sábado, 14 de abril de 2012

Programa de Ajustamento Estrutural Português: Um Tratado de Austeridade “a la carte”

Em primeiro lugar, gostaria de começar esta minha crítica por dizer que, não raras vezes, sou confrontado com títulos jornalísticos, que expõem determinadas problemáticas da esfera económica nacional, cujo teor me deixa completamente perplexo e atónito. Com efeito, e tendo em conta a temática sobre a qual versa este meu comentário, apraz-me dizer que, nos últimos tempos, de entre toda uma panóplia de cabeçalhos socialmente acutilantes, houve um que registei com particular atenção: “Trabalhadores de empresas públicas reclamam excepções”. A primeira dúvida que me assola é a seguinte: será possível que uma qualquer empresa ou até cidadão coloque sequer a hipótese de reclamar uma excepção aos cortes salariais anunciados pelo Governo, como que reivindicando uma espécie de regime especial, numa altura tão difícil para o país, em que tantos sacrifícios são pedidos a todos os portugueses? Pelos vistos é. Senão, vejamos o caso da TAP e da CGD.
Num contexto europeu marcado pela crise da dívida soberana, em que Portugal, face à dificuldade de se financiar nos mercados internacionais a taxas de juro compatíveis com a manutenção do défice externo sob controlo, se viu obrigado a recorrer a um pacote de ajuda financeira externa disponibilizado pela U.E. e pelo F.M.I., aplicando, como moeda de troca, um programa de ajustamento estrutural da economia que, entre outros pontos, visa uma redução significativa do défice público, nomeadamente, recorrendo a medidas de austeridade (aumento generalizado de impostos, cortes salariais, cortes nos subsídios de férias e de Natal, etc.), considero inaceitável que, tanto a TAP, como a CGD, duas empresas com participações do Estado, reivindiquem um regime de exclusividade relativamente às demais empresas (quer estas sejam de capital público ou privado) no que à questão dos cortes salariais diz respeito. Contudo, no meu entender, maior afronta aos cidadãos constitui a posição do Estado ao conceder, quer à TAP, quer à CGD, um regime de excepção, tal como pretendido, ignorando, desta forma, a meu ver, o direito à igualdade de todos os contribuintes portugueses.
Ainda sobre os contribuintes e a gestão, por parte do Estado, do dinheiro que estes pagam em impostos, gostaria de tecer uma última consideração no que concerne à política de privatizações de empresas públicas levada a cabo pelo Governo, em linha com o programa de ajustamento estrutural, com o intuito de arrecadar receitas extraordinárias para amortização do défice. Neste âmbito, sabendo que o Estado alienou 21,35% do capital da EDP, 40% do capital da REN e 7% do capital da Galp Energia, entendo que, numa fase de necessidade de realizar receita urgentemente e, como tal, sem grande margem de manobra para negociar com os interessados, o Estado efectuou um mau negócio, logo, saiu a perder, isto é, todos nós saímos a perder. Como curiosidade fica o facto de que, se tivesse mantido a sua posição na EDP e na REN, o Estado teria encaixado uma verba de aproximadamente 180 milhões de euros com remunerações accionistas.
Em jeito de nota final, gostaria de deixar clara a minha opinião acerca das várias tomadas de posição por parte do Governo no que toca à abertura de determinadas excepções para algumas empresas. Assim, considero um comportamento ou acção extremamente grave, essa, a do Governo, de conceder regimes de excepção à TAP e CGD, uma vez que penso que a abertura de excepções num contexto de crise constitui, claramente, uma prática lesiva para a restante população portuguesa que paga os seus impostos e que, ainda assim, não tem direito a determinadas regalias que outros, por sua condição de estarem inseridos numa empresa que está destinada a ser privatizada, ou que opera num mercado concorrencial, lhes vêem ser atribuídas. Mais, penso até que constitui uma manobra fracturante da coesão social portuguesa, uma vez que viola, indubitavelmente, o princípio da igualdade do cidadão. No entanto, é de realçar que a população portuguesa acatou mais uma afronta deste calibre de modo pacífico, se calhar, demasiado pacífico.
Tendo isto em mente, e visto pensar que atribuição de um regime especial a um determinado conjunto de privilegiados, uma elite, descurando todos os outros contribuintes, constitui uma das ofensas mais graves de um regime democrático para com a sua população, dou por mim a pensar que, para o bem e para o mal, não somos como a Grécia, porque se fôssemos...
              
Nuno Ferreira

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho]

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