto financeiro da crise de COVID-19 ou de uma interpretação demasiado otimista do apoio.

Desta forma, facilmente se entende que a medida, a meu ver incontestável salvação para muitos, não é gratuita nem representa o fim do valor em dívida, como tantos outros a interpretaram. Acredito também que uma regulamentação bem definida deste tipo de apoios e uma explicação simples mas, simultaneamente, completa junto da generalidade da população permitirão, até um certo nível, reduzir as dúvidas associadas e as tentativas de usufruir, indevidamente, do apoio aprovado. Sendo este o adiamento de uma situação inevitável, em aberto fica a dúvida sobre a necessidade ou não de, em alguns casos, beneficiar deste apoio. 


Beatriz Costa Azevedo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

A controversa abordagem da Suécia ao contexto de pandemia

 

         Tendo por base a nova realidade enfrentada em todo o mundo devido à pandemia de COVID-19 e, também, às medidas adotadas por cada país no decorrer desta nova fase, é de destacar o caso controverso da Suécia que, contra todas as opiniões, decidiu que o confinamento não era necessário para a contenção do vírus. O governo insistiu que a estratégia adotada tinha como finalidade ajudar a saúde pública e evitar a imposição de medidas demasiado restritivas, que não podiam ser mantidas durante vários meses, e não para salvar a economia.

          Assim, não foi imposto um confinamento à população, mas foram indicadas uma série de recomedações e algumas, embora poucas, restrições. De facto, preconizou-se que, sempre que fosse possível, os indivíduos deveriam exercer as suas funções profissionais em regime teletrabalho. O governo pediu, também, que se praticasse o distanciamento social, que neste país não é muito difícil de realizar tendo em conta a sua baixa densidade populacional e também devido à sua cultura, pois esta valoriza os comportamentos individuais e a autodisciplina.

Embora o confinamento não fosse uma opção, a Suécia adotou medidas restritivas, algumas delas sendo: ajuntamentos limitados a 50 pessoas; escolas secundárias (maiores de 16 anos) e universidades passaram a ter aulas lecionadas à distância; e, quarentena nos lares. Em contrapartida, os restaurantes, bares e cafés permaneceram abertos.

          No que diz respeito à componente económica, o PIB sueco caiu 8,6% na primeira metade do ano de 2020, tudo no segundo trimestre, sendo que a média europeia se situava nos 14,4% (segundo o Eurostat). Esta queda pode ser explicada devido à grande dependência das exportações, que representam quase 50% do PIB e que, com a pandemia, diminuíram drasticamente. De facto, algumas grandes empresas, como a Volvo Cars, estiveram paradas devido a problemas na cadeia de fornecimento na Europa e no resto do mundo. Por outro lado, o turismo representa apenas 3% do PIB da economia sueca, mas o seu abrandamento também contribui, embora menos, para esta queda.

          É de grande interesse referir o impacte das decisões no setor da saúde. De facto, a taxa de letalidade sueca foi, numa dada altura, uma das mais altas e verificou o valor mais elevado de mortes de que havia registo há 150 anos, no primeiro semestre de 2020. No seu maior pico até à data, chegou a ter 107,84 casos por milhão de habitantes (Junho de 2020). Quando comparado com outros países de igual dimensão (como Portugal), que optaram pelo confinamento, os valores referidos no que diz respeito à mortalidade são bastante díspares. Ou seja, mesmo com os lares em quarentena, o grande número de mortes nestes não foi evitado. No início da pandemia, o principal epidemiologista da Suécia, Anders Tegnell, procurava uma resposta mais sustentável para o país. Mas, mais tarde, admitiu que o plano adotado não foi de encontro ao esperado e que, com o conhecimento obtido ao longo dos meses, a tática utilizada poderia ter sido diferente. Até à data de 21 de Outubro de 2020, registava um total de 106380 casos e 5922 mortes.

