segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Brexit e a campanha do Facebook

Desde do dia 4 de junho de 2016 que o Brexit passou a ser um dos temas mais atuais e polémicos. Os dias posteriores foram um autêntico caos, existiam pedidos para um segundo referendo, como se tratasse de um jogo de futebol em que todos se culpavam uns aos outros: os jovens acusavam os mais velhos, as pessoas com mais habilitações culpavam as pessoas com menos habilitações e por aí adiante.
Assim, quem votou na decisão de “Sair da União Europeia” e, acima de tudo, “O que levou as pessoas a tomarem essa decisão”, passaram a ser as questões centrais.
Ao analisarmos os resultados da votação do referendo, percebemos que o voto se dividiu por idade, habilitações, classe social e situação geográfica. Logo, através dos resultados estatísticos, percebemos que os jovens pouco votaram, no entanto os que votaram desejavam permanecer na União Europeia (UE). No entanto, do outro lado da moeda estava a população mais velha, que desejava sair da mesma.  
Ao passarmos para uma análise a nível geográfico percebemos que Londres e a Escócia foram os zonas onde a população mais “lutou” para permanecer na UE, enquanto que noutras zonas existiu uma ambivalência bastante notória. Para além disto, os dados permitem ainda concluir que as pessoas com maior nível de formação, votaram de forma mais notável contra o Brexit, comparativamente às pessoas com menos habilitações. Todavia, os estudos também demonstraram que as regiões que mais votaram a favor da saída da União Europeia são aquelas que mais dependem economicamente da mesma, o que nos faz refletir sobre os motivos efetivos que levaram essas populações a votarem dessa forma.
Ao observarmos os motivos dos “Leavers” (população que deseja sair da UE) percebemos que algumas pessoas tomaram essa decisão devido ao descontentamento com a política da altura, ou seja, foi um voto de contestação ao sentirem que ninguém os representava e que não existia um partido que falasse por eles, tal como aconteceu no Brasil aquando da eleição de Jair Bolsonaro e nos EUA com Donald Trump.  
O nome do atual presidente americano voltou a surgir, curiosamente, como uma referência quando se começou a perceber as ilegalidades que foram cometidas durante a campanha do referendo, devido a algumas semelhanças entre as campanhas. Através da análise da “campanha Leave”, percebemos que foram usadas ferramentas de ódio e medo, maioritariamente via online.
Foram diversas as ilegalidades cometidas durante a campanha do Brexit, sendo que uma delas esteve relacionada com o plafond da campanha. O Reino Unido tem leis sobre a quantia máxima permitida para uma campanha e dias antes da votação a “campanha Leave” excedeu o plafond legal em cerca de 750 mil libras. Com este dinheiro ilegal criou notícias falsas, nomeadamente sobre a Turquia e a imigração, que foram propagadas apenas a um grupo restrito da população considerado influenciável. Contudo, uma das maiores ilegalidades foi cometida através de uma empresa chamada Cambridge Analytica. Esta empresa possuía o perfil político de cerca de 87 milhões de pessoas, recolhido ilegalmente no Facebook, o que permitia perceber os seus medos individuais para as atingir com anúncios falaciosos nesta rede social.
Deste modo, é possível pensarmos que esta fraude foi apenas “dinheiro mal gasto” e que foram apenas uns “anúncios online”, porém esta foi a maior fraude eleitoral nos últimos 100 anos na Grã-Bretanha, numa eleição única para a nação, que foi decidida por apenas um por cento dos votos. E se há algo que a eleição para o referendo veio comprovar foi que a democracia liberal foi viciada, mais concretamente que o Facebook deixou viciar, uma vez que não é democrático espalhar mentiras financiadas por dinheiro ilegal, cuja origem é desconhecida.
Em jeito de conclusão, penso que a democracia é um dos bens mais preciosos que possuímos e que, por vezes, a tomamos como garantida e inevitável. Considero que é nosso dever lutar pela mesma e que parte dessa luta passa por não deixar que empresas com influência global possam ser controladas, ou não punidas. A eleição do Brexit, cujo resultado eleitoral afeta o mundo e não apenas um país, demonstrou que já não se trata de apenas “esquerda” ou “direita”, “sair” ou “ficar”, mas sim de termos eleições livres e acima de tudo justas. Trata-se de a decisão final ser do povo e não de quem mais contornou as regras. Trata-se da forma como lidamos com a situação: se não fazemos nada e continuamos a brincar com os nossos telemóveis, ou se lutamos pelos nossos direitos e exigimos mudanças.

Ana Catarina Silva

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

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