sábado, 1 de Novembro de 2014

A “marca branca”

O atual consumidor passou a ser um consumidor bem informado, que gosta de efetuar as suas compras de forma inteligente, de maneira a sair beneficiado.
No presente, a preocupação das pessoas não é lutar por mais, mas sim manter o que têm. Vivemos num mundo onde a crise é perfeita: os produtores não produzem, os consumidores não consomem, os financiadores não financiam e os trabalhadores não têm trabalho. No processo de ajustamento em que vivemos, os consumidores procuram o controlo e a redução das suas despesas no longo prazo, sendo cada vez mais condicionados, racionais e exigentes, alterando assim os seus hábitos de consumo.
Há quem afirme que as marcas da distribuição (marcas branca) são um grande problema para a inovação no mercado uma vez que não investem no I&D, posicionando-se pelo preço baixo e imitação das marcas do produtor. Por outro lado, há quem declare que as marcas brancas introduzem dinamismo no mercado, fazendo com que haja maior concorrência no preço, trazem um estímulo ao valor acrescido ao I&D, marketing e design, ao nível do retalho, e também à indústria, através de uma maior concorrência. Completam o mercado, uma vez que preenchem lacunas e são pioneiras em novas categorias.
Os produtos alimentares são um bem essencial para o ser humano e assim são os menos afetados, mas não passam incólumes. De acordo com o estudo (Hábitos e Atitudes face à separação de resíduos domésticos), cerca de metade dos portugueses afirmam que a crise económica já teve impacto ao nível dos seus hábitos alimentares, tanto em casa como fora.
O cérebro humano tem uma capacidade extraordinária de memorização, incluindo os paladares. Este sentido é de superior importância para um supermercado, dado que a área alimentar é hegemónica. O consumidor colecionou ao longo da vida um conjunto de “heurísticas” que o ajudam a decidir em muitos momentos. Estas bases sensoriais são importantes no processo de decisão.
Há casos em que a qualidade do produto não é alterada, ou seja, a mesma empresa produz sobre as mesmas condições. Diversas empresas na mesma produção têm rotulagens diferentes, fornecendo para empresas distribuidoras e não distribuidoras. Numa visita recente que fiz a uma empresa de águas reparei que esta empresa continha duas linhas de rotulagem, sendo que numa delas as garrafas eram Penacova e noutra o engarrafamento era para as águas da cadeia Mini-Preço. Numa reportagem feita pela TVI24 na segunda semana do mês de Outubro, um produtor afirmou que vende a um menor preço para grandes revendedores, pois as suas encomendas excedem as da empresa de marca. Esta redução não afeta negativamente os seus lucros.
Mas nem sempre a qualidade se mantem intacta nas marcas consideradas brancas. Na mesma reportagem focaram a existência de uma empresa onde há alteração da qualidade do produto para assim o preço diminuir. O exemplo em causa era do fabrico em grande quantidade de camarão no Vietname, onde diversos campos de arroz deixaram de ser cultivados para dar lugar á criação de camarão. O produto é sujeito a determinado tratamento de crescimento que altera o seu paladar. 
Segundo a DECO, “de uma maneira geral, os produtos de marca da distribuição têm qualidade. Em 33% foram escolhas acertadas e em 14% foram os melhores do teste. Marcas mais económicas representam uma poupança média de 40% face às marcas mais caras, também testadas.” A realidade é que as marcas da distribuição não estão a conseguir ganhar quota de mercado. Estão a perder quota de mercado desde 2012, e nos primeiros seis meses de 2014 recuaram dois pontos percentuais em comparação com o mesmo período de 2013. De acordo com o Barómetro da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), no carrinho de compra dos portugueses 36,2% dos produtos ostentam a marca do híper ou supermercado, mas há um ano o peso era de 38,2%.
As marcas de fabricante, ou seja, detidas pelas empresas de grande consumo conseguiram crescer. Os dados da Nielsen, citados pela APED, mostram que a quota cresceu de 61,8% no primeiro semestre do ano passado para 63,8% no mesmo período deste ano, ou seja, dois pontos percentuais. Este é um cenário bem diferente do que se verificava em 2012. Até esse ano, as marcas da distribuição estavam a ganhar terreno, conquistando sucessivamente quota de mercado. O Barómetro da APED dava conta de um peso de 37,3%%, que desceu para 35,7% em 2013.
Mas afinal o que mudou? Para conseguirem conter o recuo nos gastos, provocado pela crise económica e financeira, os maiores fabricantes viram-se obrigados a reforçar as promoções, os preços aproximaram-se e, na hora de comprar, os portugueses optaram pelos produtos mais reconhecidos, tendo em conta a reduzida diferença de valores. Por outro lado, as cadeias de distribuição também preferem apostar em descontos nas marcas dos fornecedores, já que “os encargos com as promoções recaem nos fabricantes e não nos próprios”.

Ana Luísa Ferraz Pereira 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

A Cultura e a Criatividade na Internacionalização da Economia Portuguesa

Na última década, a taxa de crescimento média anual das exportações culturais e criativas excedeu os 10%, posicionando-se acima do ritmo exportador da economia portuguesa como um todo (9,8%).
Deste modo, a cultura e a criatividade representam elementos transversais e decisivos no processo de reforço da internacionalização e da competitividade da economia portuguesa. Todavia, têm sido erroneamente menosprezadas pelos decisores políticos. Como tal, a exploração de três grandes sinergias, a cultura, o turismo e a indústria, aliadas à inovação e à diferenciação, constituem o reforço da capacidade de produção de bens e serviços com grande valia à escala global, permitindo ao tecido empresarial português impor-se nos mercados externos, da música ao turismo, do cinema ao calçado, do artesanato à ciência. 
Assim sendo, a sinergia cultural propõe um novo dinamismo de projeção internacional das atividades culturais e criativas, partilhando riscos e custos. Através da colaboração dentro e fora deste setor será possível aceder a informação relevante sobre as oportunidades de internacionalização, adquirir competências e melhorar a abordagem aos mercados externos e explorar a diversidade de programas de apoio à exportação. Adicionalmente, é essencial promover o setor cultural e criativo de forma a fortalecer a exposição, o prestígio e o reconhecimento internacional, reforçar os contactos e vínculos no exterior, potenciar estratégias de comercialização e de marca e explorar novos canais de distribuição. Por fim, é necessário conectar o setor cultural e criativo, desenvolvendo parcerias tecnológicas para a transição digital, de modo a tirar pleno partido da maior plataforma de internacionalização que é a internet. 
Relativamente à sinergia turística, importa a relevância da cultura na atração de turistas e do turismo como plataforma exportadora. De forma a fomentar a internacionalização e a competitividade, é fundamental diferenciar os destinos turísticos, oferecendo experiências únicas, autênticas e originais a nichos de mercado a setores sociais com maior poder de aquisição. De forma adicional, é necessário segmentar, aprofundando a compreensão das caraterísticas e das motivações dos visitantes, de modo a maximizar as potencialidades do destino turístico. Por fim, é fulcral interagir, através da utilização das tecnologias de informação e comunicação, disponibilizando informação personalizada, abrangente e atualizada, de modo a potenciar a inovação nos produtos turísticos. 
Complementarmente, a sinergia industrial propõe um avanço em direção a uma nova especialização e a um novo paradigma competitivo, onde a cultura e a criatividade se juntam ao conhecimento, para oferecer às empresas portuguesas uma combinação original de inovação e diferenciação, suscetível de reforçar a sua competitividade internacional e alargar a exportação de valor acrescentado. Para tal, é necessária uma diferenciação e inovação dos produtos que Portugal vende ao exterior, potenciando a inovação incremental e de índole não tecnológica, optando por uma especialização inteligente, através da concentração dos recursos nas áreas mais promissoras em termos de vantagem comparativa, e optando pelo elemento chave - o design
É também essencial a promoção de ambientes multidisciplinares e a procura de formas de eficiência coletiva onde as organizações culturais e criativas possam colaborar com empresas de outros setores. Importa ainda referir que são necessárias medidas mais eficientes de política pública para incentivar o investimento das empresas em fatores imateriais de competitividade, capazes de gerar bens e serviços inovadores que vençam nos mercados internacionais.
Assim, constata-se que é evidente o papel da internacionalização do setor cultural e criativo e o seu contributo para o reforço da competitividade internacional do turismo e das indústrias nacionais no processo de aceleração da globalização. Apesar dos constantes cortes orçamentais, prevê-se uma otimização dos resultados em termos de emprego qualificado, de criação de riqueza, de exportação de produtos e serviços com valor acrescentado e de sustentabilidade económica e social. Citando Augusto Mateus “Vamos para a globalização com aquilo que somos”. 