          Assim sendo, na minha opinião, a estratégia adotada pela Suécia não foi uma boa ideia. As repercussões, quer na economia quer na saúde pública, foram bastante negativas. Face à incerteza que esta situação trás, principalmente quando a informação disponível sobre o vírus e a forma como este se comporta era e é ainda muito vaga o mais seguro será agir com precaução, ainda mais tendo em conta que esta situação já afeta muitas pessoas e pode afetar muitas mais. Temos de admitir a possibilidade que nem toda a gente será responsável por si e pelos outros, e que a obtenção da imunidade de grupo, tal como já constatamos, está longe de acontecer…

 

Julie Cima Mejanes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

China: a única grande economia que vai crescer em 2020


É do conhecimento comum que a crise sanitária que vivenciamos constitui um problema global, todavia existem países, como é o caso da China, que não foram tão gravemente afetados pela COVID-19. A China foi o país onde ocorreu o primeiro caso da doença pelo que teria mais dificuldade em controlar o vírus e, consequentemente, os efeitos mais graves nas diversas dimensões. Mas, surpreendentemente, é um dos países com menos impactos negativos, sendo que pode terminar 2020 com um evolução do PIB positiva.

O FMI prevê que, em 2020, o PIB chinês irá crescer 1,9%, que apesar de ser menor relativamente aos anos anteriores, é positivo, facto que a generalidade dos outros países do mundo não apresenta. De acordo com o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, a China tornou-se o primeiro grande país a retomar o crescimento económico desde o início da pandemia, alcançando uma expansão inesperada de 3,2% no segundo trimestre.

O período atual é de elevada incerteza, no entanto, não há dúvidas que o COVID-19 se trata de um fenómeno de elevada gravidade dadas as suas bastas consequências, quer na esfera social e da saúde, quer na economia, agravadas no horizonte temporal devido à dificuldade em controlar a pandemia, dado que há uma grande mobilidade de pessoas entre diferentes países causada pela globalização. Assim, analisando o panorama global, é difícil perceber a razão pela qual a China terá um crescimento positivo em 2020. A verdade é que a escala dos impactos do COVID-19 varia entre os países do mundo, consoante a sua dependência em relação a alguns setores e dependendo das medidas tomadas com vista a solucionar a crise sanitária.  

A China, apesar de todos os efeitos devastadores do vírus atual, teve um bom desempenho, pelo que defendo que a sua estratégia deve ser seguida pelos outros países fortemente afetados pelo vírus, em que as suas economias não conseguiram suportar os impactos desta crise.

Por um lado, as exportações da China resistiram aos efeitos prejudiciais da pandemia que vivenciamos. As medidas tomadas com o intuito de solucionar a pandemia atual originaram necessidades, como a compra de equipamentos hospitalares, de máscaras e de desinfetantes. Com a globalização, a maioria dos países do ocidente optaram pela estratégia de desindustrializar-se e focaram-se no fornecimento de serviços, pelo que estes produtos requeridos não estão disponíveis nesses países. Deste modo, têm de importá-los da China, pois tornou-se no principal fornecedor de produtos transformados.

Por outro lado, à medida que o número de infetados de COVID-19 aumenta ao redor do planeta, a China regista cada vez menos casos. Assim, para além da razão anteriormente enunciada, a China também conseguiu, através de diversas medidas tomadas pelo Estado, controlar o contágio, o que permitiu que quase todo o país deixasse de estar em confinamento mais cedo do que o esperado e contribuiu para o crescimento positivo da sua economia.

Assim sendo, o facto desta crise conectar diversas dimensões reforça a necessidade de uma reconfiguração das estratégias anteriores à crise nos países mais afetados. Mais concretamente, considero que os países devem refletir sobre a recolocação da indústria no centro da atividade económica, nomeadamente o fabrico de produtos competitivos, de modo a evitar esta forte dependência de fornecedores externos. Além disso, penso que poderá também ser necessário um abrandamento do processo da globalização ou até mesmo alguma desglobalização, de forma a repensar a forma de organização das cadeias de produção e contribuir para um maior controlo do contágio do atual do vírus.

