quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A POUPANÇA E O ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS

A poupança é a parte do rendimento disponível do agregado familiar que não é utilizada como despesa de consumo final. A quantidade de dinheiro que as famílias estão a poupar pode ser medida através da taxa de poupança das famílias, que é definida como a proporção de poupança do agregado familiar relativamente ao seu rendimento disponível.
A tendência de uma descida da taxa de poupança é justificada pela facilidade de acesso ao crédito. A procura de crédito por parte das famílias é sustentada pelas expectativas de crescimento e pela confiança na capacidade do Estado em cumprir os compromissos assumidos.
Na verdade, a taxa de poupança, em Portugal, registou um aumento durante o período de crise e, posteriormente, tem apresentado uma evolução no sentido da baixa, embora com algumas flutuações. Em 2018, a taxa de poupança das famílias terá atingido o valor mais baixo de sempre e, em 2019, prevê-se que ronde os 5% do rendimento disponível. Portugal é um dos países da zona euro com uma taxa de poupança significativamente abaixo da média registada nos países da zona euro, o que é motivo de preocupação.  
                      
                                                     Fonte: Pordata

                                                   - Luxemburgo; -UE; -Portugal. 
                                                     Fonte: INE
                       
Contrariamente a Portugal, a taxa de poupança das famílias na UE tem sido bastante estável desde o início do milénio, oscilando entre 11% e 13%. O padrão é aproximadamente o mesmo na Zona Euro, mas com taxas ligeiramente superiores. As mais elevadas taxas de poupança das famílias foram observadas no Luxemburgo, na Suécia, na Alemanha e na França, e as mais baixas em Chipre, na Lituânia, na Letónia e na Polónia.

O crescimento do endividamento resulta de muitos fenómenos que também contribuem para a redução da taxa de poupança, por exemplo, a facilidade de acesso ao crédito e o crescente consumismo. Portanto, existe uma ligação entre a evolução registada destes dois indicadores.

O endividamento, ou seja, o recurso ao crédito genericamente, está ligado à aquisição de habitação própria, à aquisição de um veículo, à realização de obras em habitação e ao consumo de bens e serviços. Em situações limite, as famílias podem recorrer ao crédito para fazer face a imprevistos.

Por sua vez, no que concerne à composição da riqueza das famílias, verifica-se que esta é representada por mais de 75% em imóveis, 15 % em ativos não financeiros e o restante em ativos financeiros. 





É importante continuar a controlar a forma como os bancos praticam a concessão de crédito, ou seja, se estão a cumprir as recomendações do supervisor, para evitar que o rendimento disponível seja todo absorvido num empréstimo à habitação, não deixando margem para que se faça uma poupança. 

É importante que a taxa de esforço não ultrapasse um determinado limite face ao rendimento das famílias (50%) e que o empréstimo não se prolongue (mais de 30 anos) além da vida ativa do devedor, já que a pensão de reforma será, certamente, inferior ao rendimento auferido durante a vida ativa. Desta forma, surge a necessidade de as pessoas pouparem durante a vida ativa de forma a garantirem uma redistribuição dos seus rendimentos ao longo dos diferentes períodos, permitindo-se assim um alisamento do consumo. 

Como referido anteriormente, as famílias portuguesas, quando comparadas com as dos restantes países da área do euro, apresentam rácios do serviço da dívida e do montante da dívida no rendimento superiores. No entanto, apresentam um menor rácio da dívida face aos ativos. Esta situação resulta, designadamente, do facto de em Portugal uma maior percentagem de famílias ser proprietária de imóveis (cerca de 75% da riqueza das famílias) e de financiar a respetiva aquisição através do recurso ao crédito.

Em Portugal, praticamente, nada tem sido feito para incentivar a poupança. A última iniciativa realizada foi a criação do Regime Público de Capitalização (RPC), em 2008. O RPC é um regime complementar de adesão individual e voluntária, que permite efetuar contribuições adicionais ao longo da vida ativa do aderente, que serão capitalizados numa conta em seu nome e convertidos em certificados de reforma.

No entanto, existem medidas que incentivam a poupança, que decorrem, por exemplo, da atribuição de benefícios fiscais a produtos associados à poupança ou, até, da inclusão de uma percentagem nos salários dos trabalhadores alocada a uma conta poupança (com a autorização do trabalhador). Desta forma, a meu ver, incentivos ao aumento da poupança dos particulares são necessários para o desenvolvimento sustentável do país e, por isso, o Estado pode desempenhar um papel fulcral no que concerne à sua contribuição para a inversão deste ciclo vicioso de (des)poupança a que as famílias têm vindo a aderir. 

Cláudia Oliveira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

Sem comentários: