quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ENDIVIDAMENTO DAS FAMILIAS PORTUGUESA

Existem muitos fatores que dão origem ao endividamento. Um dos mais comum é quando as famílias têm expectativas em t0 (hoje) que o seu rendimento vai aumentar em t1 (futuro) em um montante igual ou superior ao montante do empréstimo. Porém, muitas das vezes, estas espectativas otimistas vão além da realidade ou em outras situações o risco associado ao crédito que uma instituição financeira concede a uma família é mal calculado.
Em Portugal, uma das causas do endividamento das famílias portuguesas foi a queda das taxas de poupanças, que caiu de 26% do rendimento disponível em 1990 para 11% em 2010. Muitas destas famílias endividaram-se com base nos rendimentos que esperavam auferir no futuro próximo e utilizariam para poder pagar o montante base do empréstimo, bem como as suas respetivas taxas de juros.
Para percebermos as expectativas otimistas das famílias portuguesas basta olharmos para o desempenho da economia portuguesa de 1960 a 2010. Com base na análise dos dados deste período, pode concluir-se que entre 1960 e 1985 o PIB português cresceu a uma taxa média anual de 4,5%. Entre 1986 e 2000, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de 4%. Nesta época, Portugal esteve entre as dez economias do mundo com melhor desempenho. Este período foi considerado, segundo muitos artigos, como época dourada de Portugal, e com base neste desempenho as famílias criaram as suas expetativas otimistas.
É importante salientar que do ano 2000 em diante houve uma liberalização e globalização dos mercados financeiros, dando a possibilidade às famílias portuguesas de poderem endividar-se junto de instituições internacionais, e, por outro lado, a economia portuguesa presenciou uma alteração brusca de paradigma, resultando numa estagnação de 2001 a 2014. Este facto explica claramente como é que entre 1995 e 2010 o endividamento total das famílias, empresas e Estado aumentou de 164% para 338% do PIB, colocando Portugal entre os países da OCDE em que o endividamento mais cresceu.
Resumindo, entre 1986 e 2000 a economia portuguesa cresceu e os portugueses esperavam que tivesse o mesmo comportamento de 2000 em diante, mas ao invés de crescer a economia portuguesa estagnou.
Por fim, digo que se nos focarmos apenas na análise do endividamento das famílias medido em percentagem do rendimento disponível, as famílias portuguesas não são as famílias que mais se endividaram. Em análise a este indicador entre 1995 até a primeira década do ano de 2000, a Dinamarca destaca-se (de 176% em 1995 para 3312% em 2009), a Irlanda (de 104% em 2001 para 223% em 2009), a Holanda (de 139% em 1995 para 269% em 2010), a Espanha (de 75% em 1999 para 142% em 2007). Portugal, apesar de ter acompanhado a tendência, entre 1995 e 2012, registou um aumento do endividamento das famílias, em percentagem do rendimento disponível, de 51% para 144%.

Marcos Fernando

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

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