Ana Raquel Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Economia Verde - o exemplo das Energias Renováveis

Ao longo dos tempos, a consciência de que é fundamental crescer economicamente com sustentabilidade tem sido crescente. Para isso existe, cada vez mais, preocupação por parte das famílias, das empresas e dos governos na adoção de políticas/comportamentos “amigos” do ambiente. Estas políticas/comportamentos são conseguidos através do posicionamento dos sujeitos em um, ou em várias faces do triângulo composto pela eficiência na utilização de recursos, a exploração de recursos renováveis e endógenos, e padrões de produção e consumo mais sustentáveis. 
Em termos globais, a Economia Verde representa uma oportunidade avaliada em 4 triliões de euros, registando um crescimento anual de cerca de 4%. Um desses exemplos é o investimento em energias “limpas”, que ronda os 300 mil milhões de dólares anuais (sendo que 25% é nos Estados Unidos e 25% é na China), e as necessidades de investimento em energia projetadas até 2030 ascendem, globalmente, a 13 triliões de dólares, sendo que 50% são fora da OCDE. 
Em termos políticos, a União Europeia tem quatro metas respeitantes à energia e ao clima para cumprir até 2030 e que de alguma forma influenciam esta Economia Verde. São elas a redução de, pelo menos, 40% na emissão de gases com efeito de estufa face a 1990, a elevação para 40% do rácio de energia total consumida oriunda de fontes de energia renovável, colocação da eficiência energética nos 30% e atingir uma capacidade de interligação para eletricidade entre todos os Estados-membros de pelo menos 25%, face à capacidade total de produção em 2030. Para isso a União Europeia necessidade de investimento nesta área que se projeta que ronde um trilião de euros até 2020, e 2,5 triliões de euros até 2025. 
Portugal tem assim procurado fomentar a eco-inovação e a utilização eficiente dos recursos energéticos, hídricos e materiais. Graças ao seu “cluster” de energias renováveis, entre 2010 e 2014, e segundo Associação de Energias Renováveis, os benefícios líquidos das fontes de energia renovável, na produção de eletricidade, ascenderam a 2,7 mil milhões de euros, sendo que 55% provêm dos operadores e fabricantes. A energia eólica foi aquela que mais contribuiu, com 1.500 milhões de euros, seguida pela energia hídrica, que foi responsável por 910 milhões de euros. Segundo a mesma associação, em 2013, as energias renováveis terão já evitado importações no valor de 1.479 milhões de euros, reduzindo em 12,3, % para 71,7%, o peso das compras de energias fósseis, como carvão e gás natural ao exterior. 
Outro ponto em destaque é o impacto ambiental, ao nível das emissões de CO2 evitadas pela substituição da produção a partir de centrais térmicas a carvão e gás natural. Em 2013, esse valor foi de 10,6 milhões de toneladas de CO2, equivalente a um ano de emissões do parque automóvel nacional. Até 2020, o estudo prevê que se possa poupar, com base no aumento da capacidade de produção renovável e na previsível subida das licenças de CO2 no mercado internacional,187 milhões de euros. 
Em suma, e embora nestes últimos anos tenha existido uma desaceleração nesta sector provocado pela crise económico-financeira que culminou na intervenção da ‘troika' e no corte dos apoios ao sector, espera-se, que até 2020 31% das fontes energéticas sejam renováveis (60% na eletricidade e 10% nos transportes) – o que faz de Portugal um dos melhores países do mundo em política climática. Além disso, esta área de negócio deverá criar em Portugal perto de 18 mil novos postos de trabalho, representando um acréscimo de 40% face a 2013. A chamada eletricidade verde contribuirá ainda com cerca de mil milhões de euros para o Produto Interno Bruto (PIB), mais 40% do que a riqueza gerada no ano passado. Dito isto, parece haver motivos mais que suficientes para uma aposta neste sector estratégico.   