 

Catarina Vieira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Desafios do setor automóvel no contexto pandémico


Como todos sabem, o ano de 2020 tem vindo a ser um ano bastante atípico em todos os setores económicos, mas este artigo pretende dar a conhecer como a indústria automóvel está a viver este momento diferente. Além da crescente pressão para cumprir critérios cada vez mais rigorosos ao nível ambiental, a crise Covid-19 vem agora impor um desafio maior para este setor.

Em primeiro lugar, num contexto em que não se previa uma crise como a atual, a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) acreditava que o setor poderia sofrer um decréscimo de 2% nas entregas neste ano. O que se se verificou até ao último mês em que existem dados publicados (setembro) foi um decréscimo muito maior do que o previsto e a nova previsão para o que resta do ano também não é muito animadora para as empresas desta indústria, sendo esperada uma queda de 25% nas entregas, apesar de neste mês de setembro existirem fabricantes, como a Volkswagen, que registaram números positivos. Convém realçar que setembro foi o primeiro mês onde se registaram os melhores valores desde o início da crise, provocados por medidas de estímulo governamentais adotadas em certos países europeus.

Num contexto diferente, a fabricante espanhola SEAT optou por não ficar parada e decidiu contribuir com várias ações solidárias, tais como a produção de ventiladores e mascaras e a doação dos mesmos. Obviamente que com estas ações não obtiveram lucro, mas contribuíram solidariamente num momento frágil e necessário e, como não ia deixar de ser óbvio também, registaram perdas incríveis neste ano tão estranho. A diretora de marketing e comunicação da empresa em Portugal acrescentava em entrevista ao “Observador” que para esta marca esperava-se um 2020 bastante positivo, sobretudo com o lançamento de um novo modelo, mas o que aconteceu foi um impacto negativo enorme, com o mercado a cair 42% até ao mês de agosto.

Já em relação ao investimento na indústria automóvel, a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), acredita que é necessária ação urgente e acelerar o investimento nesta indústria em Portugal. Apesar da retração causada pela pandemia de Covid-19 e de este ser um momento delicado para o pensamento a médio e longo prazo, o presidente da AFIA acredita que este é o momento certo para ser feita uma forte aposta no setor. É apontada ainda a necessidade de manter o perfil competitivo da indústria para continuar a ser uma opção para os principais fabricantes mundiais num momento em que se definem novas tendências, num momento em que aumentam as apostas em carros com menor consumo de combustíveis fósseis e elétricos. O mesmo presidente afirma que é importante que o governo tenha soluções que não passem pelo endividamento das empresas no curto prazo, porque para este setor é preciso o financiamento de muito longo prazo, de ajudas que não signifiquem um aumento de endividamento imediato e que permita às empresas sentirem-se despreocupadas com a dívida no seu planeamento; é então vital um reforço de capital, afirmou. José Couto, o atual líder desta associação, afirma-se também preocupado com o Brexit, pois o Reino Unido é um importante parceiro de negócios e, com a aplicação de novas tarifas, o efeito poderá ser catastrófico.

Em suma, pode dizer-se que este setor, que está a passar por um período de reestruturação com novas tendências de uma geração preocupada, vê-se, neste contexto que temos vivido, num momento difícil. Num país, como Portugal, que tem vindo a ser aposta na produção de vários componentes e modelos de marcas estrangeiras e cujo volume de negócios registou aumentos na ordem dos 81% nos últimos 10 anos, enquanto a produção automóvel na União Europeia apenas aumentou 6%, é importante, na minha opinião, como discutido anteriormente, serem adotadas medidas como as referidas antes para que Portugal continue a ser aposta para certos fabricantes de renome e que o próprio setor continue a apostar numa renovação das suas estratégias para continuar a atrair clientes das novas gerações.

 

Tiago Figueiredo

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O setor do turismo em tempos de COVID-19

Em Portugal, o turismo representava cerca de 10% do PIB do país. De facto, este setor é uma fonte chave de emprego e um grande componente na atividade económica exportadora do país. Devido à posição que o país tem vindo a ganhar como destino turístico, nos últimos anos, o emprego neste setor aumentou significativamente.

