sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Crise Financeira do ´Subprime`

No início do século XXI, o mundo estava no auge da globalização económica e financeira, através do investimento estrangeiro facilitado e da evolução do comércio internacional. O desenvolvimento firme da economia global marcava taxas de crescimento entre os 2% e os 5% para o PNB e uma valorização de cerca de 124%, entre 1997 e 2006, para os preços dos imóveis. Dessa forma, juntamente com as reduzidas taxas de juro, a transmissão de crédito aumentou significativamente.

Todavia, depois de 2005, as taxas de juro cresceram tendencialmente e atingiram níveis cada vez mais elevados – provocados pela saturação do mercado imobiliário americano e da inflação. Contrariamente, o valor dos imóveis decresceu – necessidade dos vendedores conservarem o nível de vendas - ao mesmo tempo que os bancos enfrentavam um salto agravado no incumprimento bancário (mais de 20% em 2008).  Na companhia dos baixos valores habitacionais, os ativos tornavam-se totalmente desvalorizados e os empréstimos que representassem um maior risco eram rapidamente securitizados e vendidos no mercado – de forma a aumentar a liquidez.

          Assim, a meio de 2007, os mercados financeiros começaram a perder confiança no setor bancário, o que fez com que originassem grandes entraves financeiros, em resultado da contração severa de liquidez e crédito a nível internacional. Consequentemente, os bancos viram-se “obrigados” a vender os ativos e a reduzir a concessão de crédito (às famílias e empresas), fazendo com que as famílias reduzissem o nível de consumo e as empresas deixassem de atingir objetivos lucrativos ou mesmo falirem.

Com origem nos Estados Unidos da América, o estourar da bolha de investimentos massivos em hipotecas norte americanas, juntamente com a rejeição de auxílio a um dos maiores bancos de investimento, a crise financeira mundial, denominada por The Great Recession pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), rapidamente propagou-se pelo sistema financeiro global, principalmente nos países europeus – onde parte dos ativos tinham sido adquiridos. Desta forma, surgiu a necessidade de alguns governos intervirem de forma mais ativa no sistema bancário, através de grandes injeções de capital.

          As medidas aplicadas no desenrolar da crise atingiram o mercado da dívida soberana e resultaram em sérios problemas, sobretudo em países com grandes carências de financiamento externo e desequilíbrios económicos. Particularmente, Portugal foi um dos países mais atingidos tendo em conta o elevado grau de endividamento público e a subida das taxas de juro associadas à dívida pública. Além disso, o desacelerado crescimento económico (ou retrocesso), a fraca competitividade, as políticas contracionistas, a queda acentuada da procura global, a inflação, o aumento do desemprego (mais de 17% em 2013), e o setor bancário dependente de financiamento externo levaram a que Portugal pedisse um resgate financeiro, em Maio de 2011, em cerca de 79 mil milhões de euros – Troika. Desta forma, o país comprometeu-se a cumprir um plano de modo a corrigir o excessivo défice económico.

          Em jeito de conclusão, os gravíssimos impactes da crise de 2008 influenciaram a economia a nível global. Apesar da dinâmica catastrófica portuguesa, na minha opinião, as medidas e as formas de combate influenciam em grande escala o processo atrasado de recuperação de longo-prazo. Embora o estado português tivesse apoios externos, só em 2018 – 10 anos depois - é que conseguimos “superar” os impactes económicos sentidos: o PIB atingiu os 182,9 mil milhões de euros em 2018, o que superou os 182,4 mil milhões de euros registados em 2008.

 

Beatriz Neves Vieira Silva

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O colapso económico do Afeganistão

Grave crise fiscal e da balança de pagamentos. É este o cenário económico sombrio que o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma que o Afeganistão enfrenta e que se veio agravar-se desde a ocupação e chegada ao poder dos talibãs. Desta forma, o FMI prevê que, este ano, a economia deste país contraia em 30%, levando à “quebra dos padrões de vida” e empurrando milhões de habitantes para condições de vida muito precárias.

Olhando cuidadosamente para a situação económica deste país, esta parece reunir os “ingredientes” fundamentais para confecionar o cocktail perfeito para uma crise humanitária: ativos de estrangeiros congelados; dependência de ajuda internacional (a qual se encontra interdita); escassez em dinheiro, moeda em desvalorização; e uma inflação exorbitante. Estes são alguns dos aspetos referidos que estarão a pôr em causa a estabilidade económica que este país necessita alcançar.