Telmo Filipe Lino Martins

Fontes: 
Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia;
Associação de Energias Renováveis - Estudo sobre “Impacto macroeconómico do setor da eletricidade de origem renovável em Portugal” (http://www.apren.pt/

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Prestações Sociais e Pobreza em Portugal

Recentemente foram publicados dois relatórios sobre Portugal, um da OCDE sobre o desempenho da economia nacional, e um outro da Unicef sobre o impacto que a crise está a ter nas crianças. Sendo dois relatórios distintos, tocam-se e cruzam-se num ponto essencial: a importância das prestações sociais.
A OCDE diz que Portugal é um dos países da Organização onde as despesas sociais menos corrigem as situações de pobreza, não porque o Estado não gasta o dinheiro mas porque, aparentemente, gasta-o mal. O mexicano Angel Gurría (Secretário Geral da OCDE) identificou 13 prestações sociais em Portugal onde recomendou que se colocasse um tecto à acumulação desses benefícios. O objectivo seria incentivar os beneficiários a regressar ao mercado de trabalho e evitar situações de fraude ou de abuso de benefícios aos quais na realidade não tinham direito, para uma repartição de rendimentos justa, de forma a reduzir as assimetrias sociais e ajudar aqueles que mais precisam. 
Infelizmente em Portugal, muitas pessoas/famílias preferem viver daquilo que o Estado lhes garante do que procurar um emprego, e esse “parasitismo social” tem efeitos nefastos para a Segurança Social, que, por sua vez, já de saúde instável, continua a redistribuir mal as prestações, sendo muitas vezes quem mais precisa o mais prejudicado.
A ideia não é nova. O Governo, no Orçamento do Estado, também veio propor uma medida semelhante, em que a soma das prestações sociais teria um limite. E esse limite seria o salário médio dos trabalhadores não qualificados.
Até aqui, OCDE e Governo estão de acordo. Onde começam a divergir é sobre o que fazer com o dinheiro que se poupa ao colocar um tecto aos benefícios sociais. E o Governo não sai muito bem na fotografia. Enquanto a OCDE sugere que a poupança seja utilizada para subir o valor do rendimento social de inserção (RSI), de forma a reduzir as assimetrias de rendimentos em Portugal (de notar que Portugal se assume como o sexto país da União Europeia onde há mais desigualdade entre ricos e pobres), o Governo prefere canalizar a poupança (100 milhões) para o Orçamento. Ou seja, enquanto a OCDE propõe uma redistribuição mais justa das prestações sociais, o Governo pretende obter uma poupança orçamental. Não existe nenhum mal nos nossos governantes quererem poupar (talvez seja melhor ideia do que investir em submarinos e infra-estruturas de defesa nacional), mas pelo menos aumentem as condições de vida daqueles que pior vivem no nosso país.
E é neste ponto que o relatório da OCDE se cruza com o da Unicef, que faz um retrato dramático sobre a situação das crianças que estão a ser vítimas da crise. Os números mostram que em Portugal havia 560 mil crianças em risco de pobreza e exclusão social. Para a Unicef, o desemprego (dos pais das crianças) é meio caminho andado para se chegar a uma situação de pobreza. O resto do caminho faz-se porque o Estado tem vindo a cortar de uma forma significativa o apoio às famílias. Segundo a organização, por exemplo, 546.354 crianças perderam o direito ao abono de família entre 2009 e 2012.
Na comparação com o exterior, Portugal também não sai bem na fotografia. Em 2009, o Estado português investiu 1,7% do PIB em despesas com prestações familiares, contra os 2,6% da média da OCDE.
Naturalmente que em tempos de crise, mais do que nunca, o Estado deve gerir bem o dinheiro público e evitar que as prestações sociais funcionem como forma de desincentivar o regresso ao mercado de trabalho. Mas também é por estarmos em tempos de crise que deve ser exigido ao Estado bom senso na altura de cortar os benefícios sociais aos que menos têm. Não podemos chegar a uma situação em que consideremos normal repetidos depoimentos como os de Fernando, de 14 anos, que aparece no relatório da Unicef a dizer: "Quando não há comida, os meus pais fazem isto: deixam de comer para nos dar à gente." Penso que não há necessidade de termos tão pouca gente com tanto e tanta gente com pouco. Não há necessidade de haver fome, num país com valores solidários e hospitaleiros como o nosso, muito menos de crianças, que não têm a menor culpa da crise onde estamos mergulhados… É tempo dos nossos governantes irem á realidade de quem vive mal, de quem tem um salário mal pago e filhos para alimentar, despesas para pagar, uma vida trabalhadora mas que por vezes não chega para satisfazer as necessidades de todos os elementos do seu agregado familiar. É tempo de retirar àqueles que recebem sem precisarem, “parasitas” sociais que, através de benefícios concedidos pelo Estado, vêem o seu rendimento aumentar sem nada fazer por isso, muitas vezes sem precisarem de um cêntimo dessas contribuições… E mais uma vez é o pobre que se sujeita…
Estima-se que em Portugal 1 em cada 4 pessoas viva abaixo ou no limiar da pobreza (cerca de 25% da população). Há hoje em dia relatos de fome, de crianças a idosos, que muitas vezes não têm certezas do amanhã, enquanto pequenos grupos continuam a viver à custa dos outros, à custa dos bolsos dos contribuintes só porque, muitas vezes, não lhes apetece trabalhar. Será que os nossos governantes andam de olhos vendados? É dificil ver futuro numa sociedade em que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres…

