terça-feira, 3 de abril de 2012

A RECUPERAÇÃO DA ISLÂNDIA

Não destoando da realidade actual, a Islândia foi também um país a ser afectado pela crise desde 2008. No entanto, não seguiu o caminho de Portugal no que toca à resolução de problemas internos – dispensaram a ajuda da Troika, acreditando que era possível alterar o cenário de pobreza e desemprego através da união e da reestruturação dos líderes e do poder. A falência de bancos, o aumento da inflação e dos empréstimos, a perda de valor dos salários, a desvalorização das habitações, um aumento substancial da taxa de desemprego e a falência de metade das empresas acordou o país para uma nova realidade.
A decisão de mudança de hábitos e alteração de leis foi maioritariamente tomada pela própria população, que, não conformada com o desenrolar das políticas e das medidas que vigoravam, tentou remediar a situação pelas próprias mãos. A revolução social iniciou-se logo em 2008 e exigiu sobretudo uma democracia transparente e soluções para as questões que abalavam o país. Para tal, vinte e cinco cidadãos foram eleitos para reescrever a Constituição da Islândia e foi realizada uma reunião geral do povo com cerca de mil representantes que foram escolhidos para debater os valores que criam ajudar o país a sair da crise. Foram realizadas investigações a banqueiros e a membros do Estado para apurar as incompetências e as fragilidades, acusar os corruptos e procurar novos líderes capazes de controlar a situação. Cortou-se nas importações, privilegiou-se o consumo de bens nacionais, de bens em 2ª mão e de marca branca e incentivou-se a produção de bens alimentares pelas famílias. As actividades de lazer foram ‘cortadas’ dos planos familiares e as próprias habitações sofreram alterações a nível funcional e energético de modo a poupar ao máximo.
O empréstimo negociado do FMI e os empréstimos bilaterais da China e da Polónia foram as únicas ajudas externas que a Islândia obteve na altura. Segundo o director do departamento de Economia da Universidade de Reykjavik, o FMI “impôs uma redução do défice, mas não estabeleceu condições para os cortes. Isso acontece, talvez, porque o FMI não tem de convencer o eleitorado, como tem a chanceler alemã”. Foram tomadas diferentes medidas de emergência, tais como a obrigação de informação ao Banco Central de grandes empréstimos bancários; o término da aplicação do imposto único, sendo criados novos escalões; os salários dos administrativos dos bancos foram tornados públicos; foram impostos limites de bónus a gestores e crédito de familiares e amigos de administradores de bancos. Uma das várias leis aplicadas foi a da facilidade de pagamento de empréstimos em moeda estrangeira, dando três meses às "instituições financeiras para converterem os empréstimos em divisas, de acordo com as taxas de juro publicadas pelo Banco Central da Islândia". A desvalorização da coroa islandesa contribuiu também para o aumento das exportações, que, aliada à redução das importações, revelou uma melhoria na Balança Comercial do país.
As decisões que vieram a ser tomadas até hoje reflectiram-se num notável crescimento económico, embora haja ainda fragilidades que têm de ser colmatadas. Apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer, a Islândia é a prova viva que a insurgência do povo contra a corrupção e as desigualdades sociais pode revelar-se essencial para a mudança de rumo que muitos países, incluindo Portugal, estão a seguir. A diferença de mentalidades entre islandeses e portugueses verifica-se quando os últimos são muito mais conformistas e relaxados em relação a situações que não seriam, de todo, indiferentes aos outros. Mostraram que é possível revolucionar o sistema, desafiar o Governo e os Bancos e toda a massa elitista que os controla.
Embora tendo negociado um empréstimo com o FMI, a Islândia não permitiu que o controlo que hoje é exercido em Portugal fosse determinante para a alteração dos comportamentos do país – em vez disso, deixou que a própria população ditasse o modo como deveria ser regido. Na minha opinião o caso da Islândia deveria ser muito mais comentado pelos media de forma a dar esperança e mostrar ao nosso país que, através de uma revolução inteligente e pensada, seria possível alterar o caminho que nos está traçado. Embora a Islândia tenha um longo caminho a percorrer, a mudança interna que se deu já desde 2008 permitiu que houvesse mais confiança e transparência num sistema que, claramente, não resultava até ao dia que perceberam que o país tinha de mudar.

Adriana Isabel Carneiro Morais de Sousa

[artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Portuguesa e Europeia” do 3º ano do curso de Economia (1º ciclo) da EEG/UMinho] 

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