Desta forma, esta situação terá, primeiramente, impacto nos principais parceiros comerciais com os quais estabelece uma forte relação e dependência, atingindo potências económicas como a paquistanesa, turquemena e uzbeque. Dada a elevada relevância que as exportações do Afeganistão têm, quer a nível económico como social no comércio destas comunidades, tal poderá pôr em causa toda a estrutura económica destes países, afetando-os negativamente.

Por conseguinte, e como tem sido noticiado regularmente, existe um enorme afluxo de refugiados, que pode levar à sobrelotação dos mesmos nos países vizinhos, como o caso do Tajiquistão, que somente poderá acolher mais pessoas se lhes for facultada assistência financeira. Contudo, existe ainda um problema que se prende com a rejeição por parte de vários países da Ásia Central em aceitar a presença de refugiados.

É necessário estarmos cientes que esta corrente de refugiados não trará, em parte, boas consequências para os países acolhedores. Afirma-se que tal pode traduzir-se no aumento da pressão no mercado do trabalho, levar a maiores entraves/tensões sociais e terá decerto impacto nos recursos públicos destes países.

Assim sendo, o FMI aponta que, se houver um fluxo de mais de um milhão de refugiados, será necessária a ajuda financeira a estados vizinhos, ou seja, Tajiquistão, Irão e Paquistão, para os acolher. Esta contribuição adicional terá, respetivamente, um custo, em dólares, de 100 milhões no caso do Tajiquistão, o que corresponde a 1,3 % do seu PIB, de 300 milhões no que diz respeito ao Irão, o que equivale a 0,003% do seu PIB, e, por fim, de mais de 500 milhões no que toca ao Paquistão, traduzindo-se em 0,2% do seu PIB.

Devido ao seu estatuto de beneficiário de fundos monetários, anualmente, o Afeganistão tem recebido alguma ajuda monetária por parte dos países da OCDE, possibilitando, assim, o acesso e a compra de diversos bens. No entanto, o FMI alerta que é necessária ter precaução quanto ao uso destes montantes no fomento de atividades como a lavagem de dinheiro e o financiamento de mais ações terroristas.

Do meu ponto de vista, as consequências nefastas que podem advir desta crise são variadas. Daí a necessidade de uma resposta rápida por parte não só do Afeganistão como dos países europeus e dos Estados Unidos da América (EUA) no auxílio à população local, que já se encontra em condições de extrema pobreza. Medidas como o desbloqueio de mais de nove mil milhões de reservas do Banco Central afegão facultado pela reserva federal dos EUA terá o objetivo de “garantir que estamos a implementar as nossas sanções contra os talibãs e a rede Haqqani mas, ao mesmo tempo, a permitir o fluxo de assistência humanitária para o país”, como afirmado por Waddy Adeyemo, vice-secretário do Tesouro da Administração Biden.

 

Eduarda Lima

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

A importância das micros, pequenas e médias empresas para Portugal

As pequenas empresas dominam o tecido empresarial português. Existia um total de 1.335.006 empresas, em 2019, 99,9% das quais PME, isto é, micro, pequenas e médias empresas. Esta classificação, em geral, varia de acordo com a produção, a propriedade, a dimensão, e a forma económica.

Mas mais interessante ainda é que dentro destas PME ainda temos as microempresas, que representavam 96%, em 2019, do total das empresas portuguesas — empresas com menos de 10 pessoas e cujo volume de negócios anual e/ou balanço total anual não excedia €2 milhões. Em relação às pequenas empresas estas têm vindo a diminuir o seu peso em percentagem no total de empresas, com o valor de 3,3% no ano de 2019 — empregavam menos de 50 pessoas e o volume de negócios anual e/ou balanço total anual não excedia €10 milhões. As médias empresas são caraterizadas por um número inferior a 250 efetivos, um volume de negócios inferior a 50 milhões de euros ou balanço total anual menor ou igual a 43 milhões de euros - a sua percentagem no total de empresas manteve-se contante ao longo dos anos, em 0,5%.