Afonso Pereira

Referencias

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Dívida pública portuguesa

A dívida pública de Portugal, também denominada como dívida das administrações públicas, é o valor que o estado português deve, externa e internamente, através dos seus diversos compromissos financeiros. 
Houve dois períodos desde princípios do séc. XXI em que a dívida pública portuguesa teve um crescimento acentuado. O primeiro foi a partir do ano 2000, em que esta começa a ter um crescimento acentuado, o que viria a contribuir para criar no país uma crise estrutural. Todavia, o grande salto que se faz na dívida pública, em paralelo com o resto da Europa, é no período pós-2008, ou seja, após a crise internacional da Grande Recessão, que provocou a crise das dívidas soberanas. Sendo a dívida apresentada em percentagem do Produto Interno Bruto, ela é na realidade apresentada como um rácio. Assim o aumento da dívida após 2008 resulta também do facto de, estando o PIB a diminuir, aumenta-se o referido rácio, mesmo que em teoria, em valores absolutos, a dívida não aumentasse.
Houve alguns factores, desde o início do programa de ajustamento financeiro que teve início em 2011, que fizeram crescer a dívida pública, mesmo tendo havido corte da despesa. Tendo havido recessão e sendo a dívida apresentada como um rácio, este aumenta exactamente porque o PIB diminui. Uma boa parcela da dívida até 2011 estava "oculta", pois apesar de tecnicamente ser pública, a mesma não era apresentada na contabilidade oficial da dívida. Desde 2011 que essa dívida tem passado gradualmente para o domínio do Tesouro, ficando as empresas públicas obrigadas a financiarem-se junto do Orçamento de Estado e não da banca comercial. 
Falando mais precisamente em estatísticas, Portugal apresentava em 1991 uma dívida de 54,9%. No final de 2013, a dívida pública de Portugal situava-se em 129,4% do PIB, cerca de 215 mil milhões de euros, aproximadamente 20 mil euros por habitante. O valor em causa (130% do PIB), corresponde aproximadamente a 1 ano e três meses de produção nacional. 
Entre 1995 e 2000, Portugal manteve uma dívida pública, em percentagem do PIB, substancialmente inferior à média da Europa. O grande salto para o endividamento faz-se no período 2000 a 2008, antes da crise internacional. Em 1995, só 4 países tinham dívidas mais baixas do que o nosso país. Nenhum país conheceu neste período maior acréscimo do peso da dívida.
Como seria de esperar, a razão encontrada para o grande endividamento público português terá sido o resultado da necessidade de responder à crise internacional. O mau comportamento dos agentes privados provocou a crise à qual os poderes públicos ocorreram, aumentando a despesa e dívida públicas para suportar os encargos sociais acrescidos pela crise e estimular a economia. No entanto, esta explicação para o enorme endividamento público não é correcta, nem para Portugal nem para a Europa em geral. Isto porque o grande arranque da dívida pública portuguesa dá-se a partir de 2000 e não apenas, como na Europa, após 2008. Só em Portugal (42,1% contra 40,8%) e Alemanha ( 10,8% contra -5,9%) o crescimento do peso da dívida pública foi superior ao da dívida privada. 
A narrativa que atribui à crise o insuportável endividamento publico português não é apenas uma atrevida e errónea interpretação do passado. Ela serve o desígnio de alimentar a insistência nos mesmos erros de política económica que nos trouxeram à desgraçada situação de falência: sempre mais dívida, agora trasvestida de euro-obrigações, obrigações de projecto, acréscimo de créditos e de massa monetária do BCE e o mais que por aí circula loucamente. Justifica-se, assim, duplamente a sua contestação. 

