quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Acordo de Comércio União Europeia - Canadá

O novo acordo relativamente ao comércio entre o Canadá e a União Europeia (CETA - Comprehensive Economic and Trade Agreement), negociado durante cerca de 7 anos, foi finalmente assinado no Domingo, 30 de Outubro de 2016, após a Bélgica ter desimpedido a assinatura do controverso acordo. As dificuldades nas negociações do acordo centraram-se nas acentuadas diferenças entre o mercado canadiano, regulado uniformemente pelo Canadá, e o mercado europeu, constituído pelo conjunto heterogéneo de mercados dos estados membros da UE, que viriam a ser afetados em diferentes níveis pelo acordo. Esta discrepância entre os mercados europeus na sua capacidade de concorrência e o mercado canadiano, tanto em solo europeu como do outro lado do Atlântico, conduziu ao surgimento de posições manifestamente polares em relação ao acordo dentro da UE.
De um lado, lutava-se pelas oportunidades inerentes à mais livre interação com o mercado Canadiano, especialmente benéfica para os mais fortes mercados europeus, do outro, criticava-se a nocividade do acordo para os mercados europeus cuja estrutura não teria a mesma capacidade de suster o abalo canadiano. A quantidade de críticas de que foi alvo o CETA viu-se exponenciada pela falta de transparência das negociações que levaram à assinatura do acordo, que foram realizadas num regime de elevado secretismo. Acabou por ser a Valónia, que constitui cerca de metade da Bélgica, que marcou das mais fortes posições contra o CETA. A região belga considerava inaceitável a inclusão no acordo da criação de um mecanismo capaz de resolver disputas entre investidores e Estados, o que poderia levar entidades a processar Estados por não concordarem com regras que prejudicassem o seu negócio e que permitiria aos interesses privados a tentativa de sobreposição a garantias de segurança ambiental ou aos direitos dos consumidores. Apenas após ter sido alterada esta parte do acordo é que foram levantadas as objeções da Valónia e viabilizada a assinatura do CETA.
O acordo prevê a redução de grande parte das taxas aduaneiras entre o Canadá e a União Europeia, uniformizando também normas que permitam o favorecimento de intercâmbios, todas estas medidas ultimamente almejando a aproximação das relações comerciais entre a UE e o país norte-americano.
O CETA permite, por um lado, que o Canadá tenha um maior acesso ao mercado europeu, onde residem cerca de 500 milhões de pessoas, o que representa uma oportunidade de ouro para o crescimento da economia canadiana a nível global, alcançando uma clara vantagem económica relativamente a países como o Japão e os Estados Unidos. Por outro lado, permite que as empresas da UE aumentem a sua quota de acesso a concursos públicos canadianos, em sectores como o da energia, dos transportes e das telecomunicações, para além de permitir economizar mais de 500 milhões de euros por ano em impostos. Com o tratado, elevam-se também as quotas europeias para produtos agrícolas provenientes do Canadá e uniformiza-se as regulamentações de produtos como a maquinaria industrial, jogos ou equipamentos de medição, para além da melhoria da validação de títulos universitários e profissionais, facilitando a expatriação de trabalhadores.
O CETA representa também um fator positivo no que toca à inversão na tendência de declínio do comércio internacional que se tem vindo a evidenciar cada vez mais no contexto global, declínio bem percetível no exemplo da balança comercial estadunidense que, segundo aponta o The Times, verificou uma queda de mais de 200 biliões de dólares no último ano.
São acordos como o CETA e o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio e Investimento - a ser negociado entre os EUA e a UE) que tornam evidente a tendência, o desejo pela globalização na evolução do comércio mundial. Na sua expansão intra e inter continental, o comércio vai sendo cada vez mais liberalizado e os mercados cada vez mais pressionados pela competição. Aí jaz o custo da evolução do comércio mundial, onde nem todos os envolvidos sairão beneficiados. Ao caminho do progresso, uns serão destinados, outros condenados.

João Freitas

Fonte:

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

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