Figura 1- pequenas e médias empresas em % do total de empresas: total e por dimensão

Fontes de Dados: INE - Sistema de Contas Integradas das Empresas (PORDATA)

Por outro lado, com números mais reduzidos, as grandes empresas, são as empresas com maior importância para a economia, de acordo com o Eurostat. Têm mais de 250 trabalhadores — e totalizavam 1262, ou seja, representavam menos de 1 em cada 1000 empresas registadas em Portugal.

       Em 2018, as PME foram responsáveis por 60% da riqueza (valor acrescentado bruto) do país, que continuou a crescer: mais 4,8% em 2019 e mais 5% em 2020, estima a Comissão Europeia. Estas são responsáveis por empregar 78% das pessoas no ativo (aumentou 2,0%) e geraram 56% do volume de negócios total das empresas a operar em Portugal (cresceu 2,6%). Mais de 2/3 das empresas têm como base empresários em nome individual e trabalhadores independentes, mas é nas sociedades que se concentra a grande maioria do pessoal (77,4% do pessoal ao serviço e 96,4% de negócios). Em 2019, 66,5% das empresas eram empresas individuais e 33,5% sociedades. Face a 2018, verificou-se um aumento de 1,3% das empresas individuais e 2,1% das sociedades.

Figura 2- Número de empresas, pessoal ao serviço e volume de negócios em Portugal (2019)

Fonte: INE, SCIE

Sendo estes negócios de uma importância crescente para o nosso país, será que não devíamos incentivá-los, e não os prejudicar? A meu ver sim. A solução não passaria por deixar que estas empresas não pagassem impostos, mas sim apoiá-las neste procedimento, essencialmente no início, para garantir que não existam incentivos a desviarem-se desta obrigação, e também para que as pequenas empresas já estabelecidas possam crescer mais facilmente, estimulando os negócios e consequentemente a economia do nosso país.

Os apoios para implementar projetos inovadores, apoios a linhas de crédito (um apoio que tem como objeto apoiar investimentos de longo-prazo) e apoios para quem pretende uma internacionalização (este apoio tem como objetivo ajudar as empresas a desenvolverem os processos de qualificação para uma internacionalização) são exemplo de apoios que devem ser implementados com mais frequência e de maior acessibilidade às PME para que estas tenham melhores desempenhos.

Em suma, as PME têm uma importância crescente no nosso país e na sobrevivência da nossa economia, portanto é essencial incentivar a criação de mais empresas e, principalmente, apoiar as que já se encontram no mercado.

 

Carlota Moreira

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Mercado Imobiliário Português

Ao longo dos últimos anos, tem-se vindo a assistir a um sobreaquecimento do mercado imobiliário em Portugal. O crescimento deste mercado foi determinado pelo grande aumento da procura de habitação e oferta escassa, o que gerou uma crise social no setor. Sendo a habitação uma necessidade básica das populações, é natural que a sua procura seja sempre relevante, sendo importante salientar que, apesar de ter diminuído no início de 2020, rapidamente a procura de casas recuperou, mantendo estável o mercado imobiliário português.

O ano de 2020 foi, assim, marcado pela subida do preço das casas e dos contratos de arrendamento, uma vez que a procura dos agentes económicos era demasiado elevada para que fosse possível satisfazer as necessidades. De acordo com o FMI, Portugal é o oitavo país do mundo com os preços da habitação mais elevados e, no ano em questão, o aumento dos preços foi de 9%. Esta tendência também se tem verificado na maior parte dos países da União Europeia.   

Deste modo, é de elevada complexidade para as classes mais baixas da sociedade suportarem estes custos, quando comparados com o baixo rendimento que auferem, o que leva a um acréscimo do número dos despejos. Ou seja, a evolução do rendimento das famílias não acompanha o crescimento dos preços das habitações em Portugal. Para além disso, este fenómeno constitui um grave entrave para os jovens que ingressam no mercado de trabalho que, porém, não conseguem ter habitação própria para residir, sendo ‘obrigados’ a manterem-se na casa dos progenitores até uma idade tardia.

É cada vez mais comum a compra de casas para fins turísticos, e isso verificou-se no ano em que a pandemia surgiu. Este era um setor em que se esperava grandes fragilidades. No entanto, acabou por atrair os investidores e um grande número de famílias portuguesas que procuravam mais conforto devido ao isolamento social que se viveu.