Letícia Fonseca

Fontes
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/divida_publica_subiu_para_1324_no_primeiro_trimestre.html

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

domingo, 26 de Outubro de 2014

Portugal, um país envelhecido

Portugal apresenta modificações demográficas de ampla escala e com importantes repercussões sociais, económicas e culturais. A evolução demográfica em Portugal, no passado recente, caracterizou-se por um gradual aumento do peso dos grupos etários seniores e uma redução do peso da população jovem. O efeito cumulativo da diminuição das taxas de mortalidade e de natalidade ao longo de várias décadas tem vindo a alterar o perfil demográfico da população portuguesa, cujo traço mais marcante é o progressivo envelhecimento da sociedade portuguesa.
Observa-se um estreitamento relativo da base da pirâmide de idades (isto é, menor peso de efectivos populacionais jovens) e um alargamento do topo (aumento relativo de efectivos populacionais idosos). A população idosa ocupa cada vez mais um papel fundamental na estrutura da nossa sociedade. 
Esta melhoria da esperança média de vida dos portugueses tem sido muito expressiva na segunda metade do séc. XX: em 1940, os homens tinham uma esperança média de vida de 48,6 anos e as mulheres de 52,8. Em 1993 era, respectivamente, de 71 e 78,1 anos. Em 2009, os dados demográficos do Eurostat apresentavam, para Portugal, uma esperança média de vida à nascença de 76,5 anos para os homens e 82,6 para as mulheres.  
 Os ganhos significativos da saúde em Portugal, ao longo das últimas décadas, constituem uma base importante para a melhoria do bem-estar, nomeadamente das populações idosas. 
Segundo o último relatório anual do Conselho da Europa sobre a "Evolução demográfica recente na Europa", os portugueses serão menos um milhão em 2050 e a população estará ainda mais envelhecida, havendo perto de 2,5 idosos por cada jovem. A população idosa deverá praticamente duplicar ao longo dos próximos 40 anos, prevendo-se que venha a pesar 32% do total da população residente em Portugal em 2050, enquanto a população jovem só deverá vir a representar cerca de 13%.
Por estas razões, Portugal é o sexto país mais envelhecido do mundo e, em 40 anos, passou de um país com a maior taxa de natalidade da Europa para detentor de uma das taxas de natalidade mais baixas.
Perante este cenário, a conclusão é óbvia: a população portuguesa está a estagnar, a envelhecer e com falta de activos para suportar os custos do envelhecimento. O envelhecimento da população portuguesa deve-se ao contínuo decréscimo da taxa de natalidade, à redução da taxa de mortalidade e ao aumento da esperança média de vida. Este último dado resulta da melhoria das condições de vida, dos progressos da medicina e da melhoria da assistência médica. A esperança média de vida está directamente relacionada com o grau de desenvolvimento dos países, o que significa que quanto mais desenvolvido for o país maior será o número de anos que o indivíduo terá, à nascença, probabilidade de viver. 
No entanto, será que estamos a fazer os esforços necessários para combater o envelhecimento da população portuguesa? Existem incentivos para o aumento da taxa da natalidade? O abono de família é suficiente para manter um filho? Existem subsídios satisfatórios de nascimento? Não! Daí os casais terem filhos cada vez mais tarde e em menor número. Por estas razões, a população idosa está a ganhar cada vez mais peso relativamente à população jovem. 
Por tudo isto, Portugal será crescentemente um país de velhos!