Dados de 2019 da World Travel & Tourism Council mostram que o turismo, direta ou indiretamente, empregava 20% dos novos empregados em Portugal. Se, por um lado, o turismo tinha vindo a criar milhares de postos de trabalho nos últimos anos, o turismo tinha também vindo a contribuir para a igualdade de género: 58% dos trabalhadores do turismo eram mulheres. Também este setor era um dos setores mais empreendedores da economia nacional: 22% das pessoas empregadas no turismo trabalhavam por conta própria. Por outro lado, 15% das pessoas empregadas no turismo tinham menos de 24 anos, o que fazia deste setor uma grande oportunidade para os jovens no mercado de trabalho.

Ainda que o turismo em Portugal em 2019 tenha terminado com os indicadores a crescer, a crise sanitária que estamos a atravessar veio abalar estes valores. O progresso da pandemia COVID-19 teve e continua a ter impactos muito negativos neste setor.

Por certo, restrições da mobilidade dos cidadãos e as medidas de confinamento implementadas tiveram como consequência uma redução significativa da procura turística mundial. Os impactos, efetivamente, ultrapassam aqueles que vivenciamos na crise financeira de 2008-2009.

Segundo a OMT, se inicialmente a previsão de quebra no turismo internacional seria na ordem dos 3%, mais tarde vieram anunciar que a estimativa seria agora de recuar entre 20% e 30% no ano de 2020. Esta queda poderá refletir-se numa perda entre os 290 e os 440 milhões de turistas internacionais neste ano, sendo que poderá recuar a níveis semelhantes aos dos anos 2012-2014.


Também, o WTTC aponta para uma perda potencial de empregos de 75 milhões em todo o mundo. De facto, trata-se de um choque no setor do turismo, assim como em outros setores, sem precedentes.

O turismo pós-COVID teve de fazer muitas adaptações às novas realidades. Para que este setor não seja completamente esmagado por esta realidade é necessário que os gestores deste setor, dada a incerteza deste cenário pandémico, diminuam os custos, cortando em tudo o que não seja essencial, e tentem encontrar alternativas para gerar receita. Só assim será viável a sobrevivência destes negócios. Mesmo que o estado apoie estes negócios, muitos irão fechar, certamente, porque a longo prazo tornar-se-á inviável continuar com o estabelecimento aberto.

Dentro das decisões de reduzir custos está a dispensa de colaborados e isto levará ao aumento do desemprego, o que já se tem vindo a verificar. Se há investimento em que o turismo deve apostar agora é na segurança, porque tudo isto é gerado pela insegurança das pessoas. As pessoas precisam de confiar para avançar! Por exemplo, Portugal criou um selo Clean&Safe, em que quem aderir assume o compromisso de cumprir os requisitos de segurança e higiene definidos pela ANT segundo as orientações da DGS. Parecendo que não, ter este selo dá uma maior segurança às pessoas nas suas estadias. Contudo, muita da insegurança, para além de turística e sanitária, é também económica. Estamos todos com receio de qual o rumo económico que isto irá tomar...

Dado que não há data prevista para uma vacina para a COVID-19, todos nós teremos de nos adaptar e ir aprendendo. Devemos tomar cuidados de higiene acrescidos e ser cautelosos nas decisões económicas, mas não podemos deixar a economia parar. Precisamos de nos ajudar uns aos outros e, com isto, ajudar este setor que é tão importante na dinâmica da economia nacional e na sua sustentabilidade.


Beatriz Carvalho Magalhães

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

O Brexit: saída do Reino Unido da União Europeia

Brexit foi a designação atribuída à saída do Reino Unido da União Europeia (doravante designada por UE), que era um objetivo político almejado por alguns indivíduos, grupos de interesse e partidos políticos desde 1973, o ano da sua adesão à Comunidade Económica e Europeia.

Após a realização de vários referendos, foi a 23 de junho de 2016, que se realizou o último, cujo resultado foi favorável à saída do Reino Unido da UE, porém só a 31 de janeiro de 2020 é que ocorreu a sua saída formal. Após a saída oficial deste país da UE, iniciou-se um período de transição durante o qual ambas as partes têm estado a negociar como serão as suas relações de cariz político, económico e social a partir de 31 de dezembro de 2020.