Em relação aos motivos que explicam este boom dos preços no mercado imobiliário, temos as baixas taxas de juros, que permitem que mais famílias tenham acesso a créditos concedidos pelos bancos, o apoio público dado pelos governos às empresas e famílias, nomeadamente às com mais necessidades, a facilidade de conceção de crédito e o teletrabalho, ou seja, a necessidade acrescida de trabalhar em casa. Ademais, surge o aumento do custo de materiais de construção variados, devido às interrupções na cadeia de fornecimento. É de notar, ainda, o impacte deste aumento de preços na inflação dos países, levando a pressões inflacionistas persistentes.

No decorrer dos anos, também se verifica cada vez mais o arrendamento de habitação ao invés da sua compra, principalmente na camada mais jovem da população, uma vez que para estes não é viável a sua compra devido ao baixo poder de compra. Esta faixa etária procura residência nos espaços urbanos, perto dos locais de trabalho e outros pontos importantes para a sua carreira e vida, e é nesses locais onde o preço das casas é bastante mais elevado.

Concluindo, esta crise social pode ser minimizada através da subida das taxas de juro e de um menor apoio público aos agentes económicos, bem como da restauração do fornecimento de materiais de construção. Na minha opinião, o Estado tem de intervir no sentido de implementar medidas que abranjam as classes baixas e médias, assim como a população jovem, para que estas possam ter acesso a condições de habitação dignas.

 

Sofia Salgado

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

domingo, 26 de dezembro de 2021

Obras de eficiência energética em casa com reembolso até 85%

         O cenário da pandemia chamou a atenção das famílias para a importância de manter as suas casas com o conforto térmico adequado e os custos que isso acarreta para o orçamento familiar. Sem dúvida que melhorar a eficiência energética das habitações traz vantagens tanto para o ambiente e sustentabilidade como para a economia nacional. Todos estes fatores motivaram a criação por parte do Governo de um programa que incentiva precisamente a sustentabilidade ambiental e que ajuda as famílias na implementação dessas condições.

Na área da sustentabilidade, o “Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis” foi o que registou uma maior adesão. Este programa tem o propósito de dar a hipótese ao consumidor de ser reembolsado, mesmo que parcialmente, por adotar sistemas mais sustentáveis na sua habitação. Este financiamento tem como objetivo promover a melhoria de cinco grandes áreas, a reabilitação, a descarbonização, a eficiência energética, a eficiência hídrica e a economia circular, contribuindo para um melhor desempenho energético e ambiental dos edifícios. Mais concretamente, espera-se que com estas medidas se consiga diminuir em, pelo menos, 30% o consumo de energia primária nos edifícios envolvidos.

Inicialmente, em 2020, a verba alocada a este programa foi de 4,5 milhões de euros, que esgotou em pouco mais de três meses, tendo sido necessário reforçar este valor inicial com mais 5 milhões de euros, de forma a dar resposta às candidaturas que tinham sido realizadas até ao final do ano.

Depois das expetativas de 2020 terem sido ultrapassadas, o Governo apostou numa segunda fase do Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis no dia 22 de junho de 2021. Nesta fase, a verba inicial já era de 30 milhões de euros, provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência, sendo que o Ministério do Ambiente comparticipa até 85% do investimento realizado em obras que melhorem o desempenho térmico e reduzam a fatura energética. Uma mudança entre as duas fases do programa foi a que no início apenas eram admitidas intervenções em edifícios construídos até 2006. Com a segunda fase, este prazo aumentou para construções até 1 de julho de 2021, incluindo, por isso, um número de edifícios bastante mais elevado do que anteriormente.

As despesas são comparticipas por reembolso, o que significa que é necessário o indivíduo primeiro realizar as obras e pagar do seu bolso, reunindo toda a documentação que diga respeito aos gastos. Só depois é que pode candidatar-se ao apoio, podendo fazê-lo para mais do que uma área. Caso a candidatura seja aceite, o dinheiro é-lhe reembolsado, sendo que é importante que o candidato cumpra todos os requisitos exigidos.

