terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A Desigualdade da Digitalização

           A cada segundo que passa, surge mais uma invenção tecnológica. Apesar de falar numa questão de segundos poder, à partida, parecer uma hipérbole, a verdade é que se olharmos para a realidade de há 15 anos no que concerne às tecnologias disponíveis, vemos que muito mudou. Contudo, a dúvida que persiste é se a rápida transição para esta nova era digital, a que temos assistido nos últimos anos, trará benefícios suficientes que nos permitam ignorar descaradamente os malefícios causados.

          Não existem quaisquer dúvidas de que o advento da tecnologia nos tem permitido derrubar barreiras nunca desmoronadas: encurtou distâncias outrora demasiado grandes; melhorou a eficiência de muitos serviços prestados; capacitou as sociedades com mais ferramentas, sobretudo úteis em situações extremas, como a pandemia que atualmente vivemos; entre muitos outros benefícios.         

          Nunca foi tão fácil e rápido aceder ao que precisamos. Na verdade, no que a Portugal diz respeito, com apenas um clique, podemos encomendar comida sem sair de casa, criar conta num banco ou gerir a já existente a partir do conforto do nosso sofá, tratar das Finanças e da Segurança Social sem enfrentar longos períodos de espera, fazer uma consulta médica por videochamada, evitando deslocações desnecessárias e novos contágios.

          Contudo, sendo muito comum que, a acompanhar as incríveis consequências de algo, existam sempre aspetos negativos, quais são os malefícios, frequentemente esquecidos, de tal evolução? A rapidez do desenvolvimento tecnológico e da transição para uma era onde (quase) tudo pode ser feito usando as tecnologias de informação e comunicação veio acentuar, ainda mais, as desigualdades que já existiam. Apesar de estarem facilmente disponíveis, as tecnologias continuam a não ser acessíveis para aqueles cuja capacidade financeira, tantas vezes insuficiente para promover uma vida digna e confortável, não estica.

          Desta forma, a digitalização de grande parte dos serviços implica uma maior desigualdade no acesso aos mesmos, tal como foi exemplo, em Portugal, a transição para o ensino à distância, que, apesar de ser imperativamente necessária, acentuou a incapacidade de muitos alunos acompanharam as aulas por não possuírem os meios necessários para tal.

          Estas desigualdades, porém, não surgem apenas da menor capacidade financeira dos indivíduos, já que o uso das tecnologias pressupõe, igualmente, que quem as utilize possua os conhecimentos para tal. Contudo, se para aqueles que cresceram com estes desenvolvimentos pode ser fácil acompanhar a evolução, o mesmo pode não se verificar com os que viveram mais de metade da sua vida sem a existência destas tecnologias. Não querendo, de todo, afirmar que as dificuldades no uso de tecnologias são homogéneas e específicas a determinada faixa etária, considero ser irrealista acreditar que a adaptação a esta nova realidade será somente difícil para uma proporção insignificante da população.

          Assim, convergindo para a questão inicialmente apresentada, deveremos deixar de investir na inovação tecnológica ou parar a transição para a era da digitalização? Do meu ponto de vista, a resposta é obviamente negativa, até porque todos nós (não só a nível individual, mas também enquanto sociedades) beneficiamos profundamente com esta nova realidade. A utopia, a meu ver, é considerar que esta transição pode ocorrer de um dia para o outro e que tal não impactará negativamente uma percentagem significativa da população, nem acentuará as graves desigualdades que já existem.


Beatriz Costa Azevedo 

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

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