O referendo realizado em 2016 tinha como questão subjacente a seguinte: “Deve o Reino Unido continuar ou não na união de países europeus?", sendo que a opção “Sim" era a favor da manutenção do país na UE e a opção "Não" era contra a permanência deste na UE. Neste sentido, constata-se que existem sempre duas perspetivas acerca do assunto em questão e, em face disso, algumas personalidades com responsabilidades acrescidas no país tomaram as suas posições, que vão ao encontro dos seus ideais. Assim, destacaram-se como defensores da continuação do Reino Unido na UE David Cameron e Theresa May e como grande opositor distinguiu-se Boris Johnson. No entanto, Theresa May apenas sustentava esta posição no caso de a UE estar disposta a implementar algumas modificações nas políticas praticadas.

Em primeiro lugar, os defensores do “Sim”  alegavam que o Reino Unido, enquanto membro da UE, evitava o pagamento de tarifas de exportação e de burocracias em termos comerciais, obtendo assim melhores condições mercantis. Em segundo lugar, referiam também que a aliança do Reino Unido com diversos países da Europa tornava-o mais poderoso e que a sua dupla representação em cimeiras internacionais e no parlamento europeu lhe conferia um maior grau de reconhecimento e de influência no mundo. Do mesmo modo, Jeremy Corbyn, líder do principal partido da oposição britânico, afirmou ainda que “A UE traz investimentos, emprego e proteção aos trabalhadores e aos consumidores britânicos". Finalmente, salientava-se que a saída do Reino Unido da UE causava algumas questões a nível de segurança, nomeadamente uma preocupação acrescida relativamente à possibilidade do país ficar mais suscetível a ataques de terrorismo.

Contrariamente, os apoiantes do Brexit alegavam que o país iria ter mais oportunidades de negociação, dando-lhe possibilidades de estabelecer novas relações comerciais, sem estar limitado à legislação da UE. Da mesma forma, estes apoiantes acreditavam que o Brexit iria voltar a conferir poder decisivo ao Reino Unido em áreas como o emprego, a saúde e a segurança. Finalmente, um dos grandes objetivos do país com a sua saída da UE era alterar a política de “porta aberta” para cidadãos europeus, que era considerada uma política dispendiosa e fora do controlo, dificultando a chegada de imigrantes não europeus, que poderiam contribuir de melhor forma para a economia do país.

Importa igualmente referir que, para além dos prós e contras existentes para o Reino Unido originados pelo Brexit, surgiram também algumas consequências do mesmo para a UE, nomeadamente a perda do contributo britânico para o orçamento europeu, bem como a redução das relações recíprocas a todos os níveis, através da deslocação de pessoas, bens, serviços e investimentos. Isto, inevitavelmente, irá causar um condicionamento dos afluxos laboral e académico, como também da cooperação científica e cultural. Em termos políticos, poderá verificar-se a ascensão da Alemanha como potência na UE, causando um possível declínio do uso da língua inglesa em transações e, consequentemente, uma maior afluência da língua alemã.

Com base no que foi apresentado, acredito que a retirada do Reino Unido da UE irá ter mais repercussões a longo prazo, seja nos países aderentes à mesma e nos seus cidadãos seja no Reino Unido. Assim, no que me diz respeito, acredito que a permanência do Reino Unido na UE teria sido uma escolha mais sensata, dadas todas as vantagens a nível económico, político e social que a união económica e política enverga. Por último, é essencial mencionar a pandemia que estamos atualmente a viver, na qual é importante reforçar a solidariedade e cooperação internacional, incluindo entre o Reino Unido e a UE.

Marta Navio dos Santos Costa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 18 de outubro de 2020

O Envelhecimento Populacional

De acordo com o relatório Global Health and Aging, apresentado pela World Health Organization (WHO), estima-se que o número de pessoas com mais de 65 anos cresça de 524 milhões em 2010 para cerca de 1,5 biliões em 2050, com a maior parte deste crescimento a vir dos países em desenvolvimento.