O programa é muito específico nas áreas de intervenção e quanto aos custos aceites. Alguns exemplos de intervenções e os respetivos limites máximos de incentivo são os seguintes: na instalação de painéis fotovoltaicos e de outros equipamentos de produção de energia renovável para autoconsumo, tem um limite de 2 500€ (ajuda a produzir uma grande parte da eletricidade que se consome em casa); para sistemas de aquecimento e/ou arrefecimento ambiente e de águas sanitárias que recorram a energia de fonte renovável, os valores são de 1 500€ para caldeiras e 2 500€ para sistemas de solares térmicos e bombas de calor.

Na minha opinião, este programa é uma excelente iniciativa por parte do Governo para tentar ajudar as famílias no conforto das suas casas, mas também por estar com o pensamento direcionado para a sustentabilidade ambiental, um tema tão discutido atualmente. Este incentivo permite poupar na fatura energética ou da água e preservar o ambiente através da redução de emissões poluentes. Considero que os portugueses que têm a capacidade e a necessidade de melhorar a sua eficiência energética devem apostar neste programa, uma vez que é vantajoso para a carteira familiar e para o planeta.

 

Ana Rita Lopes

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

sábado, 25 de dezembro de 2021

A Economia é o retrato da vida - aprende-se (e muito) com os erros do passado!

           Qual é o caminho que temos de percorrer na economia, à semelhança da vida, para chegar ao estado em que nos encontramos hoje? Para responder a esta questão, devemos antes de mais entender como tudo se iniciou.

Desta forma, remontando à década passada, nos anos de 2007/2008, como resultado da prevalência a nível global do capitalismo neoliberal instituída nos Estados Unidos e com a liberalização e desregulamentação abrangente dos mercados financeiros, instaurou-se uma acentuada crise financeira e política naquele país.

Por um lado, tendo por base a nova definição de prioridades baseada na dimensão dos mercados financeiros, ao invés da regulação e consolidação financeira, observou-se nos EUA um progresso desnorteado dos empréstimos bancários aos agentes económicos, fundamentalmente os respeitantes aos créditos à habitação, adotando os bancos uma postura de despreocupação básica face à adoção de atitudes cautelosas e de avaliação do risco dos créditos facultados. Consequentemente, assimilando a ideia de que “o tempo é o relógio da vida”, surgiu como que inevitavelmente a designada crise do crédito hipotecário de alto risco “subprime”.

Por outro lado, inúmeras instituições financeiras de duvidosa atividade e com diminuta credibilidade, do tipo “bancos de investimento “e “fundos de pensões”, foram progressivamente emergindo, dando aso à circulação de uma multiplicidade de títulos “artificiais”, ou seja exclusivamente direcionados para o lucro especulativo e desprovidos de qualquer substrato económico real de suporte, os vulgarmente  designados “ativos tóxicos”.

Neste sentido, o avolumar do incumprimento por parte das famílias e empresas à banca, a depreciação nos ativos e a colossal queda de liquidez no mercado interbancário nos EUA, fruto de todo este processo, levaram necessariamente ao aumento descomunal de falências de famílias e empresas e, assim, de instituições bancárias e financeiras (caso do “Lehman Brothers”).

Como seria, a meu ver, expectável, a crise financeira americana acarretou, forçosamente, fortes efeitos de contágio por toda a Europa. No caso particular de Portugal, as sequelas foram ainda mais penosas fruto das vistosas fragilidades inerentes à nossa economia, das quais se destacam a estagnação dos níveis de crescimento económico que se tem vindo a averiguar no período pós-adesão ao Euro, a débil qualificação laboral e, ainda, a falta de planeamento e deficiência na organização e gestão das empresas.

Paralelamente, a falta de liquidez no mercado monetário interbancário na zona Euro (Euribor) e, simultaneamente, a contínua redução de confiança na economia levou à emergência de elevadas restrições na concessão de crédito aos agregados familiares e, nomeadamente, às pequenas e médias empresas-PME (que representam a generalidade do tecido empresarial português e são o motor fulcral de arranque da nossa pequena economia), interligado com a crescente insolvência de bancos, famílias e empresas.

O Estado Neoliberal na Europa (e em Portugal) adotou uma estratégia de atuação central no sistema bancário e financeiro, tendo em vista a “salvação” de instituições bancárias falidas fruto da má gestão e do uso inadequado e muitas vezes fraudulento de fundos financeiros. Mas, de que forma? Essencialmente, através da transferência de avultadas quantias do Estado para estas instituições falidas (veja-se os casos do BPN e BPP), ou seja, em virtude de colossais sacrifícios dos contribuintes e, pasme-se, para subsequente venda dos ativos bancários ao desbarato!!