Letícia Fonseca

Fontes: 
http://www.publico.pt/sociedade/noticia/portugal-e-o-sexto-pais-mais-envelhecido-do-mundo-1611852 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

Violência doméstica mata cada vez mais!

Tem-se tornado mais perigoso viver em Portugal. Não há segurança nas ruas, nas casas e muito menos se faz justiça perante certos acontecimentos. Um desses casos, e muito grave, é a violência doméstica. Acho importante falar deste tema não só pelo facto de eu ser mulher e achar repugnante o poder abusivo de certos homens, que por vezes se designam como maridos ou namorados, mas também porque a violência doméstica é o fenómeno criminal que dá origem a mais inquéritos (no entanto, 75,3% dos casos acabam arquivados).
A mulher continua a ser a principal vítima de todos os tipos de crime, com 80% dos crimes praticados contra o sexo feminino. O autor do crime é predominantemente do sexo masculino (78%). Traçando o perfil da vítima de crime, com base nos dados recolhidos pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), verifica-se que: a vítima é mulher; tem entre os 35 e os 40 anos ou mais de 65 anos; é portuguesa; é casada; tem a sua família nuclear com filhos; trabalha por conta de outrém e reside nas grandes cidades.
De acordo com as Estatísticas/Relatório Anual 2011, 19 mulheres por dia foram vítimas de violência doméstica em Portugal, nesse mesmo ano. No total, foram registados 15.724 crimes de violência doméstica contra as mulheres.
Segundos os dados da GNR e da PSP, em 2012, morreram 37 mulheres e foram registadas 26.084 queixas, cerca de mais 10.000 do que no ano anterior. 
Em 2013 foram assinaladas 27.318 participações, correspondendo a um aumento de 2,4 relativamente a 2012.
Agravando a situação, apenas no primeiro semestre de 2014, conseguiu-se registar um aumento de 2,3%, em que 24 mulheres foram assassinadas e foram recebidas 13.071 queixas, mais 291 do que no mesmo período do ano anterior. A PSP registou 7574 denúncias nos primeiros seis meses do ano (mais 1,7%) e a GNR 5497 queixas (mais 3,1%). Em 42% dos casos, o crime foi cometido pelo marido, companheiro, namorado, e em 37% pelo ex-marido, ex-companheiro, ex-namorado.
A maioria dos homicídios praticados ocorre com arma de fogo, arma branca, por espancamento, asfixia ou estrangulamento. A residência surge como o local mais perigoso, onde ocorreu a maioria dos homicídios, seguindo-se a via pública e o local de trabalho. 
Perante este número, conclui-se que “a permanência em relações violentas aumenta o risco de violência letal, considerando-se assim a violência doméstica como um preditor do femicídio e tentativa do mesmo”.
Com o passar dos anos, esta questão deveria ter tomado outros rumos. Não é seguro viver nem manter relações em Portugal, visto que, falando como mulher que sou, não somos nem nos sentimos protegidas pelo nosso sistema de justiça. A mentalidade portuguesa não tem avançado no caminho certo relativamente a este delicado tema. Não existem quaisquer tipo de desculpas e explicações para os números acima referidos.
Olhando para os números antes apresentados e sua evolução, será legítimo questionar-nos se há alguma relação entre esses dados e a conjuntura económica que o país atravessa? O que podemos nós fazer para lutar contra isto? E, do ponto de vista da acção, será que é sensato ficar em casa com o marido/namorado sujeitas à violência ou isolar-nos do mundo com medo das consequências? Outras questões que podem ser levantadas são: de que vale apresentar uma queixa se sabemos que vai ser arquivada? Resta-nos deixar-mo-nos simplesmente morrer? Imensas questão que aparentam não ter respostas positivas para as mulheres do nosso país. Parece que a solução é suportar até à morte!
Todos devem saber: uma mulher morta que seja é sempre um número altíssimo…

Letícia Fonseca

Fontes

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]