 Em 2050, prevê-se que o número de pessoas com idade igual ou superior a 65 anos seja bastante superior ao de crianças com menos de 5 anos.

Acerca de 100 anos as pessoas viviam, em média, até aos 30 anos. Em 2020, a esperança média de vida é de 73,2 anos. As mulheres em Hong Kong e no Japão vivem mais que qualquer outra pessoa no mundo, com uma esperança média de vida de cerca de 88 anos. Na Nigéria e Serra Leoa, por outro lado, homens e mulheres vivem, em média, cerca de 55 anos.

De acordo com o Berlin Institute of Population and Development, populações pertencentes a regiões predominantemente ricas vivem, em média, mais 17 anos que aqueles que vivem em África.



A composição e dimensão de uma população é determinada por três fatores demográficos: natalidade, mortalidade e migração. Como referido anteriormente, a esperança média de vida tem aumentado substancialmente desde 1950. Isto pode ser explicado pelo progresso tecnológico, melhores condições de vida, maior educação e rendimentos, maior acesso a cuidados de saúde, entre outros. Por outro lado, as taxas de natalidade têm diminuido. Esta diminuição pode ser explicada pelo maior nível educacional (especialmente das mulheres), a diminuição da taxa de mortalidade infantil, a urbanização, métodos contracetivos mais acessíveis e baratos, entre outros.

Embora estes dois fatores sejam os principais causadores do envelhecimento populacional, a migração internacional é também um determinante importante. Em países com elevados fluxos de imigração, o processo de envelhecimento populacional pode ser abrandado temporariamente, uma vez que os imigrantes tendem a ser mais jovens.

Por exemplo, no caso dos EUA o envelhecimento populacional é mais lento que o dos seus parceiros comerciais na Europa e Ásia. Isto acontece porque os EUA é o país com o maior número de imigrantes (cerca de 50 milhões). Estes imigrantes contribuem para o aumento das taxas de natalidade. Entre 1960 e 2005, os imigrantes e seus descendentes constituíam 51% do crescimento populacional nos EUA. Entre 2005 e 2020, constituirão 82% desse crescimento.

As implicações económicas e sociais do envelhecimento populacional estão a tornar-se cada vez mais presentes, com problemas como a diminuição da população ativa, o aumento dos custos de cuidados de saúde, dificuldade em pagar pensões, entre outros.

O rápido envelhecimento populacional implica um menor número de pessoas a participar na força laboral. Isto leva a uma escassez na oferta de trabalhadores qualificados. Esta situação provoca o declínio da produtividade, maiores custos com o fator trabalho, lenta expansão dos negócios e reduzida competitividade internacional.

Para compensar, muitos países consideram a imigração como solução para “abastecer” as suas forças de trabalho. A Austrália, o Canadá e o Reino Unido são exemplos de países que mais atraem imigrantes com elevadas competências.

Ainda, uma vez que a procura de cuidados de saúde aumenta com a idade (prevalência de doenças crónicas), países com um elevado  envelhecimento populacional precisam de alocar mais dinheiro e recursos aos sistemas de saúde. Isto é difícil de fazer uma vez que a despesa em saúde como % do PIB já é muito elevada nos países desenvolvidos.

Para além disto, o sistema de cuidados de saúde também apresenta problemas de falta de profissionais, aumento da procura de cuidados domiciliários e a necessidade de investir em novas tecnologias.

Outro problema é que países com populações mais envelhecidas dependem da força laboral para pagar impostos, de modo a financiar os custos com a saúde, as pensões, etc.

Algumas soluções para o envelhecimento populacional são: a imigração, como já referi; um sistema de reforma gradual, onde as pessoas diminuem as horas de trabalho, mas permanecem na população ativa e a pagar impostos (diminuem também as despesas com pensões); e promover e recompensar o trabalho voluntário e artístico entre idosos.

Estas atividades melhoram a qualidade do tecido social, contribuem para o bem-estar dos seus participantes, favorecem a economia e reduzem os custos de saúde, uma vez que, prevenindo o isolamento social, as pessoas apresentam taxas mais baixas de deterioração física e mental.

Ana Amorim Marques

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]