sábado, 4 de novembro de 2017

A INDúSTRIA DOS INCÊNDIOS

Não há como fugir à triste realidade: estamos perante o ano mais negro de sempre no que toca a incêndios em território nacional. Foram mais de 500 mil hectares de área ardida que resultaram em mais de uma centena de mortos. Mas de quem será a responsabilidade? Será da negligencia e desleixo das pessoas? Serão apenas causas naturais? Ou serão causados por atos criminosos?
É evidente que o calor e os períodos de seca são propícios a estas catástrofes, porem não me parece justificação para tanta área ardida. Se assim fosse, Itália, com o dobro dos fogos do nosso país, não teria apenas ¼ da nossa área ardida.
Para mim, é evidente que a falha está no sistema Português, e na sua especialização no combate aos fogos. É aqui que o Governo deveria entrar em ação. Existem milhares de bombeiros espalhados pelo país que combatem todos os anos incêndios atrás de incêndios, dão a cara pelo país e protegem a nossa população, servem o povo, dever esse que toca também ao Governo. Na minha opinião, há falta de investimento no que toca a formação e equipamento de combate aos incêndios, havendo também falhas óbvias no tocante à prevenção que deve existir durante todo o ano.
A instabilidade é tanta no Governo que o Presidente da Republica discursa em direto dizendo: “É preciso pensar, abrir um novo ciclo. Com quem? E é preciso romper com quem provoca a descrença”. É evidente depois desta afirmação que a Ministra estava, no máximo, a dias de se tornar Ex-ministra, aquilo que se veio a verificar.
E quem beneficia com o circuito de madeira queimada? Exatamente, não pode haver dúvidas que há mão criminosa nestes atos. Sendo que quando há um incêndio, o preço que a empresa paga pela madeira sofre uma queda brutal. É evidente que com tanto dinheiro em jogo existam pessoas sem olhar aos meios para atingir os fins.
Mas não é só. Durante anos, empresas do setor da aviação terão feito um “esquema de consórcio cartelizado” para garantir o concurso público, levando o Estado a pagar muito mais do que as operações efetivamente custavam. O Estado chegou a pagar entre 20 e 30 por cento mais por um helicóptero ligeiro do que paga atualmente, porque as empresas se juntavam e “faziam o que queriam”.
Até 2015, cada hora de voo de um Kamov custava cerca de 35 mil euros. Atualmente são 5333 euros por hora de voo. Os contribuintes atualmente pagam o mesmo pela sua operação e manutenção que até à data pagavam só em manutenção, manutenção essa, tão eficaz, que deixou 4 helicópteros parados.
Não nos podemos esquecer de Miguel Macedo, ministro acusado ainda no Governo de Passos Coelho, no processo Vistos Gold, de ter enviado à Faasa os cadernos de encargos do concurso de 2014 para a operação e manutenção dos Kamov. É importante realçar que a Faasa é investigada em Espanha por uma alegada ligação ao “cartel de fogo” espanhol.
Esta explicação sobre o que se passa, ou se passou, nos concursos públicos dos meios aéreos explica bem o porquê de eu ter centrado responsabilidades no Sistema e não no Governo. Quando sucessivos governos falham, a falha está no sistema e não só no Governo em atividade.
Como solução, gostava que fosse experimentada a plantação de mais “árvores bombeiras” (bidoeiros, carvalhos e castanheiros). São árvores que no verão estão verdes e no outono deixam cair folhas pouco inflamáveis, o que impede as mesmas de arder em caso de incêndio, travando a propagação do mesmo. Estudos revelam que raríssimos fogos têm origem em zonas onde existem estas árvores. Outra solução é estabelecer um preço mínimo para a madeira queimada, medida essa que já foi posta em prática pelo governo, já estando em vigor atualmente.
O Senhor Primeiro Ministro enumerou as principais causas destes dias de Inferno, pela seguinte ordem: mau ordenamento e limpeza das florestas; negligencia e desleixo das pessoa; e Crime. 
Gostava então de concluir, dizendo que a minha opinião difere totalmente da de António Costa. Para mim, a principal causa dos incêndios tem sido a prática criminosa. Se bem se recordam, no início deste comentário disse que em Itália existe o dobro dos fogos mas apenas ¼ da área ardida do nosso país. Com isto quero dizer que em Portugal arde demasiada área. Tanta que leva a pensar que só um ato criminoso extremamente organizado conseguiria levar avante. Como disse o diretor-adjunto de Informação da SIC, José Gomes Ferreira, “Quem faz isto sabe estudar os dias e o vento para arder o máximo possível”.

Rui Coelho

  [artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

1 comentário:

Anónimo disse...

Lindo!! Excelente opinião! Ainda bastante atual...