segunda-feira, 26 de setembro de 2016

APRENDER A EMPREENDER – A ESCOLA, O LUGAR ONDE

O reconhecimento da relevância das dinâmicas de empreendedorismo foi ganhando terreno nos discursos sociopolíticos, fenómeno evidente no eco produzido pelos media, e disseminou-se muito para além do domínio estrito da esfera empresarial, porque se foi sedimentando a perceção de que a tessitura de uma economia sólida depende de uma rede de interações, mormente com o domínio da educação.

Na União Europeia, desde há mais de uma década que o objetivo de implementar a educação para o empreendedorismo, pela sua correlação com a empregabilidade e a vitalidade económica, se tornou um desígnio prioritário da agenda política; no entanto, nem todos os países caminharam ao mesmo ritmo na persecução desta meta. Pela análise de um estudo da Comissão Europeia (relativo a 2014/15), constatamos que as estratégias específicas de educação para o empreendedorismo estão concentradas no norte da Europa e na região das Balcãs Ocidentais, sendo Portugal um dos países onde não existe uma estratégia nacional.

É certo que a Direção Geral da Educação trabalha já na promoção de um papel ativo das escolas no desenvolvimento do espírito empreendedor – apresenta, na sua página online, essa intenção, documentos de referência, projetos e concursos, recursos educativos e ferramentas de avaliação – porém sem que isso resulte na definição de uma linha de ação efetiva vertida, por exemplo, nos curricula. Assim, fica ao critério, e vontade, das escolas o comprometimento com a inclusão de estratégias de aprendizagem estimuladoras de perfis empreendedores, o que parece democraticamente válido mas que compromete, certamente, a desejável difusão de práticas neste domínio.

Apesar de as abordagens à educação para o empreendedorismo poderem ser várias – desde a sua configuração como disciplina à tematização incluída nos programas das disciplinas que já integram o currículo ou enquanto área interdisciplinar –, a verdade é que o exercício de experiências de aprendizagem centradas nesse objetivo não tem ganho espaço significativo na moldura escolar (são tão residuais os casos de escolas que criaram a disciplina como oferta de escola quanto os exemplos de exploração de dinâmicas de empreendedorismo no âmbito dos programas das disciplinas instituídas) e parece confinar-se, maioritariamente, ao pontual decorrente da participação em projetos e concursos.

Claro que as modalidades podem e devem ser heterogéneas consoante o público-alvo a que se destinam: turmas do ensino regular vs. ensino profissional (será sempre mais premente ser disciplina no plano de estudos dos cursos profissionais, porque estes preparam jovens adultos para a entrada no mercado de trabalho); alunos dos ciclos do básico ou secundário (sobretudo nos primeiros ciclos, o importante é estimular a curiosidade, a cooperação, a ideia de superação, algo trabalhável no âmbito das áreas disciplinares existentes). O problemático será se o volume de experiências educativas que envolvem o desenvolvimento de competências de empreendedorismo se reduzir a avulsas atividades extracurriculares, coincidentes com o calendário de concursos de ideias/projetos, de incipiente implicação disciplinar/interdisciplinar.

Não obstante a ressalva sobre a limitação de um trabalho decorrente apenas de estímulos exteriores à escola, sem uma linha de ação pedagógica intrínseca, é inegável o contributo dos concursos de ideias e projetos, cada vez mais a multiplicarem-se do local ao nacional (o INOVA é um bom exemplo da forma como diferentes instituições se associam para promover dinâmicas de empreendedorismo); bem como das iniciativas da própria esfera empresarial, ou desenvolvidas com a sua parceria, que procuram incentivar o espírito empreendedor no contexto escolar (casos da Associação Nacional de Jovens Empresários e da Associação Industrial Portuguesa); potenciando competências importantes para o percurso académico, a vida pessoal/profissional e o quadro económico-social.

Enfim, apesar do atávico atraso de Portugal, começam a ser dados passos no sentido de promover o empreendedorismo em contexto escolar, todavia ainda pouco consistentes face aos desafios que se colocam aos jovens e premência no quadro de uma crise económica onde o impulso empreendedor, assente na criatividade e inovação, pode ser essencial para potenciar o aumento da taxa de empregabilidade. Falta uma política educativa clara que fomente a implementação de práticas coerentes e consequentes que viabilizem aprendizagens específicas neste domínio da construção do conhecimento que é o empreendedorismo, pois Portugal precisa de jovens proativos, que tenham ambição e visão, que sejam o futuro.



Inês Magalhães Castro Silva


[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

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