Tendo estas assunções em mente, pode-se assim inferir que a admissão destas medidas, interligadas com as garantias e rendas excessivas concedidas às parcerias público-privadas “PPP” por parte das autoridades portuguesas, podem servir de base teórica para a explicação da atual derrapagem das contas públicas portuguesas e do panorama recessivo que a economia portuguesa tem vindo a exibir na última década.

 

Tiago Martins

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

A educação como impulsionador económico

          Nos últimos anos, em Portugal, os números refletem um crescimento medíocre, que tem caraterizado o nosso país desde 2000. Fica na retina que o principal foco dos últimos governos se concentrou no controlo e na sustentabilidade das contas públicas, condição necessária para haver um crescimento sustentado, mas, como se vê, condição insuficiente também.

Numa opinião pessoal, uma das principais explicações que elucida este nosso atraso relativo a outros países da União Europeia - com exceção da Grécia -, está relacionado com uns índices baixos de educação. Comparando a realidade portuguesa com qualquer outro país da União Europeia, rapidamente observamos uns níveis de escolaridade singularmente baixos.

Com base em dados de 2019, fornecidos pelo Eurostat, é-nos demonstrado que Portugal era o país com menores níveis de educação de toda a União Europeia, com apenas 52% da população a concluir o ensino secundário e/ou superior até 2019, encontrando-se cerca de 26 pontos percentuais abaixo da média da UE (78%). De realçar que esta posição se deve muito à inclusão da população reformada – muito dela pouco ou nada instruída - na amostra, contudo demonstra à mesma o atraso educacional presente no nosso país.



Fonte: Retirado do Livro “A culpa vive solteira”, de Luís Aguiar Conraria

Num panorama geral, torna-se fulcral analisar o índice de capital humano. No gráfico acima, representativo da relação entre o índice de capital humano e o PIB per capita, é percetível que existem 53 países com o índice abaixo de Portugal e 100 países com PIB per capita inferior. É-nos também evidenciado, através deste gráfico, que aproximadamente três quartos das variações no PIB devem-se ao índice de capital humano.

A posição de Portugal nesta representação, no meu ponto de vista, é de especial destaque devido ao nível de educação baixíssimo corresponder a um nível de vida alto (o ponto de Portugal no gráfico é o de um outlyer), considerado até como um “milagre”.

Como mencionado supra, a educação é um dos tópicos que pode impedir o crescimento económico. Não obstante, não é justificativa para todo esse desaceleramento económico. A presença de mercados mais competitivos, uma segurança social que incite a poupança, um regime fiscal menos complexo e uma justiça com boa praticabilidade seriam premissas ótimas para o crescimento.

Os principais exemplos, que explicitam a educação não ser o principal entrave são os países de Leste que, antes da inserção na União Europeia, apresentavam um péssimo nível de vida, comparativamente com Portugal. Apesar disso, estes países do leste europeu apresentavam os seus níveis de escolaridade como uns dos mais altos da Europa. Assim, no mínimo, tem-se que admitir que o nível de escolaridade da sua população não era bloqueio ao crescimento, no momento de adesão.

Como conclusão, na minha conceção, teremos que, essencialmente, encontrar soluções imediatas para o combate a este entrave económico. Uma das soluções que se poderá adotar é a contínua aposta na educação, com um programa elaborado de requalificações que prepare os trabalhadores e atribua a cada um deles competências necessárias para lidar com uma economia mais verde, mais digital e mais inovadora. Este programa deve envolver as Universidades, os Politécnicos, as Escolas Profissionais e as empresas. Em conjunto com este programa, deve-se também repensar o sistema de ensino português, modernizá-lo e adaptá-lo às novas realidades. No médio prazo, Portugal depara-se com sérios desafios para adequar o conteúdo das qualificações da sua oferta de trabalho ao padrão da procura.

Assim, a acumulação de capital humano promove uma maior produtividade dos trabalhadores que é recompensada no mercado de trabalho sob a forma de salários mais elevados. Estes retornos individuais têm uma contrapartida direta no rendimento total dos países.                                                                                                                       


José Pedro Neves

[artigo de opinião desenvolvido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]